WITZEL, O EXTERMINADOR DO FUTURO

charge aroeira

Imagem: charge de Aoeira.

As balas já não são tão perdidas assim, pois atingem sempre os mesmos. São pobres, negros, favelados. Da Chatuba, de Triagem, de Manguinhos, do Complexo do Alemão… São crianças, em idades às vezes de tamanha inocência que nem imaginam que, pelas suas condições sociais, pela cor de suas peles e pelos locais onde moram, são alvos de uma política de extermínio assumida. E o futuro de nossa cidade, de nosso Estado, de nosso País, está literalmente sendo exterminado pela política de “segurança” facínora do governador Wilson Witzel.

A menina Ágatha Vitória Sales Félix tinha apenas 8 anos de idade e, na sexta-feira, quando voltava para casa com sua mãe em uma Kombi, no Complexo do Alemão, foi alvejada por um tiro de fuzil. Ágatha não resistiu e veio a falecer ontem.

“Ágatha fala inglês, tem aula de balé, era estudiosa. Vão chegar a dizer que morreu uma criança no confronto. Que confronto? A minha neta estava armada, por acaso, para levar um tiro? Foi a filha de um trabalhador, tá?”  

Esse foi o desabafo desesperado de um avô que perdeu estupidamente a neta de apenas 8 anos de idade, vítima da política de extermínio de um governador psicopata. Ágatha foi a quinta criança morta esse ano no Rio de Janeiro pelas “balas perdidas” que acham  sempre os mesmos. Um único tiro disparado pela PM matou Ágatha. Testemunhas são unânimes em dizer que não havia operação. Mas, como sempre, a versão oficial criará um choque de narrativas sempre buscando a justificativa para mais um “efeito colateral” que, aliás, não resultou na prisão de nenhum bandido.

Desde a campanha que o atual governador do Rio de Janeiro, eleito na onda bolsonarista, vem pregando uma política de confronto. “Abater com um tiro na cabecinha”, eis o lema da “segurança” de Witzel. A Polícia age conforme o seu comando. E seu comandante supremo é o governador do Estado. O confronto sempre foi a lógica de Witzel que, embora seja um plagiário de teses e um “fake Harvard”, foi juiz e supõe-se que conheça as leis.

Urge que o Ministério Público e a Assembleia Legislativa tomem medidas visando frear a onda de violência e extermínio promovida pelo governador Witzel. Ele tem que ser responsabilizado. Quem o blindar, também estará sujo de sangue. Até o momento, nenhuma manifestação do governador sobre o assassinato da menina Ágatha. Nem tampouco do Presidente Bolsonaro o que, lamentavelmente, não causa surpresa. O primeiro deve estar preocupado em engomar a faixa de governador que ele inventou para ele mesmo. Ou limpá-la das manchas de sangue. Já o segundo, deve estar treinando para mais uma vergonha internacional do Brasil.

FALA DEMÉTRIO!

demétrio lula livre

“Moro e Dallagnol devem ser levados ao banco dos réus sob a acusação de fraudar o sistema de Justiça.” (Demétrio Magnoli, jornalista de direita, em artigo publicado na Folha de São Paulo em 21 de setembro de 2019).

Ele é de direita e conservador. Antipetista, odeia o Lula. Apoiou ferrenhamente o golpe que derrubou a ex-Presidente Dilma em 2016. É comentarista político da Globonews e isso, por si só, dispensa maiores qualificações. Falamos de Demétrio Magnoli. Tal como outros expoentes da direita conservadora brasileira, como Reinaldo Azevedo, agora foi a vez de Demétrio Magnoli reconhecer a ilegalidade da prisão de Lula e as agressões ao Estado de direito cometidas por Moro, Dallagnol e companhia, que culminaram na prisão política do ex-Presidente, com declarados e comprovados fins eleitorais e danos irreparáveis à nossa democracia.

Em artigo publicado na Folha de São Paulo de hoje, escreveu Demétrio Magnoli:

“A corte suprema tem o dever de preservar o Estado de Direito, declarando a nulidade dos julgamentos e colocando o ex-presidente em liberdade.”

