MENDES 70 ANOS – PARTE IV – A ERA RIVALDO (1993-2008)

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Na foto acima, o diretor Rivaldo Rodrigues Gomes em uma solenidade no Colégio Mendes de Moraes. À direita, de pé, o professor Gesner de Almeida Garcez, ex-diretor do colégio e um dos principais articuladores da vinda de Rivaldo para a direção do Mendes de Moraes. Foto: acervo da Secretaria do CEPMM, cedida por Márcia Cristina Machado.

Pouquíssimas pessoas sabem e muitas talvez jamais imaginariam que um restaurante localizado no bairro do Catete entraria na história do Colégio Estadual Prefeito Mendes de Moraes. Foi ali, no finado restaurante Amazônia, na Rua do Catete 234, que pessoas com grande influência na Secretaria Estadual de Educação reuniram-se, em meados de 1993, para planejar e articular algumas intervenções que aconteceriam em colégios pertencentes à jurisdição da Metro III. O restaurante Amazônia era conhecido por ser um reduto de pedetistas e tinha como um de seus frequentadores mais assíduos o deputado federal Bocaiuva Cunha. O próprio governador Leonel Brizola esteve lá em algumas oportunidades. Hoje o restaurante não mais existe e o prédio é um depósito. Até hoje não sabemos quantas e quais pessoas estiveram presentes no histórico convescote que mudaria o destino do Colégio Mendes de Moraes, mas sabemos que uma delas era o professor Gesner de Almeida Garcez, que já havia sido diretor do colégio entre 1984 e 1988. Ali foi gestada a vinda do professor Rivaldo Rodrigues Gomes para o Colégio Mendes de Moraes, na condição de interventor. Não restam dúvidas de que aquelas intervenções tinham finalidades políticas, tendo em vista que no ano seguinte ocorreriam eleições gerais no país, dentre elas as de governador e deputado estadual.

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Foto acima: o local onde ficava o antigo Restaurante Amazônia, na Rua do Catete 234. Reduto de pedetistas, o restaurante foi o local em que articulou-se a vinda de Rivaldo Rodrigues Gomes como interventor do Colégio Mendes de Moraes. Atualmente, no prédio funciona um depósito. Foto: O Blog Que Virou Manchete.

O desgaste do então diretor, Wagner Desidério Bandeira, era visível. E não apenas entre professores. Uma visita-surpresa do então Secretário Estadual de Administração, Luiz Henrique Lima, em uma tarde de sábado, ao colégio, praticamente selaria a saída do diretor Wagner Bandeira. O Secretário de Administração não teria gostado nem um pouco do que tinha visto no colégio. Assim, o Diário Oficial do dia 15 de julho de 1993 anunciava a nomeação do professor Rivaldo Rodrigues Gomes para diretor do Colégio Mendes de Moraes, na condição de interventor.

O anúncio de Rivaldo Rodrigues Gomes como interventor trouxe alvoroço e a comunidade escolar, mobilizada, foi até a Secretaria de Educação, que na época funcionava na Rua do Passeio, tentar a reversão da medida, em nome da autonomia do colégio. Mas a nomeação de Rivaldo já era fato consumado. Restava resistir (novamente). Ou não. Isso porque, apesar de ter chegado como interventor, o professor Rivaldo venceria, por ampla margem de votos, todas as eleições às quais submeteu-se (um total de cinco), sendo a primeira delas já em 1994. A intervenção então legitimaria-se.

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Foto acima: Luiz Henrique Lima, o Secretário Estadual de Administração em 1993. Sua visita-surpresa ao Colégio Mendes de Moraes em uma tarde de sábado praticamente definiu a exoneração do então diretor do colégio, Wagner Desidério Bandeira. Foto: midianews.com.br 

Rivaldo, guardando-se as devidas proporções, pode ser considerado o “Napoleão do Mendes de Moraes”. E há, de fato, várias semelhanças. O interventor do colégio tinha estatura e compleição física semelhantes às do imperador francês, não obstante, em alguns momentos, ter sido apelidado pelos alunos de “Khaled” (um cantor argelino) e “Benito di Paula” (este bem conhecido); havia chegado ao poder por um golpe que pôs fim a acirradas disputas entre grupos, tal como Napoleão; Napoleão e Rivaldo estiveram no poder por praticamente o mesmo tempo (cerca de 15 anos). E, assim como Napoleão mudou a história da França, Rivaldo mudaria a história do Colégio Mendes de Moraes. E ainda: se até hoje Napoleão é lembrado e inspira militares pelas suas genialidades estratégicas, Rivaldo até hoje é lembrado e sua administração citada como exemplo, inclusive por pretensos futuros diretores. Mas há uma diferença. Ao deixar a direção, em 2008, Rivaldo viveu um auto-exílio com sua esposa, a também ex-diretora Lílian Therezinha Rodrigues, instalou-se em Iguaba Grande, viajou muito e um dos poucos registros de seu retorno ao colégio foi em 2011, em um torneio de natação em que o troféu levou o seu nome. Bem diferente do exílio compulsório de Napoleão.

Embora alavancado à direção por um ato político, Rivaldo sempre foi, sobretudo, um gestor. Diretor de carreira e inspetor escolar, Rivaldo conhecia como ninguém o lado técnico-burocrático da administração de uma escola. Seu primeiro desafio foi enfrentar a grande resistência em uma comunidade forte e historicamente marcada pela mobilização. Poucos teriam a resistência que ele teve e ficou célebre uma de suas primeiras frases ao chegar ao colégio: “Eu tenho sangue de barata!” Um breve comentário vez por outra dito sobre o novo chefe, que já era conhecido por alguns, inclusive por esse que vos escreve, já dizia que Rivaldo estava pronto para a missão que recebera: “O baixinho é foda!” Mas o “baixinho foda” era um tanto frio e pouco emotivo e tempos depois consegui entender o porquê de Rivaldo ter me pedido para ir até uma editora buscar um livro do filósofo Sêneca, que ele havia encomendado. Para viver muita coisa que ele viveria em sua gestão era preciso ser mesmo um estoico.

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Foto acima: convite de formatura do curso de Formação de Professores do ano de 1994 do Colégio Mendes de Moraes. O curso de Formação de Professores funcionou no colégio até o ano de 1997. Foto: arquivo pessoal de Myrthes Lebrego.

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Foto acima: solenidade de formatura do curso de Formação de Professores do ano de 1994 do Colégio Mendes de Moraes. Foto: arquivo pessoal de Myrthes Lebrego. 

 

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Foto acima: “normalistas” do Mendes de Moraes em festa, em 1994, vendo-se à frente a aluna Myrthes Lebrego. Foto: arquivo do CEPMM.

Foi em 1995, no terceiro ano da gestão do professor Rivaldo, que foi criada a Associação de Apoio à Escola (AAE) do Colégio Estadual Prefeito Mendes de Moraes, constituída por uma Diretoria e um Conselho Fiscal, eleitos por uma Assembleia Geral formada por toda a comunidade escolar. A Associação, fundada em uma assembleia realizada no dia 20 de maio de 1995, seria a responsável, principalmente, por gerir as verbas de manutenção e da merenda escolar e possuiria personalidade jurídica e estatuto próprios. O estatuto da AAE seria registrado no dia 10 de julho de 1995 no Registro Civil de Pessoas Jurídicas e, na ocasião, nem foi preciso buscar um advogado fora do colégio para assinar o registro. A professora de Educação Física Marize Pellegrino Dias, também advogada, assinaria o registro do estatuto junto com o diretor Rivaldo.

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Foto acima: a turma de Formação de Professores participando de uma oficina no ano de 1995. Foto: arquivo do CEPMM.

Em 20 de dezembro de 1996 era publicada a Nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, que dividiu a educação básica em ensino infantil, ensino fundamental e ensino médio e o Colégio Estadual Prefeito Mendes de Moraes tornaria-se, então, um estabelecimento de ensino médio (nova denominação do antigo segundo grau), conforme a determinação da nova legislação.

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Foto acima: as alunas do curso de Formação de Professores do Colégio Mendes de Moraes puxam o desfile cívico do ano de 1997. Foto: arquivo do CEPMM.

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Foto acima: carteira de estudante do Colégio Mendes de Moraes do ano de 1997. Foto: arquivo de Juberto Santos.

