PLAYBOY, PEDE PRÁ SAIR!

aécioAécio Neves, o “ex-ídolo dos bolsonaristas”, está com os dias contados no “Novo PSDB”. O partido, tomado de assalto por João Dória, já está trabalhando para 2022, visando eleger o atual governador de São Paulo para o Palácio do Planalto. Ao virar réu depois de pedir propina de 2 milhões a Joesley Batista, em um escândalo que, apesar de rumoroso, “emudeceu” muitos “moralistas”, o agora “Novo PSDB” quer ver o playboy do pó pelas costas. Ter Aécio no partido seria, para Dória, um estorvo à sua candidatura presidencial. Parece que João Dória irá conseguir fazer o que os cardeais tucanos, defenestrados por ele do partido, não conseguiram ou não tiveram a coragem de fazer.

O ocaso do PSDB original, aquele fundado em 1988 como dissidência do PMDB, não vem de hoje. Pouco a pouco, o partido foi tornando-se liberal, isso já no governo FHC. As posturas privatistas e anti-nacionalistas na economia, além do ataque aos direitos dos trabalhadores, também contribuíram para que o PSDB deixasse de ser, de fato, uma opção social-democrata. Porém, o inconformismo com a derrota eleitoral em 2014, o protagonismo do PSDB no golpe de 2016 e sua participação no governo criminoso de Temer, acabaram com o partido, do ponto de vista ideológico, moral e eleitoral. Nem com seus seus principais nomes, como FHC, Serra e Alckmin, sendo poupados pela Justiça, apesar de vários escândalos, o partido conseguiu decolar. E Dória o tomou para si.

Resta sabermos qual será o destino do Aécio. Algum partido irá aceitá-lo? Talvez ele até abra  mão de seu mandato de deputado e aceite uma vaga de emprego como despachante de bagagens do avião presidencial. A conferir.

 

PALAVRA DE MIGUEL REALE JÚNIOR

reale moro conspirou“O que espanta é essa proximidade. Conspirando contra a defesa. Presumia-se que a 13ª Vara fosse um juízo rigoroso, mas não comprometido.”  (Miguel Reale Júnior, jurista, anti-petista, tucano e um dos autores do pedido de impeachment de Dilma, sobre a conduta parcial de Moro enquanto juiz, em declaração à coluna “Painel”, do jornal Folha de São Paulo, em 6 de julho de 2019).

O que mais chama nossa atenção no escândalo da Vaza Jato é que o mesmo não reflete uma divisão exclusivamente política. Seria muito simples dizer que petistas estão contra Moro e anti-petistas de todos os matizes estão a favor de Moro. Não. A questão não passa por aí. Desde que veículos da imprensa como a revista Veja e o jornal O Estado de São Paulo, nitidamente anti-petistas, passaram a condenar as ações de Moro como juiz, especialmente sua parcialidade cristalina, então ficamos convencidos de que a questão não é exatamente política. Até o Reinaldo Azevedo, jornalista que tem um histórico de anti-petismo, denuncia os crimes processuais e a postura parcial de Moro.

E, a cada dia, a cada novo pacote de revelações do escândalo, nomes que outrora ninguém imaginaria ficar contra Moro, vão aparecendo. Agora foi o jurista Miguel Reale Júnior. Para quem não lembra, ele foi um dos autores do pedido de impeachment da ex-presidente Dilma. E Miguel Reale foi bem claro, ao afirmar que Moro, enquanto juiz, “conspirou contra a defesa.” Alguém chamará Miguel Reale Júnior de “esquerdopata”?

As jornadas de 2013 dividiram o país. A eleição de 2014 dividiu o país. O golpe de 2016 dividiu o país. A eleição de 2018 dividiu o país. Porém, em todos esses casos, a divisão foi nitidamente política. Bem diferente do que ocorre agora, quando não podemos dizer que trata-se de uma divisão apenas política. Isso porque, até setores da direita e antigos apoiadores de Moro vêm a público demonstrar estarem decepcionados e admitem as absurdas ilegalidades cometidas pelo então juiz Moro contra Lula.

A divisão atual vai muito além da política. Começamos a perceber que a estratégia de dizer que “quem é contra Moro é contra o combate à corrupção” vai sendo desconstruída cada vez mais. Como não poderia deixar de ser, o número de apoiadores de Moro vem reduzindo e já começa a transformar-se apenas em um nicho de bolsonaristas radicais.

