A ÉTICA DE GLENN QUE MORO NÃO APRENDEU

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“Se o juiz Sérgio Moro ou o procurador Deltan Dallagnol tivessem conversado nos termos em que o repórter Glenn Greenwald conversou com os hackers da Lava-Jato, a Vaza-Jato não existiria…” (Elio Gaspari, em sua coluna dominical de “O Globo”, edição de 26 de janeiro de 2020).

Existe um conhecido ditado que diz que a verdadeira ética só é praticada por uma pessoa quando ela pratica as boas atitudes fora dos holofotes, sem a necessidade de que ninguém a veja. Contrariamente àqueles que, em público, dizem e fazem uma coisa e, em um ambiente privado, dizem e praticam coisas completamente contrárias àquilo que pregam publicamente.

Os episódios que envolvem as conversas do então juiz Sérgio Moro com o procurador Deltan Dallagnol e do jornalista Grenn Greenwald com o hacker Luiz Molição, que culminou no escândalo da Vaza-Jato e desmascarou Moro e procuradores, especialmente Dallagnol, ilustram muito bem esse conhecido ditado.

E nada melhor do que a citação de Elio Gaspari, em sua coluna dominical em O Globo, publicada hoje, para mostrar que não estamos sozinhos nessa opinião. Afinal, O Globo é um jornal extremamente lavajatista e pró-Moro e essa citação de Elio Gaspari mostra que até no jornal que defende Moro temos como perceber a diferença das atitudes de Moro e Dallagnol em seus diálogos, em relação às atitudes de Glenn em seus diálogos com o hacker Luiz Molição. E quão grande é essa diferença!

Primeiro: em ambos os casos, ninguém sabia que seus diálogos tornariam-se públicos, o que daria uma suposta liberdade para qualquer um dizer o que quisesse. Às favas com a tal da ética, embora em um diálogo houvesse um juiz e, em outro, um jornalista. Claro que um juiz pode conversar com qualquer procurador. Tanto que os defensores de Moro até hoje repetem isso para dizerem que foi um diálogo “normal”. Do mesmo modo que um jornalista não só pode, como deve conversar com uma potencial fonte de informações. Tudo dentro da lei e e da responsabilidade profissional. E o que vimos nas duas conversas?

Quanto aos diálogos de Moro com Dallagnol é chover no molhado citar novamente tudo o que eles conversaram. Porém, uma coisa é certa: faltou ética, faltou limite, faltou responsabilidade profissional. Faltou caráter. Os diálogos revelaram insofismavelmente que Moro atuou como chefe da promotoria, agiu politicamente e ainda sugeriu a substituição de uma procuradora. Moro chegou a dizer que não melindraria Fernando Henrique por tratar-se de um “aliado”. Quanto a Dallagnol, este quis até monetizar a Lava-Jato para ganho próprio. Vergonhoso!

E o que temos no diálogo entre Glenn Grrenwald e o hacker? Em dado momento da conversa Glenn, sendo totalmente profissional e ético, diz que, como jornalista, não poderia se envolver em operações de interceptação e nem dar conselhos ao seu interlocutor. Basta apenas saber ler para ver as diferentes posturas de Moro/Dallagnol e de Glenn Greenwald em seus diálogos. Glenn o tempo todo foi jornalista, enquanto Moro não foi juiz e nem Dallagnol foi procurador. Transcrevemos, inclusive, um trecho do diálogo entre Glenn e o hacker Luiz Molição, em que Glenn cita, explicitamente, a palavra “ética” para nortear tudo o que pode ou não fazer como profissional:

GLENN GREENWALD: “Entendi. Então, nós temo… é… vou explicar, como jornalistas, e obviamente eu preciso tomar cuidado como com tudo o que estou falando sobre “essa assunto”, como jornalistas, nós temos uma obrigação ética para “co-dizer” (?) nossa fonte.” (Transcrito na versão original).