Rivaldo começou sua gestão tentando arrefecer as resistências, o que não foi fácil. Ele praticamente conversou com um a um dos professores e dos funcionários da equipe técnica, mostrando como seria o seu trabalho. Houve expurgos no quadro de professores, com a saída de descontentes. Mas com o tempo Rivaldo aglutinaria, gradativamente, professores e alunos. Sua gestão foi logo mostrando resultados. Inicialmente, na mudança e controle de horários de professores e funcionários. Professores foram trocados de turmas e/ou turnos ainda no meio do ano letivo. Obras de melhorias nas instalações do colégio foram realizadas e a imposição de uma disciplina mais rigorosa aos alunos, especialmente no tocante a trajes, uniformes, horários e zelo pelo patrimônio escolar, seria uma das marcas registradas de sua administração.

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Foto acima: O diretor Rivaldo e professores na solenidade de formatura do ano de 1999 do ensino médio, no auditório do colégio. Foto: arquivo de Juberto Santos.

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Foto acima: os formandos do ensino médio do Colégio Mendes de Moraes de 1999, ano do jubileu de ouro. Foto: arquivo de Juberto Santos.

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Foto acima: o reencontro, 50 anos depois: alunos da primeira turma do Colégio Mendes de Moraes reencontraram-se no colégio em 1999, durante as festividades do jubileu de ouro. Foto: arquivo do CEPMM.

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Foto acima: a merecida homenagem aos professores no encerramento do ano letivo em 14 de dezembro de 2002. Foto: arquivo do CEPMM.

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Foto acima: na homenagem de 14 de dezembro de 2002, a então professora-decana, Eny Henriques, recebe o estandarte do Colégio Mendes de Moraes. Foto: arquivo do CEPMM.

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Foto acima: professores em confraternização no final do ano letivo de 2002. Foto: arquivo do CEPMM.

Rivaldo, no entanto, era aberto a ideias e receptivo a projetos. Durante a sua gestão, as feiras culturais, os encontros de candidatos a deputados e vereadores para debates no colégio, as festas juninas, a realização de palestras sobre vários temas de interesse de alunos e as inesquecíveis festas comemorativas do aniversário do colégio, com o lançamento dos famosos móbiles, além das celebrações do dia dos professores e do final de ano, até hoje estão na memória.

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Foto acima: a feira cultural de 2003, com a turma representante da Itália na antiga quadra do colégio. Foto: arquivo da Secretaria do CEPMM, cedida por Márcia Cristina Machado.

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Foto acima: alunas do Colégio Mendes de Moraes no desfile cívico em setembro de 2004. Foto: arquivo do CEPMM.

Foi durante a gestão de Rivaldo Rodrigues Gomes que tiveram início as obras de ampliação e melhoria das instalações do colégio. O então Secretário Estadual de Educação, Cláudio Mendonça, em visita ao Colégio Mendes de Moraes, em 14 de julho de 2004, assinaria o documento que oficializaria o início das obras, em uma solenidade perante a comunidade escolar. As obras, entretanto, sofreriam várias paralisações e só seriam concluídas em dezembro do ano de 2013, já sob a administração do diretor Marcos Madeira.

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Foto acima: Em 14 de julho de 2004 o Secretário Estadual de Educação, Cláudio Mendonça, visitou o Colégio Mendes de Moraes para oficializar o início das obras de reforma e ampliação do colégio. As obras, no entanto, sofreriam várias paralisações e só seriam concluídas no final de 2013. Foto: acervo da Secretaria do CEPMM, cedida por Márcia Cristina Machado.

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Na foto acima, de 2004, o diretor Rivaldo Rodrigues Gomes inspeciona o lançamento do móbile comemorativo dos 55 anos do colégio.  O lançamento dos móbiles tornou-se uma das marcas registradas de sua administração. Foto: acervo da Secretaria do CEPMM, cedida por Márcia Cristina Machado.

Uma das obsessões do diretor Rivaldo era a construção da panóplia das bandeiras do Brasil que, em 2005, na data do aniversário do colégio, seria inaugurada e até hoje é o cartão de visita de quem entra no colégio. Em todas as ocasiões de aniversário do colégio, Rivaldo homenageava com uma placa todos os professores já aposentados, como reconhecimento ao trabalho e à dedicação dos mestres que já haviam cumprido suas missões. Nem os professores aposentados esqueciam-se do célebre “meus amores!”, uma senha do diretor Rivaldo quando, logo após a batida do sinal que encerrava o recreio, adentrava à sala dos professores convocando sutilmente os docentes para retornarem às salas de aula.

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Na foto acima, de 6 de junho de 2005, vemos o então diretor Rivaldo Rodrigues Gomes inaugurando a Panóplia das Bandeiras do Brasil, entre seus adjuntos Lílian Therezinha Rodrigues e Marcos Antônio Reis Madeira e ainda dois alunos do Pelotão da Bandeira. A Panóplia é, até hoje, o cartão de visita para quem chega ao colégio. Foto: acervo da Secretaria do CEPMM, cedida por Márcia Cristina Machado. 

No final do ano de 2004, uma tentativa de derrubada do professor Rivaldo partiu da própria Secretaria de Educação. Passados 11 anos, os tempos já não eram os mesmos do “convescote do Catete” e o quadro político havia mudado. A Secretaria de Educação havia nomeado o professor Djalma Barbosa para a direção do colégio sem qualquer aviso prévio à comunidade escolar. A trama foi urdida em um período que ninguém apostaria em resistência: foi na semana entre o Natal e o Ano Novo. Professores em recesso, muitos viajando, colégio sem aulas e sem alunos. Porém, ninguém poderia imaginar que a mobilização em prol da permanência de Rivaldo na direção fosse tão grande, apesar da época adversa. Com apoio inclusive do SEPE (Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação), reuniões no colégio, idas à Secretaria de Educação e à Assembleia Legislativa e o encontro final, no Palácio Guanabara, de dezenas de professores e funcionários com o então Secretário do governo Rosinha, seu marido Anthony Garotinho, garantiriam a permanência de Rivaldo por mais três anos na direção. Porém, antes disso, ainda teríamos um interstício que, doravante, denominaremos de “A Regência de Lílian”.

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Foto acima: Nos últimos dias do ano de 2004 e nos primeiros de 2005, a comunidade do Mendes de Moraes mobilizou-se pela permanência do professor Rivaldo na direção do colégio. E a mobilização foi vitoriosa. Foto: acervo da Secretaria do CEPMM, cedida por Márcia Cristina Machado.

Na negociação com Anthony Garotinho, a professora Lílian Therezinha Rodrigues assumiria a direção do Colégio Mendes de Moraes durante o ano de 2005, enquanto seria efetivado o retorno de Rivaldo. O curto período de Lílian Therezinha Rodrigues na direção do colégio poderia ser considerado como uma breve “regência”, que durou de janeiro até outubro de 2005, quando o professor Rivaldo reassumiria o comando do colégio.

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Na foto acima: depois de grande mobilização da comunidade nos últimos dias de 2004 e nos primeiros de 2005, a ida de professores, funcionários e alunos ao Palácio Guanabara, no dia 5 de janeiro de 2005, acabaria revertendo a exoneração do diretor Rivaldo Rodrigues Gomes, com apoio, inclusive, do SEPE. Após a vitória do movimento, Rivaldo permaneceria como diretor até o final do ano de 2008. Foto: acervo da Secretaria do CEPMM, cedida por Márcia Cristina Machado.

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Foto acima: a professora Lílian Therezinha Rodrigues, a diretora que foi a “regente” por 9 meses durante a Era Rivaldo, com a equipe de Educação Física. Da esquerda para a direita: professores Hélio Sérgio, Lílian Therezinha, Adno Soares, Marcos Madeira, Valéria Santos e Cristina. Foto: Facebook. 

Em 2008 a “Era Rivaldo” chegava ao fim e, em uma sucessão negociada, com o aval da SEEDUC, da Metro III e da comunidade escolar, em uma assembleia realizada no auditório do colégio no dia 12 de novembro de 2008, o nome do professor Marcos Antônio Reis Madeira era oficializado como sucessor de Rivaldo Rodrigues Gomes. A assembleia, que teve 650 participantes, entre professores, alunos e funcionários, contou com a presença da então Coordenadora da Metro III, professora Graça Antunes que, em sua fala, destacou a legitimidade da mesma pela presença maciça da comunidade escolar. Aquela seria a última participação do professor Rivaldo em uma assembleia como diretor. Ao final daquele ano letivo, no dia 15 de dezembro de 2008, como sempre afirmara querer, o professor Rivaldo deixaria a direção do Colégio Mendes de Moraes de forma discreta, sem despedidas e sem homenagens, após 15 anos como diretor. O professor Marcos Madeira, que havia sido adjunto durante um bom tempo na administração Rivaldo, ficaria na direção por pouco mais de sete anos. Mas isso é assunto para o próximo capítulo.

