A FOLHA E “A JUSTIÇA CONTRA MORO”

Imagem acima: o Editorial da Folha de São Paulo, em que o jornal critica o uso político da toga e a parcialidade de Sérgio Moro contra Lula.

Em Editorial intitulado “A Justiça contra Moro” e publicado na edição de hoje, a Folha de São Paulo, que já foi grande apoiadora de Sérgio Moro, finalmente reconhece os erros, a parcialidade e o uso político da toga pelo ex-juiz e depois ministro bolsonarista da Justiça, com o intuito de prejudicar a imagem de Lula e do Partido dos Trabalhadores. Para a Folha, Moro ficou com “credibilidade abalada”.

O importante não é o que a Folha revela. A parcialidade de Moro sempre foi evidente e, no ano passado, o The Intercept a escancarou. O importante é que a Folha de São Paulo, um veículo entusiasta da Lava Jato e nitidamente antipetista, agora vem a público, não através de um articulista, mas em seu próprio Editorial, reconhecer os erros, os abusos e a parcialidade política de Moro como juiz, o que é inadmissível. O Editorial começa criticando a liberação da delação do Palocci por Moro sobre doações da Odebrecht para construção do Instituto Lula, a apenas seis dias antes do primeiro turno da eleição de 2018:

“Pouco menos de um mês antes de aceitar o convite para fazer parte do governo Jair Bolsonaro, o então juiz federal Sergio Moro decidiu incluir a delação premiada do ex-ministro Antonio Palocci nos autos do processo que apura se a empresa Odebrecht doou, em troca de favores, um terreno para a construção do Instituto Lula.

A medida, acompanhada do fim do sigilo sobre o caso, ocorreu a seis dias do primeiro turno do pleito presidencial de 2018, no qual Bolsonaro tinha como principal adversário o candidato do PT, Fernando Haddad —que evocava o apoio e a memória de Luiz Inácio Lula da Silva como trunfos de campanha.”

O Editorial da Folha também lembra que já haviam se passado três meses da homologação do acordo de delação mas, de forma calculada, Moro teria deixado para incluir a delação e, ato contínuo, divulgá-la, às vésperas da eleição. O Editorial chega a questionar Moro pela evidente repercussão política de seu ato ilícito:

A divulgação do depoimento de Palocci serviria a apoiadores de Bolsonaro como munição contra o rival – à época preso, condenado por corrupção em outro processo.

Natural que se tenham levantado indagações à época sobre a conveniência da atitude de Moro. Não teria o juiz da Lava Jato imaginado que a revelação poderia repercutir na disputa eleitoral?”

Então, diante da evidente parcialidade e uso político por Sérgio Moro da condição de juiz, a 2ª Turma do STF decidiu por anular a delação de Palocci no processo contra Lula. Foi, de fato, a “Justiça contra Moro”, reconhecida por um veículo que muito apoiou Moro e sempre foi antipetista.

Encerrando o seu Editorial, a Folha de São Paulo entende que Morto deve ser punido pela sua atuação política, parcial e criminosa enquanto juiz:

“Se é fato que a Lava Jato prestou serviços inestimáveis ao país, é forçoso reconhecer que cometeu excessos, impropriedades e desvios que cobram seu preço e não podem ser ignorados sob pena de estimular uma índole justiceira que ofende os princípios basilares da Justiça num Estado de Direito.”

Claro que o reconhecimento da Folha de São Paulo é importantíssimo, visto que a Folha sempre foi um jornal lavajatista. Até o Merval Pereira, do Globo, antipetista e ferrenho apoiador do Moro, já havia se resignado em relação à vergonhosa e criminosa parcialidade política de Moro contra Lula em um dos seus últimos artigos.

Resta agora o julgamento, pelo STF, da parcialidade de Moro contra Lula. A eliminação da delação de Palocci de um dos processos é apenas o início. Pelo andar da carruagem, tudo leva a crer que Moro, que recentemente fugiu de um debate com Lula, terá que enfrentá-lo em 2022 em um debate da eleição presidencial. Porque há grande chance de a condenação de Lula ser anulada e ele voltar a tornar-se elegível. Isso, se em 2022 quem não estiver preso pelos crimes que cometeu for o próprio Moro.