Ressalte-se que no artigo em momento algum Demétrio Magnoli sinaliza que irá arrefecer sua ira antipetista. Ao contrário. Tece inúmeras críticas ao PT e ao próprio Lula. Porém, chama atenção para o fato de que tanto o ex-Presidente como o PT devem ser julgados por seus erros pelo tribunal das urnas. O que não foi permitido com a condenação de Lula, resultante de um juiz parcial em conluio com um procurador inescrupuloso e ativista político.

Quando se fala em “Lula livre”, o escopo dessa palavra de ordem vai muito além do partidarismo. O “Lula livre” transcende a defesa dos governos petistas e insere-se na defesa do Estado democrático de direito.  O ódio pode trazer o refluxo e aqueles que, apesar de todas as evidências das ilegalidades, parcialidade e crimes processuais cometidos por Moro/Dallagnol e cia. divulgados na Vaza Jato ainda defendem os algozes de Lula, lembrem-se que eles estão defendendo, em última instância, os algozes da democracia e do Estado democrático de direito.

Demétrio Magnoli é jornalista. É da Globonews. Escreve para a Folha de São Paulo.  Talvez ele, num futuro próximo, também admita a falta de isonomia dos veículos por onde passou em relação a denúncias e enfoque sobre corrupção. Do modo como a mídia, especialmente a Globonews, mostrava, parece que corrupção era um monopólio do PT. Tucanos sempre blindados. E os jornalistas entrando na onda. O “jornalismo lavajatista”, outrora apoiado por muitos jornalistas, gerou a tragédia obscurantista que hoje está no poder e faz deles próprios suas vítimas. Demétrio está escaldado e sabe que aqueles que hoje atacam o Estado de direito poderão, no futuro, ser as próprias vítimas. Demétrio está escaldado porque sabe que a atuação da imprensa à qual pertence gerou o monstro que hoje se volta contra essa mesma imprensa. Demétrio está escaldado e hoje finalmente rendeu-se. Antes tarde do que nunca.

HAJA BOTOX…

botox álvaro dias

“O objetivo dele é retornar à Justiça na Corte maior. É o que ficou explicitado.” (Álvaro Dias, em entrevista ao Estado de São Paulo, referindo-se a Sérgio Moro, em 20 de setembro de 2019).

Álvaro Dias parece estar atuando extra-oficialmente como porta-voz do ministro bolsonarista Sérgio Moro. Já há quem faça “bolão” para acertar a data em que Moro sairá do governo Bolsonaro e a ida da Polícia Federal em operação de busca e apreensão ao gabinete do líder do governo no Senado aumentou a tensão Bozo-Moro. Por conta de tudo isso, durante essa semana especulava-se sobre uma possível ida de Moro para o Podemos, partido de Álvaro Dias. A previsão fazia sentido, na medida em que políticos importantes do PSL estariam migrando para o Podemos. A insatisfação estaria concentrada na turma lavajateira que apoiou Bolsonaro, mas que tem como “mito” não o capitão e sim o ex-juiz da “República de Curitiba”, que vem sendo desautorizado, humilhado e escanteado no governo Bolsonaro.

Álvaro Dias é um senador da chamada “velha política”, ferrenho defensor da Lava Jato, de Moro e dos procuradores enrolados e captados pelo “radar” do The Intercept em diálogos nos subterrâneos lavajatistas. Álvaro Dias é daqueles blindados pela Lava Jato, embora já tenha sido citado mais de uma vez, porém jamais investigado. Moro teria sido sondado para filiar-se ao Podemos, visando seguir um rumo político pós-fritura no governo Bolsonaro. Álvaro Dias negou a sondagem, em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo, embora não acreditemos. Na entrevista, Álvaro Dias afirmou que Moro ainda sonha com a sua indicação para ministro do STF. Para Moro, seria a forma definitiva de solucionar a confusão em que se meteu ao aceitar participar do governo fascista. Porém, apesar de ainda possuir muitos seguidores, o quadro já não é o mesmo para o ex-juiz. Mas há inúmeras possibilidades a serem consideradas:

Primeira: Para Bolsonaro, indicar Moro como ministro do STF seria livrar-se de um estorvo que poderá atrapalhar seu caminho para a reeleição em 2022. Claro que Moro é potencial candidato, especialmente porque bolsonarismo e lavajatismo já não caminham juntos há tempos. Já para Moro, o sonho do “bilhete premiado” seria realizado. Todos felizes. Mas essa alternativa hoje não seria tão fácil. Estimativas fidedignas garantem que o nome de Moro hoje não passaria no Senado. Seria a suprema humilhação.