Em outro trecho, Glenn dá uma verdadeira aula prática de ética, coisa que geralmente os “teóricos” não fazem. Se Moro, como juiz e de forma irresponsável, deu conselhos a Dallagnol, eis o que disse Glenn ao hacker:

GLENN GREENWALD: “Sim, sim. É difícil porque eu não posso te dar conselho, mas eu eu eu eu tenho a obrigação para proteger meu fonte e essa obrigação é uma obrigação pra mim que é muito séria, muito grave, e nós vamos fazer tudo para fazer isso, entendeu?” (Transcrito na versão original).

Evidentemente os diálogos não deixam dúvidas. O comportamento de Glenn foi ético, profissional, responsável. Digno de quem já recebeu os maiores prêmios do mundo em jornalismo. Já Moro e Dallagnol… Certamente esses devem aprender com Glenn, não jornalismo, mas ética. Para que, a partir daí, eles possam vir a ser alguma coisa. Porque Moro não foi juiz. Nem Dallagnol foi procurador. Mas Glenn, ao contrário, foi jornalista. E a diferença nisso tudo chama-se ética!

A GANGORRA DA DIREITA

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“Todos os ministros têm o mesmo valor para mim e eu interfiro em todos os ministérios.” (Jair Bolsonaro, em entrevista à Band TV, em 24 de janeiro de 2020).

Em novembro de 2018 quando Bolsonaro, na condição de Presidente eleito, estava formando o seu ministério, duas mensagens muito claras foram mandadas: a primeira, foi a de que Sérgio Moro seria um super-ministro, tendo sob sua gestão a pasta da Justiça, agora enxertada com a Segurança Pública. E a segunda mensagem foi a de que Sérgio Moro teria “carta branca” em suas iniciativas no seu ministério. Ele não falou que todos os ministros teriam carta branca. Apenas Sérgio Moro.

Porém, mal o governo começou, Sérgio Moro sentiu que não seria aquele “super-homem” que era quando de seu reinado na “República de Curitiba”. E o primeiro revés veio por uma questão simplória: Bolsonaro vetou a indicação, feita por Moro, de uma suplente, repetindo, de uma suplente, para o Conselho de Segurança Pública. Se nem a suplente de um conselho meramente consultivo Moro não teve poder para indicar, então ele não teria a tal “carta branca” para absolutamente mais nada. E assim se fez. Em vários momentos, Bolsonaro desautorizou Moro e chegou a lembrar ao ex-juiz que ele “não tinha mais a caneta na mão.”

Evidentemente observa-se, desde o início do governo, uma queda de braço Moro-Bozo e essa queda de braço chegou há muito nas redes sociais. Sempre que Bolsonaro desautorizou ou procurou esvaziar Moro, logo a claque morista se manifestava pelas redes sociais em protesto contra Bolsonaro. A divisão da direita dentro do governo, entre Bolsonaro e Moro, é visível e, na verdade, eles se aturam porque, de alguma forma, um ainda precisa do outro. Moro precisa do espaço no governo de extrema-direita para deixar algum legado que possa, no futuro, capitalizar politicamente. Já Bolsonaro, sabedor de que Moro, como mostram as pesquisas, tem uma popularidade maior do que a dele, não pode descartar Moro tão facilmente. Então, eles vão se suportando. Bolsonaro, como candidato à reeleição, sempre esteve em campanha desde o primeiro dia de seu mandato. Já Moro, apoiado por outra fatia da direita, é um virtual candidato à Presidência em 2022 e assusta Bolsonaro. É um jogo de estratégia, paciência e conspirações, que em algum momento vai estourar.

