GENERAL DESCOBRE A PÓLVORA

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“O cara não sabe nada, pô! É um despreparado.” (General Augusto Heleno, sobre Jair Bolsonaro, sem saber que estava sendo gravado, publicado no livro “Tormenta”, da jornalista Thaís Oyama).

Que Jair Bolsonaro é absolutamente despreparado, sob todos os aspectos, para o exercício de qualquer cargo público, isso não é novidade para nós. Péssimo militar, teve que ser reformado. Deputado federal absolutamente nulo, usou de suas décadas de mandato para exalar ódio e rancor. Mas quando alguém que é um de seus próprios pares e ocupa um cargo de primeiro escalão em seu governo diz que Bolsonaro é um despreparado, então a coisa não é invenção de adversários.

Foi no final da campanha eleitoral de 2018. O atual ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Augusto Heleno, em um jantar com empresários, sem saber que estava sendo gravado, disparou, referindo-se a Bolsonaro:

“O cara não sabe nada, pô! é um despreparado.”

A revelação da declaração sincera e bombástica do general Heleno aparece no livro da jornalista Thaís Oyama – “A Tormenta – o governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos”. É nesse mesmo livro que a jornalista Thaís Oyama revela que o ex-juiz-valentão-xerifão Sérgio Moro teria chorado quando Bolsonaro havia decidido demiti-lo, mas o mesmo general Heleno teria intercedido e salvo o emprego do marreco de Maringá.

Então, para o general Heleno, Bolsonaro não sabe nada e é um despreparado. Parabéns general! O senhor acaba de descobrir a pólvora!

 

 

A RODA SERÁ VIVA OU MORTA?

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No próximo dia 20, segunda-feira, às 22 horas, irá ao ar o primeiro programa Roda Viva do ano. A primeira edição do ano marcará a estreia da jornalista Vera Magalhães como apresentadora. O Roda Viva é um programa apresentado pela TV Cultura e especializado em entrevistar personalidades do mundo político, de todos os matizes ideológicos. E o entrevistado no primeiro programa do ano será o ex-juiz e sempre político, o ministro bolsonarista da Justiça Sérgio Moro.

O programa Roda Viva, que pretende apresentar-se como “isento”, terá uma grande oportunidade de demonstrar essa condição no próximo dia 20, especialmente em razão do convidado. O pluralismo do programa deve ser representado não apenas pela diversidade dos entrevistados, mas também pela diversidade de quem entrevista. Sérgio Moro já esteve no programa, em março de 2018. Porém, naquela ocasião, ainda como juiz e em sua redoma de “moralizador”, “soldado contra a corrupção” e “redentor da Justiça” Moro, ainda encoberto pela auréola que a mídia golpista o outorgou, desfilava como se fosse a voz da Justiça que saiu do mundo das Ideias de Platão e deslocou o seu modelo para a Terra. Porém, no meio do caminho, mais precisamente no mês de junho de 2019, havia um The Intercept, que desnudou o viés político, a parcialidade e o conluio entre Moro e procuradores, em uma relação subterrânea, imoral, criminosa e abjeta, que desmoralizou o agora ministro bolsonarista e teve o repúdio até mesmo de veículos da mídia que sempre o apoiaram. Há muitas perguntas a serem feito a Moro, não apenas em relação às revelações do The Intercept, mas também sobre o conteúdo do livro “Tormenta – O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos”, de Thais Oyama, que fala do episódio deprimente que Moro teria protagonizado, ao chorar quando Bolsonaro ameaçou demiti-lo por conta de sua crítica à suspensão das investigações contra o filho do Presidente e que, dali para frente, Moro teria jurado fidelidade a Bolsonaro e passado a expressar publicamente essa fidelidade em forma de servilismo para não perder o emprego. Será que esses episódios serão objeto de perguntas a Moro?

Fica agora a expectativa sobre os jornalistas convidados para sabatinarem Moro e, de quebra, uma pergunta: o programa Roda Viva será “chapa branca”? A pergunta se faz necessária, tendo em vista que quando Manuella D’Ávila foi a convidada do programa, colocaram um batalhão de jornalistas com a missão de emparedar a então candidata a vice na chapa de Haddad. Um dos convidados, inclusive, era um político e fazendeiro bolsonarista que não deu trégua para a Manuella. E agora? Quem serão os “jornalistas” convidados? Tudo bem que um dos convidados, por exemplo, seja o lavajatista-morista-global Merval Pereira. Tudo bem em se convidar algum jornalista do site ultra-direitista e perpétuo defensor de Moro, O Antagonista. Porém, especialmente depois dos subterrâneos revelados pelo The Intercept, caso não haja nenhum jornalista do The Intercept entre os entrevistadores, então ficará comprovado que o programa será um palanque político para Moro e que a isenção do programa é conversa para boi dormir. O laureado jornalista Glenn Greenwald, em seu Twittter, afirmou que seria um ato indesculpável e covarde a ausência de um jornalista do The Intercept entre os convidados para entrevistar Moro. E ainda podemos até questionar se a ida de Moro ao programa foi negociada, com a escolha prévia, pelo ministro bolsonarista, de quem irá entrevistá-lo. Hoje já está sendo divulgada a notícia de que Moro estaria cogitando desistir de comparecer ao programa caso o The Intercept participe da entrevista, o que seria a comprovação de sua covardia e fraqueza.

O programa Roda Viva terá uma grande oportunidade no próximo dia 20 de janeiro de mostrar se é isento ou parcial, se é unívoco ou plural e, principalmente, se a roda será “viva” ou “morta”. Iremos conferir.

PARABÉNS PETRA! O RESTO É “MECANISMO”…

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“Numa época em que a extrema direita está se espalhando como uma epidemia esperamos que esse filme possa ajudar a entender como é crucial proteger nossas democracias. Viva o cinema brasileiro!” (Petra Costa, diretora de “Democracia em Vertigem”, indicado para o Oscar de melhor documentário, pelo Twitter).

“Para quem gosta do que urubu come, é um bom filme.” (Jair Bolsonaro, cheio de ódio, recalque e rancor, sobre o documentário “Democracia em Vertigem”, indicado para o Oscar).

O recalcado, inculto, tosco e fascista Jair Bolsonaro mais uma vez assaca contra a cultura brasileira. Mas não tem mesmo jeito. Tudo e todos a quem ele menospreza e desdenha, acaba ganhando destaque internacional positivamente, ao contrário dele que, internacionalmente, já virou pilhéria e motivo de vergonha para o Brasil perante o mundo. Primeiro foi o Chico Buarque. Bolsonaro sempre odiou o Chico. Então, o Chico ganhou o Prêmio Camões de Literatura de 2019. Inimigo das artes e dos artistas, Bolsonaro disse que não assinaria o prêmio ganho pelo Chico (que é chancelado pelos governos de Brasil e Portugal), o que o compositor considerou um segundo prêmio. Isso sem falar do Paulo Freire, a quem criminosamente Jair Bolsonaro chamou de “energúmeno”. Orgulho do Brasil no exterior, Paulo Freire ganhou incontáveis prêmios internacionais e, enquanto Bolsonaro não quer que Paulo Freire seja estudado no Brasil, ele é objeto de estudo em vários países.

Até com a ativista adolescente Greta Thunberg ele vomitou seu ódio, chamando a menina de “pirralha”. Pois foi só Bolsonaro chamá-la, de forma desdenhosa, de “pirralha”, que ela logo depois foi eleita a “Personalidade do Ano” pela revista Time. Já há até quem garanta que Bolsonaro, covarde como sempre, não irá à Conferência de Davos de 2020 com medo de encontrar a “pirralha”, que certamente iria engoli-lo em um debate. Principalmente porque, na Conferência, a Amazônia será um dos temas. Já pensou Bolsonaro falando em Davos que o Leonardo Di Caprio mandou tacar fogo na Amazônia? Mas há um outro “destaque” nisso tudo: enquanto a adolescente sueca foi eleita “personalidade do Ano” pela Time, Bolsonaro foi eleito o “idiota do ano” por uma TV francesa.

Agora é o documentário “Democracia em Vertigem”, da cineasta brasileira Petra Costa, que fala sobre a ascensão da extrema-direita no Brasil e o golpe que levou à derrubada da ex-Presidente Dilma. “Democracia em Vertigem” acaba de ser indicado pela Academia de Hollywood para o Oscar de melhor documentário.  Aqueles que se vestiram de patos amarelos agora podem rever o papel deplorável que fizeram e como se expuseram ao ridículo em nível internacional. Claro que Bolsonaro e seus séquitos logo vão dizer que a Academia de Hollywood “é comunista ou esquerdista”. Bolsonaro pode ainda dizer que a indicação não passou de uma “retaliação do Leonardo Di Caprio”.

Qualquer obra de arte, inclusive cinematográfica, pode ter um viés ideológico, até porque não existe “neutralidade” ou “grau zero de ideologia” em nada. Mas quando se trata de um documentário, as coisas são diferentes. Um documentário deve primar pela autenticidade das fontes, pelo compromisso com a verdade, pela fidelidade dos fatos narrados e pelo embasamento documental. Então, o que o documentário “Democracia em Vertigem” tem para ser indicado ao mais importante prêmio do cinema internacional? Certamente, tudo isso.

Independentemente do que vai acontecer na entrega do prêmio, o recado foi dado e assimilado pelas cabeças pensantes do cinema mundial. A verdade sobre o golpe contra Dilma que levou a extrema-direita ao poder e um juiz parcial ao ministério da Justiça está exposta e internacionalmente reconhecida. Agora, parece que o mundo inteiro poderá saber do golpe, dos golpistas e dos patos-robôs. Parabéns Petra Costa! Parabéns ao cinema brasileiro! Parabéns à cultura brasileira! O resto é “mecanismo”…

 

O “FIAT LUX” DE BOLSONARO

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“O Espírito Santo não quer palmas. Ele quer que você ponha a mão no bolso.” (Edir Macedo, o “bispo” bilionário que é dono da Igreja Universal e apoiador do governo Bolsonaro, aos seus “fiéis”, em vídeo que viralizou nas redes sociais).

Edir Macedo, Silas Malafaia, RR Soares, Valdemiro Santiago, e poderíamos citar vários outros menos votados. O que eles possuem em comum? São milionários, verdadeiros mascates da fé e que, além de enriquecerem com seus negócios “da China” em suas igrejas com a exploração da fé, ainda desenvolvem intensa atividade política em seus templos. Milagres e sessões de curandeirismo, ao vivo pela TV, charlatanismo barato e toda uma montagem cênica em que vendem desde águas milagrosas até tijolos de plástico. Tudo por dinheiro. Hoje, inclusive, está sendo divulgado um vídeo que mostra o pastor bolsonarista Valdemiro Santiago cobrando entre 300 e 1000 reais para que os fiéis coloquem as suas digitais em sua capa de batismo. Donos até de emissoras de TV, seus “templos sagrados” são verdadeiras máquinas de fazer dinheiro. E, ainda por cima, gozam de inacreditáveis privilégios tributários. Mas, para Bolsonaro, isso ainda não é nada para esses “pobres mensageiros de Deus”.

Jair Bolsonaro anda muito preocupado, talvez com as “dificuldades financeiras” pelas quais Edir Macedo e Silas Malafaia, por exemplo, devem estar passando. Então, Bolsonaro lançou a proposta de nós, sim, todos nós, com o nosso dinheiro, pagarmos as contas de energia elétrica dos templos sagrados desses “emissários de Deus”. Sim, não é brincadeira. Bolsonaro quer subsidiar as contas de luz dos templos religiosos, para diminuir os seus custos e, consequentemente, aumentar os lucros dos mascates- charlatões-curandeiros-exorcistas. O gasto para dar mais essa “dádiva de Messias” aos donos de Igrejas custaria, segundo já adiantou o próprio ministro das Minas e Energia, Bento Albuquerque, “apenas” 30 milhões por ano. Aliás, nas palavras do ministro bolsonarista, seriam “insignificantes 30 milhões por ano”.

Não é subsídio para escolas ou hospitais. Não é subsídio para bolsas de estudos ou para esportes. Não é subsídio para instituições de pesquisa em dificuldades financeiras. Não é subsídio para reduzir o preço de passagens de ônibus ou o preço do leite. Não é subsídio para o Hospital do Câncer de Barretos, só para dar alguns exemplos de para onde esses “insignificantes” 30 milhões, nas palavras do ministro, poderiam ir. É subsídio para que os donos das Igrejas que deram apoio a Bolsonaro, especialmente as evangélicas, aumentem os seus já astronômicos e pornográficos lucros.

Lembrando, caso mais essa proposta indecente e absurda seja aprovada, que todos nós iremos arcar com esse tal “subsídio”, através de um encargo que viria em nossas contas de luz. Tudo para “fazer a luz” de Macedos, Malafaias, Santiagos, Soares e similares. É o verdadeiro “fiat lux” de Bolsonaro para seus milionários apoiadores mascates da fé. Isso, porque “a mamata ia acabar.” Sinceramente, esse “fiat lux” de Bolsonaro nada tem a ver com o do Deus que ele e seus séquitos dizem estar acima de todos.

PRAÇA BELMONTE 2020

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Foto acima: a Praça Belmonte unida, jamais será vencida! Foto: Mídia do blog pedropaulorasgaamidia.com.

“De geração em geração

Estão aqui prá você ver

a nascente da folia

Vai contagiar você.” (Trecho do samba composto por Chiquinho Neves, que já foi “Bocão” e “Parafuso”, para o Bloco Carnavalesco “Rola Cachaça”, da Praça Belmonte , em Olaria).

Foi no antigo e saudoso “Café e Bar Oleiros”, na esquina da Rua Delfim Carlos com a Praça Belmonte, em Olaria, que hoje aconteceu mais um encontro dos amigos da Praça Belmonte. Saindo dos nichos de grupos do WhatsApp e do Facebook, que dividem as pessoas, os “amigos das antigas” mais uma vez mantiveram a tradição de reencontrarem-se no segundo sábado de janeiro. O “Café e Bar Oleiros”, que era, em tempos idos, mais conhecido como “Bar do Seu Zé”, foi o palco de mais um encontro de amigos que passaram a infância, juventude e boa parte da vida adulta juntos, na sempre imponente Praça Belmonte. Ali, o bar já não é mais o “Oleiros”, mas ainda é bar. A praça já não é mais um campo de areia, mas uma quadra cercada por bancos e jardins. E o coreto, bem acima do rio Nunes, que corta a praça, permanece imponente. E, nesse cenário, saindo do zap, hoje os amigos mais uma vez se reencontraram.

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Foto acima: Grandes expoentes da história da Praça Belmonte no encontro de 11 de janeiro de 2020, vendo-se Ney, Wiltinho, Wilsinho, Ginho, Oswaldo, Ronaldo, Doutor Fernando e Dija. Foto: Pedro Paulo Vital.

Mas “Oleiros” não entrou para a história apenas por ser o “Bar do seu Zé”. Como toda família ou irmandade, a Praça Belmonte viveu um momento de cisão, em que os sempre amigos dividiram-se em “Oleiros” e “Tranquilidade”. Futebol e samba unia a todos mas, certa vez, um desentendimento levou a Praça Belmonte a ter dois times. E no “clássico” que refletiu uma rivalidade passageira o “Oleiros” venceu o “Tranquilidade” pelo magro placar de 1 a 0. Vitória apertada pois, segundo todos os testemunhos, o time do “Oleiros” era muito melhor. Felizmente, essa foi a única contenda, pois logo todos estariam em um mesmo lado, especialmente no “Bloco Rola Cachaça”, que também foi o time de futebol que unificou os belmontinos de Olaria.

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Foto acima: Ginho, Serginho, Luizinho, doutor Fernando, Wiltinho, Teteu e Adriano. Foto: Pedro Paulo Vital.