Segunda: Moro deixaria o governo. Desempregado, tomaria o rumo político e o Podemos seria um caminho natural. Deputado seria pouco para o que Moro representa junto aos seus séquitos lavajatistas. Senador, talvez fosse a opção digna. Mas aí vem aquela questão: em 2022 há apenas uma vaga para senador. Moro é do Paraná. Álvaro Dias também. Quem abriria mão ou quem mudaria de domicílio eleitoral?

Terceira: Moro deixaria o governo e assumiria já a candidatura a Presidente da República. Certamente teria apoio dos tucanos, especialmente aqueles históricos que sempre foram blindados na Lava Jato (FHC, Serra, Alckmin e o eternamente inimputável Aécio), visto que Dória também é candidato.

Quarta: Moro não seria indicado ao STF e nem tomaria o rumo político-partidário. Permaneceria no governo sendo vilipendiado por Bolsonaro e sofrendo retaliações do Congresso. Moro passaria a imagem de “missionário” e, independente de qualquer coisa, permaneceria no governo pelo seu obstinado compromisso de aprovar os pacotes anticrime e anticorrupção. Se não conseguisse a aprovação de seus “pacotes”, seria tudo culpa dos “políticos” e da “velha política”. Findo o governo, sem a toga e sem o ministério, talvez não fosse difícil arranjar um emprego de comentarista na Globonews. De preferência, tendo como interlocutores o Merval Pereira e o Carlos Alberto Sardenberg.

Evidentemente todas essas alternativas só podem ser consideradas se a “bolha bolsonarista” não estourar antes do tempo. Álvaro Dias vem sendo o grande articulador da ocupação política daqueles que representam a banda podre da Lava Jato. Foi por iniciativa dele que Deltan Dallagnol também já foi sondado a lançar-se candidato. Agora parece que virou porta-voz do Moro. Quem irá enrolar e esquivar-se mais? Ele ou o porta-voz do Bolsonaro? Lembrando que, muitas vezes, o teatro da mentira exige expressão facial. Haja botox…

ARARIBÓIA DE SAIA

olá tribo

“Araribóia loteou Niterói e fez do índio seu office-boy…” (Trecho do samba-enredo “Foi malandro é”, do Império Serrano, Carnaval de 1984).

“Pena que a cavalaria brasileira não tenha sido tão eficiente quanto a americana, que exterminou os índios.” (Jair Bolsonaro, em declaração ao Correio Brasiliense, em 12 de abril de 1998). 

Araribóia, o índio-chefe dos temiminós, pode ser considerado na história como o “índio pelego”, aquele que lutou contra os próprios índios e passou para o lado dos invasores e colonizadores portugueses. Aliado dos colonizadores, Araribóia colaborou com estes, lutando contra a Confederação dos Tamoios, que foi uma frente de várias tribos indígenas contra a invasão portuguesa ao Brasil. Em troca, Araribóia ganhou terras onde hoje encontra-se a cidade de Niterói. Esqueceu a cultura de seu povo e até trocou de nome, passando a chamar-se Martim Afonso.

Ysani Kalapalo é uma índia moradora do Xingu e apresenta-se como “influenciadora digital”. Apoiadora de Bolsonaro, Ysani Kalapalo, a “influenciadora digital”, parece já ter absorvido bem as ideias e práticas do bolsonarismo e do olavismo. Depois que a índia bolsonarista publicou um vídeo em que afirma que as queimadas na Amazônia não passam de fake news para prejudicar o governo, ela caiu definitivamente nas graças de Bolsonaro. Como prêmio, não ganhará terras em Niterói. Nem no Xingu. Ela foi incluída na delegação brasileira que irá para a Assembleia Geral da ONU em Nova Iorque. Ficará ao lado de Ernesto Araújo, Ricardo Salles e Dudu Bolsonaro, “históricos defensores dos direitos dos índios”.