CADÊ O DOSSIÊ?

Terminou hoje o prazo dado pela ministra Carmen Lúcia, do STF, ao ministro da Justiça, André Mendonça, para que fossem apresentadas explicações e fosse enviado, ao STF, o dossiê contendo os 579 nomes de servidores “antifascistas”. Seriam esses servidores policiais e “formadores de opinião” (no caso, professores).

Em reposta dada à ministra Carmen Lúcia, André Mendonça ratificou a necessidade de manutenção do sigilo das informações sobre os servidores, o que comprova a configuração de um Estado policialesco e fascista no governo Bolsonaro. Com desculpas esfarrapadas no idioma “juridiquês”, o ministro bolsonarista da Justiça descartou qualquer possibilidade de compartilhar o tal dossiê, o que representa uma clara ameaça ao Estado Democrático de Direito.

Amanhã o ministro terá que se explicar ao Congresso, em audiência virtual. Esperamos que os parlamentares exijam do ministro a exibição do dossiê. E nunca é demais lembrar que a tal “secretaria” do Ministério, que foi a responsável pela elaboração do dossiê, uma espécie de arapongagem contra os servidores, foi criada pelo então ministro Sérgio Moro. E disso parece que o Bozo gostou.

BOZO PLANEJOU GOLPE MILITAR

“Bolsonaro queria mandar tropas para o Supremo porque os magistrados, na sua opinião, estavam passando dos limites em suas decisões e achincalhando sua autoridade. Na sua cabeça, ao chegar no STF, os militares destituiriam os atuais onze ministros. Os substitutos, militares ou civis, seriam então nomeados por ele e ficariam no cargo “até que aquilo esteja em ordem.” (Trecho da reportagem da jornalista Mônica Gugliano, revista Piauí).

O Brasil esteve perto de sofrer um golpe. Ou, pelo menos, uma tentativa. Seria no dia 22 de maio de 2020, quando Bolsonaro anunciou que iria interferir no STF, enviando tropas e fechando a Suprema Corte e atendendo, assim, aos pedidos de seus insanos seguidores. O motivo? Bolsonaro entendeu que os ministros do STF estariam ultrapassando os limites em suas decisões e ameaçando a autoridade dele. Bolsonaro disse que iria “intervir” depois que o ministro Celso de Mello solicitou à PGR um parecer sobre a possibilidade de apreender o telefone de Bolsonaro e de seu filho Carlos, vulgo “Carluxo”.

A revelação sobre o golpe que foi aventado, discutido e acabou não se consumando, está em uma reportagem da revista Piauí, publicada nesta quarta-feira, 5 de agosto. Segundo a reportagem, Bolsonaro chegou a comunicar a seus ministros militares que enviaria tropas para fechar o Supremo Tribunal Federal, e certamente não seria “um cabo e um soldado”. Após fechar o STF, o próprio Bolsonaro nomearia os substitutos dos juízes depostos.

A reportagem é da jornalista Mônica Gugliano. Na conversa com os generais, Bolsonaro teria sido demovido da ideia. No entanto, a matéria afirma que o general Luiz Eduardo Ramos teria apoiado a proposta de golpe. Braga Netto e o general Heleno teriam sido contra. O general Heleno teria dito que “não é o momento”. Como se pudesse haver “momento” para golpe. A coisa torna-se ainda mais grave quando temos generais da ativa no governo.

A conspiração de Bolsonaro com os generais, quando foi discutida a ideia de um golpe, precisa urgentemente ser apurada. Bolsonaro e seus parceiros de farda do alto oficialato precisam ser ouvidos. Agora, é hora do próprio STF reagir, assim como o Congresso. E aí Rodrigo Maia? Vai dizer que também não vê crime?