Hoje, lá estiveram figuras que fizeram essa história: Dr. Fernando, Wilsinho, Wiltinho, Gerson, Dija, Ney, Beto Tru, Janinho, Adriano, Vitor, Cazuza, Chiquinho, Coró, Luiz Pim Pim, Celso, Ginho, Ronaldo, Pedrinho, Rato, Wellington, Marcelo, Mongol, Tomas, Maninho, Betinho do Som, Oswaldo, Luiz Cabeça, Luizinho, Regina, Paulo Boi, Esquerdinha, Sérgio Prego, Serginho, Cláudio, Careca, Jorginho, Anderson Jacaré, Zé Maluco, Índio, Mosca, Teteu, Zém Ferreira e Jorge Macumba. Alguns não puderam comparecer. Outros, que já partiram e estão em outro plano, de onde estiverem também participaram e o sol escaldante de hoje não foi, portanto, a única luz.

A liturgia não mudou: cerveja, churrasco, reencontro de amigos e um grande bate-papo entre os parceiros de sempre e para sempre. Claro, agradecer a todos, mas vale uma menção honrosa ao Beto Tru (administrador da festa), doutor Fernando (a “ONU” da Belmonte), Adriano (o churrasqueiro quase que perpétuo), Betinho do Som, Cazuza e Ginho. Graças a eles, o reencontro dos amigos no dia de hoje foi organizado, prazeroso e emocionante. Quem foi que disse que amigos hoje são só virtuais? A Praça Belmonte, com seus amigos eternos, sempre mostrará que nunca foi, não é e jamais será assim, não apenas no segundo sábado de janeiro, mas em todos os dias de todos os anos.

A seguir, mais algumas imagens desse histórico encontro:

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Foto: Pedro Paulo Vital.

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Foto: Pedro Paulo Vital.

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Foto: Pedro Paulo Vital.

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Foto: Pedro Paulo Vital.

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Foto: Mídia do blog pedropaulorasgaamidia.com.

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Foto: Pedro Paulo Vital.

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Foto: Pedro Paulo Vital.

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Foto: Pedro Paulo Vital.

FREIRE, MARINHO E O ACERVO DO PCB

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“Não inventamos o Huck, ele já era agente político. Ele é forte onde o Lula é: nos setores mais populares.” (Roberto Freire, sobre o apresentador global Luciano Huck, em entrevista à Folha de São Paulo, em 10 de janeiro de 2020).

Em 1994 estive na sede do Partido Comunista Brasileiro, na Rua das Marrecas, no Centro do Rio de Janeiro, para coletar fontes documentais e depoimentos de personalidades do partido pra um trabalho que então fazia sobre a história dos partidos políticos brasileiros. Ao chegar à sede do “Partidão”, fui recebido por um de seus históricos militantes, Raimundo Alves, um gráfico, que viria a falecer em 2006. Depois de uma rápida conversa com Raimundo Alves, perguntei pelo acervo documental do partido, para que eu pudesse realizar algumas consultas. Foi quando Raimundo Alves, com uma mistura de raiva e indignação, me disse:

“O filho da puta do Roberto Freire deu todo o acervo do partido para o Roberto Marinho!” 

Jamais esqueci dessa afirmação do Raimundo Alves e, em grande parte, a sua indignação em forma de raiva me ajudou a entender muita coisa. Roberto Freire, que havia sido candidato a presidente da República pelo PCB, deixou o partido e veio a fundar o PPS (uma versão revisionista e “renovada” do comunismo, após a crise e as reformas realizadas na antiga União Soviética). Até aí, tudo bem, seria uma dissidência. Mas eu nunca entendi o porquê de o acervo do PCB ter ido parar nas mãos do Roberto Marinho. E de fato foi. O partido para o qual o ex-comunista Roberto Freire migrou, o PPS, dava a impressão de ser um partido social-democrata, de linha reformista e situado no campo da centro-esquerda. As palavras nada amenas de Raimundo Alves não deixavam dúvidas: Roberto Freire era mesmo um traidor do “Partidão”, especialmente depois de ter presenteado o Roberto Marinho com a memória do partido que havia abandonado. Até então, Roberto Freire era tido apenas como “um traidor do PCB”. Mas, com o tempo, ele seria um traidor de toda a esquerda. Alianças e apoios a partidos, governos e medidas da direita fariam então de Roberto Freire um dos nomes mais abominados de praticamente todos os partidos de esquerda. Até ministro do governo golpista-tucano de Temer ele foi.

