O FOGO FRATERNO DO CARLUXO

carluxo 2Carlos Bolsonaro, ou “Carluxo”, o “filho tuiteiro do Bozo”, publicou ontem, no Twitter, uma lista de políticos com transações financeiras consideradas suspeitas. Na postagem, Carluxo reproduz os nomes de 21 parlamentares da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro que aparecem em lista do COAF, aquele órgão de inteligência financeira que passou a comer “o pão que o Bolsonaro amassou” depois que detectou e divulgou as trapaças de Flávio Bolsonaro. Na lista publicada, Carluxo expõe o seu próprio irmão Flávio, que aparece como tendo movimentações suspeitas de 1 milhão e 300 mil reais. A investigação contra Flávio, no entanto, foi suspensa por ordem do doutor Dias Toffoli, não sei se com medo do cabo ou do soldadinho de chumbo. A lista, tal como foi publicada pelo Carluxo, está reproduzida abaixo:

lista de carluxo

Sabe-se que Carluxo costuma ser muito “zeloso” e seletivo em suas postagens, mas tudo indica que ele não tenha notado o nome do próprio irmão na lista que divulgou. A publicação, na verdade, é uma resposta ao deputado federal Marcelo Freixo, do PSOL, que reclamou do silêncio do ministro Sérgio Moro em relação à intervenção de Jair Bolsonaro na Polícia Federal do Rio de Janeiro.

Então está combinado: se o próprio Carluxo publicou uma lista de deputados suspeitos de falcatruas financeiras, então que todos, inclusive seu irmão 01 que aparece na lista que ele próprio publicou, sejam investigados. Porém, com autonomia para o COAF e sem intervenção. E também com autonomia para a Polícia Federal e sem intervenção. E, por último, sem pedir SOS ao cooptado ministro Toffoli, “táoquei”?

MORO E A “LIBERDADE PARA PRENDER”

moro nazita editado“Nenhum homem livre será capturado ou aprisionado, ou desapropriado dos seus bens, ou declarado fora da lei, ou exilado, ou de algum modo lesado, nem nós iremos contra ele, nem enviaremos ninguém contra ele, exceto pelo julgamento legítimo dos seus pares ou pela lei do país.” (Trecho da Magna Carta de 1215, que o rei João Sem Terra, da Inglaterra, foi obrigado a assinar, limitando seus próprios poderes).

A origem do constitucionalismo e do combate ao abuso de autoridade pode ser considerada a famosa Magna Carta, de 1215, que visava coibir o abuso do então rei da Inglaterra João Sem Terra, que tomava várias medidas arbitrárias, dentre elas as prisões sem qualquer prova ou fundamento. Os então barões ingleses obrigaram o rei a assinar a lei que limitava seus próprios poderes. A famosa Magna Carta também pode, assim, ser considerada a raiz do habeas corpus, o instituto que protegeria os cidadãos de prisões arbitrárias e sem amparo legal, embora o documento não mencione explicitamente esse direito. Praticamente tudo o que veio depois, na própria Inglaterra, na França, na Constituição norte-americana e também nos códigos e Constituições brasileiras, têm sua origem na Magna Carta de 1215, não obstante ainda existirem diversos candidatos a “Joões Sem Terra” pelo mundo afora, inclusive no Brasil.

Uma das maiores injustiças que qualquer cidadão pode sofrer é a prisão sem provas. Não estamos falando da prisão do Lula. Uma das maiores injustiças que qualquer cidadão pode sofrer é ter sua prisão decretada sem amparo legal. Continuo dizendo que não estamos falando da prisão do Lula. E entendemos que qualquer juiz, sabedor da inexistência de amparo legal para efetuar uma prisão,  ainda assim a decrete, então esse magistrado deveria sofrer alguma sanção. Aliás, isso é gravíssimo. E não estamos falando (ainda) do ex-juiz e atual ministro bolsonarista Sérgio Moro.