Dessa vez o Hélio Negão foi barrado no baile. Bolsonaro não precisará mostrá-lo ao seu lado para fingir que não é racista. O foco, na efervescente e hostil Nova Iorque, será o ambiente, o clima, as florestas. E nada melhor do que levar uma nativa à tiracolo para mostrar que ele também é amigo dos índios. Uma testemunha presencial de que as queimadas são fake news para prejudicar o seu governo.

Na véspera de seu discurso haverá a reunião da Cúpula do Clima da ONU. Mas lá ele não poderá levar a sua índia de estimação. Simplesmente porque o Brasil de Bolsonaro foi impedido de ter voz nesse evento. Mas certamente a indiazinha, com toda sua influência digital, irá convencer seu povo de que essa tal Cúpula não passa mesmo é de mais um antro de comunistas…

SIM, NÓS PODEMOS!

Nós podemos!

Bolsonaro está furioso. Sentiu na pele o que é uma “justiça à la Moro”. Sentiu na pele o que é um “espetáculo hollywoodiano” que ele e sua laia tanto aplaudiam em tempos pretéritos. A ação da Polícia Federal no gabinete do líder do governo no Senado,  Fernando Bezerra Coelho, do MDB (isso mesmo, o líder de Bolsonaro no Senado é do MDB – olha a “nova política” aí!) cumprindo mandados de busca e apreensão acirrou ainda mais a treta Moro/Bolsonaro. O senador emedebista líder de Bolsonaro é acusado de desvios em obras na época em que era ministro da Integração Nacional na gestão da ex-Presidente Dilma. A operação foi autorizada pelo ministro do STF Luís Roberto Barroso.

Bolsonaro pediu explicações a Moro e hoje sabemos que chegou a acontecer uma reunião fora da agenda entre Moro e Bolsonaro. A referida operação pode ter vários significados e desdobramentos, mas não resta dúvidas de que é, no mínimo, estranha e não consensual em relação aos órgão encarregados de investigação. Raquel Dodge havia rejeitado a referida operação, em que pese a ex-procuradora-geral tenha sido, durante todo o seu mandato, uma bajuladora de Bolsonaro. Mas a Polícia Federal insistiu, foi ao STF e o ministro Barroso autorizou. O que pode estar por trás de tal operação, que afeta diretamente o governo Bolsonaro?

Especula-se uma tal retaliação da Polícia Federal, talvez dando mostras de sua independência em relação a um governo que, declaradamente, quer aparelhar os órgãos de investigação de modo a blindar os familiares enrolados do Presidente. As frequentes declarações de Bolsonaro mostrando sua intenção de intervenção na Polícia Federal parece ter sido entendida pela instituição como sua transformação em um aparelho de governo e não de Estado. Seria um recado ao Bolsonaro da autonomia da Polícia Federal? Pode ser. Um recado do tipo “Sim, nós podemos!” Ou, quem sabe, um recado do próprio Moro?

Mas Bolsonaro é vingativo, conspirador, rancoroso, maníaco. Alguém terá que pagar a conta de ter mandado a Polícia Federal adentrar no gabinete de seu líder no Senado. Claro que ele não está nem aí para o respeito ao Legislativo e a um espaço que poderia até invocar uma certa imunidade, visto que ele sempre desprezou o Congresso e um dia até falou que o fecharia. Ele está preocupado com ele, sua família enrolada e com os danos políticos que a ação da Polícia Federal podem trazer. Afinal, trata-se daquele que lidera os senadores que apoiam o seu governo. E é aí que entra o Moro. Porque, como ministro da Justiça, ele comanda a Polícia Federal. Será que agora Bolsonaro demite o diretor da PF, Maurício Valeixo, homem de confiança de Moro? Moro teria interesse político na operação, como ele sempre teve interesse político como quando era juiz?