A PORRADA QUE MORO LEVOU E A MANCHETE DO GLOBO

No dia seguinte a uma das decisões mais importantes tomadas pelo Judiciário brasileiro nos últimos tempos, que foi a decisão da primeira turma do STF de barrar a delação de Palocci do processo contra Lula, tendo em vista o flagrante uso político de tal delação, o jornal O Globo não faz qualquer referência a essa importante decisão em sua primeira página. Nem mesmo em um cantinho escondido. O jornal da família Marinho preferiu dar destaque, na sua primeira página, a uma entrevista de Flávio Bolsonaro, em que o filho enrolado do Presidente critica a própria Lava Jato: “Flávio critica Lava Jato e defende atuação de Aras”. Essa foi a principal manchete do Globo no dia seguinte à decisão da primeira turma do STF que viu parcialidade no então juiz Sérgio Moro, que entendeu que Moro cometeu ato ilícito ao usar a delação de Palocci contra Lula para beneficiar Bolsonaro na eleição.

Gilmar Mendes, em seu voto, foi bem claro e objetivo: “Moro pretendeu criar um fato político contra Lula.” A pergunta que não apenas Gilmar Mendes se fez, mas que qualquer pessoa de bom senso faria, é: por que Moro demorou tanto para divulgar a tal delação de Palocci? Isso porque Moro demorou 3 meses para juntar a delação de Palocci aos autos. Claro que essa demora foi proposital. Por que? Porque ele esperou um momento político adequado e esse momento foi exatamente quando faltava menos de uma semana para a eleição de 2018. O trecho abaixo, proferido por Gilmar Mendes, é contundente:

“Resta claro que as circunstâncias que permeiam a juntada do acordo de delação de Antonio Palocci no sexto dia anterior à realização do primeiro turno das eleições presidenciais de 2018 não deixam dúvidas de que o ato judicial encontra-se acoimado de grave e irreparável ilicitude”.

E Ricardo Lewandowski, que também votou pela retirada da delação de Palocci, completou:

A determinação da juntada dos termos de colaboração premiada consubstancia, quando menos, inequívoca quebra de imparcialidade”.

Ilicitude e quebra de imparcialidade. Dois evidentes fatores que já foram mais do que falados em relação a Moro no processo contra Lula, mas que agora é corroborado pela Suprema Corte. Edson Fachin foi o voto contrário (e vencido).

Não resta dúvida que essa decisão pode significar o início de um reparo, ainda que parcial, dos danos causados por Sérgio Moro à Justiça e à democracia brasileira. A decisão pode ser vista como uma prévia do julgamento da imparcialidade do juiz que foi decisivo na ascensão do fascismo ao poder.

Mas noticiar essa derrota do lavajatismo e especialmente do Moro, em sua primeira página, seria demais para O Globo. Estrategicamente eles deram destaque às críticas do Flávio Bolsonaro à própria Lava Jato. Só em um cantinho da página 14, sem qualquer destaque, O Globo menciona a porrada que Moro levou, sem dar qualquer destaque ao assunto. Esse é o “modo Globo” de fazer jornalismo “imparcial”. Conta outra!

Resta agora o julgamento de Moro pelos demais crimes cometidos quando atuou como ativista político travestido de juiz. E, aproveitando para responder ao Diogo Mainardi, dono do site lavajatista e de extrema-direita O Antagonista: Mainardi perguntou se agora vão condenar o Moro e absolver o Lula. Não sei se vão absolver o Lula. Há outros processos e outras instâncias. Mas que o Moro tem que ser condenado sim pelos seus crimes, disso nós não temos dúvida.

MINISTRO VAI TER QUE SE EXPLICAR

Antes mesmo de se explicar no Congresso André Mendonça, o ministro “terrivelmente evangélico” da Justiça, vai ter que se explicar no STF sobre o tal dossiê do governo, elaborado para perseguir servidores antifascistas. Em uma ação movida pelo partido Rede Sustentabilidade junto ao STF, a ministra Carmen Lúcia deu um prazo de 48 horas para que o ministro da Justiça dê explicações sobre o tal dossiê.