O projeto de abuso de autoridade aprovado na Câmara dos Deputados deverá sofrer vetos por parte do governo Bolsonaro. E hoje está sendo noticiado que o ministro Sérgio Moro defende o veto de oito artigos contidos no projeto aprovado na Câmara. Dentre os vetos pretendidos por Moro, há um que chama nossa atenção: trata-se do veto ao artigo 9, que prevê a detenção de um a quatro anos para o magistrado que decretar prisão sem amparo legal.  Ou seja, Moro entende que um magistrado pode decretar a prisão sem amparo legal e não sofrer qualquer sanção. Sua alegação é a de que esse trecho do projeto “limitaria a liberdade do juiz de decidir.” Seria de bom alvitre lembrar a Sérgio Moro que o juiz não tem qualquer liberdade para decidir absolutamente nada. Simplesmente porque o juiz deve estar preso às determinações da lei. O que deve ser garantida ao juiz é a independência do poder do qual é investido para aplicar a lei. O que Moro quer dizer com “liberdade do juiz de decidir”? Seriam meras conjecturas, desconfianças, pessoalidade, parcialidade, antipatia ou ativismo político? Ou será que Moro pode estar referindo-se à fórmula da prisão por “convicção sem provas” criada por seu subordinado Dallagnol?

Depois de todo lamaçal da Lava Jato que veio e ainda continua vindo à tona, mostrando os abusos, ilegalidades, crimes processuais e parcialidade cometidos por Moro e procuradores, a tentativa de veto a esse item do projeto soa como uma confissão. E nem falo do ex-juiz Moro. Falo dele como ministro bolsonarista, que abraçou politicamente as bandeiras mais retrógradas da história desse país. Dar liberdade a um juiz para prender sem conformidade com as hipóteses previstas em lei tem um nome: é fascismo, sem qualquer eufemismo. Querer permitir que um juiz tenha “liberdade para prender”, mesmo sem amparo legal, é a legalização do Estado de exceção. Resta saber qual será a reação dos “barões da Câmara”. Apesar de o próprio Bolsonaro já ter admoestado o seu ministro da Justiça, ao lembrar-lhe que “ele não é mais juiz e não tem mais a caneta”, será que Sérgio Moro, em seus delírios, ainda pensa que é o “rei João Sem Terra da República de Curitiba”?

 

 

O LIVRO DE PÁGINAS EM BRANCO

o livro em brancoJá faz tempo. Foi lá no final dos anos 1980. Eu frequentava muito uma loja de roupas em Olaria, localizada na rua Uranos. A loja era de um velho conhecido do bairro e chamava-se “Hailton Modas”. Hailton era um comerciante muito popular na região e sua mulher era especialista em fazer camisas masculinas. Hailton era conhecido por ser muito brincalhão e certa vez, em uma das idas em sua loja, enquanto esperava o atendimento, chamou-me atenção um livro, perdido no meio de tantos outros e de várias revistas, sobre uma mesa. O título do livro, aliás muito volumoso, era “A vida sexual do homem após os 80 anos de idade”. Fiquei curioso. Disfarcei, peguei o tal livro e folheei-lhe. Para minha surpresa, ou talvez decepção, todas as páginas do livro, de capa dura e ricamente encadernado, estavam em branco. O recado foi dado. Sem nenhuma palavra. Certamente o livro perderia a sua “atualidade” em 1998, com o lançamento do Viagra. Já contei essa história para muitos amigos, mas nunca imaginaria que ela de fato aconteceria tendo como tema um Presidente da República.

O livro “Por que Bolsonaro merece respeito, confiança e dignidade?” tem todas as suas 188 páginas em branco. “Escrito” pelo professor de Literatura Willyam Thums, a obra, segundo o próprio autor, “é resultado de incansáveis horas de trabalho” e está sendo vendida por 36 reais na Amazon. Leitores ávidos pelas respostas que dão título ao livro reclamaram por tratar-se de um livro com páginas em branco, e a Amazon teve que adicionar à descrição da obra a informação de que trata-se de uma sátira, com 188 páginas em branco.

