E DAÍ?

Bolsonaro está infectado com o novo coronavírus. Ontem o próprio Bolsonaro anunciou, pessoal e presencialmente, que o resultado de seu exame havia dado positivo. Poderíamos nos perguntar “E daí?”, não como desdém à doença e às suas vítimas fatais, como fez o próprio Bolsonaro. Nosso “E daí?” também nada tem de desejo de morte ao Presidente, como ele próprio desejou, em 2015, que a ex-Presidente Dilma morresse infartada ou de câncer. O “E dai?” foi uma interrogação que fizemos tão logo soubemos que Bolsonaro havia entrado para a estatística dos infectados. Uma interrogação que expressava nosso total pessimismo em relação às atitudes delinquentes do Presidente diante da tragédia humana que assola o Brasil. “E daí?” foi a nossa primeira expressão de certeza de que Bolsonaro, mesmo depois de vitimado pelo coronavírus, não mudaria seu modo de agir. Quem sabe ele poderia aproveitar a oportunidade de ter contraído a doença para, humildemente e, em um gesto de grandeza que caracteriza todo governante que pode ser chamado de “estadista”, abandonar seus dogmas negacionistas e, finalmente, agir como um líder em torno do combate à doença? López Obrador, Presidente do México (que é de esquerda), pensava do mesmo modo que Bolsonaro. Refletiu e, humildemente, voltou atrás e mudou os seus conceitos, para o bem de seu povo. O mesmo fez o primeiro-ministro da Inglaterra, Boris Jonshon (de extrema-direita como ele), que também chegou a contrair o vírus depois de desdenhá-lo e acabou, posteriormente, pedindo desculpas ao povo por seus erros. Nesse aspecto, palmas para Obrador e Boris Jonshon, independentemente de um ser de esquerda e outro de direita.

Mas seria exigir demais de Bolsonaro uma postura de estadista, coisa que ele jamais será. Como disse Fernando Haddad em sua entrevista ao programa “Roda Viva” na última segunda-feira, “Bolsonaro não consegue sair do modo eleição”. No fundo, ele ainda não assumiu a Presidência da República e continua eternamente “em campanha”.

Chamou atenção o fato de Bolsonaro anunciar em tempo recorde que havia testado positivo. E mais: exibindo o exame com seu verdadeiro nome. Por que Bolsonaro mudaria a postura, visto que, recentemente, recusou-se a exibir o exame (que teria dado negativo) e usando um nome falso? No fundo, essa infecção pelo vírus pode ter “vindo a calhar” para Bolsonaro. Aparentemente, ele foi contagiado de forma mais branda e, com a excelente assistência médica que possui, logo será curado. Por isso, tomou a atitude de exibir um vídeo ridículo e criminoso em que aparece ingerindo a famigerada cloroquina. Tudo para influenciar os seus seguidores e dizer que sua cura foi resultado da droga que ele insiste em fazer propaganda. Mas o vírus também veio a calhar por vários outros motivos: ontem, a notícia do teste positivo de Bolsonaro empanou assuntos que, graças ao vídeo, acabaram esquecidos: o depoimento de Flávio Bolsonaro, acusado de desvio de dinheiro público, foi esquecido. A Saúde e a Educação sem ministros também foram foram esquecidas. E Bolsonaro certamente incluirá, em seu currículo, o fato de ter sobrevivido ao “vírus comunista”, como o classificou o chanceler Ernesto Araújo. Só não sabemos se, dessa vez, assim como foi no episódio da facada, o coronavírus será igualmente chamado de “vírus santo”.

EDUCAÇÃO E SAÚDE À DERIVA. E VIVA O 4 DE JULHO!

No momento em que o país mais precisa de ministros da Saúde e da Educação, os dois ministérios estão à deriva e o país rumo ao caos. Na Saúde, o cargo de ministro é simbolicamente ocupado por um general-paraquedista que aceitou fazer o papel de “cartório” do negacionismo bolsonarista. Já a Educação nunca teve, na prática, qualquer ministro e os que por lá passaram, especialmente Weintraub, limitaram-se a agredir a Educação e a travar uma incessante guerra ideológica em defesa dos princípios olavistas. Nada mais. Na Saúde, o prazo de validade de “interino” do general já expirou há tempos. E médico que honre a sua formação e respeite a ciência não poderá, jamais, fazer o papel que o general prestou-se a fazer para o capitão. Desonroso para o general. Desonroso até para as Forças Armadas.