A fala de Miguel Reale Júnior é mais um exemplo da situação. Se o cara que sempre foi anti-petista e encaminhou o pedido de impeachment contra Dilma, diz que “Moro conspirou contra a defesa de Lula”, então a coisa vai bem além do que simplórias divisões políticas possam tentar esconder.

A questão, essa sim, é a defesa do Estado de legalidade, democrático e de direito. É a defesa de instituições como o Judiciário e o Ministério Público, que Moro agrediu. É a defesa de garantia, a todos os cidadãos, de uma Justiça equânime e imparcial. Exatamente tudo o que Moro não realizou. Especialmente porque Moro conspirou contra a defesa de Lula. Especialmente porque Moro estava comprometido. Palavra de Miguel Reale Júnior.

UM MARRECO NO HIPÓDROMO

MARRECO NIKA“Até quando o prestigia, o presidente o diminui.” (Ricardo Rangel, empresário, referindo-se a Jair Bolsonaro e Sérgio Moro, em artigo publicado em “O Globo”, de 6 de julho de 2019).

“Povo vai dizer se Moro está certo.” (Jair Bolsonaro, ao confirmar que levará Sérgio  Moro à final da Copa América, no Maracanã).

Desde que rasgou a toga, assumiu o seu viés político fascista e tornou-se ministro bolsonarista, Sérgio Moro vem passando por inúmeros constrangimentos e vem tendo sua imagem vilipendiada até por quem, outrora, havia dito que ele seria um “super-ministro”. E isso bem antes do escândalo da Vaza Jato, dentro do próprio governo e pelo próprio Presidente Bolsonaro, que já o desautorizou, deu-lhe uma rasteira no pacote anticrime e começou a frustrar seu sonho carreirista ao dizer que “estava na hora de termos um evangélico no Supremo.”

Logo após o início do escândalo da Vaza Jato, Bolsonaro ficou arredio. Certamente, quis testar as reações favoráveis e contrárias a Moro e só entrou em defesa do ex-juiz depois de ter percebido que, embora muitos patos e marrecos, inclusive da mídia, tenham pulado do barco, Moro ainda detinha uma popularidade que o permitisse bancar o escândalo. E, mesmo assim, o Bozo frisou: “confiança 100% só em pai e mãe.”

A primeira estratégia foi a mais populista e rasteira: levar Moro ao jogo do Flamengo contra o CSA, em Brasília, pelo Campeonato Brasileiro. Vaias e aplausos sempre virão, mas evidentemente que o público de um estádio não é o suficiente para aferir a popularidade de ninguém. Em relação ao jogo do Flamengo, diversas manifestações de flamenguistas pelas redes sociais repudiaram o fato de Moro, junto com Bolsonaro, terem vestido a camisa do clube. Nas redes sociais, foi gigantesca a repulsa de rubro-negros. E a torcida Flamengo Anti-Fascista, por exemplo, realizou um imenso protesto, que teve a adesão de milhares de torcedores pela rede.

O expediente de usar espaços públicos, especialmente de diversões e jogos esportivos, é muito antigo na história. Os imperadores romanos sempre apareciam no Coliseu, mas nos momentos de crise essa presença não deixava de ser um teste. No Império Bizantino, o Hipódromo era o centro esportivo e político, onde “verdes” e “azuis”, adversários políticos, esportivos e religiosos, digladiavam-se, enquanto o Imperador, lá da tribuna, capitalizava politicamente. Hitler ia ao Estádio Olímpico de Berlim. Médici, vez por outra, também aparecia pelo Maracanã.

Agora, Bolsonaro diz que levará Sérgio Moro ao Maracanã para assistir à final da Copa América entre Brasil e Peru. Afirma Bolsonaro que “o povo vai dizer se Moro está certo.” E, ao que parece, Moro irá submeter-se a mais esse papel ridículo. Nada contra Moro ir ao jogo. É comum qualquer autoridade pública ir a jogos, mas com uma postura que esteja dentro da liturgia e não como teste de popularidade previamente antecipado.  E sob a iniciativa do próprio Bolsonaro?