PRÓXIMO CAPÍTULO: PARTE V – OS ÚLTIMOS TEMPOS (2008-2019).

MENDES 70 ANOS – PARTE III – DO COLEGIADO À INTERVENÇÃO (1989-1993)

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Foto acima: o professor  Elton Palmeira Brandão, diretor do Colégio Mendes de Moraes entre 1989 e 1991. O professor Elton faleceu no dia 22 de setembro de 2016 e entraria para a história do colégio por ter sido o único diretor a adotar a gestão colegiada. Foto: Facebook.

“Quadro negro da educação” era um painel que os alunos expunham diariamente dentro do pátio do Colégio Estadual Prefeito Mendes de Moraes com os nomes, bem visíveis, dos professores que haviam faltado no dia anterior. Sinal dos tempos. Tempos de empoderamento dos alunos, que passaram a ter voz e poder de decisão, inclusive na administração do colégio, a partir de uma forma revolucionária de gestão implantada pelo diretor Elton Palmeira Brandão: o colegiado.

Elton Palmeira Brandão já defendia a administração colegiada em sua plataforma de propostas quando foi eleito diretor, em 1989. Com a administração colegiada implantada pelo professor Elton Palmeira Brandão, as decisões a serem tomadas pela direção seriam discutidas e deliberadas por representantes de todos os segmentos do colégio: professores, alunos, funcionários, SOE, SOP. As reuniões do colegiado eram periódicas e os membros que iriam compô-lo eram escolhidos entre os pares de cada segmento. O membro que deixasse de comparecer a duas reuniões era excluído e deveria ser substituído. Tudo para evitar o absenteísmo, motivar a participação e fortalecer o comprometimento. Setores mais conservadores do colégio opunham-se à administração colegiada e a experiência, embora muito efêmera, criou no colégio um ambiente de constantes debates. Independentemente da avaliação que se faça, a verdade é que a gestão colegiada implantada pelo diretor Elton colocou o Colégio Mendes de Moraes em mais uma histórica posição de vanguarda, com uma gestão em que a direção deveria representar, de fato, os interesses coletivos e a pluralidade.

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Foto acima: a professora Marília, diretora-adjunta do Colégio Mendes de Moraes durante a administração colegiada de Elton Palmeira Brandão. Foto: arquivo do CEPMM.

Os setores conservadores do colégio, no entanto, tinham uma leitura bem diferente do colegiado. Para esses setores, o colegiado não passava de uma inversão de valores em que alunos e professores ficavam em um mesmo patamar. Falava-se em “ausência de direção e de autoridade”.

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Foto acima: o professor Jorge Alfredo Leite Gonçalves, diretor-adjunto do Colégio Mendes de Moraes durante a administração colegiada de Elton Palmeira Brandão. Foto: arquivo DP/CEPMM.

Mas a administração do diretor Elton Palmeira Brandão não foi marcada apenas pela administração colegiada. Elton Palmeira Brandão, além de formado em Letras, era pedagogo e mestre em Educação. Sua visão pedagógica ia muito além dos “pequenos mundos” de cada disciplina. Por isso, ele sempre defendeu uma proposta interdisciplinar, com o diálogo permanente entre as diversas disciplinas, visando a aproximação das diferentes linguagens e a integração dos campos do saber. Naqueles tempos as RAPs (Reuniões de Apoio Pedagógico) que realizavam-se periodicamente, chegando a 8 por ano, eram verdadeiros palcos de conflitos, onde propostas de avaliação, conteúdos e até a gestão escolar eram exaustiva e apaixonadamente discutidos.

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Foto acima: o diretor Élton Palmeira Brandão, vendo-se ainda a Secretária Márcia Machado e as professoras Maria José, Ana Luiza, Rosa e Maria Lúcia. Foto: enviada por Márcia Cristina Machado.

Elton Palmeira Brandão permaneceu como diretor até o final de 1991. Ao deixar a direção, continuou no colégio como professor e atuava especialmente nas turmas de Formação de Professores. Mas a experiência da administração colegiada no Mendes de Moraes não limitou-se a ser um exemplo singular e inédito de gestão participativa em uma escola. Em 1993, Elton Palmeira Brandão apresentava a sua dissertação de Metrado na UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), que teve como tema a experiência da administração colegiada implantada por ele quando diretor do Mendes de Moraes. Assim, o exemplo do Colégio Mendes de Moraes seria inscrito no universo acadêmico e Elton Palmeira Brandão, com sua dissertação aprovada, demonstraria cientificamente que uma administração colegiada não era utopia e sua tese, intitulada “Uma direção colegiada e sua proposta político-pedagógica em uma escola pública de segundo grau do Estado do Rio de Janeiro: um estudo de caso” seria aprovada com méritos pela banca. O exemplo do colegiado no Mendes de Moraes ficaria, assim, para a história e para o acervo acadêmico.

Após a experiência colegiada vivida na gestão do professor Elton, foi eleito para diretor o  professor Wagner Desidério Bandeira. O diretor Wagner Bandeira, que assumiu a direção do colégio em 2 de janeiro de 1992, no entanto, não chegaria a completar o seu mandato. Muito criticado, o diretor Wagner Bandeira parecia não ter o mesmo respaldo político que seu antecessor. Estávamos no meio do ano de 1993.  No mês de julho daquele ano o colégio sofreria uma intervenção e o diretor Wagner Desidério Bandeira seria sumariamente exonerado. Organizar nova resistência, como as muitas já vividas no colégio em outras épocas? Quem seria o novo diretor, ou melhor, o interventor? Depois de um colegiado com a participação de todos os segmentos do colégio, quem cairia de pára-quedas na Rua Pio Dutra? Apesar da ressaca pós-colegiado, a comunidade escolar ainda tinha fôlego. O que se passava em reuniões que aconteciam em um restaurante na Rua do Catete e como essas reuniões em um restaurante da zona sul teriam influência na história do Colégio Mendes de Moraes? Isto é assunto para o próximo capítulo.

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Foto acima: Rua do Catete, 234. Este endereço entraria para a história do Colégio Mendes de Moraes. Saiba o porquê no próximo capítulo. Foto: Booking.com

PRÓXIMO CAPÍTULO: PARTE IV – A ERA RIVALDO (1993-2008).

MENDES 70 ANOS – PARTE II – DA RESISTÊNCIA AO COLEGIADO (1964-1989)

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Na foto acima: 1965 – o busto de bronze de Mendes de Moraes, quando ficava no pátio externo do prédio. Foi na gestão do diretor Erick Moreira Grinspum (1974-1984), que o busto foi transferido para a parte interna do colégio. O motivo? Os alunos colocavam “Bom-Bril” na cabeça do busto. Foto: Ricardo Chagas, acervo digital de Jaime Moraes.

Joaquim Gomes de Souza, também conhecido como “Souzinha”, foi um dos maiores matemáticos brasileiros. Nascido no  Maranhão em 1829, quando o atual Estado ainda era uma Província do Império, faleceu ainda muito novo, com apenas 35 anos de idade. Reconhecido internacionalmente, deu grandes contribuições à educação e é um orgulho para os brasileiros. E esse ilustre brasileiro também acabaria sendo lembrado na história do Colégio Mendes de Moraes por ter sido escolhido como patrono do centro cívico do colégio, que havia sido fundado no ano de 1962. Durante os anos 1960 e 1970, foi um dos centros cívicos mais ativos e combativos, com uma clara posição política de oposição à ditadura militar instalada no Brasil pelo golpe de 1964.

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Imagem acima: Joaquim Gomes de Souza, o “Souzinha”,  patrono do Centro Cívico do Colégio Mendes de Moraes, fundado em 1962. Grande matemático e educador, “Souzinha” inspiraria os estudantes do Mendes de Moraes na luta e resistência contra a ditadura militar imposta a partir do golpe de 1964. Fonte da imagem: conhecimentoinfinito.wordpress.com.