Como se não bastasse a pandemia, onde oficialmente o governo nega a sua gravidade e até a desdenha, a Educação passa por um momento extremamente crítico. E, por incrível que pareça, o próprio Bolsonaro virou refém dos olavistas, que parecem mesmo mandar no MEC, mesmo depois da saída de Weintraub. Foram eles, os olavistas, que colocaram o Renato Feder para correr sem ele sequer ter assumido. Feder, um cara de direita e privatista da Educação, não foi aceito pelos olavistas, que confessam que o Ministério da Educação deve ser uma seara de guerra ideológica. O Twitter do deputado federal bolsonarista Carlos Jordy, comemorando a desistência de Feder, mostra muito bem isso. Escreveu o deputado bolsonarista:

“Não basta ser técnico, tem que ser conservador. A guerra cultural só não existe se deixarmos o adversário ter a hegemonia.”

De certo modo, o próprio Boslonaro sempre falou mesmo foi para essa turma. Desde a campanha, sem qualquer projeto para a Educação, repetia mantras como “doutrinação marxista”, “escola sem partido”, “banir o Paulo Freire”, “kit gay” e outras barbaridades. Projeto para a educação, nenhum. Ele apenas incentivava essa guerra, e continuou incentivando já como Presidente. A ponto de o Weintraub, que chamou as universidade federais de “centros de balbúrdia com plantações de maconha”, ser tido como um dos ministros que ele mais gostava.

Só que o Bolsonaro levou um “tranco” com a prisão do Queiroz e a iminente prisão da mulher do “laranja” de sua família. Então ele, seguindo conselhos de não olavistas, baixou a crista, moderou o tom autoritário, deixou de parar no curralzinho de seus seguidores para vomitar besteiras, não fez mais declarações polêmicas e nem ameças golpistas se garantindo nos milicos e, finalmente, entregou-se ao “Centrão”. Antes a “velha política” do que o impeachment. Renato Feder era bem aceito pelo “Centrão”, que tem votos no Congresso. Mas não era aceito pelos olavistas, que representam parte significativa nos tais 30%. No fundo, a Educação hoje está sendo disputada pelo “Centrão” e pelos olavistas, com os milicos correndo por fora. E por isso Bolsonaro sabe que, seja qual for a indicação, esta lhe trará problemas em termos de apoio político. Pior: ele precisa tanto do “Centrão” como dos olavistas. Do “Centrão” pela governabilidade. E dos olavistas para que a chama da guerra ideológica, que ele próprio sempre pregou e incentivou, não se apague.

Enquanto isso a Educação, a exemplo da Saúde, agoniza sem ministro e sem projetos. Questões cruciais da Educação precisam de soluções: quando será o ENEM? Quando e de que modo as aulas presenciais retornarão nas escolas e nas universidades? Como ficará o calendário letivo de 2020? Essas questões, de urgência urgentíssima, necessitam de um diálogo e ações sincronizadas entre os Ministérios da Educação e da Saúde. Mas o Brasil está sem ministro nas duas pastas. E, em meio a toda essa situação, Bolsonaro lançou Feder na arena dos olavistas e evangélicos e, solene e alegremente, foi comemorar a Independência dos Estados Unidos…

TRUMP IRÁ COMEMORAR O “7 DE SETEMBRO”?

Imagem acima: Bolsonaro, filho e ministros comemoram a Independência dos Estados Unidos. Todos sem máscaras. Foto: Twitter.

4 de julho de 2020. Um dia em que o Brasil não tinha nada a comemorar, com nosso país chegando à casa dos 65 mil mortos pela Covid-19. Mas Bolsonaro tinha sim o que “comemorar”: era a data da Independência dos Estados Unidos. E, em sua subserviência ancilar aos EUA, Bolsonaro, com toda uma comitiva de primeiro escalão e com direito ao “Dudu Bananinha” de penduricalho, foi até a Embaixada dos Estados Unidos comemorar a data mais importante dos norte-americanos.

O ato de Bolsonaro representa um dos momentos de maior subserviência aos Estados Unidos. Comemorar o quê na atual situação? E mais: comemorar a Independência dos Estados Unidos? Não veríamos qualquer problema se, através do Twitter oficial, por exemplo, o Brasil enviasse congratulações ao povo estadunidense pela data. Aliás, isso poderia ser feito com todos os países. É uma forma, inclusive, de se manter um bom relacionamento com todas as nações. Mas o que foi visto ontem foi o cúmulo do servilismo de um governo para cujo país Trump apenas “faz e anda”…

Na foto, publicada pelas redes sociais, aparecem Bolsonaro e sua comitiva nas dependências da representação diplomática dos Estados Unidos, comemorando o “4 de julho”. Como já era de se esperar, todos sem máscaras.