O que irá acontecer no Maracanã, além de uma partida de futebol, será um conflito de narrativas. No jogo em Brasília, vieram aplausos para Moro e Bolsonaro de pessoas que estavam na tribuna ou próximas a ela. Porém, as vaias também foram inevitáveis. E, apesar de Bolsonaro visivelmente possuir um nível intelectual tacanho, nessa ele está sendo cirúrgico: ele vai mesmo é jogar o marreco às feras e venha o que vier. Disse que Moro até entrará em campo após a partida. Se aplausos, serão para o seu governo. Se vaias, serão para o ex-juiz. A presença de Moro no jogo, amanhã, quaisquer que sejam os aplausos ou vaias, não evitará, no entanto, a continuidade da publicação dos escândalos protagonizados por ele e seus subordinados do MPF.

Se lembrarmos da Revolta de Nika, no antigo Império Bizantino, veremos que ela começou no hipódromo. Havia dúvida sobre qual dos cavalos tinha sido o vencedor. Como não havia “fotochart” e nem “VAR”, o imperador Justiniano declarou o seu próprio cavalo como vencedor. Esse ato teria sido o estopim para o início da revolta, visto que o povo torcia para outro cavalo. O cenário parece que será um “remake” exatos 1487 anos depois: alguém que recentemente já disse ser a “Rainha da Inglaterra” levará seu marreco ao hipódromo, querendo que ele seja, apesar de tudo, o “vencedor”. Mas, ao contrário do antigo Império Bizantino, a atual “Revolta de Nika” já começou bem antes de o marreco entrar no hipódromo…

 

 

 

 

MORO E FAUSTÃO PERDIDOS NA NOITE

new york times

“Para onde você corre quando os cruzados anticorrupção são sujos?” (The New York Times, sobre Sérgio Moro).

Depois de sair da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados aos gritos de “ladrão” e “fujão”, o ministro bolsonarista Sérgio Moro agora está sendo chamado de “sujo” pelo The New York Times, jornal que que nada, absolutamente nada, tem de esquerdista. A revista Veja, que por tempos chamou o então juiz Sérgio Moro de “herói”, também já assume em sua última edição o erro que cometeu, ressaltando em sua matéria que os diálogos divulgados na parceria com o The Intercept “violam o devido processo legal.” Palavras da Veja, não nossas.

Na parte da Vaza Jato divulgada hoje, foram analisadas quase 650 mil mensagens do Telegram, e a variedade de escândalos, ilegalidades, promiscuidades e até de cinismo são assombrosas. Até o apresentador global Faustão virou assessor de imprensa do juiz-acusador Sérgio Moro. Faustão sugeriu que Moro, em suas entrevistas, usasse uma linguagem do “povão” por ocasião das entrevistas coletivas. Claro que a Globo e/ou algum dos seus prepostos não poderiam estar fora dessa. Será que o Faustão faria uma recomendação dessa por conta própria? Olha a Globo começando a aparecer! Alguma novidade? Grande parte desse subterrâneo fétido também foi fomentado e divulgado com sensacionalismo pela “Besta do Jardim Botânico”.  Viu, sr. Sérgio Moro? Sensacionalismo!

Moro, em uma das conversas com seu subordinado do MPF, Deltan Dallagnol, mostra que se borrava mesmo de medo do Eduardo Cunha. Disso nós nunca duvidamos, especialmente porque Moro absolveu a mulher do gângster do MDB que havia feito gastos nababescos no exterior. O medo de Moro vinha das revelações que Cunha poderia fazer. Assim, as mensagens mostram que Moro não queria, de modo algum, uma delação de Cunha. Estas poderiam certamente nocautear os aliados do ex-juiz. Quando Moro soube de um possível acordo com Eduardo Cunha, disparou: “Espero que não procedam.” E Dallagnol, o subordinado de Moro, tenta tranquilizar seu chefe: “Só rumores. Não procedem.” Ao que se sabe, Cunha queria falar sobre Temer. Mas Moro não quis ouvir. Cunha também queria falar sobre dezenas de deputados, senadores e ministros. Mas Moro também não quis ouvir. E, em uma mensagem, diz a Dallagnol:  “Agradeço se me mantiver informado. Sou contra, como sabe.” Esse trecho de um dos diálogos é a prova de que Moro jamais quis combater a corrupção e que sua atuação sempre foi direcionada e seletiva. Como que um juiz que era tido como o “herói” na luta contra a corrupção não iria querer ouvir a saraivada de revelações de Eduardo Cunha? Quem Moro quis poupar? Bem, no meio de tudo isso, a senhora Cláudia Cruz, mulher de Cunha, foi absolvida… Por Moro…

Já souberam de um juiz que orienta a acusação, dizendo que “faltou uma prova”? E parece que a poeira já está subindo para outras instâncias, pois em uma das mensagens, em conversa de um grupo de procuradores, Dallagnol diz, em estado de êxtase: “Aha uhu o Fachin é nosso.” Evidentemente que o homem dos jejuns espirituais também tem que se explicar sobre essa. Se bem que um procurador dizer que um juiz do STF “é nosso” não tem nada de subliminar.