E agora, para quem irá sobrar? A cada dia parece não haver espaço no governo para a convivência Bolsonaro/Moro. Egos e ambições sobrepõem-se na luta entre “mito” e “ídolo”. A caneta, que parece não ser mais a BIC, ainda tem muita tinta. Mas a “República de Curitiba” já se rearticula. No caso da caneta de Bolsonaro funcionar, o marreco parece já ter uma palavra de ordem: “Sim, nós PODEMOS“. Para bom entendedor, uma palavra que também é uma legenda basta…

 

A BOLHA BOLSONARISTA

bolha com palavras

“Bolsonarismo” e “Lavajatismo” já não são mais duas faces de uma mesma moeda. São duas moedas diferentes, em alta velocidade, estado de tensão e em rota de colisão. Já não é de hoje que Sérgio Moro, aquele que encarnaria a moralidade e as transformações do governo de extrema-direita, virou pó. Primeiro, foi o The Intercept que o desmascarou e o desmoralizou. Depois, o próprio Bolsonaro encarregou-se de escanteá-lo e torná-lo um mero figurante em seu governo. Moro nunca deixou de ser uma sombra em Bolsonaro. Embora tosco e ignorante em praticamente todos os assuntos de Estado e sem apresentar, durante toda a campanha, qualquer projeto para o Brasil (sua campanha restringiu-se a sempre agredir adversários e fomentar ódio), Bolsonaro usou uma estratégia inédita e que eleitoralmente lhe traria grandes dividendos: anunciar os ministros ainda como candidato. Do “Posto Ipiranga” ao astronauta, chegando até o “justiceiro da República de Curitiba”, todos possuíam em comum o fato de “não serem políticos”,  bem aceitos pelo eleitor bolsonarista, serem “competentes” em suas áreas e a garantia de terem “carta branca” em suas respectivas funções. Mas não foi assim depois da posse. No caso de Paulo Guedes, a recente crise em relação a uma nova CPMF comprova que ele jamais teve a autonomia que pretendia. Ele queria sim uma nova CPMF. Marcos Cintra foi usado de “bucha” para defendê-la e como a ideia foi repudiada, então sobrou para o “bucha” ser defenestrado do governo. Moro vem sendo sistematicamente desautorizado por Bolsonaro e tudo indica que o capítulo final de sua fritura seja a nomeação do novo diretor da Polícia Federal. Quanto ao astronauta, que já viu nosso planeta lá do espaço sideral, ele quase não aparece e não dá entrevistas. Talvez para não ter que dizer, em nome de sua fidelidade ao governo, que a Terra é plana.

Porém, a cisão bolsonarismo/lavajatismo vem dando mostras de que Bolsonaro continuará mantendo o discurso e prática que são direcionadas apenas à sua bolha eleitoral. E quem cruzar seu caminho, será considerado inimigo. Uma vez Presidente, Bolsonaro teria vários caminhos. Ele poderia ter um discurso para o país, visando mitigar o clima de polarização eleitoral que ainda persiste na sociedade. Não quis. Ao contrário, desde a posse ataca adversários e defende as causas mais atrozes, como apologia a torturadores, a ditaduras e a ditadores sanguinários.

Outra alternativa seria procurar superar eventuais e naturais divergências que surgem de uma grande aliança que chega ao poder. Será que Bolsonaro foi ingênuo de pensar que o “ódio ao PT” significava um “amor ao Bolsonaro”? Gustavo Bebianno, Janaína Paschoal, general Santos Cruz, Alexandre Frota, João Dória, Paulo Marinho, Kim Kataguiri e o MBL, Lobão, major Olímpio, Selma Arruda… e muitos outros dirão que não! Todos, embora tenham apoiado Bolsonaro, já se redirecionaram ou estão se redirecionando em caminhos direitistas diferentes do bolsonarismo.

Agora, a recente ruptura do PSL do Rio com o governo de Wilson Witzel. O PSL do Rio de Janeiro, comandado por Flávio Bolsonaro, acaba de deixar a base aliada de Witzel na Assembleia Legislativa. Só porque o governador afirmou em recente entrevista à jornalista da Globo Andreia Sadi que postula ser Presidente da República. Witzel, como os outros que cruzaram e supostamente “traíram” Bolsonaro, acaba de entrar no “índex”.