Deverá mesmo ser um livro para a posteridade. Quem sabe o sucesso do livro não o leve a ter várias “traduções”? Mas, por enquanto, ele é a voz e a palavra mais viva para que os bolsominions entendam, sem precisarem ter o trabalho de ler (coisa que eles odeiam), os motivos pelos quais o “mito” que eles tanto idolatram merece respeito, confiança e dignidade. O livro é objetivo e esclarecedor e já tranquilizamos os bolsominios de que ainda é bem menor do que o que existia na loja do Hailton. Boa “leitura”!

BOLSONARO, “VACIFUDÊ” AVEC TA MERDE

charlie hebdoCertamente o substantivo “cocô” e o verbo “cagar” são as palavras mais icônicas para simbolizar tudo o que representa Bolsonaro e seu governo. E essa certeza já transcende o país, pois até os franceses já estão convictos disso. O que imaginar de alguém que cagou até para os seus aliados? Sim, porque Bolsonaro cagou para o Magno Malta. Bolsonaro cagou para o Gustavo Bebianno. Bolsonaro cagou para os generais. Bolsonaro cagou para o Alexandre Frota. Isso, sem falar que ele caga para a educação, para a ciência, para o meio ambiente, para a cultura, para a arte, para a imprensa, para os direitos humanos, para a Constituição, para o Congresso Nacional, para a soberania do país. E ele também caga diariamente por via oral, expelindo barbaridades em doses industriais, como foi, na semana passada, a sua receita para a preservação ambiental. No Brasil, foi um misto de lamentos e piadas, onde o ridículo presidencial foi de uma dimensão incomensurável.

Agora foi a vez da revista francesa Charlie Hebdo, aquela que foi alvo de ataques terroristas em 2015, mas nem por isso se calou. Especialmente estando no país da “liberdade, igualdade e fraternidade”. A revista, em edição que foi às bancas nesta quarta-feira, 14 de agosto, retrata Bolsonaro fazendo cocô em um sorvete bem no meio da bandeira brasileira e satiriza a sua lamentável e ridícula declaração, onde recomendava a todos a síntese de sua “política ambiental”: “é só fazer cocô dia sim, dia não, para preservar o meio ambiente.” Na charge, de autoria do cartunista Nicolas Tabary, Bolsonaro é advertido:

“Não é bom, senhor Bolsonaro, fazer cocô em todo mundo!”

E o “Bolsonaro da charge” responde:

“É bom, porque eu faço cocô todos os dias, para preservar o meio ambiente e o planeta.”

O governo de Bolsonaro já chegou precocemente ao fundo do poço em termos de vexames internacionais. De Davos à Casa Branca. Ridículo e patético. Lamentável que o homem eleito para representar o país tenha levado o Brasil a este festival de vexames. Porém, infelizmente a coisa é mais séria do que se pode pensar e vai muito além das supostas ou simbólicas excreções. Dentre outras coisas, o “tal cocô salvador do meio ambiente”, que simboliza a “política ambiental” de Bolsonaro, está custando caro ao nosso país. Depois da Alemanha, agora foi a Noruega que anunciou a suspensão de repasses para a proteção da Amazônia. Também o governo francês vê com ceticismo a “política ambiental” de Bolsonaro e tudo isso ameaça até o tal acordo Mercosul-União Européia, pois a “política ambiental à base do cocô” não pode ser mesmo levada a sério, embora também não seja nem um pouco engraçada.

Enquanto isso, a Charlie Hebdo deve se precaver de eventuais ataques virtuais dos “bots bolsonaristas”. Mas vai ser tudo virtual mesmo e aqueles robozinhos fascistas não serão capazes de calar a voz de um veículo que não sucumbiu e nem se intimidou mesmo depois de ataques terroristas reais. Será que o Carluxo vai escrever em francês? Haja “caca”…

 

 

VÁ PRÁ RUA DALLAGNOL!

rua para ele“Se você topar, vou te pedir prá ser laranja em outra coisa que estou articulando kkkk…” (Deltan Dallagnol, em diálogo com procuradora, articulando para pressionar o Supremo a prender Lula.)