Hoje o jornalista Ricardo Noblat declarou que existem, dentre outros arquivos, cerca de 2000 áudios. O material está sendo sequenciado pelos jornalistas. Parece que o túnel da Vaza Jato será longo para Moro. E tudo indica que ele já está “perdido na noite”. Em caso de dúvidas, perguntem ao Faustão.

 

 

O “JUIZ LADRÃO”

juiz ladrão

“O senhor entrará para a história como um juiz ladrão.” (Glauber Braga, deputado federal do PSOL, ao ministro bolsonarista Sérgio Moro, em 2 de julho de 2019).

Na audiência realizada ontem na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara Federal, o deputado do PSOL Glauber Braga disse, na frente de Moro, aquilo que talvez, apesar de estar desmoronando, o ministro bolsonarista jamais imaginasse ouvir. Disse o deputado: “Juiz ladrão e corrompido que ganhou uma recompensa para fazer com que a democracia brasileira fosse atingida.” Ao fazer tal afirmação, o deputado Glauber esclareceu que fazia uma analogia com o futebol. Exemplificou com um juiz que marca um pênalti inexistente para determinado time. Esse mesmo juiz, ao final do primeiro tempo, vai ao vestiário desse time e dá instruções ao seu técnico e até sugere que ele troque determinado jogador que entende que não está tendo boa atuação. Ao final da partida, ajudado pela influência desse juiz, o time que ele beneficiou sai vencedor. A família do juiz, então, comemora a vitória desse time nas redes sociais. E pouco tempo depois, esse juiz já está ocupando um importante cargo na diretoria do time que ele ajudou a vencer. Para os futebolistas, não resta dúvida: esse juiz é mesmo um ladrão!

De certa forma, a política também não deixa de ser um jogo. E muitas vezes levantam-se suspeitas sobre decisões de árbitros de futebol. Talvez certas decisões sejam para não estragar “o jogo”. Mas, que “jogo”? Coincidentemente, no mesmo momento em que Moro foi chamado de ladrão, em virtude das evidentes fraudes e ilegalidades que praticou, o Brasil estava prestes a iniciar, no Mineirão, a partida contra a Argentina, pela semifinal da Copa América. Mas o que esta partida tem a ver com a audiência na Câmara? Bem, há uma declaração do comentarista de arbitragem do Sportv, Sandro Meira Ricci, que certamente ilustra bem o que um juiz de futebol (e também de direito) são capazes de fazer, inclusive aviltar as leis, desde que seja melhor para o “jogo”. E que declaração foi essa?

Aos 20 minutos do segundo tempo, o argentino Messi vinha em velocidade para entrar na área do Brasil. Naquele momento, o Brasil vencia por 1 a 0, mas a Argentina atacava mais. Daniel Alves, então, fez uma falta no argentino e deveria levar o cartão amarelo. Seria o segundo e ele estaria expulso. Daniel Alves atingiu a canela de Messi, parando o ataque. Ao ser acionado pelo narrador para emitir seu parecer sobre o lance e a decisão do árbitro equatoriano, disse Sandro Meira Ricci:

“Se ele não tivesse cartão amarelo, teria recebido. A decisão do árbitro foi a melhor para o jogo. O árbitro achou melhor não expulsar o Daniel Alves para não atrapalhar o jogo.”

Na sequência, Firmino marcou o segundo gol, decretando a vitória do Brasil. Chama nossa atenção o comentário de Sandro Meira Ricci, no qual ele afirma categoricamente que o árbitro tomou a decisão que teria sido a melhor para o “jogo”, mesmo tendo a mesma sido fora da lei. Afinal, melhor para que “jogo”? Haja eufemismos e corporativismos para justificarmos certas decisões absurdas e ilegais. E se o Daniel Alves tivesse sido expulso aos 20 minutos do segundo tempo como, aliás, deveria? Será que teríamos um outro “jogo”? Lembrando que os argentinos podem sim chamar de ladrão o árbitro, por ele ter preferido algo alheio à lei do que a própria lei. Então, que acabem-se as regras. Até porque, nas 17 regras do futebol, não existe nenhuma que fundamente o suposto motivo da decisão do árbitro, do modo como entendeu Sandro Meira Ricci.

No caso de Moro, ao ser chamado de ladrão, como em um jogo de futebol, há um “jogo” que está bem nítido desde o segundo turno da eleição de 2014, embora esse “jogo” tenha sido gestado nas jornadas de junho de 2013. Moro, o juiz, sabia o que era melhor para o “jogo”. O melhor para o “jogo” era condenar Lula, tirá-lo da disputa presidencial e favorecer a direita. Então Moro, como juiz, indica testemunhas e sugere a troca de uma procuradora. Isso, além de dizer que FHC é aliado. Dallagnol, o parceiro de Moro, afirma não ver provas consistentes contra Lula. Mesmo assim, Lula é condenado, fica impedido de disputar a eleição e Bolsonaro vence. Pelas redes sociais, a mulher de Moro festeja a vitória de Bolsonaro. Então, o juiz vai para o governo como ministro da Justiça. Tudo isso foi melhor para o “jogo”. Melhor para o jogo de quem? Do mesmo modo que o árbitro equatoriano de ontem, Moro também pode, em certos aspectos, ser chamado de “ladrão”. Até porque nada, absolutamente nada, que possa ser melhor para a Lava Jato, pode estar fora da lei. Senão, retrocederemos ao tempo daquele justiceiro pragmático que tem como máxima “os fins justificam os meios.”

Mas, infelizmente para Moro e sua trupe, em tempos de tecnologia de VAR nos estádios, parece que o VAR também chegou para acusar os desvios de conduta e as decisões ilegais que redundem em injustiças. Ao menos, por enquanto, no caso de Moro. Até hoje discute-se, no futebol, se Wilton, do Fluminense, fez um gol com a mão. Se Dé, do Vasco, jogou uma pedra de gelo na bola. Wilton e Dé, no futebol, viraram mais folclore do que história.

Porém, Moro e seus parceiros do Ministério Público já entraram para a história. Em sendo verídicas as mensagens do lodaçal da Lava Jato vazadas pelo The Intercept (e tudo indica que sejam, pois as mesmas estão sendo replicadas por diversos órgãos do jornalismo de vários matizes, inclusive alguns que outrora apoiavam Moro), então, a história não irá mesmo absolvê-lo e ele será, para a eternidade, o juiz ladrão. Porque o melhor para o “jogo” jamais poderá ser descumprir a lei. Até porque, assim como ainda não foi criada a regra 18 do futebol, também ainda não foi criado o artigo 812 do Código de Processo Penal.

O EXTERMINADOR DE MINISTROS

carluxo x generalNa prolecracia bolsonarista, é clara a influência decisiva do clã do capitão em assuntos  presidenciais. O tal “núcleo familiar” fomenta discórdias especialmente para atingir quadros que não se alinhem com o olavismo e tudo, absolutamente tudo, é motivo para conspiração. Nesse contexto, destaca-se o vulgo “filho 02” de Bolsonaro, Carlos Bolsonaro, que tem poderes absolutos para demitir ministros. Primeiro foi o Gustavo Bebianno, demitido pela vontade do “02”. Mais recentemente, o general Santos Cruz também perdeu a condição de ministro e, para isso, foi decisiva a influência de Carlos Bolsonaro. O núcleo militar do governo vem perdendo força e, decididamente, pode-se dizer que o Brasil vem sendo governado de fora, sob a tutela de um guru ideológico que mora nos Estados Unidos.

Agora parece que chegou a vez do general Augusto Heleno, o ministro do Gabinete de Segurança Institucional, cair em desgraça com Carluxo. Em uma de suas postagens, Carlos Bolsonaro diz não confiar nas pessoas responsáveis pela segurança sob o comando do general Heleno. Diz não acreditar no trabalho do general. Acrescenta que é um alvo e que sua vida corre risco. O general Augusto Heleno é aquele que, recentemente, em uma entrevista coletiva, visivelmente irado, deu murros na mesa e pediu a prisão perpétua de Lula. Será que ele terá a mesma atitude para responder ao filho do Bolsonaro? Vai entubar? Ou será o próximo tragado pelo exterminador de ministros?

BOZÓFILOS, MORO E O RACHA DA DIREITA

bozófilosOntem os bozófilos foram às ruas em manifestações pró-Moro. Manifestações esvaziadas e com a mesma pauta fascista de sempre: o fechamento dos poderes Legislativo e Judiciário. Para eles, basta um Executivo, onipotente e onipresente, tendo à frente um “mito enviado por Deus”. Mas os ataques fascistas não se limitaram aos poderes constitucionais. A imprensa também foi alvo de ataques da fúria bozófila. Imprensa que, agora parece, embora tardiamente, perceber que sofre na própria carne aquilo que, em grande parte, ajudou a parir. Imprensa que foi severamente crítica com alguns partidos e políticos e descaradamente condescendente com outros. Imprensa que, com sua postura seletiva e politicamente engajada, contribuiu para criar a falsa ideia de que a corrupção é uma praga exclusiva da esquerda. Com a detração dos demonizados, a mídia teve papel decisivo no golpe de 2016 e na ascensão da direita fascista. Pensavam que estavam plantando um “picolé de chuchu”, mas colheram um “bozo”.

Na micareta bozófila, além dos participantes defenderem as práticas de Moro como juiz, que, comprovadamente, estão muito abaixo da tal “moralidade” por eles pregada, houve, de quebra, a defesa do fim da previdência pública e exaltação ao preposto dos banqueiros, o banqueiro-ministro Paulo Guedes. Não importa se as revelações mostram que Moro mandou trocar procuradores. O que importa é que ele condenou Lula. Não importa se as revelações mostram que Moro indicou testemunhas de acusação. O que importa é que ele condenou Lula. Não importa se Moro fazia absolvições pontuais para fingir neutralidade. O que importa é que ele condenou Lula. Não importa se, como juiz, Moro cometeu absurdos crimes processuais, desvios de conduta ética e parcialidade política. O que importa é que ele condenou Lula.

Mas percebeu-se que tanto o governo como o conglomerado ultra-direitista está esfacelando-se. É nítida a queda de aprovação do governo, em apenas 6 meses. Isso, muito antes do escândalo da Vaza Jato. As revelações das condutas criminosas de Moro como juiz tornaram alguns de seus outrora ferrenhos apoiadores um tanto arredios. Outros, pularam mesmo do barco, incluindo-se aí a revista Veja, por exemplo. E a briga entre manifestantes reflete, de algum modo, o o “racha” precoce daqueles que levaram a extrema-direita ao poder. O MBL, por exemplo, foi hostilizado pela organização fascista Direita SP e por integrantes do PSL. Tudo indica que os participantes da micareta bozófila de ontem estarão divididos em 2022. Bolsonaro já anunciou a predisposição de reeleger-se, mas Dória já está em campanha e, para quem dizia “não ser político”, eleger-se prefeito e governador de São Paulo em apenas dois anos e tomar de assalto o PSDB, escanteando cardeais como FHC, Alckmin, Jereissati e Goldman, não é para amadores. Bem diferente de tomar o PSL de um neófito como Bebianno.

Moro, assim, será um espólio. Embora desgastado, desmoralizado e desmascarado, o ex-juiz ainda tem algum capital político, especialmente vindo dos hidrófobos anti-lulistas. Para esses, nada os convencerá do contrário. Para esses, Moro sempre será “herói”. A questão é: quem herdará o “espólio Moro”? Dória já antecipou-se e, no auge do escândalo revelado pelo The Intercept, condecorou o ex-juiz com a medalha Ipiranga e ainda ofereceu-lhe emprego, sabedor de que Moro balança no governo e que, ao que tudo indica, o tal “bilhete premiado” com a vaga no STF parece mesmo que não virá. E nem deu tempo de Moro converter-se em evangélico. O bolsonarismo perde terreno. Paulo Marinho, o mega-empresário que cedeu sua mansão para ser o escritório político de Bolsonaro, já fechou com Dória e agora manda no (novo) PSDB do Rio. Outros quadros importantes que contribuíram para a eleição de Bolsonaro, já migraram para o declarado candidato direitista à Presidência da República João Dória.

Quanto ao “espólio Moro”, que um dia foi juiz, tornou-se ministro de Estado e vislumbrava ser ministro do STF, pode ser que nada sobre e ele se agarre no emprego que Dória lhe ofereceu e seja mesmo candidato em 2022. E assumindo definitivamente aquilo que ele sempre foi: político. Independentemente do resultado, ao menos seria a primeira confissão de que ele nunca foi mesmo imparcial.