PROFESSORES DO MENDES DE MORAES SE MANIFESTAM

Os professores do Colégio Estadual Prefeito Mendes de Moraes estão, desde ontem, sendo atacados e ameaçados, de um modo geral, em razão de uma denúncia envolvendo um suposto assédio de um docente a um aluno da terceira série. Os docentes do Mendes de Moraes repelem qualquer tipo de assédio ou qualquer ato de desrespeito a qualquer aluno e querem, como toda a comunidade escolar, uma apuração rigorosa da denúncia. O caso já está sendo apurado pela 37ª DP, na Ilha do Governador. Porém, antes mesmo da conclusão do inquérito, as redes sociais já estão infestadas de ataques, ameaças, xingamentos e desqualificação dos docentes do estabelecimento de um modo geral. A página do Alerta Ilha, no Facebook, que noticiou o episódio sem as devidas apurações prévias, está infestada de postagens e comentários carregados de discursos de ódio, acusações infundadas e até ameaças aos professores. Na referida página estão linchando até a imagem do colégio, referência na Ilha do Governador há 73 anos. Até o momento, são mais de 750 comentários e 233 compartilhamentos, onde predomina um discurso de ódio, fascista e onde professores como um todo e a própria direção do colégio estão sendo emparedados. O grande número de compartilhamentos da postagem sobre o episódio mostra o quão longe podem ir as ameaças e fomentação de ódio e ataques aos docentes.

Em resposta, os docentes do Colégio Estadual Prefeito Mendes de Moraes estão publicando uma nota em que afirmam acreditar no trabalho da Polícia e se defendendo dos ataques virulentos que vêm sofrendo desde o dia de ontem, especialmente através da página do Alerta Ilha no Facebook.

Abaixo, a nota dos docentes do colégio, que até a noite de ontem já contava com 55 assinaturas:

“O corpo docente do CEPMM não pode ser alvo de ameaças e desqualificação em razão de um episódio, ainda em fase de inquérito e onde, supostamente, um professor poderia estar envolvido. Acreditamos no trabalho de investigação da Polícia Civil e, se for o caso, acreditamos no Poder Judiciário. Mas pelo que já está exposto na mídia, em cartazes pelo colégio e em redes sociais raivosas, parece que TODOS os professores do CEPMM já foram julgados, condenados e estão em fase de execução”.

QUEREM RESSUSCITAR O ADÉLIO!

A menos de duas semanas da votação que provavelmente confirmará a vitória de Lula os fascistas, em desespero para tentarem virar o placar, já estão se articulando para ressuscitar o Adélio. Como não existiu um juiz parcial para prender Lula e com um índice recorde de rejeição, Bolsonaro e sua gangue fascista não possuem outra alternativa que não seja criar um “fato novo” para tentar mudar o quadro eleitoral. Já dizem que ontem, em Paraisópolis, o bolsonarista Tarcísio de Freitas, candidato a governador de SP, teria sofrido um “atentado” quando fazia campanha. Tudo desmentido pela polícia, mas aproveitado de forma criminosa pelas milícias digitais bolsonaristas, que espalharam pelas redes o suposto “atentado”, quando na verdade um bandido foi baleado pela polícia em local distante de onde se encontrava o candidato bolsonarista.

Agora, quando o segundo turno se aproxima, e com o aparelhamento da Polícia Federal, já falam em um “novo depoimento” do Adélio, para que o sujeito afirme que a “facada” de 2018, crucial para a vitória do fascista, tenha tido como mandante o “crime organizado do PT”. Esse absurdo seria o último trunfo de Bolsonaro. Ou melhor, o penúltimo. O último seria dizer, ao ser declarada oficialmente a sua derrota, que houve “fraude”.

A ressurreição do Adélio não é nenhuma surpresa. Na verdade, ele estaria sendo “guardado” para um caso de emergência. E este é o caso. Mesmo com mentiras absurdas e que tocam sensivelmente em redutos ditos conservadores e fundamentalistas, como banheiro unissex nas escolas, fechamento de igrejas, ideologia de gênero, dentre outros disparates, Bolsonaro não consegue virar o placar. E sua campanha sabe disso, pois eles encomendam pesquisas e acreditam sim nelas, só que não as divulgam.