Mas faltavam, além dos “inimigos e traidores” internos, os externos. Emmanuel Macron, Michelle Bachelet, o prefeito de Nova Iorque, o governo da Noruega, a ONU com seu globalismo, Finlândia, França, Cuba, Venezuela, Coreia do Norte. No atual contexto, talvez seja bom mesmo Bolsonaro criar, cada vez mais, “inimigos externos”, ao mesmo tempo em que vai vendo seus amigos e aliados externos se desmilinguirem. Na Itália, seu amigo e aliado, o fascista Matteo Salvini, já foi deletado. Na Argentina, uma derrota de seu aliado Macri se avizinha. Em Israel, o seu aliado, o bandido Benjamin Netanyahu, não consegui a maioria e até cancelou seu comparecimento à reunião da ONU, para tentar juntar os cacos. Restou o Trump (por enquanto) para ele bajular e entregar o país.

Em suma, o bolsonarismo está, cada vez mais, virando uma “bolha”. O discurso do “todos” contra Bolsonaro, que representaria o anti-sistema, parece que já está prematuramente sendo requentado. Como dissemos, restou o Trump como aliado e modelo externo a ser seguido. Seguir seus métodos vem sendo o lugar-comum de Bolsonaro: ataques e agressões a adversários e até a aliados que divergem marcam o “jacobinismo” bolsonarista. Não sabemos se será o suficiente, porque, embora 2020 esteja logo ali, só se pensa em 2022. O “eu” contra “todos” já não teria o mesmo contexto favorável. Primeiro, porque não existe, desde 2016, um “PT” no poder para se odiar; segundo, porque a corrupção e o nepotismo grassam na própria família Bolsonaro; terceiro, se do lado de Bolsonaro existem os defensores da “Pátria”, de “Deus”, da “família” e “soldados anticomunistas”, as direitas que saíram do bolsonarismo também contam com tudo isso. O resultado desse embate não pode ser antecipado. Assim, esperemos para ver. Isso, se a “bolha” não estourar antes de chegarmos lá.

 

 

PARA TEMER, DILMA SOFREU GOLPE

temer golpe 2

“Eu jamais apoiei ou fiz empenho pelo golpe.” (Michel Temer, o próprio golpista, em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, em 16 de setembro de 2019).

Primeiro foi o Fernando Henrique Cardoso. Um tanto eufemista, em uma coluna em O Globo, do dia 3 de junho de 2018, o cardeal tucano admitiu que a deposição da ex-Presidente Dilma foi um golpe. Na ocasião, FHC escrevia no jornal da família Marinho que o impeachment de Dilma havia sido baseado no que ele chamou de “arranhões constitucionais”. Com meias-palavras e de forma subliminar ele estava confessando mesmo que foi golpe. E seu partido, que apoiou a maracutaia, tomaria de assalto, juntamente com o PMDB de Temer, o governo.

Mas essa semana a confissão veio mesmo à tona. Primeiro, foi a doutora Janaína Paschoal, através do Twitter, que admitiu que Dilma não cometeu qualquer crime de responsabilidade. Escreveu a doutora signatária do impedimento da ex-Presidente: “Alguém acha que Dilma caiu por um problema contábil?” Então, se não foi por problema contábil, e só poderia ser por esse problema, visto que “pedalada fiscal” é problema contábil, e esse era o motivo legal alegado, então por qual problema foi? Cartas para a redação…

Mas faltava o grande beneficiário de tudo. Aquele que, por algum tempo, afirmou que não admitiria ser chamado de golpista. Faltava o Temer, aquele que recebeu o poder tungado de Dilma. E isso aconteceu, na última segunda-feira, dia 16 de setembro, no programa Roda Viva, da TV Cultura. Temer negou que teria dado algum apoio ou feito algum empenho pelo golpe. Isso mesmo: ele falou golpe”. Pouco tempo depois, ele tornou a usar a palavra golpe” e em nenhum momento fez qualquer retificação ao termo usado para em suas declarações. Ao contrário, ele foi categórico e firme ao referir-se ao impeachment de Dilma como golpe. Palavras do próprio Temer.

Passados três anos, a verdade vem à tona por dois protagonistas do golpe de 2016: a signatária do impeachment e o beneficiário dele. Se a própria signatária e o próprio beneficiário dizem que foi golpe, este último de forma peremptória, então não há mais o que se discutir. Apenas a lamentar. Assistam ao vídeo em que Temer assume, com todas as letras, que o impeachment de Dilma foi golpe: