DAMARES DE AZUL?

damares de azul

No dia seguinte em que o vídeo que a Ministra fundamentalista Damares afirmou, em clima de festa com seus fanáticos séquitos, que “a nova era havia chegado no Brasil e que menino veste azul e menina veste rosa”, a Ministra compareceu à reunião da equipe ministerial trajando azul. Seria algum aviso, recado, autoafirmação ou, quem sabe, uma confissão?

De acordo com as próprias palavras da pastora fundamentalista que ocupa um Ministério que bem poderia ser chamado de “Ministério dos Costumes”, Damares sinalizou que não seria “menina”. Nem “princesa”. É conhecida a máxima de que quem muito se preocupa com certas coisas a um ponto obsessivo, é porque tem algo reprimido. Atitudes e discursos, no âmbito do consciente,  podem mostrar muito isso. Mas também o inconsciente pode falar. No caso da pastora fundamentalista, a cor foi quem falou. E o recado (ou confissão) foi retumbante.

Mas pode não ser nada disso. Pode ser que ela seja apenas uma menina e goste do azul. Como um menino também pode gostar do rosa. De qualquer modo, Ministra, que fique claro uma coisa:  de nossa parte, a senhora pode usar a cor que bem entender. Pode até passar debaixo do arco-íris…

OREMOS PELA PADROEIRA!

nossa senhora manto azul“Portela eu nunca vi coisa mais bela
Quando ela pisa a passarela
E vai entrando na avenida

Parece a maravilha de aquarela que surgiu
O manto azul da padroeira do Brasil
Nossa Senhora Aparecida que vai se arrastando…”

(Trecho do samba-canção “Portela na Avenida”, composto por Paulo César Pinheiro e Mauro Duarte, inesquecivelmente interpretado por Clara Nunes, 1981).

Exatamente no dia 12 de outubro de 1995, quando comemorava-se o dia da padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida, nosso país ficou marcado pela cena de um pastor da Igreja Universal chutando raivosamente a imagem de Nossa Senhora Aparecida. A Igreja Universal, um dos tentáculos basilares de apoio do governo Bolsonaro, há muito já disseminava ódio e intolerância. Mas, naquela época, vivíamos o primeiro ano do governo FHC e o fundamentalismo religioso ainda não era influente no governo. FHC apenas teve que se retratar, publicamente, e dizer que não era ateu, como havia afirmado 10 anos antes, o que resultou em uma derrota para Jânio Quadros na corrida à Prefeitura de São Paulo.

Hoje, a Ministra-Pastora Damares anunciou o início de uma “nova era”: “menino veste azul e menina veste rosa.” A mesma Ministra que afirmou ter visto Jesus na goiabeira, criou um novo estigma cromático. E o erro, proveniente da “gagueira metafísica”, poderá significar a execração, o ridículo, o anti-patriotismo, a recusa em se adaptar à “nova era”. Vermelho ninguém pode. Azul só meninos e rosa só meninas. A Pastora Damares, pelo que falou, não irá tolerar a padroeira de nosso país nessa “nova era”. O manto sagrado de Nossa Senhora é azul. Simplesmente porque o azul simboliza o céu. Mas Damares é evangélica e ela quer mais é que a Nossa Senhora se exploda. Oremos pelo manto sagrado. Oremos pela padroeira do Brasil. Oremos por Nossa Senhora Aparecida. Que Ela sobreviva à “nova era”!

O PERIGO DO “TRUMPISTÃO”

trumpDesde a campanha, passando pela transição-consórcio com o governo Temer e agora já empossado, que Bolsonaro decidiu que seria o “Trump Tupiniquim”. Assim como Trump, ele foi o “anti-mídia das redes sociais.” E até escolheu seu Ministério a partir de perfis que comprovam essa identidade. O anti-globalismo, o desprezo às pautas ambientais, incluindo o desrespeito ao Acordo Sobre o Clima e a rejeição da realização da conferência sobre o tema no Brasil.  Seu Ministro das Relações Exteriores, ao afirmar que o aquecimento global “é uma conspiração marxista”, conseguiu identificar “gases comunistas” na atmosfera, como o dióxido de carbono, o que irá requerer a união de ambientalistas e cientistas políticos para entender e explicar esse fenômeno, que parece ser de outro mundo.

Mas brincar de “Forte Apache” poderá custar caro ao nosso país. E, talvez, até a inocentes. A obsessão de família Bolsonaro em relação a Trump é tamanha que um de seus filhos até usa boné do Presidente norte-americano e já se deixou fotografar com a bandeira da supremacia branca. Mas tanto Bolsonaro como o “Trumpistão” poderão cair em uma armadilha feita por ele próprio.

Ainda antes de ser empossado, Bolsonaro delcarou que mudaria a embaixada do Brasil em Israel para Jerusalém. Seguindo, obviamente, o exemplo de Trump. O Primeiro-Ministro israelense, o ultra-direitista Netanyahu, elogiou a medida e até esteve com Bolsonaro antes da posse. A medida, temerária sob todos os aspectos, além de provocativa, contraria a comunidade internacional, poderá colocar o Brasil na rota do terrorismo e certamente trará prejuízos com parceiros comerciais árabes. Mas há um detalhe que talvez Bolsonaro e todo seu governo não estejam se lembrando. O governo Trump, que ele toma como modelo, está vivendo momentos de impopularidade. Deve-se ressaltar que Trump foi eleito tendo menos votos populares do que sua adversária, distorção que o sistema indireto de eleição presidencial dos EUA permite. Trump vem sendo questionado até entre seus pares do Partido Republicano. Trump sofre o risco iminente de impeachment.

Em novembro do próximo ano será realizada a eleição presidencial dos EUA e o eleito tomará posse m 20 de janeiro de 2021. Bem no meio do mandato de Bolsonaro. Há uma grande possibilidade de o Partido Democrata retomar o poder. E se um Presidente Democrata revogar a decisão de Trump, tirando a embaixada de Jerusalém? Ou até mesmo um republicano mais sensato que vença a eleição? Será que Bolsonaro já pensou nessa possibilidade?

Aqui no Brasil, o ultra-reacionário pastor Silas Malafaia, em tom relativamente ameaçador, já advertiu Bolsonaro de que o anúncio da mudança da embaixada para Jerusalém não podeira ter volta, pois não teria apoio dos evangélicos. Agora, imaginem Trump não sendo reeleito e um outro Presidente dos Estados Unidos voltar com a embaixada para Tel-Aviv? O que faria Bolsonaro? Seria fiel a Trump? Ou ao governo dos Estados Unidos? Correremos o risco de, certamente, apenas as embaixadas de Brasil e Guatemala estarem na cidade sagrada de Jerusalém, fomentando a ira dos palestinos. Porém, talvez reste um consolo e um recurso: os patriotas verdes-amarelos que “fizeram arminha” com os dedos, certamente demonstrariam seu amor ao país, alistando-se como voluntários para defenderem de atentados as embaixadas brasileiras pelo mundo afora. Talvez, a essa altura, até o Trump esteja no Brasil, mas cuidando de seus cassinos em uma quase certa legalização da jogatina. E ele não estaria nem aí para o “Trumpistão”…

A PRIMEIRA-DAMA E A “VAGABUNDA”

michelle discurso em libras

O governo Bolsonaro, iniciado no primeiro dia do ano, será um governo de privilégios e exclusões. Privilégios na reforma da previdência, que certamente excluirá dos sacrifícios as castas da toga, das casernas e dos parlamentares. Exclusões e desprezos, como o Presidente sempre demonstrou em relação a negros, índios e mulheres. Só para citar alguns exemplos. Entretanto, sua estratégia marqueteira prevê que sempre em seus discursos ou eventos mais significativos, um séquito negro apareça ao seu lado. E também mulheres, inclusive no Ministério, como a “musa do veneno”.