Como os Estados Unidos são um “grande parceiro”, um “grande aliado” e um “grande amigo” do Brasil, sendo o próprio Trump muito “amigo” do Bolsonaro, ficamos na expectativa da retribuição da visita ao nosso embaixador lá em Washington no dia 7 de setembro. Certamente, para além do “estreito relacionamento” e “amizade pessoal”, Trump deve, também, ficar muito sensibilizado com a data de nossa independência. Por isso, ficaremos aguardando, para fazer o devido registro, a visita de Trump com vários de seus ministros, na Embaixada do Brasil nos EUA no dia 7 de setembro. Será que o Trump vai dar o “bolo” e não vai comemorar o 7 de setembro? Fala aí Bozo…

EDUCAÇÃO E O JÓQUEI DO ELEFANTE

Não chega a ser incoerente a proposta de Renato Feder, um dos cotados para assumir o Ministério da Educação, de privatizar todo o ensino e acabar com o MEC. Feder, empresário da Educação e outros “negócios”, já propôs isso. Em se tratando de um governo em que apoiadores, inclusive deputados federais, participam de manifestações pelo fechamento do Congresso e do STF, não pode ser surpresa a vinda, para a Educação, de um ministro que um dia já falou em acabar com o próprio Ministério da Educação. E, em se tratando de um governo que acabou com os Ministérios do Trabalho e da Cultura, acabar com o da Educação certamente faria parte do combo de devastação. Feder é daqueles que chamam o Estado de “elefante”, mas que estão sempre querendo fechar contratos para ganhar dinheiro do “elefante”. Em seu livro “Carregando o Elefante”, ele diz, sem eufemismos, qual o seu projeto para a Educação:

“Após uma fase de cobrança de mensalidades, deve-se partir para a completa privatização do ensino superior e, em seguida, fazer o mesmo com o ensino fundamental, com os cursos técnicos e com a pré-escola. Todos esses ciclos devem ser adaptados ao sistema de vouchers.”

Não, não estamos tendo nenhuma alucinação visual. O disparate que acabamos de ler foi escrito por alguém que está cotado para ser o ministro da Educação do Brasil e encontra-se na página 116 do seu livro “Carregando o Elefante”. Na verdade, o que o Feder quer mesmo, como empresário, é “pilotar” o tal elefante. Ele quer ser o “jóquei do elefante”. Seu físico até permite.

Mas Renato Feder tem problemas e, por isso, ainda não foi oficializado. Primeiro é a resistência da fanática ala olavista, que se julga “dona” do Ministério. Olavo de Carvalho foi até parcimonioso em sua verborragia, ao mandar uma indireta para o Renato Feder, chamando-o de “empresário metido a gênio”. Mas, além da ala olavista, a ala evangélica, não em nome de “Deus”, mas em nome do orçamento de mais de 100 bilhões anuais, também quer barrar a indicação do empresário. A bancada evangélica apoiadora do Bozo (e chantagista) está ameaçando com a retirada do apoio, caso a nomeação de Feder se confirme. Enquanto isso o “Centrão”, novo aliado do Bolsonaro em sua “nova política”, asiste a tudo apreensivo, visto que Feder tem o apoio do bloco das siglas prostitutas para quem Bolsonaro já se arreganhou.

Mas os problemas do empresário que quer ser ministro da Educação para privatizar a educação não param por aí. Não sei se o “currículo” dele pode trazer algum empecilho, mas talvez as “tenebrosas transações” sim. Feder é sócio da empresa Multilaser, que tem contrato com o próprio Ministério da Educação. Como alguém pode ser ministro de um Ministério com o qual faz negócios? Mas há um outro problema. Na Secretaria de Educação do Paraná, Feder fez contrato, sem licitação, com uma emissora afiliada da TV Record para a transmissão de teleaulas durante a pandemia. Uma reportagem do The Intercept mostrou que o sinal da RIC (Rede Independência de Comunicação), a afiliada em questão, não chega em 165 cidades do Paraná, o que deixou milhares de alunos sem acesso às aulas.