A notícia da ressurreição do Adélio para tentar mudar o quadro eleitoral foi divulgada em reportagem do jornalista Marcelo Rocha, da Folha de São Paulo. O trecho principal da reportagem é:

“A Polícia Federal quer interrogar novamente Adélio Bispo de Oliveira na apuração que busca identificar eventuais mandantes ou financiadores do atentado contra Jair Bolsonaro (PL) em Juiz de Fora (MG), durante as eleições de 2018. Antes de levar adiante a diligência, porém, o delegado Martín Bottaro Purper, encarregado atualmente do inquérito, pediu à Justiça Federal em Mato Grosso do Sul acesso ao laudo de avaliação do estado de saúde mental de Adélio, produzido recentemente por dois peritos”.

Resta saber se a Polícia Federal, que já havia concluído há muito tempo que Adélio agiu sozinho na chamada “facada santa”, vai sucumbir ao aparelhamento do fascista. Melhor seria a Polícia Federal tentar saber o que Adélio fazia, dois meses antes da “facada”, no clube de tiro, caríssimo, frequentado pelo Carluxo em Santa Catarina.

VÍDEO: A FICHA CAIU PARA O MERVAL!

O ex-juiz parcial Sérgio Moro apareceu no debate da Band como assessor de Bolsonaro e, ao final, ainda posou como papagaio-de-pirata do genocida. Depois de ter sido usado e cuspido do esgoto bolsonarista, Moro voltou ao lodaçal do qual, na verdade, nunca saiu. Foi o suficiente para que o jornalista global e, até então seriomorista Merval Pereira finalmente se desencantasse com Moro. Parece, finalmente, que a ficha caiu para o Merval e, certamente, para toda a Globo, que finalmente concluíram que Moro jamais foi uma “terceira via”. Ontem ficou mais do que provado que Moro é a via do fascismo bolsonarista. Em seu comentário na Globonews após o debate, Merval Pereira finalmente admitiu que o alvo do ex-juiz parcial sempre foi o Lula. Demorou, mas finalmente mais um percebeu que Moro sempre foi político-partidário quando vestia a toga que jamais honrou. Assistam ao vídeo:

VÍDEO: O FASCISTA TAMBÉM É PEDÓFILO!

O homem “de Deus” e “da família”, Jair Bolsonaro, em uma fala repugnante, abjeta e nauseante afirmou, sem eufemismos, que “pintou um clima” com meninas de 14 anos e que foi à casa delas. A fala asquerosa do fascista, que agora também confessou ser pedófilo, foi feita no podcast Paparazzo Rubro-Negro. O vídeo com a fala do fascista viralizou desde a noite de ontem. No vídeo, Bolsonaro insinua que a casa das meninas, na qual ele entrou, seria um prostíbulo. Absurdo! Repugnante! Assistam ao vídeo e segurem o estômago:

O AI-2 DO BOLSONARO

“O Supremo Tribunal Federal compor-se-á de onze Ministros”. (Constituição de 1946).

“O Supremo Tribunal Federal compor-se-á de dezesseis Ministros”. (Ato Institucional número 2, de 1965).

Em guerra com o STF desde que assumiu a Presidência, Bolsonaro já tem um plano para colocar o Judiciário de joelhos, caso aconteça o desastre de ele vencer a eleição. O plano é tão antigo como conhecido e inspira-se exatamente naquilo que sempre o inspirou: a ditadura militar. Em 1965, um ano após o golpe que instalou a ditadura militar no Brasil, o governo das casernas editava o Ato Institucional número 2, o AI-2. Os militares já tinham o Legislativo nas mãos. Com o AI-2, chegava a vez de o Judiciário ser pisoteado pelo coturno. De que modo? Aumentando-se o número de ministros de onze para dezesseis. Pela Constituição de 1946, tal como a atual, o número de juízes da Suprema Corte era onze. Visando ter o controle do STF, os militares elevaram o número para dezesseis. E é exatamente isso que Bolsonaro pretende, caso vença a eleição.