A ditadura havia se instalado no Brasil com o golpe de 1964 e o Colégio Mendes de Moraes teria em seu centro cívico uma forte representatividade estudantil tendo sido, sem dúvida, um dos centros cívicos mais atuantes da época. Muito pressionado por sua posição de clara oposição à ditadura militar, o Centro Cívico Joaquim Gomes de Souza foi alvo de perseguição e repressão por parte do governo. O golpe militar afetaria especialmente o Colégio Mendes de Moraes exatamente numa época em que o colégio dedicava-se a discussões sobre temas culturais, tornando-se alvo da ditadura. Com o movimento estudantil sendo violentamente reprimido, o colégio viveria um tempo em que “resistir era preciso.” O alto nível de politização dos estudantes de um modo geral levou a ditadura militar a editar o famigerado Decreto 477, em 26 fevereiro de 1969, antes mesmo do início do ano letivo. Em 13 de dezembro do ano anterior, o AI-5 já havia sido editado, institucionalizando a ditadura no Brasil. Agora, pelo Decreto 477, professores, alunos e funcionários de qualquer estabelecimento de ensino não poderiam se envolver em atividades políticas. O exemplo de 1968, com as manifestações estudantis e a culminância na “Passeata dos Cem Mil” havia assustado os ditadores das casernas. O Decreto 477 também ficaria conhecido como “o AI-5 da Educação”.

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Foto acima: a edição do Ato Institucional Nº 5, em 13 dezembro de 1968, pelo ditador Costa e Silva, institucionalizou o regime autoritário no Brasil e o Colégio Mendes de Moraes seria um dos focos de resistência. Fonte da imagem: jornal.usp.br.

Durante a ditadura militar, professores do Colégio Mendes de Moraes também foram alvos de perseguição. O professor de História Iber Reis, que atuou no Colégio Mendes de Moraes em 1965, foi citado em documentos secretos do CENIMAR em 1977, e do SNI, em 1981.  Agentes do DOPS chegaram até a ir ao colégio retirar fichas de cadastro funcional de professores para incluir seus dados nos registros dos órgãos repressores. Por isso, a resistência no colégio transformou-se, nos “anos de chumbo”, em uma fortaleza. Um desses exemplos foi o do professor Alfredo Carlos Contador, que teve sua ficha funcional retirada do colégio pelo DOPS durante a ditadura militar. Nos arquivos do colégio não constam mais quaisquer informações sobre o professor, exceto a de que ele faleceu no dia 12 de janeiro de 1971. Fora dos arquivos do colégio, constatamos que o referido professor, em 1967, era sócio do Centro dos Professores do Ensino Técnico e Secundário da Guanabara. Provavelmente isto justifique o fato de ele ter se tornado alvo do DOPS.

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Foto acima: o professor Alfredo Carlos Contador teve a sua ficha funcional retirada do Colégio Mendes de Moraes por agentes do DOPS durante a repressão no período da ditadura militar. Foto: Arquivo DP/CEPMM.

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Foto acima: a “Passeata dos Cem Mil”, em 26 de junho de 1968, na Avenida Rio Branco, foi a culminância dos protestos contra a ditadura naqueles anos de resistência. E o Colégio Mendes de Moraes, através de seu Centro Cívico, também foi parte dessa resistência. Foto: Evandro Teixeira.

De março até outubro de 1966 o colégio foi dirigido interinamente pelo professor Frederico Luiz de Burgos, quando foi então substituído pelo professor Hélio da Rocha Pitta, que permaneceu na direção até 1971. Nessa época a reforma do ensino, já anunciada, estava em tramitação. Ao mesmo tempo, o colégio vivia problemas administrativos, que levariam à exoneração do diretor Hélio da Rocha Pitta e à nomeação do professor Erick Moreira Zippin Grinspun, na condição de interventor. Um documento da Câmara dos Deputados, publicado no ano 2000, traz os nomes e ocupações de mais de 4.800 pessoas que sofreram punições políticas durante a ditadura militar. E um desses nomes é o do professor Hélio da Rocha Pitta, que foi punido com demissão sumária, publicada no Diário Oficial da União de 5 de abril de 1973. Ele também foi professor do Colégio Naval. O professor Pitta seria apenas um entre milhares.

A missão do professor Erick Grinspun seria bem específica naquele momento: preparar o colégio para a implantação das mudanças que já eram anunciadas com a nova reforma do ensino, especialmente a implantação dos cursos profissionalizantes, que tornariam-se obrigatórios.

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Foto acima: o professor Hélio da Rocha Pitta, diretor do Mendes de Moraes entre 1966 e 1971, em uma solenidade de formatura. O professor Hélio da Rocha Pitta foi um dos alvos da ditadura militar, sofrendo como sanção a demissão. Foto: arquivo de Jaime Moraes.

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Na foto acima: a turma 208 do Colégio Mendes de Moraes do ano de 1966, tempo em que ainda vigorava a formação de turmas por grupos masculino e feminino. Foto: Klaus Baumgart, Ricardo Leonardo e Eraldo Maciel, acervo digital de Jaime Moraes.

Foi breve esta primeira passagem do professor Erick Moreira Zippin Grinspun pela direção (ele retornaria em 1974 e permaneceria por 10 anos na direção). Em 1971 o professor Érick seria sucedido pelo professor Vicente Rossi. Foi na administração do diretor Vicente Rossi que os cursos profissionalizantes passaram a ser oferecidos pelo colégio, atendendo-se à exigência de sua obrigatoriedade pela nova Lei da Reforma de Ensino. Nesse momento de sua história, o colégio já contabilizava quase 2300 alunos.

Foi no início dos anos 1970 que a educação brasileira sofreria sérios reveses, como consequência do governo militar instalado em 1964. A Nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, a Lei 5692/1971, alterou a divisão do ensino no Brasil. Os antigos cursos primário e ginasial, que juntos duravam 10 anos, passaram a formar um único ciclo denominado Primeiro Grau, com a duração de 8 anos, e o antigo colegial passava a denominar-se Segundo Grau, sendo este profissionalizante. Com essas mudanças, não existiria mais o exame de “admissão”. Eram os tempos da educação tecnicista, dos “Estudos Sociais”, da “Educação Moral e Cívica”, da “OSPB”. Eram também os tempos das “licenciaturas curtas”, que formavam professores “à rodo” para dar conta da nova demanda. O Colégio Mendes de Moraes, então, seguindo a nova legislação, tornaria-se um estabelecimento que ofereceria, a partir desse momento, apenas o ensino de segundo grau, sendo o único a funcionar nos três turnos na Ilha do Governador.

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Foto acima: turma do Colégio Mendes de Moraes de 1971, ano da reforma de ensino 5692. Foto: enviada por Fabiana Soares.

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Foto acima: camisa do uniforme do Colégio Mendes de Moraes da década de 1970. Foto: enviada por Juberto Santos.

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Foto acima: alunos da 8ª série do primeiro grau do Colégio Mendes de Moraes visitaram o jornal “O Globo” em 1972 e o colégio foi notícia. Foto: “O Globo”, 25/10/1972, enviada por Juberto Santos.

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Foto acima: turma do Colégio Mendes de Moraes de 1973. Foto: enviada por Fabiana Soares.

No ano de 1975, era efetivada a fusão dos antigos estados da Guanabara e do Rio de Janeiro, de acordo com a Lei Complementar Nº 20. Com a fusão, o colégio permaneceria com sua administração na esfera estadual, mantendo o nome “Colégio Estadual Prefeito Mendes de Moraes” que já ostentava desde os anos 1960, quando foi criado o antigo Estado da Guanabara. Esta é a denominação que o colégio conserva até a atualidade.

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Foto acima: em 15 de março de 1975 era oficializada a fusão dos antigos Estados da Guanabara e do Rio de Janeiro. O primeiro governador do novo Estado do Rio de Janeiro foi o almirante Faria Lima. Foto: O Globo.

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Foto acima: carteira de estudante do Colégio Mendes de Moraes do ano de 1965 mostra que o estabelecimento já era denominado “estadual” antes mesmo da fusão, que só seria oficializada em 1975. Ou seja, o colégio torna-se estadual a partir da criação do Estado da Guanabara. A carteira é assinada pela diretora Maria Amélia dos Santos Penna, que ocupou o cargo entre 1961 e 1965. Foto: Facebook.

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Na foto acima: alunos do curso de técnico em petroquímica do Colégio Mendes de Moraes do ano de 1973. Foto: Jaime Moraes.

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Foto acima: turma 1106 do colégio Mendes de Moraes do ano de 1974. Foto: enviada por Juberto Santos.

Em 1974, o professor Erick Moreira Grinspun foi nomeado para a direção do colégio, permanecendo no cargo por cerca de dez anos, tendo sido substituído em 1984 pelo professor Gesner de Almeida Garcez. Foi na gestão do professor Gesner que foi criado o curso de Formação Para o Magistério (antigo Normal), que existiria no colégio até o ano de 1997. O professor Gesner Garcez permaneceu na direção até 1988, quando foi substituído pela professora Marlene de Jesus Castro.

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Foto acima: o professor Erick Moreira Zippin Grinspun, diretor do Colégio Mendes de Moraes em 1970-1971 e entre 1974 e 1984. Foto: Arquivo DP/CEPMM.

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Foto acima: o professor Gesner de Almeida Garcez, diretor do Colégio Mendes de Moraes entre 1984 e 1988. Em sua gestão foi criado no colégio o Curso de Formação de Professores (antigo Normal). Foto: arquivo DP/CEPMM.

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Na foto acima: com a Lei 5692/1971 já em vigor, o colégio passa a oferecer cursos profissionalizantes. Na foto, a turma de Química do ano de 1974, vendo-se de pé à esquerda o professor Paulo Araújo. Na fila do meio, o primeiro à direita é o funcionário Lionel Felipe e, na fila do meio, a terceira da direita para a esquerda é a professora Marlene de Jesus Castro, que seria diretora do colégio entre 1988 e 1989. Foto: Lúcia Maria R. Rocha, acervo digital de Jaime Moraes.

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Foto acima: 1975 – a turma da 2ª série do segundo grau, do curso de Laboratórios Médicos, na antiga quadra do colégio após uma apresentação. A primeira sentada, à direita, é Valéria Santos, atual professora de Educação Física do Colégio Mendes de Moraes. Foto: “Ilha do Governador – O Passado no Presente”, acervo digital de Jaime Moraes.

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Foto acima: turma do Colégio Mendes de Moraes de 1975. Foto: enviada por Fabiana Soares.

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Foto acima: a turma 2208 do Colégio Mendes de Moraes do ano de 1976. Foto: arquivo de Márcia Cristina Machado.

No início dos anos 1980 a ditadura militar agonizava. A intensificação dos movimentos sociais levou a conquistas importantes e a “Campanha pelas diretas já”, em 1984, exigindo o retorno das eleições diretas para Presidente da República, foi o auge da mobilização popular. As eleições diretas para governadores de Estado já haviam sido resgatadas e, em 1982, Leonel Brizola era eleito, pelo voto direto, governador do Estado do Rio de Janeiro, sucedendo o “biônico” Chagas Freitas. O último governador eleito pelo voto direto antes de Brizola havia sido Francisco Negrão de Lima, em 1965, ainda pelo antigo Estado da Guanabara. Brizola torna-se, então, o primeiro governador do novo Estado do Rio de Janeiro eleito pelo povo. Mas ainda faltava a eleição para Presidente da República, e esta só viria com a nova Constituição, em 1988, após o fim do regime militar.

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Foto acima: Leonel Brizola, em seu discurso de posse em 15 de março de 1983. Brizola foi o primeiro governador eleito pelo voto direto desde 1965 e o primeiro eleito pelo voto popular no novo Estado do Rio de Janeiro. Foto: O Globo.

Vivíamos outros tempos. O regime militar havia chegado ao fim em 1985, em uma transição negociada e sem traumas, e uma Assembleia Constituinte, eleita em 1986, havia promulgado uma nova Constituição em 5 de outubro de 1988. Muitos direitos que haviam sido ceifados durante a ditadura foram resgatados, dentre eles o direito do povo eleger o Presidente da República. O mote era simples: se podemos eleger o Presidente da República, por que não podemos eleger o diretor de uma escola? Foi nesse contexto que o SEPE (Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação) passou a defender a proposta de eleição direta para diretores das escolas. A “Campanha pelas diretas já” agora entrava nas escolas.  A luta do SEPE pelas eleições diretas frutificou. Em 1989 a comunidade escolar conquistava o direito de eleger o seu diretor.

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Foto acima: a promulgação da Constituição, em 5 de outubro de 1988, significou o resgate de direitos retirados durante a ditadura militar, dentre eles o de eleger diretamente o Presidente da República. E por que não o diretor de escola? Foto: Câmara dos Deputados.

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Foto acima: a professora Marlene de Jesus Castro, diretora do Colégio Mendes de Moraes entre 1988 e 1989. Foto: acervo da Secretaria do CEPMM, cedida por Márcia Cristina Machado.

Com a conquista do direito de eleger diretamente o diretor, a comunidade escolar do Colégio Mendes de Moraes foi às urnas em 1989 e a chapa encabeçada pelo professor Elton Palmeira Brandão foi a vitoriosa. O Colégio Mendes de Moraes viveria uma experiência jamais imaginada a partir de então: a gestão colegiada, na qual o diretor não tomava sozinho as decisões e sim junto a um colegiado plural, formado por representantes de todos os segmentos da escola.

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Foto acima: o professor Elton Palmeira Brandão, eleito diretor do Colégio Mendes de Moraes em 1989 após a conquista, pela comunidade escolar, de eleger pelo voto direto o diretor do colégio. O professor Elton Brandão entraria para a história por implantar a administração colegiada. Foto: Facebook.

Elton Palmeira Brandão inscreveria seu nome na história do Mendes de Moraes como sendo o único diretor a adotar a administração colegiada. Mas isso é assunto para o próximo capítulo.

PRÓXIMO CAPÍTULO: PARTE III – DO COLEGIADO À INTERVENÇÃO (1989-1993).

MENDES 70 ANOS – PARTE I – OS PRIMEIROS TEMPOS (1949-1964)

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Na foto acima, de 1951, alunas do Mendes de Moraes com o uniforme de Educação Física da época e a professora Amália Watson Von Windheim. Foto: acervo da Secretaria do CEPMM, cedida por Márcia Cristina Machado.

“Os homens não foram feitos para as instituições, mas as instituições para os homens.” (Professor Álvaro Moutinho Neiva, primeiro diretor do Colégio Mendes de Moraes, em entrevista ao “Correio da Manhã”, 1950).

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Acima: o calendário de 1949, ano de fundação do Colégio Estadual Prefeito Mendes de Moraes. Fonte: jogral.com.br

Em 1949 o mundo vivia os primeiros anos do fantasma da “Guerra Fria” e, no Brasil, o Presidente da República Eurico Gaspar Dutra entrava no seu quarto ano de mandato, conquistado nas eleições de 1945, logo após o fim do Estado Novo de Vargas. O Brasil voltava a ter uma Constituição de caráter liberal (a de 1946) e nosso país viveria um período de intensa atividade política e partidária, que seria interrompido com o golpe civil-militar de 1964. Em 1949 a moeda brasileira era o cruzeiro, padrão monetário adotado em 1942 por Getúlio Vargas durante o Estado Novo, e que vigoraria até 1967, quando foi substituído pelo cruzeiro novo.

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Imagem acima: A moeda brasileira em 1949, ano de fundação do Colégio Mendes de Moraes, era o cruzeiro, criada por Getúlio Vargas em 1942. Foto: RCCB Coleções.

Naquele ano de 1949, a cidade do Rio de Janeiro ostentava o status político de Distrito Federal, status este adquirido com a proclamação da República em 1889. Como capital do país, o Rio de Janeiro era o centro das decisões políticas e o Palácio do Catete, símbolo do poder, cinco anos depois seria o palco de uma das maiores tragédias da história republicana brasileira: o suicídio de Getúlio Vargas. E nunca é demais lembrar que Mendes de Moraes, em 1954, foi um dos signatários do manifesto dos militares que exigiam a renúncia de Getúlio.

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Acima: a bandeira do então Distrito Federal, que correspondia ao atual município do Rio de Janeiro e que foi governado pelo prefeito Mendes de Moraes entre 1947 e 1951. Em 1960, com a inauguração de Brasília, o antigo distrito Federal daria origem ao Estado da Guanabara.

Na condição de Distrito Federal, o Rio de Janeiro não possuía autonomia política e a então capital federal era administrada por um prefeito nomeado pelo Presidente da República.  E o Presidente Eurico Dutra havia nomeado, em 1947, o general Ângelo Mendes de Moraes para prefeito do então Distrito Federal. O Rio de Janeiro, capital da República, preparava-se para sediar a Copa do Mundo de 1950 e, para isso, na gestão do prefeito Mendes de Moraes, as obras do estádio do Maracanã já se realizavam desde 1948. Mendes de Moraes inauguraria, em 1950, o estádio que, por muito tempo, foi o maior do mundo e que seria calado pelo gol de Ghiggia no dia 16 de julho de 1950 diante de 200 mil pessoas.

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Imagem acima: mapa mural do Rio de Janeiro, então Distrito Federal, em 1949, apresentando o relevo e a hidrografia, elaborado na administração do prefeito Mendes de Moraes. Imagem: Arquivo Nacional.

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Foto acima: a construção do estádio do Maracanã para a Copa de 1950 foi a grande obra que marcou o governo do prefeito Mendes de Moraes. A construção do estádio teve início em 1948 e a inauguração ocorreu em 1950. Antes de inaugurar o estádio, porém, o prefeito inaugurou, em 8 de junho de 1949, o colégio na Ilha do Governador que leva o seu nome. Foto: Diário do Rio.