Enquanto isso, Bolsonaro vai assistindo às reações, denúncias e à exposição do “currículo” do indicado. Parece que dessa vez ele não será tão célere em confirmar e nomear o novo ministro. As vísceras do Feder já estão expostas e ele pode, de novo, ser o “quase”. Enquanto Bozo avalia as reações e os olavistas vão “secando” e linchando o empresário que um dia falou que queria acabar com o MEC e hoje quer ser ministro, a Educação brasileira agoniza sob seus algozes neofascistas.

MORRA QUEM MORRER?

Imagem acima: Bar lotado no Leblon, no Rio de Janeiro, com aglomeração e ninguém usando máscara. Morra quem morrer?

A declaração assassina do prefeito de Itabuna, Fernando Gomes, feita em um vídeo quando anunciou que decretaria a abertura do comércio da cidade baiana no dia 9 de julho, “morra quem morrer”, apesar de estarrecedora e criminosa, não é uma exceção. Desde a “gripezinha” e o “e daí?” de Bolsonaro, que a senha para o negacionismo da pandemia e as atitudes genocidas foi dada. Pior: nem estamos com a tal curva na descendente.

No Rio de Janeiro, contrariando as maiores autoridades médicas e sanitárias do país, o prefeito-pastor Crivella iniciou uma flexibilização que, de forma temerária, está antecipando etapas. Para completar, chega hoje a notícia de que Bolsonaro vai vetar a lei aprovada pelo Congresso que obriga o uso de máscaras em lojas, igrejas e escolas.

Mas não apenas as autoridades estão tendo posturas genocidas. Porque boa parte da população está tendo postura suicida. Ontem, primeiro dia de bares reabertos no no Rio, não bastou ir beber uma cerveja de forma discreta e segura. Tinha que ter aglomeração. E, de preferência, já legitimando o veto de Bolsonaro, aglomeração com todos desprovidos de máscaras de proteção. É o que pode ser visto claramente na imagem que abre este artigo. Não é à toa que o Brasil tem sido visto no exterior como o grande perigo na pandemia. O vírus, ainda não o conhecemos suficientemente. Já as pessoas…

FHC, DESCARTES E A “FRENTE”

Afinal, para que existe uma “frente”? É para manter ou para derrubar uma situação? E o que significa ser “oposição”? Significa ser contra ou a favor de um governo? Fernando Henrique Cardoso, o cardeal-golpista tucano, omisso e covarde em 2018, foi entrevistado pela CNN. Disse ter anulado o voto em 2018, o que comprova sua omissão ante a ascensão fascista. Na mesma entrevista, FHC ainda afirmou que o objetivo de uma frente ampla não deve ser o de derrubar ninguém. Ora, se uma frente ampla não é para derrubar ninguém, então qual a razão de sua existência? Seria manter aquilo que ela declara ser contra?

Dizendo que temos que ter uma “paciência histórica” com Bolsonaro, FHC afirmou que “o objetivo político da frente não pode ser derrubar quem foi eleito.” Ou seja: para FHC a tal “frente ampla contra Bolsonaro” deve ser para manter Bolsonaro no poder. Ou, como disse o Lula: “eles querem apenas reeducar o Bolsonaro”. Começo a entender mais claramente o porquê da recusa de Lula e do PT em participar da tal frente. A frente é contra o Bolsonaro, porém, para que Bolsonaro continue. Ao menos, é o que pensa FHC.

Pelo que esses trastes tucanos fizeram em 2016, ao participarem do golpe e, ato contínuo, do governo criminoso do Temer, talvez eles sejam capazes até mesmo de fazerem parte do governo com o Bolsonaro, desde que o fascista já esteja “reeducado”.

Em seus argumentos para defender a manutenção de Bolsonaro no poder, FHC chegou até a invocar o filósofo Descartes, citando a frase mais conhecida do pensador francês: “Penso, logo existo.” Citar Descartes talvez não tenha sido uma escolha casual. O mesmo Descartes diz na abertura do Discurso do Método, sua mais célebre obra, que “o bom senso é a coisa mais bem dividida do mundo, porque todos se acham dele muito bem dotados.” Então, todos são dotados de “bom senso”, até mesmo o Bolsonaro. Logo, fica Bolsonaro. E tenhamos “paciência histórica” com o Bolsonaro. Interessante que, em 2016, ele não falou em “paciência histórica” e nem citou Descartes.

Depois dessa entrevista de FCH, muita gente deve começar a refletir e certamente irá concluir: “Penso, logo estou fora dessa frente.”