Já existe o projeto da PEC, que está sendo articulado por bolsonaristas no Congresso. Falava-se em aumentar o número de juízes para quinze, mas agora, o esboço do projeto prevê, em um outro governo Bolsonaro, a ampliação do STF para dezesseis juízes, exatamente o mesmo número que ficou estabelecido pelo AI-2. Assim, seriam mais cinco juízes além dos atuais, nomeados por Bolsonaro. Acrescente-se a isso, que Bolsonaro já possui dois juízes “seus” (Nunes Marques e André Mendonça) e que ele ainda poderia, caso eleito, nomear mais dois, em razão de aposentadorias. Com isso, Bolsonaro poderia nomear sete e ficaria com nove juízes no Supremo em um total de dezesseis empastelando, assim, o Poder Judiciário. Seria um atalho para a ditadura fascista que Bolsonaro pretende, de vez, implantar no Brasil, com o controle dos três poderes.

A eleição do dia 30 decidirá, antes de tudo, entre ditadura e democracia. Bolsonaro não está enganando, como nunca enganou a ninguém. Todos sabem de suas propostas autoritárias, todos sabem de sua apologia à ditadura militar, ao AI-5, à tortura e aos torturadores. Agora, o seu AI-2 já está pronto e ele próprio já afirmou que só fala disso depois da eleição. Isso, caso vença. Em caso contrário, ele já está exortando seguidores a tumultuarem o país no dia 30. Resta derrotar o fascista nas urnas. E antes de tudo, a derrota do fascista será a vitória da democracia no Brasil.

BOLSONARO E O GOLPISMO “TIPO TRUMP”

Bolsonaro já vem, há tempos, atacando o processo eleitoral, as urnas eletrônicas e o TSE. Agora, faltando pouco mais de duas semanas para o segundo turno, os sinais já são claros de que ele tentará tumultuar a eleição no segundo turno. A convocação feita por ele para que seus eleitores permaneçam no local de votação até o anúncio do resultado final, além de estapafúrdia, é criminosa. Ninguém precisa ficar no local de votação. Pouco depois das 17 horas, os boletins de urnas são afixados nos locais de votação para que qualquer pessoa confira o resultado de cada urna. Mas nem é preciso ir ao local de votação, porque o site do TSE disponibiliza o resultado em tempo real.

Não há dúvidas de que, com essa exortação criminosa a seus apoiadores, Bolsonaro quer criar um clima de confusão caso seja derrotado no dia 30. Um outro fator que mostra que Bolsonaro não aceitará o resultado em caso de derrota é o fato de ele ter travado a divulgação do relatório das Forças Armadas, que acompanharam o processo de totalização das urnas no primeiro turno. Nenhum indício de fraude foi constatado, mas certamente ele irá dizer, caso perca a eleição, que no segundo turno aconteceu fraude. É o golpismo “tipo Trump” que Bolsonaro já prepara para não aceitar um resultado que lhe seja adverso.

Com a convocação para que seus seguidores permaneçam no local de votação até o resultado final, Bolsonaro dá claramente o recado de que estimulará tumultos e confusões em caso de derrota. Os desdobramentos dessa incitação criminosa são imprevisíveis, porém, de uma coisa temos certeza: o golpe tramado por Bolsonaro e seus comparsas não terá êxito. As instituições, especialmente o STF e o TSE, vêm demonstrando, durante quatro anos, que estão fortes e alertas, mesmo com todos os ataques do fascista. Além disso, as Forças Armadas não chancelarão qualquer golpe e seria bom o ministro da Defesa, que virou uma marionete golpista de Bolsonaro, saber disso. A tentativa de golpe “tipo Trump” não tem retaguarda para obter êxito e a sociedade, assim como suas instituições, estão maduras e alertas para repelir qualquer golpe contra a democracia e contra a vontade popular que venham por parte de Bolsonaro e seus comparas paisanas, fardados ou de pijamas.

CADÊ O RELATÓRIO DOS MILITARES SOBRE AS URNAS?

Já se passaram nove dias do primeiro turno da eleição, os resultados oficiais já foram divulgados pelo TSE e, até agora, nada de o Ministério da Defesa divulgar o seu relatório sobre a segurança das urnas eletrônicas. No dia 2 de outubro, logo após a divulgação do resultado, Bolsonaro foi questionado sobre o que ele achava da segurança das urnas e sua resposta foi que “estava aguardando o relatório dos militares.”