Mas o dia da posse mostrou uma ampliação dessa estratégia. A primeira-dama Michelle, em uma inédita quebra de protocolo, fez um discurso em Libras (Língua Brasileira de Sinais). O discurso de Michelle foi mais do que uma quebra de protocolo. Logo veio à lembrança de várias pessoas, que pronunciaram-se em seguida pelas redes sociais, a deputada Maria do Rosário, aquela que Bolsonaro chamou de “vagabunda” e ainda disse que “só não a estupraria porque ela não merecia, por ser muito feia.” Bolsonaro chegou a ser condenado por apologia ao estupro e ainda a pagar uma indenização à deputada. Foi a deputada Maria do Rosário que apresentou no Congresso a proposta da lei que regulamenta a profissão de tradutor de Libras, através do Projeto de Lei 4673/04, que acabaria sendo aprovado em 2009 com o voto contrário do então deputado Jair Bolsonaro. Apesar de ser chamada de “vagabunda” e “indigna de ser estuprada” pelo  marido da primeira-dama, Maria do Rosário elogiou o discurso de Michelle, afirmando que foi um “gesto positivo”. Isso é mais uma prova de que o vírus do ódio não chega entre aqueles que perderam as eleições nas urnas, embora continue fervendo o sangue de quem venceu.

Apesar de louvável, a iniciativa de Michelle não deve e não pode ficar só em um belo gesto durante a cerimônia de posse. Bem que a sua quebra de protocolo poderia simbolizar o início de uma quebra de barreiras como, por exemplo, a universalização da oferta de profissionais tradutores de Libras para as escolas. A rede pública do Estado do Rio de Janeiro, por exemplo, possuía tradutores de Libras em várias escolas, que foram tirados pelos governos que assaltaram o Estado. Quem sabe a primeira-dama pudesse usar de sua influência para que fossem realizados convênios com os Estados e Municípios e a oferta de tradutores de Libras voltasse para as escolas? As escolas precisam muito disso e testemunhamos o estrago que foi a retirada desses profissionais da rede estadual do Rio de Janeiro. O gesto da primeira-dama, elogiado por aquela a quem seu marido chamou publicamente de “vagabunda” pode muito bem resultar em ações efetivas de inclusão. O ato da primeira-dama pode ir além da posse e significar que, ao invés de impor a perseguição a professores com um instrumento fascista chamado “Escola Sem Partido”, o governo que inicia deve preocupar-se com demandas realmente úteis para a inclusão e o acesso ao conhecimento para todos: uma escola com crítica, pluralismo e Libras!

O COLETE COM MANGAS

colete com mangasFaltando apenas dois dias para o fim do ilegítimo, golpista e corrupto governo Temer, o vampiro do Jaburu só pensa em livrar-se de seus crimes a partir do primeiro dia de janeiro. Ele é engenhoso. Ele é astuto. Ele é frio e calculista. Conseguiu dar a rasteira na Dilma. Conseguiu livrar-se, por duas vezes, de denúncias da PGR comprando deputados. Mas também levou uma rasteira do Joesley dentro de seu próprio porão. Isso sem contar o escândalo do decreto dos portos, a serviço da Rodrimar. Daqui a dois dias, com a posse do capitão fascista, ele irá para a “vala dos comuns” da Justiça brasileira. Será? Pode ser que não.

Hoje chegou até nós a notícia de que os advogados de Temer jogarão uma última cartada para tentar livrá-lo de seus crimes. Como se fosse uma carta tirada da “manga do colete”. Ora direis: “Colete não tem mangas!”. E eu vos direi no entanto: “Se não tem, nós arranjamos e ainda inventamos uma nova carta no baralho!” A tal “carta” em questão seria a alegação de que seus feitos criminosos foram praticados durante o seu mandato e que, assim, poderia-se requerer que o julgamento dos mesmos venham a ser feitos pelo Supremo Tribunal Federal. Em outras palavras: ele não perderia o foro mesmo deixando a Presidência. Ainda se fala na possibilidade de Bolsonaro lhe dar uma Embaixada, talvez a da Itália. Mas depois do escândalo do motorista alaranjado da família do capitão, do cheque para a dona Michele e do trabalho da COAF, tudo indica que, no momento, o capitão terá que esquecer o presente talvez prometido ao Temer. Na verdade, o que os advogados do Temer querem, é que a Justiça crie uma outra jurisprudência. Ainda que esta atente contra a Constituição, desde que lhe favoreça. Temer e seus advogados têm todos os motivos para acreditarem na “Justiça”: afinal, trata-se da Justiça que livrou Aécio. A mesma Justiça que livrou Serra. A mesma Justiça que livrou Alckmin. A mesma Justiça que esqueceu Azeredo por 20 anos. Talvez essa fosse uma saída. Ficar esquecido por 20 anos nos arquivos do STF e só se explicar com Deus (e não com os homens) no além-túmulo.