ESPECIAL: OLARIA 105 ANOS

E JÁ PASSAMOS DO CENTENÁRIO

(Texto extraído de nosso livro “Olaria – Histórias de um Centenário”, páginas 40 e 41).

Há mais de 100 anos surgia o “Gigante da Bariri”. Era uma quinta-feira, primeiro de julho de 1915 e, naquela noite, uma reunião na casa do capitão Alfredo de Oliveira , na Rua Filomena Nunes, fundava o glorioso Olaria que, inicialmente, chamou-se “Olaria Futebol Clube”. Era o início do século XX e as elites ainda dominavam a economia, a política e o futebol: os grandes cafeicultores dominavam o poder político do país e os ricos descendentes de ingleses ainda insistiam em monopolizar o futebol. Mas a iniciativa dos rapazes que fundaram o Olaria representava um rotundo “não” ao elitismo no futebol. No lugar dos “Stutfields”, “Normans Himes” e “Calverts” da zona sul, teríamos agora os “Emílios”, “Joões Éguas” e “Norivais” do subúrbio leopoldinense. Não resta dúvidas de que a fundação do Olaria como um clube de futebol no subúrbio da Leopoldina e em plena era do domínio das oligarquias no Brasil, contribuiria para a popularização do esporte bretão que consagrou nosso país. E que hoje orgulha sócios, torcedores e moradores da região que consagrou, além do Olaria, a Imperatriz Leopoldinense, o Cacique de Ramos, a Unidos de Lucas, o nosso irmão Bonsucesso Futebol Clube. Junto com nossos jogadores de futebol, chegavam ao nosso clube os escoteiros do mar, que aos montes tornavam-se sócios do Olaria. Não tardou para que viéssemos a ser um clube de terra e mar, com uma sede náutica na saudosa Praia de Maria Angu ainda no início dos anos vinte.

E as glórias não tardaram a vir, tanto dentro como fora de campo. Nas quatro linhas o Olaria ascenderia, de forma invicta, à primeira divisão em 1931, depois de enfrentar adversários valorosos, campos esburacados e até porrada com o time do Mavilis, no Caju, em um certame que contava com 16 times e só o campeão subiria. Fomos o clube da resistência quando, em 1937, nossos adversários fizeram uma paz com um golpe que nos tirou da primeira divisão. Mas os olarienses obstinados fundaram o Oriente que, por algum tempo, insistiu em dar fôlego aos ideais dos rapazes de 1915 e não deixou nosso futebol morrer. Inspirados em um nome que é o da terra do sol nascente, os criadores do Oriente não permitiram que o Olaria entrasse em um túnel sem luz. E veio mais do que isso. Veio o sol que, em 1947, com a construção de nosso estádio, nos levaria triunfalmente de volta à primeira divisão e tornaria o famoso “alçapão” a causa dos maiores calafrios de nossos adversários, pois “aqui era o Camboja, aqui o couro comia!”

E mesmo com o Maracanã, a partir de 1950, o gigantismo do maior do mundo não arrebataria os ânimos bariris, pois as campanhas do Olaria a partir de 1950 foram memoráveis, fossem dentro ou fora do alçapão. Tanto que ganhamos no Maracanã o primeiro título do Estado da Guanabara em 1960, quando sagramo-nos campeões do Torneio Início, após derrotarmos o Fluminense por 2 a 0 na final. Fora de campo, a degradação ambiental prenunciava o fim da Praia de Ramos, já no início dos anos 60. Mas o Olaria já era um leopoldinense cosmopolita e construiria seu parque aquático para orgulho e lazer dos seus associados e moradores de toda região.