Uma avalanche de energúmenos bolsonaristas se elegeu para a Câmara e o Senado e a pergunta que os militares ainda não responderam é se esse esses bolsnaristas foram eleitos porque as urnas foram fraudadas. A fundamentalista Damares Alves; o devastador ambiental que mandou “passar aboiada” Ricardo Salles; o general-cloroquina obediente Eduardo Pazuello; a musa do veneno Tereza Cristina; o astronauta do Bolsonaro que cortou verbas da ciência, Marcos Pontes. Em comum, todos ex-ministros de Bolsonaro e foram muito bem eleitos. E ainda teve o vice-presidente da República, Hamílton Mourão, também eleito senador. E então senhores milicos, as urnas estavam ou não estavam fraudadas? Isso sem falar no filho do Bolsonaro, Dudu Bananinha, eleito deputado federal com expressiva votação; Carla Zambelli, Bia Kicis, todos eleitos. E ainda, o juiz parcial Sérgio Moro, que voltou a se humilhar declarando apoio ao Bozo no segundo turno, todos eleitos. E então, senhores milicos, as urnas estavam ou não estavam fraudadas? Isso sem falar no grande número de governadores bolsonaristas eleitos no primeiro turno, como Cláudio Castro no Rio de Janeiro e Romeu Zema em Minas Gerais. E então senhores milicos, as urnas estavam ou não estavam fraudadas?

O Brasil espera pelo “importantíssimo, detalhado e redentor” relatório do Ministério da Defesa. Os militares fiscalizaram a apuração e tiveram acesso a processos dos quais nunca tinham participado, até porque essa não é a função constitucional das Forças Armadas. Mas, passados nove dias do primeiro turno, até agora os militares ainda não divulgaram o relatório da “moralidade e segurança eleitoral”. Será que o Bolsonaro irá decretar sigilo de 100 anos para o relatório dos militares? Ou será que o relatório só sairá no dia 30, depois que Lula for eleito e, então, os militares finalmente descobrirem a “fraude”? O ministro da Defesa muito falou antes da eleição, até em tom de ameaça. E agora, senhor ministro general Paulo Sérgio Nogueira? Cadê o relatório de vocês? Ou vai esperar o segundo turno?

VITÓRIA DE LULA SERÁ UM CONTRAPESO

A eleição vai para a “prorrogação”, como disse Lula. Mas na Câmara e no Senado, não há prorrogação e Bolsonaro ganhou. Discordo do Guilherme Boulos que, em uma entrevista no dia seguinte às eleições, em um tom mais otimista, disse que não houve uma hecatombe. Mas houve sim uma hecatombe. O que vimos nas eleições para a Câmara e o Senado foi assustador. Os quadros mais radicais e fundamentalistas do bolsonarismo foram eleitos e o PL é maioria na Câmara e Senado. Isso sem contar outros partidos da direita aliados do bolsonarismo. Se Lula vencer, terá pela frente um Congresso hostil. Mas se acontecer a desgraça da reeleição do fascista, o sujeito terá maioria confortável para aprovar o que quiser. Ele já tem o Legislativo. Levando-se em conta os três poderes, digamos que seja uma “partida de 3”, e Bolsonaro já está ganhando por 1 a 0, pois já levou o Legislativo.

Dia 30 estará em jogo o segundo poder, o Executivo. E aí estará o ponto decisivo, porque a partida só tem dois placares possíveis: ou 3 a 0 para o fascismo ou 2 a 1 para o antifascismo. Porque, se der Bolsonaro no Executivo, ele também levará o Judiciário, e a ditadura, de fato, como sempre sonhou o sujeito, estará consumada. E tudo pela via democrática, como fizeram muitos outros ditadores pela história. Sabe-se que Bolsonaro aguarda a reeleição para mandar o projeto que aumenta o número de ministros do STF de 11 para 15. Hoje, dos 11, Bolsonaro só tem 2. Como o próximo Presidente poderá nomear mais dois, se vencer, Bolsonaro iria a 4. Com mais 4 que ele poderia nomear, caso o aumento seja aprovado (e Bolsonaro tem número para isso), então ele teria 8 juízes no STF, ou seja, a maioria dos hipotéticos 15. Aí, ele teria o Judiciário de joelhos, e ganharia de 3 a 0, com os três poderes nas mãos.