O corpo do falecido ministro do STF, Teori Zavascki, ainda não tinha sido sepultado, após a queda do avião que o vitimou fatalmente, e o procurador, ou melhor, militante de direita e subordinado de Moro, Deltan Dallagnol, já se movimentava ativamente tentando influenciar na escolha do nome que o substituiria. Para isso, Dallagnol grupos de direita que tiveram participação no golpe contra a ex-presidente Dilma e que depois tornaram-se séquitos da candidatura fascista de Bolsonaro. Um desses grupos, o “Vem Prá Rua”, é um velho conhecido e tem como líder o ex-espião dos Estados Unidos Rogério Chequer. O outro grupo é o “Instituto Mude – Chega de Corrupção”, que usava até a igreja frequentada pelo “procurador do jejum espiritual” para realizar seus encontros. O objetivo de Dallagnol era incentivar os grupos de direita a pressionar o Supremo para rejeitar os nomes dos ministros Gilmar Mendes, Ricardo Levandovski e Dias Toffoli para ocuparem o cargo de relator da Lava Jato em substituição ao falecido ministro Teori. A questão é que Teori só poderia ser substituído por um ministro da segunda turma e nenhum deles tinha a preferência de Dallagnol, embora Celso de Mello fosse chamado de “o menos pior”. Não se trata aqui de avaliar os votos, julgamentos ou decisões desses ministros, mas sim de perguntar: pode um procurador da República ter essa atitude? Esse comportamento criminoso e inadmissível de Deltan Dallagnol, dentre outros, foi revelado na Parte 15 da Vaza Jato, pelo site The Intercept Brasil.

Mas a utilização, por Dallagnol, de grupos políticos de direita como porta-voz de suas ambições políticas e para seus desvios de conduta não parou por aí. Dallagnol também atuou, nos subterrâneos da Lava Jato, para pressionar ministros do STF no julgamento da prisão em segunda instância. Ele insuflava esses grupos a organizarem manifestações.

Os diálogos mostram uma fartura de ilegalidades e até de chacota por parte de Deltan. Outros procuradores aparecem nos diálogos com líderes de movimentos de direita querendo influir no STF e suas decisões, em um horrendo ataque à sociedade, ao País e ao Estado Democrático de Direito.

Deltan está sendo investigado pelo Conselho Nacional do Ministério Público e a reclamação disciplinar à qual ele responde foi desarquivada. Por definição, o Ministério Público representa a sociedade e ele é fundamental para a democracia. Esperamos que o Conselho Nacional do Ministério Público não seja corporativista, o que significaria ser conivente com as ilegalidades criminosas de Dallagnol, embora o desarquivamento já seja um prenúncio do contrário. E que o Egrégio Conselho também aproveite, já que o Dallagnol gosta tanto do “Vem Prá Rua”,  e decida que esse embusteiro literalmente vá para a rua!

 

 

O BOBO DA CORTE

moro bobo da corte

“ESTRELA CADENTE – Não adianta tapar o sol com a peneira. Há mais de uma razão. Mas Sérgio Moro, desde o dia 1º de novembro, quando aceitou trocar o cargo de juiz da Lava-Jato para ser ministro de Bolsonaro, perde brilho. É pena.” (Nota de Ancelmo Gois, em “O Globo”, de 11 de agosto de 2019).

“SENTIU O GOLPE – Parlamentares que têm se reunido com Sérgio Moro em audiência notam que o ministro anda aéreo, fazendo um esforço redobrado para prestar atenção na conversa.” (Nota de Lauro Jardim, em “O Globo”, de 11 de agosto de 2019).

“TENSÃO – Com queixas mútuas, está tenso o clima entre Jair Bolsonaro e seu ministro Sérgio Moro. Resta saber qual dos dois explode primeiro.” (Nota de Elio Gaspari, em “O Globo”, de 11 de agosto de 2019).