E por que viramos “Atlético”? Porque o Olaria, embora tenha nascido do futebol, tornou-se um clube poliesportivo, conquistando inumeráveis títulos no basquetebol, ciclismo, natação, judô, voleibol, dentre outras modalidades. E nosso crescimento foi avassalador: logo após o maior parque aquático da Leopoldina, veio o maior ginásio de clubes do Estado do Rio de Janeiro. Quanto orgulho de ser Olaria! E quem não se orgulharia de ser Olaria, o clube onde Romário começou e onde Garrincha terminou? Quem não se orgulharia de ser Olaria, um dos poucos clubes que teve seu manto vestido por Pelé? Quem não se orgulharia de ser Olaria, primeiro campeão brasileiro da série C? Clube por onde passaram técnicos como Tim, Domingos da Guia, Paulinho de Almeida, Duque, Renê Simões e Antônio Lopes? Só quem não conhece ou quem ainda não saiu da caverna construída pela grande mídia que, com sua escuridão, só permite que seus prisioneiros vejam 4 clubes no Rio de Janeiro. Mas a realidade está aqui, pertinho de nós. Basta sair do túnel elitista da mídia, entrar nos trilhos e desembarcar na estação de Olaria. A saudosa cantora Nora Ney, o sambista Elton Medeiros, o economista Carlos Lessa e o técnico Joel Santana, também nos orgulham por serem torcedores declarados do nosso Olaria. Assim como nós, eles sabem o que é ser Olaria. É ter orgulho de mais de 100 anos de história em que, não sendo maioria, não tendo apoio da mídia, superando golpes históricos, crescendo impetuosamente, jamais desistimos, jamais desistiremos. Viveremos eternamente lutando para a concretização, pelo respeito e pelo crescimento dos ideais daqueles que naquela quinta- feira, primeiro de julho de 1915, ousaram fundar um clube de futebol em Olaria, raízes deste bonito e emocionante fruto azul e branco que tanto amamos!

PS: Dedico este texto à memória de nossos fundadores: Alfredo de Oliveira, Carolino Martins Arantes, Hermogêneo Vasconcellos, Isaac de Oliveira, Jaci de Oliveira, Gumercindo Roma, Manoel Gonçalves Boaventura.

CURRÍCULO DERRUBA DECOTELLI. E OS OUTROS?

Terminou ontem a passagem meteórica, confusa e, principalmente, triste, do professor Carlos Alberto Decotelli pelo cargo de ministro da Educação. Ele “foi mas não foi”. Sua nomeação foi publicada no Diário Oficial, mas ele não chegou a tomar posse. Depois das “inconsistências” (leia-se: mentiras) detectadas em seu currículo, visto que não possuía doutorado e, consequentemente, também não possuía pós-doutorado, a posse foi cancelada e, finalmente, ele acabou sendo demitido. O desgaste foi fortíssimo e a impressão que se tem é a de que Decotelli sai pessoalmente muito mais ferido desse episódio rocambolesco do que o próprio governo.

Não conseguimos entender certas presunções. Para ser ministro de Estado da Educação, como de qualquer outra pasta, não é preciso ter mestrado, doutorado ou pós-doutorado. Se um professor, que fez cursos no exterior, iria ocupar a pasta da Educação, por que mentir de forma absolutamente desnecessária? Decotelli foi, a nosso ver, de uma ingenuidade colossal, até porque recaiu efetivamente sobre ele o maior desgaste. Se bem que também não podemos deixar de perguntar o que é que o tal “serviço particular de informações”, que o Bolsonaro confessou possuir na reunião dos aloprados do dia 22 de abril, tem de tão bom que não verificou a efetiva formação de Decotelli antes de anunciá-lo e nomeá-lo ministro.

Mas o caso de Decotelli não foi o primeiro no governo Bolsonaro. A “ministra fundamentalista da goiabeira”, Damares Alves, chegou a declarar ser detentora dos títulos de “mestre” em Educação, Direito Constitucional e Direito de Família. Tudo mentira. Quando questionada sobre seus títulos, Damares apenas afirmou que em sua igreja, “mestre” é todo aquele que se dedica ao ensino da Bíblia. A mentira não levou-a ao mesmo destino do Decotelli e a fundamentalista continua ministra.

Outro caso foi o do “ministro passador da boiada”, Ricardo Salles. Ele havia publicado um perfil onde afirmava ter estudado em Yale, nos Estados Unidos. Mas também era mentira. Para alegria dos ruralistas, Ricardo Salles, como ele também confessou na reunião de 22 de abril, continua “passando a boiada” e depredando o meio ambiente. A mentira de Salles jamais ameaçou o seu cargo de ministro.

Claro que o Decotelli errou. E errou desnecessariamente porque, repetimos, não precisa ninguém ser mestre, doutor ou pós-doutor para ser ministro de Estado. Se critérios técnico-acadêmicos ou mentiras, como vimos, fossem os balizadores desse governo e outros tivessem, por esses motivos, sido também demitidos, receberíamos com mais tranquilidade o destino do Decotelli. Mas não podemos descartar a influência que a cor de sua pele pode ter tido no desfecho do episódio. E isso, mesmo sendo Decotelli um bolsonarista, traz-nos um certo incômodo. Até porque há casos flagrantemente muito piores que vão além de outras mentiras, como o de um general-paraquedista no Ministério da Saúde, o de um destruidor da natureza no Ministério do Meio Ambiente e o de um anti-globalista no Ministério das Relações Exteriores.