A eleição de 30 de outubro é vital para que Bolsonaro não concentre todos os poderes. Com Lula vencendo, o STF não seria depauperado e, assim, estaria do lado das instituições, como tem feito, o que seria mais um gol do Lula e, desse modo, o antifascismo venceria por 2 a 1.

O Legislativo que teremos a partir de 2023, talvez seja o mais reacionário da história do Brasil. Sabe-se que já se negocia a eleição da senadora bolsonarista eleita, a fundamentalista Damares Alves, para a Presidência do Senado. Em se confirmando essa previsão, as pautas mais retrógradas, genericamente chamadas “de costumes”, teriam avanço com o domínio dos talibãs do fascismo que para lá foram eleitos. Assim, a eleição de Lula seria um contrapeso para frear o avanço e a consolidação do fascismo.

Vemos um futuro governo Lula como um governo de transição, para arrumar a casa, resgatar a confiança e o respeito às instituições e não para “esquerdizar” o país, como dizem os energúmenos chauvinistas. As próprias alianças e apoios recebidos mostram essa vertente de forma inequívoca, a começar pelo vice-presidente. Um governo para arrefecer o ódio alimentado por Bolsonaro e suas hostes, recuperar a educação (que nunca foi tão massacrada em um governo), frear a destruição ambiental, combater efetivamente a miséria, realizar políticas de inclusão e fazer de TODAS as religiões um motivo e estímulo para a paz, e não para o ódio e o preconceito como fazem Bolsonaro e seus agentes ventríloquos do fundamentalismo. Por isso, urge a vitória de Lula no dia 30. Seria um contrapeso, para retomarmos o caminho de um Brasil justo, democrático, plural e inclusivo.

EM DEFESA DAS PESQUISAS ELEITORAIS

Depois de atacarem as vacinas, as urnas eletrônicas, o STF, o TSE e até a esfericidade da Terra, agora chegou a vez das pesquisas eleitorais serem o alvo dos bolsonaristas. Como tudo o que é ciência é odiado por essa gente, nenhuma novidade nesse ataque, que não começou hoje, mas que no dia após a eleição, se tornou virulento. A rádio bolsonarista Jovem Pan não perdeu tempo e já iniciou a campanha anti-pesquisa. Ricardo Barros, o o líder do governo na Câmara, já avisou que apresentará um projeto criminalizando as pesquisas eleitorais que “errarem” suas projeções.

Para os bolsonaristas, as pesquisas eleitorais “erraram”, em razão da diferença apresentada pelas pesquisas entre Lula e Bolsonaro não ter se confirmado nas urnas. Mas onde estaria o “erro”?

A pesquisa Datafolha, por exemplo, indicava que Lula faria 50% dos votos válidos. Lula chegou a 48%, exatamente dentro da margem de erro. Todas as pesquisas apontavam Lula em primeiro lugar e Bolsonaro em segundo. E foi o que aconteceu. Nenhuma pesquisa afirmava que Lula iria ganhar no primeiro turno. E Lula não ganhou no primeiro turno.

Há uma metáfora que diz que a pesquisa é um “retrato”. Por isso, ela expressa o momento. No momento em que o resultado da pesquisa é divulgado, já houve um movimento, evidentemente não captado pelo “retrato”. O crescimento de Bolsonaro, que forçou a ida do pleito ao segundo turno, veio depois da última pesquisa, divulgada no sábado. Análises de especialistas indicam que houve a migração de votos de indecisos que se decidiram no dia ou até na hora do voto. Foram votos de Simone Tebet e Ciro, que migraram para Bolsonaro. Houve um voto útil da direita e até do centro antipetista, que não queriam que a eleição fosse decidida a favor de Lula.