A lista, que até agora conta com 579 nomes, representa um dos maiores retrocessos da democracia, só comparável ao período da ditadura militar, quando existiam órgãos oficiais de informação, fichamento, monitoramento e repressão de cidadãos por motivos ideológicos.

Em entrevista à Globonews no último domingo, o ministro André Mendonça, em tom de enrolação, não confirmou e nem negou a existência do tal dossiê secreto.

No despacho da ministra Carmen Lúcia, sua decisão está assim resumida:

“ARGUIÇÃO DE DESCUMPRIMENTO DE
PRECEITO FUNDAMENTAL. ALEGAÇÃO
DE INVESTIGAÇÃO SIGILOSA NO
MINISTÉRIO DA JUSTIÇA CONTRA
OPOSITORES DO GOVERNO.
LIBERDADES E DEMOCRACIA. RISCO DE
INOBSERVÂNCIA DOS PRECEITOS
FUNDAMENTAIS DA CONSTITUIÇÃO
POR ÓRGÃO ESTATAL. ADOÇÃO DO
RITO DO ART. 10 DA LEI N. 9.868/1999.
REQUISIÇÃO DE INFORMAÇÕES
URGENTES.”

Ficamos na expectativa da explicação que André Mendonça deve não apenas ao STF, mas à toda sociedade brasileira. E que esse ministro “terrivelmente evangélico” saiba que democracia, Estado de Direito e os preceitos sagrados do artigo 5º de nossa Lei magna são valores inegociáveis.

A JUSTIÇA É TUCANA

Imagem acima: Fotomontagem de Elinaudo Barbosa.

A revista Época, em sua edição que foi às bancas nesta segunda-feira, 3 de agosto, traz um interessante artigo do jornalista Guilherme Amado, intitulado “O Legado de Toffoli”. E por que citamos a revista Época? Porque a Revista Época pertence às Organizações Globo. E as Organizações Globo foram grandes parceiras dos abusos, ilegalidades e até crimes cometidos pela Lava Jato. As mesmas Organizações Globo que, lá por 2016, por ocasião do golpe, atuaram de modo a expor as mazelas petistas, mas omitir, e até blindar, as mazelas tucanas. As mesmas Organizações Globo que, em seus noticiários, tinham igual omissão ao não mencionar o desequilíbrio e o parcial método de “dois pesos e duas medidas” quando a “Justiça” tinha que decidir sobre os petistas e sobre os tucanos. E agora, Dias Toffoli acaba que determinar a suspensão das investigações contra o tucano José Serra. Sobre o assunto, escreveu o jornalista Guilherme Amado em seu artigo:

“Mais uma vez, foi reforçada a percepção de desequilíbrio do sistema judicial brasileiro como um todo, quando se trata de suspeitas de corrupção que envolvem o PSDB… Houve discrepâncias de tratamento ao longo da Lava Jato quando os alvos eram tucanos.”

Diz ainda o jornalista da Época:

“Mas as decisões de Toffoli ao longo de julho confirmaram a percepção de que a correta e necessária rigidez que pautou o STF contra o PT, não se aplica quando o alvo é tucano.”

O artigo de Guilherme Amado, ao ser veiculado em uma revista do Grupo Globo, mostra que até aqueles que antes se calavam diante dos desmandos, dos abusos, das ilegalidades, da parcialidade e até dos crimes cometidos pela Lava Jato, agora estão, embora tardiamente, reconhecendo o quanto a operação danificou o sistema judiciário brasileiro. Notem que o jornalista se refere à “Justiça como um todo”. Num momento em que a Lava Jato está emparedada, em guerra com a PGR, com Sérgio Moro perto de ter sua parcialidade julgada pelo STF e com as denúncias de abusos e de suas relações promíscuas e ilegais com os Estados Unidos, um artigo vindo de um veículo da Globo, grande consorte da Lava Jato, e que tem em Sérgio Moro um de seus prováveis candidatos, mostra que a insofismável parcialidade da Lava Jato, ao poupar tucanos e ser abusiva com o PT, não é uma mera “conversa de petista ou esquerdista”, como muitos “encantados” falavam e alguns ainda falam.

E agora, até o PSDB, que nunca se posicionou contra os excessos e abusos da Lava Jato, parece ter mudado de opinião. Simplesmente porque agora, embora tardiamente e sem qualquer implicação eleitoral, a Lava Jato chegou em José Serra e Geraldo Alckmin. Bruno Araújo, o presidente do PSDB, aquele que deu o voto decisivo no golpe de 2016 e se aliou ao governo Temer, disse que tanto Serra como Alckmin possuem plena confiança do partido. Em entrevista ao Estadão, Bruno Araújo disse que “assistir Geraldo Alckmin ser denunciado por corrupção é um sinal perigoso e de desalento daqueles que querem fazer vida pública.” Logo ele, que tanto defendeu a Lava Jato!

Hoje está sendo noticiado que Bruno Araújo “vê excessos na Lava Jato”. Pois é, mas só agora? Onde estavam Bruno Araújo e o tucanato quando Lula foi conduzido coercitivamente, mesmo sem ter sido intimado a depor? Onde estavam Bruno Araújo e os tucanos quando Moro vazou ilegalmente para a Globo a conversa telefônica da Presidente Dilma? Onde estavam Bruno Araújo e os tucanos quando Moro divulgou a delação premiada de Palocci faltando menos de uma semana para a eleição? Onde estavam Bruno Araújo e os tucanos quando ficou provado que Moro agiu parcialmente, em conluio com procuradores e como assistente de acusação em um processo do qual era “juiz”? Nesses casos Bruno Araújo não viu excessos?

Agora, ele mostra-se indignado. Mas, para tranquilidade dos tucanos, parece que o “Legado de Toffoli” ainda vai durar muito. O presidente do STF, Dias Toffoli, que está para deixar o cargo, nas palavras do jornalista Guilherme Amado acaba de dar mais um “presente” para os tucanos, ao determinar a suspensão das investigações contra José Serra.

Parece que não tem jeito. A “Justiça” é mesmo tucana. E agora, quem está dizendo é um jornalista do próprio Grupo Globo. E podem ter certeza: esse jornalista não é petista, esquerdista e muito menos “comunista”. Apesar disso, e ao contrário dos fascistas que apoiam Bolsonaro, que fique claro: Não vamos fechar o STF!

MAIA NO RODA VIVA: “ME DÊ MOTIVO!”

Rodrigo Maia, o presidente da Câmara dos Deputados, foi o entrevistado de ontem no programa “Roda Viva”. Com dezenas de pedidos de impeachment de Bolsonaro sobre sua mesa Rodrigo Maia, ao ser questionado sobre o assunto, disse que não vê qualquer motivo para dar encaminhamento ao impeachment. Nem mesmo quando os entrevistadores lembraram os ataques de Bolsonaro às instituições democráticas e sua gestão temerária na pandemia do coronavírus. Maia afirmou que não vê qualquer motivo para que seja pautado o impeachment de Jair Bolsonaro.

E mais: disse que não aceitará qualquer tipo de pressão para que o processo de impeachment seja aberto e que o motivo que levou ao impeachment da ex-Presidente Dilma (as pedaladas fiscais) foi muito mais grave do que os crimes que estão citados nas dezenas pedidos do impeachment de Bolsonaro. Rodrigo Maia lembrou que ele próprio votou pelo impeachment da Dilma.

Maia ainda lembrou do Temer. Disse que o defendeu e que, mesmo com as provas escancaradas (“tem que manter isso, viu?”), ele não viu também qualquer motivo para o afastamento do Temer.

