VAMOS RASGAR O VÉLEZ!

meu capitão robin williams“Oh capitão! Meu capitão!” (Saudação dos alunos, transgredindo o poder opressor da escola e seus métodos, ao professor John Keating, personagem de Robin Williams, no filme “Sociedade do Poetas Mortos”, de 1989).

No ano em que o filme “Sociedade dos Poetas Mortos” completa 30 anos, infelizmente tudo leva a crer que novos professores do tipo John Keating, vivido por Robin Williams, terão que surgir em nosso país. E tudo indica que vamos ter que rasgar muitas mídias e livros didáticos que parecem estar por vir.

Depois da afirmação absurda e descabida, sob todos os aspectos, de que “o nazismo foi um regime de esquerda”, o governo Bolsonaro, eternamente em campanha política, quer ir além. Agora foi a vez do obtuso e despreparado ministro colombiano da Educação, Ricardo Vélez, dizer que vai ordenar a mudança nos livros didáticos de história em relação ao golpe militar de 1964 e sua consequente ditadura que durou 21 anos. Entrando  na dança da “reinvenção da história”, Vélez também afirma que não houve golpe em 1964 e nega a existência da ditadura militar. Já que Vélez é colombiano, então poderíamos dizer a ele que negar o golpe de 1964 e a ditadura militar no Brasil é o mesmo que dizer que não houve FARC na Colômbia, que nunca existiu o Cartel de Medellín e que Pablo Escobar não era narcotraficante. O que o ministro colombiano diria em relação a essas afirmações sobre a história de seu país?

Agora o próprio Jair Bolsonaro vai oficialmente à ONU afirmar que “não houve golpe de Estado em 31 de março de 1964.” O governo panfletário de Bolsonaro acaba de enviar à ONU um telegrama com esta afirmação. Pelo menos em uma coisa concordamos com Bolsonaro: de fato não houve golpe de Estado em 31 de março de 1964. Isso porque o golpe de Estado que derrubou João Goulart e implantou a ditadura no Brasil não foi em 31 de março e sim em 1º de abril de 1964. No entanto, por razões óbvias, os militares jamais celebrariam a data em que tomaram o poder de assalto em 1° de abril.

“Nazismo é de esquerda”, “não houve golpe em 1964 e nem ditadura militar”. Tanto o ministro colombiano como Bolsonaro querem reinventar e estuprar a história. Então, vou logo avisando ao Bolsonaro que assim como nenhuma mulher, a história também não merece ser estuprada como você e o ministro olavista estão fazendo. Como ficarão os livros de história a partir das mudanças que o colombiano pretende fazer? E as provas de História do ENEM, que serão previamente vistoriadas e analisadas pelo “historiador e cientista político” Jair Bolsonaro?

O problema é que eles não estão estuprando apenas a história do Brasil. Se, para eles, o nazismo é de esquerda, então, como explicar que o Exército Vermelho de Stálin invadiu Berlim, derrotou o nazismo e cravou sua bandeira nos escombros nazistas? Como explicar que o nazismo é de esquerda se comunistas e socialistas foram alvos da sanha facínora de Hitler e enviados aos campos de concentração? Como explicar, se o nazismo é de esquerda, que os capitalistas e a alta burguesia apoiaram e financiaram o regime de Hitler?

E como não chamar de ditadura um regime que prendeu, torturou, baniu do país e matou opositores, dentre eles professores, estudantes, jornalistas, artistas, operários, padres, pessoas que jamais pegaram em armas? Como não chamar de ditadura um regime que implantou a censura, invadiu teatros e redações de jornais, fechou sindicatos e centros culturais, proibiu o funcionamento de centros acadêmicos e até da União Nacional dos Estudantes? Como não chamar de ditadura um regime fechou o Congresso Nacional e implantou o AI-5, que cassava mandatos de parlamentares e concentrava todos os poderes nas mãos de um general não eleito pelo povo? Como não chamar de ditadura um regime que fechou os partidos políticos e acabou com as eleições diretas para Presidente da República, a ponto de o Brasil ter um dado vergonhoso em sua história: em 1989, ano da primeira eleição para Presidente pós-regime militar, todo brasileiro que tivesse até 46 anos de idade jamais havia votado para Presidente da República. Muitos morreram sem exercer esse direito inalienável da democracia. É tudo isso e muitas outras atrocidades que o despreparado e incompetente ministro colombiano da Educação quer negar nos novos “livros didáticos” que seu ministério, um “antro rançoso do olavismo”, pretende lançar. Já na avaliação do “historiador e cientista político” Jair Bolsonaro, todas essas barbaridades não passaram de meros “probleminhas”.

Desde já conclamo os professores de história: Vamos rasgar o Vélez! Ou seja, se algum livro didático que nega a verdade histórica nos for imposto pelo colombiano, vamos repetir o gesto do ator Robin Williams, protagonista do icônico filme “Sociedade dos Poetas Mortos”. Porém, diferentemente do Robin Williams no filme, vamos rasgar não apenas uma página, mas todas, e nos tornarmos “o capitão” em nossas aulas, tal como o professor da “Sociedade dos Poetas Mortos”. Porém, um capitão muito diferente daquele que defende torturadores e quer negar a ditadura e a verdade histórica.

Fiquem abaixo com a inesquecível cena “capitão, meu capitão!”, de “Sociedade dos Poetas Mortos”:

 

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