As Organizações Globo, como um todo, possuem um histórico de engajamento político que pode ser resumido em seu “lavajatismo” e anti-petismo. Quando a Globo apoiava conduções coercitivas abusivas, hollywoodianas, e ilegais, seus jornalistas de plantão já estavam no local antes mesmo da Polícia Federal. A família Marinho tinha o privilégio de saber da operação antes da Polícia. Quando a Globo recebeu com exclusividade do então juiz Sérgio Moro o vazamento da conversa da ex-Presidente Dilma com Lula, então o “furo” sensacional do Jornal Nacional era o primor do jornalismo. Tudo por uma mesma causa. Eles já tinham o seu “mito”. Mas ele chamava-se Sérgio Moro, aquele que “jamais seria político”, apenas um homem da lei necessário para condenar corruptos de todos (todos?) os matizes. A Globo o turbinou. A Globo o endeusou. A Globo o mitificou. Mas nem a Globo sabia que a atuação daquele mito de Curitiba iria acabar elegendo um outro tal mito que nem ela queria. Porque a Globo, ao endeusar Moro e suas ações ilegais e fascistas, estava plantando um “picolé de chuchu”, mas acabou colhendo um outro “mito”, e que hoje já responde pelo nome de “Johnny Bravo”.

Hoje, quando vemos três articulistas de O Globo, em uma mesma edição, fazendo comentários que admitem a derrocada de Moro e a difícil convivência entre os “dois mitos”, então já não há mais como dizer que “é tudo papo de esquerdista.” Bolsonaro foi eleito em meio a um discurso anti-corrupção e anti-petista. No momento de sua eleição, Bolsonaro sabia que nem todos os seus 57 milhões de eleitores morriam de amor por ele. Na verdade, até hoje muitos deles morrem mesmo é de ódio pelo Lula e pelo PT. Então, Bolsonaro precisaria dar a seu governo uma cara “legalista, anti-corruptiva, moralista e redentora”, tudo para angariar apoio e confiança daqueles que lhe deram o voto apenas pelo ódio ao PT. E Moro era a cartada certa para isso. Para Moro, o negócio também parecia bom, porque ao mesmo tempo Moro, alavancado aos píncaros pela sua atuação na Lava Jato, turbinaria sua carreira política na condição de ministro da Justiça e, quiçá, ministro do Supremo que, como ele mesmo disse, seria o “bilhete premiado” já prometido a ele por Bolsonaro. Porém, nesse encontro de “dois mitos” no governo, Moro saía com uma certa vantagem, como aquele ministro que jamais poderia ser demitido. Bolsonaro parecia ter que ser, não se sabe por quanto tempo, refém do outro “mito”, o de Curitiba.

O tempo, porém, foi tão célere com Moro como ele e o TRF-4 foram com Lula. Em seis meses de governo, estoura o escândalo da Vaza Jato. Os diálogos no esgoto, especialmente entre Moro e Dallagnol desnudam a face política, parcial e monetizante da Lava Jato. Desnudam suas ambições políticas. Seus crimes processuais. Moro é terrivelmente ferido. Já o governo Bolsonaro, nem tanto.

Na verdade, desde o início do governo, Moro vem sendo escanteado. Isso faz lembrar um episódio do futebol, quando Romário e Edmundo foram jogar no Vasco. Duas estrelas vaidosas e egocêntricas. Não haveria lugar para ambos. Alguém teria que ser o “bobo da corte”. Bolsonaro, veladamente, colocava rédeas em Moro. O ex-juiz sofria sucessivas derrotas. Nada de “super-ministro”. Nada de “carta branca”. Moro sequer pôde nomear uma mera suplente de um conselho que tem o poder de decisão igual a zero. Moro perdeu o COAF. Moro sucumbiu aos políticos e fatiou seu pacote anti-crime. Mas essencialmente não seria vantajoso para Bolsonaro que Moro tivesse protagonismo em seu governo. O futuro é logo ali e Moro já era dado como candidato em 2022, mesmo por muitos daqueles que votaram em Bolsonaro. E finalmente, com a Vaza Jato, Moro sucumbiu a Bolsonaro, invertendo a condição inicial. Agora, Moro é refém de Bolsonaro, que o leva até a estádios de futebol para ver o Flamengo e a seleção brasileira. Foi pior a emenda do que o soneto. Grupos de flamenguistas anti-fascistas protestaram quando Moro caiu no ridículo de ter que vestir a camisa do Flamengo para tentar angariar alguma popularidade. Não adiantou. Moro perdeu, e muito, principalmente entre seus antigos pares da mídia (Veja, Estadão, O Globo), do Judiciário e até entre políticos. Só houve uma saída para Moro: sucumbir a Bolsonaro e tornar-se seu ancilar, defendendo as barbaridades de seu governo, posando com ele em fotos e até compartilhando vídeos de Bolsonaro fazendo ameaças à imprensa.

Recentemente, inclusive, Bolsonaro colocou Moro em seu devido lugar de subalterno, ao dizer, esta semana, que “Moro estava acostumado a ter a caneta na mão em Curitiba, sem dar satisfação a ninguém.” Até o pacote anti-crime de Moro já foi secundarizado pelo governo Bolsonaro, que diz ter outras “prioridades”. É sabido que Moro ainda possui séquitos porque, afinal, o ex-juiz foi o grande responsável, apesar das ilegalidades comprovadas, pelo encarceramento e alijamento de Lula do processo eleitoral. E por isso Bolsonaro sabe que Moro ainda possui alguma serventia. Porém, em seu devido lugar. Porque a essa altura Moro já deve saber que, onde existem dois mitos, alguém vai ter que ser o bobo da corte.

BOLSONARO E O COCÔ CONSCIENTE

cocô presidencial“É só você deixar de comer menos um pouquinho. Você fala para mim em poluição ambiental. É só você fazer cocô dia sim, dia não, que melhora bastante a nossa vida também.” (Jair Bolsonaro, em 9 de agosto de 2019, propondo uma verdadeira “cruzada cívica” em defesa do meio ambiente).

Eu pensava que João Figueiredo, o general de plantão no governo brasileiro entre 1979 e 1985, fosse o recordista em falar asneiras publicamente, especialmente ao ser entrevistado. Certa vez, em uma entrevista, o general disse “preferir o cheiro dos cavalos do que o cheiro do povo”. Em outra oportunidade, falou que “prendia e arrebentava” quem fosse contra a “abertura”. E, no dia de um Grande Prêmio Brasil, no Jockey Club, afirmou que “não colocaria o dele em pata de cavalo”, embora Figueiredo fosse oriundo da cavalaria. Mais do que lamentáveis, as afirmações de Figueiredo beiravam o ridículo e faziam a liturgia de um Presidente da República ir para o beleléu. 

O festival de asneiras que vem marcando o governo Bolsonaro, capitaneado pelo próprio Presidente, parece não ter fim e constatamos que Figueiredo era apenas “fichinha”, se comparado a Bolsonaro, quando se trata de proferir as asneiras mais atrozes. Agora, foi a receita bolsonarista para a preservação do meio ambiente. “É só você fazer cocô dia sim, dia não, que melhora bastante a nossa vida também”, disse Bolsonaro em entrevista. Primeiro, foi o ministro “pro forma” das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, falar que “o aquecimento global é uma conspiração comunista”. Não, Ernesto Araújo não estava brincando e depois ele corroborou sua conjectura “científica”, ao afirmar que não existe aquecimento global porque ele foi na Itália e lá estava frio. Dá até saudades das besteiras do Figueiredo.

Agora, basta fazer cocô dia sim, dia não, para que o meio ambiente seja preservado. Não sei se os nossos bichinhos de estimação conseguirão seguir a recomendação do Presidente. Os bebês de colo e crianças pequenas talvez também não possam colaborar com o “cocô cívico e consciente de Bolsonaro”. E aqueles que estiverem sofrendo de desinteria e não puderem dar a sua cota de colaboração para a preservação ambiental? É possível que Bolsonaro e seu ministro do meio ambiente, aquele mesmo que poluiu o rio Tietê, providenciem uma medida provisória para regulamentar a questão do cocô, dada a relevância e o primor epistemológico-metodológico da conjectura científica de Bolsonaro.

Mas entendemos que o próprio Presidente, a maior autoridade do país, deva ser o primeiro a dar o exemplo nessa grande cruzada cívica em prol do meio ambiente. Assim, seguindo a sugestão do próprio Presidente, que tal Bolsonaro falar dia sim, dia não? Isso melhoraria bastante a nossa vida também.