E quase que estoura essa semana, quando Bolsonaro aventou a hipótese de recriar o Ministério da Segurança Pública, que sairia da pasta da Justiça, esvaziaria Moro e o colocaria como mero figurante em seu governo. Novamente a horda pró-Moro reagiu nas redes sociais. Há um detalhe importantíssimo: a entrada de Sérgio Moro no Instagram, no mesmo dia em que a possibilidade de desmembramento do seu ministério foi anunciada, não foi mera coincidência. Com várias interações de seguidores em sua nova rede social, Moro parece ter assustado Bolsonaro, que depois falou em “chance zero” de desmembrar a pasta de Moro.

Porém, a queda de braço não parou. Em entrevista no dia de ontem, na Band TV, Bolsonaro falou que “não precisa fritar ministro para demiti-lo” (Bebianno que o diga!). Porém, na mesma entrevista, Bolsonaro não perdeu a oportunidade de colocar Moro em uma outra posição, bem diferente daquela que ele dizia em novembro de 2018: disse Bolsonaro que, para ele “todos os ministros têm o mesmo valor” e ainda que “interfere em todos os ministérios.” Ou seja: de uma tacada só, Bolsonaro tirou de Moro a condição de “super-ministro” e ainda disse que ele não tem carta branca nenhuma. Claro que a declaração foi mais um golpe de Bolsonaro em Moro. Vaidoso e egocêntrico, Moro jamais aceitará ser igual, por exemplo, ao Weintraub. Talvez venha aí uma nova briga no governo, agora entre ministros, para mostrar ao chefe quem é melhor. Vai ser a luta do “conje” com o “imprecionante”.

ONDE ESTÁ A BALBÚRDIA?

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“Foi o melhor ENEM de todos os tempos.” (Abraham Weintraub, o ministro semi-analfabeto da Educação, em 17 de janeiro de 2020).

“Justiça veta divulgação de resultado do SISU e manda MEC comprovar correção de erro no ENEM.” (Notícia publicada em 24 de janeiro de 2020).

Abraham Weintraub, o ministro bolsonarista e semi-analfabeto da Educação, que chamou as universidades federais de “espaços de balbúrdia”, está causando um verdadeiro inferno para os estudantes que fizeram o ENEM. Depois dos erros nas notas de milhares de participantes do exame, agora uma ação movida pela Defensoria Pública da União levou a 8a. Vara Cível de São Paulo a determinar a suspensão do processo do SISU (Sistema de Seleção Unificada) tão logo as inscrições forem encerradas.

A decisão da Justiça tem como fulcro os gravíssimos erros cometidos nas correções de milhares de provas o que, evidentemente, levaria milhares de alunos a serem prejudicados, caso os resultados fossem divulgados sem as devidas correções. A falha na correção das provas já é vista como a mais grave de toda a história do ENEM e, consequentemente, irá retardar o processo de seleção e aumentar ainda mais a angústia de milhares de estudantes. Uma verdadeira balbúrdia (esta sim!) causada pela incompetência de um governo e por seu ministro da Educação, que mal sabe escrever em língua portuguesa. Com a decisão da Justiça, os resultados do SISU, programados para serem divulgados no próximo dia 28, irão atrasar e o calendário do “melhor ENEM de todos os tempos”, como falou o ministro semi-analfabeto, também já virou uma balbúrdia. Isso, sem contar que o ENEM de 2019 deverá ser o mais judicializado de todos os tempos por conta dos erros do governo, na medida em que já estão pipocando ações individuais na Justiça.

De nossa parte, nenhum surpresa. Um governo que é inimigo dos professores, da educação, dos estudantes, da cultura, da ciência e da pesquisa, ter qualquer pessoa que mal sabe escrever no comando da pasta da Educação não é nenhuma novidade. A lamentar pelos alunos que estudaram, se empenharam, vivem a ansiedade de ingressar na universidade, mas são frustrados por um governo absolutamente incompetente.

Weintraub, o ministro semi-analfabeto, já encontrou um culpado para os problemas e, de dentro de seu perene transtorno mental, acusou “partidos radicais de esquerda” pela difusão das reclamações. Parece que a “balbúrdia” está mesmo instalada no MEC e na mente doentia desse elemento que, desgraçadamente, ainda é a maior “autoridade” da educação brasileira.

 

SERRA TÁ LIVRE, SEU BABACA!

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“Avançar no tempo, e nas estrelas fazer meu ziriguidum…” (Trecho do samba-enredo da Mocidade Independente de Padre Miguel, 1985).

A Lava-Jato é mesmo tucana. O tucano José Serra, que andava muito sumido, mas que agora certamente deve reaparecer falando em “moralidade” e “combate à corrupção”, está definitivamente livre da Lava-Jato. Seu processo por “caixa 2”, crime que Sérgio Moro já afirmou ser pior do que corrupção, prescreveu. Serra era acusado de receber uma propina de mais de 23 milhões da Odebrecht.

O processo de Serra andou a passos de tartaruga, ao contrário de outros, que em tempo recorde já chegaram até na terceira instância. Serra foi beneficiado pela idade. Pelo fato de já ter mais de 70 anos, o tempo de prescrição cai pela metade e assim mais um tucano vai sair ileso e rindo da cara dos babacas (ou cúmplices) que sempre repetiram o mantra de que “a lei é para todos”.

A decisão sigilosa, sem alarde e na calada da noite, foi decretada pelo juiz eleitoral Francisco Shintate neste dia 24 de janeiro de 2020. Com isso, a exemplo de Aécio e de outros, Serra torna-se mais um tucano eternamente inimputável! Hoje, em algum lugar do espaço, vai ter muita festa. Se o samba da Mocidade Independente do carnaval de 1985 fosse feito hoje, certamente poderíamos dizer que foi uma homenagem a José Serra. Afinal, o ET está livre e ele vai fazer muito ziriguidum nas estrelas. Porque na Suíça ele já fez!

CORRUPÇÃO AUMENTOU. MAS NÃO IA ACABAR?

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Imaginem se o Aécio fosse novamente candidato a Presidente da República e tivesse como sua principal bandeira o combate ao tráfico de cocaína. Seria risível. Tão risível como Bolsonaro, em sua campanha presidencial, ter feito do combate à corrupção a sua principal bandeira.

A Transparência Internacional, fundada em 1993, é uma organização que tem por objetivo lutar por um mundo onde governos, empresas e a sociedade de um modo geral sejam livres da praga da corrupção. E, anualmente, a Transparência Internacional divulga um ranking denominado Índice de Percepção da Corrupção (IPC). Evidentemente, percepção ou aparência não implicam, necessariamente, em realidade. Porém, certas medidas governamentais podem ajudar nessa percepção, melhorando a imagem do país junto ao mundo e, evidentemente, atraindo investimentos, crescimento econômico e geração de empregos. O IPC é uma nota atribuída pela Transparência Internacional, que vai de 0 (zero) até 100 (cem). Quanto menor a nota, maior a percepção de corrupção no país e quanto maior a nota, menor a percepção de corrupção. Segundo a entidade internacional, o Brasil retrocedeu em relação à percepção de corrupção e esse é mais um dos muitos engodos que Bolsonaro preparou para o seu eleitorado “moralista”.

A Transparência Internacional acaba de divulgar o ranking de percepção de corrupção referente ao ano de 2019 e o Brasil caiu uma posição no ranking, indo para a 106ª colocação, com a nota 35. Para um governo que combateria a corrupção de forma obstinada, ter caído em um ranking de percepção de corrupção então algo, ou tudo, está muito errado. Chama muito nossa atenção o que aconteceu depois de 2016. O golpe que tirou Dilma da Presidência da República apresentava-se como necessário para combater a corrupção e “acabar com a mamata”. Porém, depois de 2016, a nota do Brasil no IPC só vem baixando. Sucedeu Dilma o governo corrupto do Temer-PSDB e em 2017 a nota do Brasil diminuiu e caiu mais ainda em 2018. E agora, em 2019, a nota foi mantida, mas o Brasil caiu uma posição. Tudo depois de o PT ter deixado o governo. Então, segundo a Transparência Internacional, depois de 2016, a percepção de corrupção no Brasil aumentou. E com o PT, ao qual foi atribuído o fardo de ser o único corrupto do país, estando fora do poder. Abaixo, a evolução histórica, antes e depois de 2016, com a chegada dos “redentores moralistas combatentes da corrupção” ao poder:

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Ou seja, desde 2012, em nenhum governo petista houve tanta percepção de corrupção como nos que vieram depois deles. Então, se houve corrupção nos governos petistas (e houve!), ela foi ainda maior com Temer e Bolsonaro, segundo a Transparência Internacional. Isso não é difícil de entender: No caso do governo golpista Temer-PSDB, os escândalos em série, desde o diálogo com Joesley até a compra de votos na Câmara dos Deputados para manter Temer no poder, a mala de 500 mil que o Rodrigo Rocha Loures entregaria ao Temer, o apartamento com 51 milhões do Geddel, as falcatruas do “gato angorá”, que foi elevado à condição de ministro só para ter foro, dentre outros escândalos, explicam a queda da nota. Abaixo, a posição brasileira e os países que encontram-se na mesma zona de classificação, com as notas, respectivamente, de 2019, 2018, 2017, 2016 e 2015:

Porém, tudo iria acabar a partir de Bolsonaro. E o que vimos? Ou melhor, o que o mundo e a Transparência Internacional viram? Logo no primeiro mês de governo, estoura o escândalo do Queiroz. E o que fez Bolsonaro? O blindou por todo o tempo. Com Queiroz, vieram os escândalos envolvendo o filho do presidente, Flávio Bolsonaro, que vão desde “rachadinhas” em seu gabinete até lavagem de dinheiro com loja de chocolates e transações imobiliárias desproporcionais e nababescas. Isso sem falar nos “cheques da Michelle”, nos “laranjas do PSL“, nas falcatruas do ministro do Turismo, no “caixa 2” do Onyx. Tudo, rigorosamente tudo, blindado por Bolsonaro. Blindagem, aliás, chancelada por Moro. Hoje, sabe-se até que um irmão de Bolsonaro, Renato Bolsonaro, atua como lobista e até distribui verbas, mesmo sem ocupar formalmente qualquer cargo. Isso sem falar no insofismável envolvimento da família Bolsonaro com milicianos. E Bolsonaro, em todos esses casos, permanece fazendo “vistas grossas”.  Mas “a justiça não era para todos?” Faz-me rir…

A divulgação do ranking de percepção da corrupção pela Transparência Internacional, mostra o que já sabíamos. Mostra também o que alguns não querem ver. E mostra ainda o que alguns não acreditavam e hoje estão com cara de bunda envernizada depois de terem chamado o Bolsonaro de “mito” e votado nele “contra a corrupção”. Mas parece que ela só vem aumentado. Especialmente depois de 2016. Repetindo: depois de 2016! Mas ela não ia acabar? “Quá-quá-quá” para os patos amarelos!

 

MORO, A MESA E A CADEIRA

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“Lógico que ele deve ser contra.” (Jair Bolsonaro, referindo-se a Sérgio Moro sobre a recriação do Ministério da Segurança Pública, que irá tirar poderes de Moro, em 23 de janeiro de 2020).

O esvaziamento de Sérgio Moro e seu desprestígio no governo Bolsonaro já não são mais coisas que possam ser negadas, muito menos escondidas. Desde o início do governo que a extrema-direita dividiu-se entre Bolsonaro e Moro. Na verdade, um precisava (e ainda precisa) do outro. Bolsonaro precisa de Moro no governo, visto que a popularidade do ex-juiz é maior do que a do próprio Presidente junto à direita. Já Moro precisa do espaço no governo de extrema-direita para fazer o seu populismo eleitoreiro em nome de uma “cruzada contra a corrupção e o crime”. Bolsonaro não pode, de modo algum, demitir Moro. E Moro não pode, de modo algum, sair do governo agora, visto que quer deixar um legado que possa ser capitalizado politicamente. Certamente por isso Moro atura e engole tantas desautorizações e humilhações.

Para quem ia ter “carta branca” no Ministério da Justiça e Segurança Pública, Moro virou o “office boy” de Bolsonaro. Foram várias as ocasiões em que Moro foi desautorizado, escanteado, humilhado e esvaziado no governo Bolsonaro. E seu chefe, sempre lhe colocando no lugar de subordinado, inclusive lembrando ao “herói da República de Curitiba” que ele não tinha mais a caneta na mão. Desde o veto de Bolsonaro à nomeação feita por Moro de uma mera suplente para o Conselho de Segurança Pública até a manutenção, por Bolsonaro, do juiz de garantias, ao qual Moro se opunha, que Moro é só derrota no governo Bolsonaro. Basta dizer que o site ultra-direitista O Antagonista, que defende Sérgio Moro com unhas e dentes, chegou a publicar, em setembro de 2019, uma matéria intitulada “Moro é figurante”. Talvez isso não deixe nenhuma dúvida quanto à condição de Moro, especialmente vindo do veículo da mídia que mais o apóia.

Agora, poderá vir o tiro quase que mortal para Moro no governo. Bolsonaro cogita recriar o Ministério da Segurança Pública, que seria desmembrado da Justiça e tiraria poderes de Moro. Especialmente no que se refere ao comando da Polícia Federal o que, certamente, fará com que qualquer resultado positivo de combate ao crime não possa ser capitalizado pelo ex-juiz. Ele ficaria apenas com a pasta da Justiça, tendo ainda um papel menos relevante no governo e dificilmente podendo aparecer para seu eleitorado. Seria mais uma das muitas “podas” já feitas por Bolsonaro a Moro em seu governo. Acrescente-se ainda que Rodrigo Maia, o Presidente da Câmara dos Deputados, é favorável à recriação do Ministério da Segurança Pública, o que vem a ser um respaldo considerável à medida.

Vendo a situação de Moro, lembro-me de Jânio Quadros, que quando queria esvaziar alguém em seu governo, fosse como prefeito de São Paulo, fosse como Presidente da República, dizia: “ele terá uma mesa e uma cadeira.” Tudo leva a crer que esse será o destino de Moro no governo de extrema-direita de Bolsonaro: ele terá uma mesa e uma cadeira. E não terá caneta alguma.

RASGANDO O GLOBO, MERVAL E SARDENBERG

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Ontem falávamos sobre o silêncio de alguns jornalistas, como Merval Pereira e Carlos Alberto Sardenberg, em relação à absurda denúncia da PGR contra o jornalista Glenn Greenwald. Hoje, porém, tanto o jornal O Globo, do qual Merval e Sardenberg são funcionários, como os próprios jornalistas globais, manifestaram-se a respeito da perseguição ao jornalista do The Intercept. Em Editorial, O Globo manifestou-se na edição de hoje. Com o título “Indiciamento de jornalista é afronta”, o Editorial do jornal da família Marinho não pôde deixar de expressar sua postura contrária à denúncia contra Glenn. Porém o jornal, não deixando de seguir sua linha lavajatista-morista, ao referir-se ao material divulgado por Glenn, não perdeu a oportunidade de blindar, de algum modo, Sérgio Moro. Diz O Globo em seu Editorial:

“Há um debate e enorme divergência em torno da importância jurídica do material, sem dúvida usado por interessados em degradar a imagem de Moro e ajudar investigados…”  (O destaque é nosso).

Vejam que o jornal O Globo não perde a oportunidade de vitimizar Sérgio Moro. Se Sérgio Moro cometeu ilegalidades, fraudes processuais, conluio com procuradores, foi parcial e político em seus julgamentos, tudo provado pelas mensagens vazadas, então nem é necessário degradar a imagem de Moro. Ela auto-degradou-se. Nunca esquecendo-se do que disse o próprio Moro em 2016: “o que importa é conteúdo vazado, e não a forma como ele foi obtido.” Em segundo lugar, deve-se dizer que ninguém que condenou Moro pelo conteúdo vazado, inclusive juristas, constitucionalistas e membros do Judiciário, está querendo “ajudar investigados”, como disse O Globo em seu Editorial, e sim garantir o devido processo legal, a isenção e imparcialidade no julgamento o que, claramente, não foi observado em vários momentos da Lava Jato. De modo que O Globo está, ao mesmo tempo, “mordendo e assoprando” e desfocando o real assunto, que é a intimidação ao jornalismo e aos jornalistas.

Além do Editorial, o jornalista tucano-lavajatista Merval Pereira também se pronunciou. Sob o título “Denúncia Temerária”, Merval destaca em seu artigo que o Ministério Público é independente. Isso nós já sabemos. Porém, também em defesa de seu ídolo Sérgio Moro, Merval Pereira cita como exemplo o caso de Flávio Bolsonaro. Diz Merval Pereira que não houve atuação do governo ou vingança governamental, “já que o Ministério Público também é tão autônomo que está investigando o senador Flávio Bolsonaro, filho do Presidente.” Ora, senhor Merval Pereira, querer comparar o caso de Flávio Bolsonaro com o de Glenn Greenwald chega a ser risível. No caso de Flávio Bolsonaro há farta documentação, como extratos bancários que mostram a “rachadinha”, funcionários fantasmas, transações imobiliárias nababescas e desproporcionais, compra de chocolates por uma só pessoa no valor de quase 30 mil reais e até evidentes ligações com as milícias. E Flávio nem denunciado foi. Já o Glenn, sem investigação ou indiciamento, foi direta e absurdamente denunciado. Certamente a “solidariedade” expressa em seu artigo é meramente aparente e temerária mesmo são as suas lágrimas de crocodilo.

Finalmente, o sempre rancoroso Carlos Alberto Sardenberg. Esse claramente tergiversou. Em seu artigo intitulado “Ninguém foi censurado”, ele mostra que não está nem aí para o grave atentado ao Estado de direito cometido pelo procurador Wellington Divino. Usando o ardil de desfocar o assunto central, Sardenberg diz que não houve censura. Mas não se trata de censura e sim de intimidação. A intimidação é um modo de inibir o livre jornalismo e a liberdade de expressão. A censura, se necessária, vem depois. Só que o Glenn jamais se deixou intimidar e justamente por isso não sabemos o que poderia vir por aí. Com seu ódio e rancor que lhes são característicos, Sardenberg insiste na tese de que “ninguém foi censurado.” E mais: que “o Ministério Público não tem a obrigação de seguir exatamente o caminho da Polícia Federal.” Enfim, destilando seu ódio de sempre, praticamente afirma que tudo o que aconteceu é normal e termina com a frase: “A ver o que dizem os tribunais.” O ódio de Sardenberg é tamanho que ele nem foi capaz de se posicionar contra uma ameaça que pode até atingi-lo como jornalista. Tudo porque o Glenn fez o seu ídolo moralizador virar pó de titica. Patético!

Enfim, O Globo foi meramente protocolar em seu Editorial e aproveitou para fazer campanha pelo lavjatismo de Moro, o mesmo acontecendo com Merval e suas comparações tão absurdas como a denúncia contra Glenn. Já Sardenberg, o eterno odioso, não expressou nenhuma repulsa ao ato discricionário e fascista do procurador-denunciante. Seu ódio jamais irá permitir isso. Portanto, hoje é dia de rasgar os três!