Em alguns momentos ficamos nos perguntando até que ponto todo esse enredo pastelão não foi armado, só para fortalecer os olavistas, visto que Decotelli não é seguidor do guru. Claro que toda essa fritura do Decotelli assanhou os radicais olavistas, que no governo Bolsonaro querem ser os “donos” da Educação. Mas há um consolo para o Decotelli em toda esse episódio. Certamente ele foi o ministro da Educação, em toda história, a ficar menos tempo no cargo. Porém, de uma coisa ele pode ter certeza: em apenas uma semana como ministro, ele fez muito mais pela Educação do Brasil do que Abraham Weintraub em um ano e meio. E isso ele já pode até colocar no seu currículo, porque é a mais pura verdade.

ALÔ ZAMBELLI, APAGOU POR QUÊ?

A atitude da deputada bolsonarita Carla Zambelli, ao apagar vários tuítes onde defendia o “currículo” do novo ministro da Educação sendo que, em um deles, mandava um recado-desafio para a deputada Tábata Amaral, do PDT, deveria servir de exemplo para todos os bolsonaristas envolvidos no escândalo das fake news, a começar por ela própria. Zambelli havia postado uma saraivada de tuítes, tão logo Carlos Dacotelle foi nomeado ministro da Educação, exaltando o “currículo” de Dacotelle e, em um deles, desafiando a deputada Tábata Amaral a criticar o novo ministro. Mas o novo ministro não tinha pós-doutorado. Era fake news. O novo ministro também não tinha doutorado. Também era fake news. Quando as falsas titulações do novo ministro começaram a ser divulgadas, então ela apagou os tuítes. Porque ela foi informada de que as informações declaradas pelo ministro eram fakes. Isso sem falar na acusação de plágio de sua dissertação de mestrado, o que mostra que a credibilidade do novo ministro já acabou antes mesmo de ele começar.

A deputada bolsonarista ainda acrescenta em uma de suas postagens que Dacotelli não precisou de cota para conseguir aquele currículo. É verdade. Porque, até onde sabemos, não é preciso de cota para mentir.

O ato da deputada bolsonarista Carla Zambelli deveria servir de parâmetro para todos os bolsonaristas que, como ela, estão envolvidos no inquérito das fake news. Ou seja, se sabe que é mentira, então apaga. Teria que ser assim sempre. Enquanto ficou no ar, um dos tuítes teve quase 900 compartilhamentos, mais de 1600 comentários e mais de 400 reações positivas. Isso porque foi tirado do ar. Dá para imaginar, além do alcance, o estrago que uma informação falsa é capaz de fazer.

Mas cabe a pergunta à dona Carla Zambelli: e aí, Zambelli, vai ter coragem de defender o “currículo fake” do novo ministro?

ONDE ELES ESTAVAM EM 2018?

“Somos 70%”, “75% da população prefere a democracia”, “Frente em defesa da democracia”… Parece que os “Rubinhos Barrichellos” da democracia, com um atraso de dois anos, estão saindo dos armários, já um pouco mofados, e ainda exalando cheiros insuportáveis de “aécios” e “bolsonaros”. Poderíamos até perguntar onde eles estavam em 1964 e em 2016, mas vamos ficar apenas em 2018.

Não somos contra nenhuma frente antifascista e em defesa da democracia. A história mostra que, dentro e fora do Brasil, as frentes antifascistas sempre foram um modo de enfrentar e resistir ao fascismo. Porém, ao mesmo tempo em que não somos contra uma frente desse tipo, não podemos também admitir críticas de quem não tem absolutamente nenhuma moral para acusar de sectarismo quem, por algum motivo fundamentado, não veja razão para dela participar. A tal “frente” queria chamar até o Sérgio Moro. O PSOL participou. Mas o PT não quis participar do ato on line do dia 26. E, por isso, vem sendo acusado de “sectário”, de “se isolar”. Ou de querer ter o “protagonismo da oposição”. FHC, um dos golpistas de 2016, é um dos que, por exemplo, critica Lula por essa postura. Mas, como dissemos antes, falemos de 2018. Por acaso, alguém desconhecia Bolsonaro? Por tudo o que Bolsonaro pregava, praticava e defendia, desde a tortura, passando pela ditadura e o extermínio de opositores, alguém o identificava como representante da democracia? O racismo, a homofobia, a exaltação de um torturador assassino, o desprezo ao meio ambiente, às artes e à educação sempre foram as marcas registradas do fascismo bolsonarista. E, ainda assim, muitos dos que hoje se arvoram de ser os arautos da democracia, apoiaram e votaram em tudo isso.