Talvez a carta a ser tirada da “manga do colete” não seja tão difícil assim. Numa época em que jurisprudências criadas pela Corte Máxima agridem a própria Constituição, então não podemos duvidar. Mas Temer tem todos os seus amigos igualmente encrencados e que também poderiam ser beneficiados. Se a alegação dos advogados de Temer “colar”, a mesma poderia gerar um “efeito dominó” e ser aplicada, também, para o Moreira Franco e o Eliseu Padilha, por exemplo.

Certamente, trataria-se de uma matéria a ser julgada pelo Supremo: o “foro além-mandato”. Que seria, em outras palavras, no caso de Temer, o “foro pós-túmulo”.

Estaremos atento à posse no dia primeiro: Bolsonaro com o colete à prova de balas. E Temer, com o novo “colete com  mangas.” Vocês duvidam? Eu não! Eu acredito na capacidade criativa da Justiça brasileira. Só não sei se o Clodovil aprovaria esse novo modelito de colete.

O PILOTO SUMIU!

piloto sumiu

Fabrício Queiroz, o “piloto”, sumiu. Mas talvez não seja preciso apertar os cintos, como recomenda o título da comédia que fez sucesso em 1980. Queiroz, o motorista-assessor de Flávio Bolsonaro, deveria explicar as movimentações estranhas em sua conta alaranjada. Porém, o silêncio sepulcral dos “combatentes da corrupção” deve ter encorajado o piloto a sumir. Quanto aos cintos, certamente não será preciso apertá-los porque tudo indica que não haverá qualquer emoção.

Queiroz desapareceu. Não sei se ainda pesca junto com seu parceiro de horas de ócio, o Presidente eleito. O companheiro de pescaria do capitão reformado deveria depor no dia 21. Porém, alegou “doença”. Encontra-se internado. Parece que a coisa foi tão grave que ele teve que tomar anestesia. Qual seria a doença? Se foi intoxicação por ingestão de algum peixe contaminado, então a vida, mais do que nunca, está imitando a sétima arte. Teria sido algum baiacu que ele pescou junto com o Bozo?

Queiroz, sabedor da proteção e blindagem que já tem do governo a ser empossado no primeiro dia de janeiro, já faltou a dois depoimentos. E tudo indica que só falará quando quiser. O que quiser. Para quem quiser. Em relação ao “quando”, já é certo que o “laranja” só irá depor após a posse do capitão. Nos primeiros dias de governo, quando todas as atenções estarão voltadas para os Ministros e o Presidente em início de mandato, qualquer declaração do motorista ficará em segundo plano. Quanto aos 1 milhão e 200 mil reais, vida que segue, coisas da vida. Talvez, errar seja humano. Quem sabe uma desculpa do Moro? Ou ainda um conselho da Pastora-Ministra Damares para ver Jesus na goiabeira e então pedir perdão?

Pode mesmo ser que ele esteja doente. E, se foi contaminado por comida intoxicada, tal como no filme, o piloto talvez pudesse aparecer. Quem sabe com um “jejum espiritual” do Dallagnol em nome do combate à corrupção? Mas tudo indica que os procuradores que jejuavam há algum tempo também sumiram. Então, não haverá emoção. Relaxemos. Não é preciso apertar os cintos. Logo logo o silêncio sepulcral dará início a uma ruidosa campanha do tipo #queirozinocente ou #queirozlivre. E todos serão felizes para sempre!