Depois dessa, pedindo licença a outro Maia, o saudoso Tim, lembro uma das canções que o imortalizou: “Me dê motivo”. O mandato de Rodrigo Maia termina em fevereiro e, depois da entrevista de ontem, certamente Bolsonaro irá cantar a música do saudoso Tim quando o Rodrigo Maia deixar a Presidência da Câmara: “Me dê motivo/Prá ir embora/Estou vendo a hora/de te perder…”

ANDRÉ, “O TERRÍVEL”, ENROLA E SE ENROLA

Quando, em julho de 2019, Jair Bolsonaro afirmou que indicaria para ministro do STF alguém que fosse “terrivelmente evangélico”, alguns potenciais cotados começaram a lamber os beiços. E um desses, certamente, era André Mendonça, então Advogado-Geral da União e conhecido de Bolsonaro. Naquela ocasião, Sérgio Moro que, na negociação feita para participar do governo, seria o indicado, já estava em processo de fritura. Com a saída de Moro, depois de usado, ruminado e cuspido do governo que ajudou decisivamente a levar ao poder, André Mendonça ocuparia o Ministério da Justiça.

André Mendonça é “terrivelmente evangélico” (mais terrível do que evangélico) e sua atuação no Ministério da Justiça tem sido totalmente para adular e agradar Bolsonaro. Claro que ele está de olho na vaga que outrora seria de Moro (pergunta para a Carla Zambelli). André Mendonça tem demonstrado ser daquela turma que defende pautas anti-democráticas e agressivas ao Estado de Direito, apesar de ser ministro da Justiça. Então, “se colar, colou”. Essa turma que está no poder já falou em AI-5, intervenção militar, fechamento do STF, fechamento do Congresso, ruptura institucional com consequências imprevisíveis (pergunta ao general Heleno). Como as repercussões negativas foram estrondosas, então eles meteram a viola no saco. Mas, vez por outra, eles tentam. Agora, foi no próprio Ministério da Justiça, sob o comando de André Mendonça. Trata-se da famigerada lista, ou dossiê, de servidores públicos que estariam sendo fichados e monitorados por declararem-se “antifascistas”. A lista tem 579 nomes de servidores e é algo típico de governos fascistas. A própria Seopi (Secretaria de Operações Integradas), vinculada ao Ministério da Justiça, já havia confirmado a existência do dossiê de servidores públicos. Evidentemente, a repercussão foi a pior possível, visto que uma lista dessa natureza configura um atentado ao artigo 5º da Constituição Federal, além de evidenciar uma propensão à perseguição de servidores considerados desafetos por razões ideológicas. Porém uma lista dessa natureza agrada, e muito, ao Bolsonaro. E André Mendonça parece estar lá apenas para isso.

Então, André Mendonça foi cobrado em uma entrevista exibida ontem, na Globonews, para explicar-se sobre esse absurdo. Sua resposta, ao ser perguntado pelo dossiê, é digna da antologia filosófica que contrariaria o pensamento de Parmênides e o princípio lógico da identidade. Disse André, “o terrível”:

“Não posso confirmar, nem negar a existência.”

Bela resposta. Muito “esclarecedora”. Seria André Mendonça um cético pirrônico, em total estado de ataraxia, ao suspender o seu juízo? Foi pior do que se ele admitisse a existência do tal dossiê o que, aliás, já foi admitido por fontes do próprio Ministério da Justiça, sob a justificativa de que tratava-se de “atividade de rotina”. A resposta nebulosa de André Mendonça dá ainda ares mais nebulosos ao lamentável episódio. André Mendonça não engana e nem enrola ninguém. Ao contrário, ele é que se enrolou. Claro que o dossiê existe e já há até movimentação na Câmara dos Deputados para convocar o ministro para dar explicações. Esse “evangélico” é mesmo terrível…

COMPADRIO ESCANDALOSO NO BNDES

Lembram da caixa-preta do BNDES que Bolsonaro disse que ia abrir? Ele abriu. O governo pagou 48 milhões pela “chave” e logo fechou. Porque Bolsonaro não encontrou o que pretendia e propagava que iria encontrar, apenas para encantar idiotas. Coisa do tipo “acabou a mamata”. Que tal reabrir a tal caixa-preta?