Um detalhe, entretanto, que talvez poucas pessoas saibam, é que o estádio do Maracanã iria chamar-se “Estádio Prefeito Mendes de Moraes”. Havia até um forte lobby para que o prefeito, que já era nome de colégio na Ilha do Governador, também fosse homenageado com o nome do estádio. Alguns jornais e emissoras de rádio, inclusive, mencionavam “Estádio Mendes de Moraes”, mesmo com o estádio ainda não tendo um nome oficial. Tudo leva a crer que era uma “forçada de barra” do prefeito e sabe-se ainda que a própria assessoria de Mendes de Moraes estaria por trás dessa campanha. No entanto, o nome oficial do Maracanã acabaria recaindo sobre o jornalista Mário Filho, um dos grandes incentivadores da construção do estádio. E o nome oficial só seria dado em 1966, pouco depois da morte de Mário Filho. Assim, o prefeito Mendes de Moraes emprestaria seu nome apenas ao colégio. Se o prefeito Mendes de Moraes era vaidoso, não podemos afirmar. Mas, como todo político, certamente iria querer que seu nome fosse divulgado. Se isso for verdade, então foi melhor para ele ter sido o nome do colégio do que do estádio. Isso porque, ao que sabemos, ninguém se refere a um estádio de futebol pelo seu nome oficial. “Maracanã” não é o único exemplo. Se servir de algum consolo, “Prefeito Mendes de Moraes” também é o nome de uma avenida no bairro de São Conrado. De qualquer modo, a família “Mendes de Moraes” acabaria sendo bem homenageada. Isso porque há uma interessante coincidência. Será mesmo coincidência? É que, nesse mesmo ano de 1949, também era inaugurada no Rio de Janeiro, então Distrito Federal, a escola “Deborah Mendes de Moraes”, uma homenagem à esposa do prefeito. Tudo no mesmo ano. Só que a Escola Deborah Mendes de Moraes fica em Pedra de Guaratiba, a aproximadamente 70 quilômetros da Ilha do Governador. Deixaram marido e mulher bem longe um do outro…

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Imagem acima: Edgar Proença, em sua coluna no Jornal dos Sports, defende de forma declarada que o nome do estádio do Maracanã fosse “Estádio Mendes de Moraes”. Tudo leva a crer que a assessoria do prefeito estivesse por trás da campanha feita pela imprensa. No final, ele seria mesmo é o nome do colégio na Ilha do Governador e também de uma avenida em São Conrado.  Note-se a grafia “Morais”, ao invés de “Moraes”. (Reprodução de página do Jornal dos Sports de 18 de junho de 1950). 

Mas no dia do fatídico jogo com o Uruguai, Mendes de Moraes proferiu um discurso infeliz, ao dirigir-se ao time do Brasil “saudando os vencedores” antes mesmo do jogo começar. Isso, segundo contam, parece ter mexido com o brio dos uruguaios. Apesar de o empate dar o título da Copa de 1950 ao Brasil, perdemos por 2 a 1. Na saída do jogo, não foi registrado qualquer tumulto ou briga, apesar da consternação geral. Porém, um fato merece menção: o busto de granito do prefeito Mendes de Moraes que existia no estádio havia sido derrubado. Teria sido por causa da ira de alguns torcedores pela “injeção de ânimo” que o prefeito havia dado aos uruguaios em seu infeliz discurso?

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Foto acima: o gol de Ghiggia, que deu a vitória e a Copa de 1950 ao Uruguai, calando 200 mil pessoas no Maracanã. E o prefeito Mendes de Moraes estava no estádio. O discurso de Mendes de Moraes, cantando vitória antes do tempo, teria mexido com o brio dos uruguaios. Foto: UOL Esporte. 

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Na foto acima: O prefeito Mendes de Moraes (à direita) na inauguração do Maracanã, em 1950, vendo-se ainda o Cardeal do Rio de Janeiro, Dom Jaime de Barros Câmara e o Presidente da República Eurico Dutra, que o nomeou prefeito, cargo que Mendes de Moraes ocupou entre 1947 e 1951. Mendes de Moraes nasceu no Rio de Janeiro em 1894 e viria a falecer no ano de 1990, com 95 anos de idade. Foto: “Nossos Vizinhos Ilustres”.

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Foto acima: o lançamento, em 1948, da pedra fundamental para a construção do Colégio Mendes de Moraes, com a presença do prefeito e do Presidente da República Eurico Gaspar Dutra. Foto: Arquivo Nacional. 

Porém, pouco antes de inaugurar o Maracanã, o prefeito teve um outro compromisso. No dia 8 de junho de 1949, uma quarta-feira, o prefeito de Mendes de Moraes foi até o bairro da Freguesia, na Ilha do Governador, inaugurar um colégio que receberia o seu próprio nome. Ressalte-se que a fundação do colégio coincide com a inauguração da hoje denominada “ponte velha”, que havia sido inaugurada no final de janeiro daquele mesmo ano, possibilitando a ligação da Ilha do Governador ao continente. A construção da ponte ligando o continente à Ilha atenderia às demandas do próprio crescimento da Ilha do Governador e das instalações de bases militares no local.  Evidentemente, com o acesso à Ilha do Governador sendo facilitado com a ponte, um colégio naquele local seria de grande valia. Até porque, com o passar do tempo, o colégio não atenderia apenas a alunos da Ilha do Governador. Assim, podemos perceber que a inauguração da ponte e do Colégio Mendes de Moraes, no mesmo ano de 1949,  acabariam se complementando.

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Foto acima: a tesoura com a qual o prefeito Mendes de Moraes cortou a fita inaugural do colégio é uma relíquia até hoje preservada em local de destaque na vitrine de troféus do colégio. Foto: arquivo CEPMM.

As obras para a construção do colégio tiveram início em maio de 1948. Quando foi inaugurado, em 8 de junho de 1949, o colégio possuía 9 salas de aula, um laboratório de Ciências, oficinas de encadernação e marcenaria, um refeitório e um consultório médico e dentário. Para a construção do colégio, uma grande área teve que ser aterrada e um pequeno rio que passava no local, canalizado.

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Na foto acima: O Colégio Mendes de Moraes em 1949, ano de sua fundação. Note-se que uma vasta área livre ladeava o colégio e ainda não existia a casa de nossa amiga Nancy, vizinha do colégio. Foto: acervo digital de Jaime Moraes.

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A foto acima, de 1948, mostra a construção da Ponte do Galeão, que ligaria a Ilha do Governador ao continente. A ponte seria inaugurada no mesmo ano de fundação do Colégio Mendes de Moraes: 1949. Foto: Ilha do Governador – O Passado no Presente – UOL Fotoblog.

Na época da inauguração do colégio, vigorava no Brasil a reforma de ensino que havia sido feita pelo ministro Gustavo Capanema, ainda na Era Vargas, dividindo o ensino em primário, ginasial e colegial, sendo este último subdividido em científico e clássico. O antigo colegial equivaleria ao atual ensino médio e o Colégio Mendes de Moraes tornaria-se o primeiro estabelecimento oficial de ensino ginasial e, também, de ensino médio da Ilha do Governador. Em 1949, quando foi inaugurado com o nome de “Ginásio Municipal Prefeito Mendes de Moraes”, o colégio não abriu turmas regulares, apenas um preparatório para o admissão, que era a antiga prova de acesso ao curso ginasial. Até porque a inauguração do colégio ocorreu no meio do ano letivo.

Há, no entanto, uma “curiosidade politiqueira” envolvendo a inauguração do Colégio Mendes de Moraes. Isso porque, no dia 17 de dezembro de 1949, um sábado, o prefeito Mendes de Moraes retornou ao colégio para realizar uma “segunda solenidade de inauguração”. A motivação política desta outra solenidade era evidente: no ano seguinte, haveria eleição para Presidente da República. O Presidente da República, Eurico Dutra, que já havia comparecido à solenidade de lançamento da pedra fundamental, novamente esteve presente. Certamente o único Presidente da República que esteve no Colégio Mendes de Moraes. A estratégia politiqueira da dupla, entretanto, fracassou. Isso porque, em 1950, Getúlio Vargas, do PTB, seria eleito Presidente da República derrotando, dentre outros, o candidato Cristiano Machado, do PSD, partido de Dutra.

