BOLSONARO, PESQUISA E OS CEM DIAS

bolsonaro mourão cem diasÉ certo que os discursos, e até as práticas, adotados em uma campanha eleitoral devem mudar quando a campanha é vitoriosa e assume-se o governo de um país. O exemplo talvez mais representativo dessa realidade é o do ex-presidente Lula. Depois de eleito, Lula moderou seu discurso e suas práticas porque, uma vez eleito, ele já não representava mais um “partido-movimento” em busca de votos e sim a principal instituição de nossa sociedade: o Estado Brasileiro. A partir daí, dialogar ante as diversidades, catalisar demandas de minorias derrotadas e criar condições para que o pluralismo, um dos pilares  da democracia, se afirme, passa a ser a função de todo e qualquer verdadeiro estadista.

A última pesquisa Datafolha divulgada ontem mostra que, enquanto a reprovação a Bolsonaro só aumenta, a reprovação ao vice Hamílton Mourão diminui. Segundo a pesquisa, 30% do eleitorado considera o desempenho de Bolsonaro ruim ou péssimo. Já no caso de Hamílton Mourão, apenas 18% dos entrevistados consideram o desempenho do Vice-Presidente como ruim ou péssimo. Não é difícil entender essa discrepância. Afinidades ideológicas à parte (e não temos nenhuma com o Mourão), o Vice-Presidente, desde a posse, vem tendo uma postura de estadista que Bolsonaro, em momento algum, teve. Seja retificando as besteiras e bizarrices proferidas por Bolsonaro, seja como interlocutor de representantes em que o ódio bolsonarista não permite que o Presidente chegue, seja no respeito às instituições e até à liturgia do cargo que ocupa, Mourão tem tido um papel de estadista diariamente, enquanto Bolsonaro, por onde anda, parece ainda estar em campanha, hostilizando os de sempre, jogando gasolina em fogos que deveriam estar arrefecidos, fazendo ameaças e mostrando, sobretudo, um descontrole emocional para o cargo ao qual foi alavancado pelas regras democráticas. Isso, sem falar no próprio preparo, na própria qualificação. O próprio Bolsonaro reconheceu nesta semana não estar preparado para ocupar o cargo em que está, ao afirmar textualmente “não ter nascido para ser Presidente” e dizer que “governar o Brasil é um abacaxi”. Palavras de quem jamais saberá o que é ser um estadista. Diferentemente de Mourão, que excedeu-se com afirmações polêmicas durante a campanha, mas que, ao tomar posse, moderou o discurso, assumiu uma posição de estadista e, por incrível que possa parecer, já recebeu até mais embaixadores do que o próprio Ministro olavista das Relações Exteriores. Enfim, o Vice Mourão tem sido, dentro do próprio governo, o contraponto ao “niilismo” político, administrativo e institucional de Bolsonaro. Como, ao contrário dos ministros, não pode ser demitido, já que foi eleito, Mourão vem sendo atacado pelas hostes mais reacionárias e fascistas do governo, incluindo-se aí o astrólogo de Richmond e seus seguidores aloprados.

O aumento da reprovação ao desempenho de Bolsonaro mostra que tanto o Presidente como seus seguidores “ideológicos” tendem a ficar isolados. Porque o percentual daqueles que consideram Bolsonaro ótimo ou bom é igual ao de Mourão: 32%. Mas a diferença dos que os consideram ruim ou péssimo é muito grande, sendo 30% para Bolsonaro e 18% para Mourão. As declarações mais bombásticas e temerárias de Bolsonaro estão sendo amaciadas ou até corrigidas por Mourão. Em relação à mudança da embaixada brasileira em Israel para Jerusalém, Mourão tratou de chamar o embaixador palestino e tranquilizá-lo. Agora, o próprio Bolsonaro, ciente da besteira que fez, ao ser cobrado pelo seu “irmão” Netanyahu sobre a embaixada, falou em “escritório”, conseguindo assim desagradar a gregos e troianos, ou melhor, a judeus e palestinos. Ao dizer que o aborto deve ser uma escolha da mulher, afastou-se da ala fundamentalista e “damaresiana” do governo. Ao afirmar que a liberação de Lula para o enterro do neto tratava-se de uma “questão humanitária”, afastou-se dos “xiitas hidrófobos”. E ao negar que o nazismo seja um movimento de esquerda, Mourão afirmou a verdade histórica e desagradou a bolsonaristas, terraplanistas e olavistas. E, diga-se de passagem, em todas essas intervenções, Mourão não fez nada de extraordinário. Apenas ponderou e não permitiu que certas coisas deixassem seus respectivos lugares, inclusive na história.

Não acredito que Bolsonaro mude o tom de seus discursos, especialmente pelo seu desequilíbrio emocional e absoluto despreparo, já confessado, por ele mesmo, para o cargo de Presidente da República. Até porque, se ele moderar seu discurso, poderá perder parte significativa da ala “ideológica”, que está nos 32% que ainda o consideram bom ou ótimo. Mas, passados “cem dias de governo”, pode ser que alguma “Waterloo” esteja no caminho de Bolsonaro. Se aconteceu com Napoleão, que era um gênio militar e um exímio político, por que não acontecer com Bolsonaro, que sempre foi um péssimo militar e um péssimo político? E nunca é demais lembrar que Napoleão não tinha vice…

 

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