E parece que a hora é essa. Acabam de ser anunciados três contratos de consultoria do BNDES com um consórcio, com o objetivo de formatar as privatizações que o banqueiro-ministro Paulo Guedes pretende realizar. O consórcio receberá cerca de 9,7 milhões pelo serviço. E, haja “coincidência”, uma das empresas que faz parte do consórcio vencedor é a G5 Partners Consultoria e Participações. E um dos sócios da G5 Partners, que venceu a licitação, é ninguém menos que o presidente do conselho de Administração do BNDES, Marcelo Serfaty. Trata-se de um escandaloso conflito de interesses, no qual o presidente do Conselho de Administração do BNDES esteve dos “dois lados do balcão”. Marcelo Serfaty também é amigo e já foi até sócio do Paulo Guedes. Está tudo “em casa”. Um vergonhoso e escandaloso esquema de compadrio e mistura de interesses público e privado.

A informação de mais esse escândalo no BNDES, é do jornalista Patrick Camporez, do Estadão. A matéria, fartamente documentada, acrescenta que o presidente do conselho de Administração do BNDES ainda permanece tendo participação na G5 Parteners. Que tal abrirmos agora toda essa caixa-preta? Porque os “podres” que o Bozo falava que iria encontrar, estão aparecendo é no governo dele.

FHC “ESQUECE” SERRA, ALCKMIN E ALOYSIO

“Justiça aceita denúncia, e Serra vira réu sob acusação de lavagem de dinheiro.” (Folha de São Paulo, em 29 de Julho de 2020).

“Justiça Eleitoral aceita denúncia e Alckmin vira réu por caixa 2, corrupção e lavagem de dinheiro.” (G1, em 30 de julho de 2020).

“Ministério Público pede que Aloysio Nunes devolva 854 mil aos cofres públicos, recebidos da Odebrecht em 2010 em suspeita de caixa 2.” (G1, em 29 de julho de 2020).

Fernando Henrique Cardoso, o colunista bissexto de O Globo, hoje voltou a publicar sua coluna no jornal da família Marinho. Os temas abordados por FHC em sua coluna costumam ter como mote clichês baratos em defesa da “estabilidade democrática” e “combate à corrupção”. Suas colunas sempre abordam, partindo destes temas, os assuntos mais recentes do cenário político brasileiro e ele, invariavelmente, critica o PT pela tragédia que se instalou no poder da República em 2018, embora ele próprio tenha confessado que “lavou as mãos” no segundo turno, mesmo com Bolsonaro prometendo que iria fuzilá-lo. Crítico ferrenho da “corrupção”, esperávamos, pela “moralidade” que sempre defendeu, que FHC abordasse em sua coluna de hoje os escândalos antigos e que tardiamente apareceram, dos quais seus correligionários tucanos José Serra, Geraldo Alckmin e Aloysio Nunes (o vice da chapa do Aécio) são protagonistas. Serra e Alckmin viraram réus na semana que terminou. E Aloysio Nunes é alvo de uma ação cível de ressarcimento proposta pelo Ministério Público. Lavagem de dinheiro, corrupção, caixa 2, tem de tudo. Mas FHC nada mencionou em sua coluna de hoje. Afinal, “corrupção só acontece no PT”, mesmo com o seu PSDB protagonizando as páginas policiais na última semana.

Ao invés de abordar os temas habituais, FHC preferiu homenagear dois grandes mestres, que completariam 100 anos em 2020: Celso Furtado e Florestan Fernandes. Falar desses dos ícones da Economia e da Sociologia é sempre interessante. Mas FHC poderia, também, ainda que em uma nota destacada, comentar sobre os crimes de seus correligionários. Mas preferiu apenas a homenagem, aliás merecida, aos dois grandes mestres.

Será que ele “esqueceu” do Serra, do Alckmin e do Aloysio? A primeira frase de seu artigo é: “O ser humano é dotado de memória”. Mas parece que, nesta coluna de hoje, FHC esqueceu de falar de assuntos importantes sobre a “corrupção” que ele tanto diz combater. Claro, o ser humano é dotado de memória, como ele diz na abertura de seu artigo. Mas em alguns momentos, principalmente quando interessa, a memória também é seletiva.