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Foto acima: o Presidente da República Eurico Dutra esteve no Colégio Mendes de Moraes para uma segunda solenidade de inauguração no dia 17 de dezembro de 1949. Foi uma jogada “politiqueira”, visto que no ano seguinte ocorreriam eleições no país. Foto: Arquivo Nacional.

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Foto acima: o prefeito Mendes de Moraes discursa diante do Presidente da República Eurico Dutra na segunda solenidade de inauguração do colégio em 17 de dezembro de 1949. O local onde estão o Presidente Dutra e o prefeito Mendes de Moraes é exatamente onde hoje encontra-se a panóplia das bandeiras, na entrada do colégio. Foto: Arquivo Nacional.

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Foto acima: No dia 14 de agosto de 1952, Mendes de Moraes já não era mais o prefeito e foi recebido, junto com outros generais recém-promovidos, pelo Presidente Getúlio Vargas no Palácio do Catete. Dois anos depois, Mendes de Moraes assinaria o manifesto dos militares que exigia a renúncia do Presidente Vargas. Foto: Arquivo Nacional.

Foi só em 1950 que as atividades do Ginásio Municipal Mendes de Moraes efetivamente tiveram início e com a existência apenas do turno da manhã, onde contava com 65 alunos de preparatório e 12 alunos do curso ginasial. Seu primeiro diretor foi o professor Álvaro Moutinho Neiva, que permaneceu no cargo até 1951, quando assumiu interinamente a direção o professor Geth Jansen, mais tarde substituído por Walfrido Leocádio Freire.

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Foto acima: o professor Geth Jansen, segundo diretor da história do Colégio Mendes de Moraes no ano de 1951. O professor Geth jansen também ocuparia a direção entre 1957 e 1960. Foto: arquivo de Jaime Moraes.

A construção do Ginásio Mendes de Moraes foi de grande valia para a população insulana, visto que a Ilha do Governador não possuía, até então, estabelecimento de curso ginasial. Assim, antes da inauguração do colégio, as crianças que concluíssem o antigo curso primário tinham que estudar fora da Ilha. E numa época em que ainda não existia a ponte. Evidentemente, a apreensão dos pais era grande. Por esse motivo, a AMIG (Associação dos Moradores da Ilha do Governador), que existia desde 1946, fez um fortíssimo lobby para a construção do colégio e chegou até a contribuir, cedendo material de construção. Algo que atualmente chamaríamos de “parceria público-privada”. Com a pressão e o auxílio da AMIG, a obra ficou pronta em apenas um ano, surgindo assim o primeiro ginásio da Ilha do Governador.

Um artigo de Yvone Jean, intitulado “A escola ativa direta: a empolgante experiência do professor Álvaro Neiva e seus colaboradores”, publicado no jornal Correio da Manhã, em 24 de setembro de 1950, a partir de uma visita feita ao “Ginásio Mendes de Moraes”, fala sobre a rotina dos primeiros alunos do colégio: as aulas começavam sempre à 8 horas da manhã, exceto nos dias de “cultura física”, quando as atividades tinham início às 7 horas. Ao meio-dia vinha o recreio, seguido do almoço. A visitante fala, no artigo, das atividades que os alunos praticavam, como biblioteca, centro de civismo e artes plásticas. Naqueles primeiros tempos, as nove salas de aula não eram divididas por séries ou turmas e sim por disciplinas (aliás, uma reivindicação atual de muitos professores). Assim, existia a sala de Geografia, a sala de Francês, a sala de Latim, a sala de Matemática e assim por diante. A sala de Francês, por exemplo, era adornada com cartazes doados pela embaixada e por companhias aéreas. Já na sala de Geografia existia o que se chamava de “mapa vivo”. Nesse tipo de mapa, os alunos traziam recortes de notícias de jornais e as colavam em seus respectivos lugares no mapa. No dia da reportagem do Correio da Manhã, o “mapa vivo” mostrava, por exemplo, a Guerra da Coreia (que começou exatamente naquele ano de 1950) e um tufão no Japão. Na época, conforme é relatado no artigo, o então “Ginásio Mendes de Moraes” vivia o que se chamava de “experiência ativa direta”, em que existiam inclusive as “patrulhas” masculinas e femininas, que tinham como base o escotismo, o espírito de equipe e as competições em grupo. Sabe-se, pela leitura do artigo, que o aluno Artur era o chefe das “patrulhas masculinas” e a aluna Marília, a chefe das “patrulhas femininas”. Em seus primeiros tempos de existência, o Mendes de Moraes já ganhava destaque nas páginas de um dos mais importantes jornais do Rio de Janeiro.

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Acima: reprodução da página 10 do jornal “Correio da Manhã”, de 24 de setembro de 1950, em sua edição de número 17.647, que fala sobre a “empolgante experiência” do primeiro diretor do Mendes de Moraes, Álvaro Neiva: a “escola ativa direta”. No artigo, podemos conhecer um pouco da rotina dos primeiros alunos do Mendes de Moraes.

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Foto acima: em detalhe da imagem anterior, alunas da primeira turma do Mendes de Moraes, em 1950, época em que as salas de aula eram dividias por disciplinas. Foto: jornal “Correio da Manhã”, 24 de setembro de 1950.

Foi em 1950 que os alunos do Ginásio Mendes de Moraes lançaram o jornal “O Maracajá”, nome dado em alusão a uma das denominações primitivas da Ilha do Governador. O jornal editado pelos alunos forneceria notícias sobre a Ilha do Governador e seria vendido ao preço de 1 cruzeiro. O primeiro número do jornal editado pelos alunos seria publicado na última semana de setembro de 1950, e traria a publicação de uma entrevista com uma então ilustre moradora da Ilha do Governador: a escritora Rachel de Querioz, insulana desde 1945. Pelo que sabemos, o primeiro número do “Maracajá” trouxe um “furo” na entrevista com a escritora: pela primeira vez seriam revelados os nomes dos cachorros da Rachel de Queiroz, até então desconhecidos. Disse o aluno Artur, o chefe das “patrulhas masculinas”, na entrevista ao Correio da Manhã:

“Sabe o que é Maracajá? É um gato bravo. E a Ilha tem a forma de um gato bravo. Maracajá era o nome primitivo da Ilha. Pois será o jornal da Ilha e será vendido a 1 cruzeiro.” (Correio da Manhã, 24 de setembro de 1950).

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Imagem acima: A Ilha do Governador teria a forma de um “maracajá” ou “gato bravo” e por isso “maracajá” foi um dos primeiros nomes da Ilha. Isso, segundo disse o aluno Artur em 1950, levou ao nome do primeiro jornal editado pelos alunos do Mendes de Moraes: “O Maracajá”. O primeiro número foi publicado na última semana de setembro de 1950. Fonte da imagem: riocomovamos.org.br

Em 1953, já sob a gestão do professor Álvaro Paes de Barros Filho, a primeira turma de ginasial concluiu o curso e, para que os estudos desses formandos tivessem sequência, foi criado o curso científico. Foi a partir desse ano de 1953 que o colégio passou a denominar-se  “Colégio Municipal Prefeito Mendes de Moraes” e o número de alunos pularia dos 65 iniciais para cerca de 300. A mudança do nome tinha uma razão evidente: o estabelecimento não seria apenas “ginásio”, mas passaria também a ter o colegial, oferecendo o curso científico.  Em 1955, já com 8 turmas do curso ginasial e 3 do científico, o corpo discente já contava com 350 alunos, com o colégio ainda funcionando somente no turno da manhã.

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Foto acima: o professor Álvaro Paes de Barros Filho, diretor do Mendes de Moraes no ano de 1953, quando formou-se a primeira turma do ginasial do colégio. Foto: arquivo de Jaime Moraes.

Foi no ano de 1955 que originou-se o atual auditório do colégio, palco de inesquecíveis solenidades de formatura, eventos culturais, assembleias históricas, reuniões pedagógicas e festas. O atual auditório do colégio, na verdade, era uma quadra coberta, que foi adaptada para ser auditório no ano de 1955, ainda sob a gestão do diretor Álvaro Paes de Barros Filho.

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Foto acima: passeio ciclístico do Colégio Mendes de Moraes em 1954, organizado pelo professor de Educação Física João Vianna Barbosa de Castro, um dos primeiros docentes da história do colégio. Destaque para o muro do colégio, que ainda era baixo, e para os uniformes. Foto: acervo digital de Jaime Moraes.

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Foto acima: solenidade de formatura da turma do curso ginasial de 1957, realizada no auditório, que até 1955 era uma quadra coberta. Foto: Paulo Roberto M. de Souza, acervo digital de Jaime Moraes.