Hoje chega até nós uma entrevista, publicada ontem na Folha de São Paulo, em que Roberto Freire faz uma confissão deprimente: ele aliou-se a Fernando Henrique, com quem já está trabalhando para que o apresentador global Luciano Huck venha a ocupar o espaço de Lula na fatia mais popular do eleitorado. Desprezando os partidos políticos e chamando-os de “coisas do fim fim do século XIX”, o ex-esquerdista Freire supervaloriza os chamados “movimentos”, como o “Agora” de Luciano Huck. Na mesma entrevista, Roberto Freire elogia e abre as portas de seu atual partido, o Cidadania, para a deputada Tábata Amaral, aquela que traiu os trabalhadores votando a favor da reforma da previdência e que foi eleita com o dinheiro do empresário Jorge Paulo Lemann, o homem mais rico do Brasil.

Hoje, Roberto Freire se joga nos braços de FHC e lança Luciano Huck para fazer frente a Lula. 26 anos após a minha visita, como pesquisador, à sede do PCB, agora eu entendo, com todas as letras, a indignação do saudoso Raimundo Alves. Não foi só a traição, algo comum na vida política. Mas parece que o namoro iniciado com Roberto Marinho em 1994 “deu samba”. Agora, ele também apóia Luciano Huck, o candidato dos filhos do Roberto Marinho. Triste fim para um ancião de 77 anos que se deixou levar pela cooptação da direita reacionária. Pelo menos, devolva o acervo que você surrupiou do PCB!

PERDEU FASCISTA!

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“A luta continua, mas a vitória é nossa. Muito feliz, muito feliz. Anauê.” (Eduardo Fauzi, o terrorista fascista, comemorando a censura ao “Porta dos Fundos”, em 9 de janeiro de 2020).

Com direito à saudação integralista “Anauê”, o terrorista de extrema-direita Eduardo Fauzi, foragido na Rússia, comemorou ontem, em um vídeo, a censura judicial imposta ao especial “A Primeira Tentação de Cristo”, do grupo “Porta dos Fundos” . Por decisão do desembargador Benedicto Abicair (o mesmo que foi complacente e tolerou Bolsonaro por declarações racistas e homofóbicas em nome da “liberdade de expressão”), o especial que satirizava Jesus Cristo teve que ser tirado do ar.

Mas a festa do fascista durou pouco. Ontem mesmo, uma liminar do Presidente do STF, Dias Toffoli, derrubou a censura que havia sido imposta ao especial do “Porta dos Fundos”, que agora está liberado para ser veiculado, ao menos até o julgamento do mérito.

O Brasil vive tempos obscuros e a arte, a ciência, a educação e a cultura de um modo geral são os grandes alvos do atual governo de extrema-direita, que é apoiado pelo terrorista Fauzi. Não há dúvidas de que esse Eduardo Fauzi é um tentáculo do bolsonarismo. Bolsonaro, aliás, não fez nenhum pronunciamento sobre o atentado sofrido pelo “Porta dos Fundos”, mas prestou total solidariedade ao Luciano Hang, seu apoiador e dono das Lojas Havan, quando do incêndio do clone da Estátua da Liberdade de uma das lojas de Hang. Reiteramos que, caso seja comprovado que o incêndio da tal estátua foi criminoso, o mesmo terá toda nossa repulsa. No caso do Fauzi, ele é réu confesso.

A reparação feita no STF não significa na verdade nada a ser comemorado. Simplesmente a Constituição, em seu artigo 5º, foi cumprida. No ano passado, quando o prefeito-pastor fundamentalista do Rio de Janeiro também censurou um livro na Bienal, ordenando que seus exemplares fossem recolhidos, o STF teve que ser acionado para que a estúpida censura fosse suspensa. A verdade é que os fascistas saíram do armário e estão sentindo-sem empoderados com o governo Bolsonaro que, de forma tácita ou expressa, inegavelmente os apóia. Por isso, a resistência pelo exercício dos direitos mais fundamentais, como os consagrados no artigo 5º da Constituição, deverá ser permanente. Mas, por ora, respondendo ao vídeo do terrorista, podemos dizer: Perdeu fascista!