Comecemos por FHC. Seu partido votou maciçamente em Bolsonaro e ele próprio diz ter ficado “neutro”. Por ação e omissão (muito mais por ação) os tucanos legitimaram a chegada da extrema-direita ao poder. No caso de FHC, a quem Bolsonaro disse que ia fuzilar, o ódio do cardeal tucano ao PT foi maior até mesmo do que o amor à sua própria vida. Afinal, o que leva alguém a deixar de votar em um opositor de quem disse que iria fuzilá-lo?

Em outros, faltou empenho. Os tais “apoios críticos”, como o de Marina Silva, não eram suficientes. Àquela altura o estrago já estava feito e uma mera declaração de “apoio crítico” sem entrar efetivamente “em campo”, em 2018 soava apenas como um pouquinho “menos ruim” do que a tal “neutralidade” de FHC. E seria bom até para a própria Marina, que já tinha maculado a sua biografia ao apoiar o Aécio em 2014. Se tivesse arregaçado as mangas e entrado na “frente antifascista” de 2018, poderia até ter parte de seu currículo político recuperado. Mas o ressentimento dela não permitiu. O problema dela com o PT vem de 2010, quando queria ser a candidata do partido. Mas o PT preferiu a Dilma. Em 2016 ela finalmente se vingou e acabou apoiando abertamente o vitorioso golpe contra Dilma, o embrião de tudo o que aí está e que ela diz, hoje, ser contra. Ressentida, vingativa e agora também oportunista, Marina fala em “frente pela democracia”, quando em 2018 ficou vendo a banda passar.

Ciro Gomes é outro ressentido. Ele queria ter o apoio do PT em 2018. Porém, não podendo lançar Lula, o PT optou pelo Haddad. E, assim que é anunciado o resultado do primeiro turno, Ciro vai para Paris tirar “férias”. Mas será que essas “férias” não podiam ser adiadas por duas ou três semanas, em nome do Brasil e da democracia?

Passados dois anos, só agora que os “Rubinhos Barrichellos” da democracia, com Luciano Huck à tiracolo, perceberam a ameça que Bolsonaro e aqueles que se empoderaram com sua ascensão representam. Quem apoiou Haddad em 2018, entrando efetivamente na luta contra o fascismo, como o PSOL e o PCdoB, por exemplo, têm todo o direito de fazer qualquer crítica ao PT por não estar na tal “frente”. Mas outros, que por ação ou omissão, acabaram legitimando a tragédia que aí está, antes de criticarem Lula ou o PT, devem fazer uma grande autocrítica pelas posições que tomaram em 2018. Do mesmo modo os veículos de comunicação (Globo, Folha, Estadão, Veja, só para citar alguns) que impulsionam essa tal “frente”, mas têm suas digitais na ascensão do fascismo, e acusam o PT de “isolamento” ou “sectarismo”, também devem, antes, refletir sobre o que fizeram e onde estiveram em 2018.

E se a “frente” for vencedora e Bolsonaro cair, quem será o verdadeiro vencedor? O governo bolsonarista, com seus ataques à democracia, seus crimes ambientais e seu anti-globalismo, vem afugentando investidores. Tá cheio de gente que, de repente, se descobriu “democrata” apenas por causa do “mercado”. Poderosos setores da elite que apoiaram o Bozo já perceberam a fria em que se meteram e agora querem descartá-lo apenas por seus interesses. E hoje, o mote para defender seus interesses atende pelo nome de “democracia”.

Giovanni Sartori, cientista político italiano, certa vez afirmou em uma de suas obras que “vivemos em um tempo de democracia confusa ou confusão democrática”. Basta ver quantos se apropriam do termo “democracia”, com os mais diversos interesses. “Democracia”, em certos contextos, pode até não significar nada, absolutamente nada, além do livre mercado, desmantelamento do Estado, venda do Brasil e ataque às conquistas sociais. Seria bom que, ao invés de se perguntar por que o PT está fora, alguns dos que lá estão respondessem, com sinceridade, por que estão dentro.