É necessário lembrar que em 2022 não foi realizada nenhuma pesquisa de boca de urna, que certamente poderia captar o processo de migração de votos de última hora. Nesse aspecto, é interessante lembrar a pesquisa de boca de urna realizada no segundo turno de 2018 pelo Ibope, atual Ipec: na ocasião, aquela pesquisa apontava Bolsonaro vencedor com 56% dos votos, contra 44% de Haddad. O resultado oficial foi 55,13% para Bolsonaro e 44,87% para Haddad. Aquela pesquisa foi quase cirúrgica, com a diferença em relação ao resultado oficial sendo inferior a 1%.

Pesquisa eleitoral capta o momento, a intenção, que pode ser mudada até na hora do voto. Entre a intenção e o exercício do voto existe a reflexão, e esta pode levar a um comportamento eleitoral não captado pela pesquisa.

Depois de criminalizarem a História, a Filosofia, a Sociologia, as Artes, agora chegou a vez da Estatística entrar para o “índex” bolsonarista. Seria bom o Bolsonaro anunciar em qual “instituto” ele encomendou a pesquisa que lhe daria vitória no primeiro turno com 60% dos votos, como ele próprio afirmou. Ou será que vai ser decretado um sigilo de 100 anos?

O BRASIL QUE SAI DAS URNAS

Que o Brasil é um país conservador, isso eu já sei há muito tempo. Para ser mais preciso, cheguei a essa conclusão em 1977, quando, ainda com 17 anos, acompanhei a tramitação e a votação da Lei do Divórcio. Foi um “parto edipiano” para a lei para ser aprovada, tamanha a luta dos conservadores da época contra o projeto. Só para termos uma noção do que aquilo representou em 1977, a primeira proposta do divórcio havia sido apresentada ainda na Assembleia que faria a Constituição de 1891. Foram quase 90 anos! Assim, dizer que o conservadorismo se afirmou com o partido de Bolsonaro elegendo a maior bancada na Câmara, o maior número de senadores, além de governadores em primeiro turno, não significa apenas que o “conservadorismo” venceu. Noves foras, o Congresso brasileiro sempre foi conservador. As Assembleias Legislativas e a grande maioria dos governos estaduais e prefeituras, idem.

O Brasil que saiu das urnas ontem é muito mais que conservador. As urnas refletiram um Brasil obscurantista, fundamentalista, armamentista. Refletiram um Brasil hostil às instituições democráticas e às políticas de inclusão social. Quando vemos as eleições de Pazuello, Ricardo Salles, Damares Alves, Marcos Pontes, além de um punhado de muitos outros bolsonaristas-raiz, concluímos que não foi apenas o conservadorismo que venceu. Lamentavelmente, os brasileiros chancelaram nas urnas o desmatamento e a destruição ambiental de Salles; disseram sim à cloroquina; apoiaram o desmonte da pesquisa científica e das universidades públicas do país; apoiaram a negação da vacina e da ciência; apoiaram a condição de pária do Brasil nas relações internacionais; apoiaram a liberação das armas de maneira irracional; apoiaram a homofobia, a misoginia e o racismo; apoiaram o discurso de que a empregada doméstica não pode ir para a Disney e nem o filho do porteiro pode entrar na universidade. Tudo com a sacrossanta membrana de um “Deus” que está acima da todos. E apoiar todas essas pautas criminosas nada tem a ver com conservadorismo ou convicção ideológica. Há um exemplo de uma pessoa muito conhecida: Mandetta, o ex-ministro bolsonarista da Saúde, um cara conservador e de direita, mas que sempre esteve do lado da ciência no momento mais grave da pandemia, foi barrado no baile pelos “conservadores”.

Tudo ainda é muito recente e, como em toda segunda-feira de ressaca pós-eleitoral, ainda estamos tentando entender o que aconteceu neste 2 de outubro. Ainda é cedo para chegarmos a algumas conclusões. Mas a uma conclusão já podemos chegar: 2018 não foi um “acidente”. Hoje, eu refaço a minha tese de que em 2018 aconteceu uma “onda” ou “epidemia” fascista. Infelizmente, teremos que conviver com esta praga e ir buscando, com muita luta, os devidos “antídotos” ou “vacinas”. Porque, tal como a Covid-19, tudo nos leva a crer que o fascismo no Brasil já não é mais epidemia. Ontem, ficou provado que virou endemia.