A partir de abril de 1960, assume a direção o professor José Lacerda de Araújo Feio, que permanece no cargo até março de 1961, quando o colégio já contava com 452 alunos.

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Foto acima: O professor José Lacerda de Araújo Feio, diretor do Colégio Mendes de Moraes entre 1960 e 1961. Foto: arquivo de Jaime Moraes.

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Na foto acima, de 1954, a entrada do Colégio Mendes de Moraes. O uniforme da época exigia calça comprida e gravata para os rapazes e vestido comprido para as moças. Foto de Antônio Leite Cruz, acervo digital de Jaime Moraes. 

mendes de moraes formatura curso científico 1957

Na foto acima: os formandos do Curso Científico do Colégio Mendes de Moraes do ano de 1957. Foto: acervo digital de Jaime Moraes.


mendes de moraes professores do ano de 1959

Na foto acima: professores do Colégio Mendes de Moraes no ano de 1959. Foto: acervo digital de Jaime Moraes.

mendes de moraes 1960

Na foto acima: Turma do ano de 1960 do Colégio Mendes de Moraes. Nessa ocasião, as turmas eram organizadas por grupos masculino e feminino, acabando assim as turmas mistas. Foto de Ana Burlamaqui, acervo digital de Jaime Moraes.

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Na foto acima: Turma da segunda série do curso científico do Colégio Mendes de Moraes de 1960. Nessa época, o uso da camisa de manga comprida e gravata era obrigatório para os rapazes e o vestido comprido para as moças.  Foto: acervo digital de Jaime Moraes.

Em 1960, já no final do governo do Presidente Juscelino Kubitschek, o Rio de Janeiro deixa de ser o centro das decisões políticas do país, com a transferência da capital federal para Brasília. O território do antigo Distrito Federal passa então a formar uma outra unidade da Federação: o Estado da Guanabara. A Guanabara passava a ser o menor estado da Federação e teve como seu primeiro governador José Sette Câmara Filho. Na verdade era uma Cidade-Estado, visto que a nova unidade da Federação não possuía subdivisão municipal. Ou seja, era um estado formado por um só município. Assim, o nome do colégio permanecia como “Colégio Municipal Prefeito Mendes de Moraes”, embora já estivesse sob a administração do governo do novo Estado da Guanabara. Por isso, muitas escolas na época já se denominavam como “estaduais”. Porém, em 1975, com a fusão dos antigos estados da Guanabara e Rio de Janeiro, a antiga Guanabara passou a ser o município do Rio de Janeiro e tornou-se capital do novo estado e foi aí que algumas escolas passaram a ser municipais e outras estaduais.

fundação de Brasília

Foto acima: no dia 21 de abril de 1960, às 9 horas e 30 minutos, a nova capital, Brasília, era inaugurada. O Rio de Janeiro deixava de ser a capital federal e transformava-se no Estado da Guanabara, que teve como primeiro governador José Sette Câmara Filho. Foto: marciusmachadocientistapoliticoblogspot.

estado da guanabara

Imagem acima: em 21 de abril de 1960, com a transferência da capital federal para Brasília, o território do antigo Distrito Federal, destacado em vermelho, dá origem ao Estado da Guanabara e a partir de então o Colégio Mendes de Moraes irá tornar-se estadual. Com a fusão, em 1975, esta condição seria confirmada. Fonte da imagem: Wikipédia.

Via de regra, as escolas de primeiro grau (atual ensino fundamental) eram municipais, enquanto as de segundo grau (atual ensino médio) eram estaduais. Foi aí que o Mendes de Moraes, inequivocamente, tornou-se um colégio estadual. Lembrando ainda que a denominação “escola” geralmente era atribuída a estabelecimentos de primeiro grau, enquanto a denominação “colégio” era atribuída a estabelecimentos de segundo grau.

O início do ano letivo de 1962 mostrava que o Colégio Mendes de Moraes estava em franco crescimento. Sob a batuta da professora Maria Amélia dos Santos Penna, que havia assumido a direção no ano anterior, o Colégio Mendes de Moraes passaria a funcionar nos três turnos, contando com 40 turmas e um total de 1382 alunos matriculados. Uma medida adotada nessa época foi a formação das turmas por sexo, o que acabaria com as turmas mistas. A segregação sexual, no entanto, traria um desagrado geral.  O aumento da demanda trouxe a necessidade de obras de expansão, melhoria das instalações sanitárias e da secretaria.

Durante a gestão de Maria Amélia dos Santos Penna, o então governador do Estado da Guanabara, Carlos Lacerda, implantou nas escolas a disciplina “Estudos Sociais da Guanabara”. Lacerda instituiu a referida disciplina ainda na euforia do recém-criado Estado. Foi a partir desta disciplina que a diretora Maria Amélia idealizou um trabalho sobre a Ilha do Governador dentro da nova disciplina, valorizando a geografia e a história locais. Este trabalho da diretora Maria Amélia culminaria, em 1963, com a realização da Primeira Semana de Cultura, uma exposição realizada no colégio sobre a Ilha do Governador.

maria amélia dos santos penna

Foto acima: professora Maria Amélia dos Santos Penna, diretora do Colégio Mendes de Moraes entre 1961 e 1965. Foi em sua gestão que o colégio passou a funcionar nos três turnos. Foto: arquivo de Jaime Moraes.

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Foto acima: turmas do ano de 1964 do Colégio Mendes de Moraes, época em que o colégio era dirigido pela professora Maria Amélia dos Santos Penna. Foto: Demóstenes Sarmento, arquivo de Jaime Moraes.

A inesperada renúncia do Presidente Jânio Quadros, ocorrida em agosto de 1961, abriu uma crise política no país, que foi “solucionada” com a adoção do sistema parlamentarista de governo. João Goulart, que havia assumido a Presidência, perdera poderes com o ardil golpista do parlamentarismo. Mas um plebiscito, em 1963, iria restituir-lhe os poderes. Militares, grupos e partidos conservadores e entreguistas, como a UDN do então governador do Estado da Guanabara Carlos Lacerda, e os interesses norte-americanos, estiveram à frente do golpe de Estado que derrubaria João Goulart, impondo no Brasil a ditadura militar.

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Foto acima: com o golpe militar de 1964 que derrubou o Presidente João Goulart e instalou a ditadura no Brasil, estudantes e professores foram alvos da repressão. E o Colégio Mendes de Moraes seria uma das resistências. Foto: Evandro Teixeira.

Tempos muito duros viriam pela frente e o ensino, o movimento estudantil e os professores seriam alvos de ataques e perseguição, exigindo-se forte resistência. E o Colégio Mendes de Moraes foi um dos protagonistas nessa resistência. Não podemos deixar de registrar que o próprio Mendes de Moraes apoiou o golpe que derrubou o Presidente João Goulart e instalou a ditadura militar no Brasil. E o colégio que leva o seu nome seria uma resistência a essa ditadura por ele apoiada. Certamente, Mendes de Moraes jamais imaginaria essa situação. Mas isso é assunto para o próximo capítulo.

PRÓXIMO CAPÍTULO: PARTE II – DA RESISTÊNCIA AO COLEGIADO (1964-1989).

 

CORRE, MORO, CORRE…

corre moro

“Será que não está na hora de termos um ministro do Supremo Tribunal Federal evangélico?” (Jair Bolsonaro, durante uma convenção evangélica, em 30 de maio de 2019).

“Talvez ele se converta agora.” (Marco Aurélio Mello, ministro do STF, referindo-se a Sérgio Moro, após a declaração de Bolsonaro).

Depois de ter afirmado que não fez qualquer acordo com Sérgio Moro, como sua indicação ao STF, para que o ex-juiz aceitasse participar de seu governo, agora Bolsonaro mostra que a cartada de Sérgio Moro de participar do governo de extrema-direita pode ir por água abaixo. Será que, novamente, o “herói de Curitiba” vai ser escanteado?

Moro, como ministro da Justiça, só vem colecionando derrotas desde o início do governo e já foi esculachado até pelo Rodrigo Maia. Mas tudo valia a pena, desde que o tal “bilhete premiado” caísse em suas mãos: a tão sonhada vaga de ministro do STF, admitida por ele próprio. Assim, abandonou a toga, converteu-se à extrema-direita e, longe de ser aquele “super-ministro” que Bolsonaro o fez acreditar, Moro nada mais faz do que emprestar seu nome, ser desautorizado e cair no ridículo. A “conversão” foi tamanha que ele até já mandou para a cucuia os seus mais sólidos dogmas: sobre “caixa 2”, sobre não ceder a políticos e até um princípio, que outrora ele defendia, ou seja, o de que o ocupante do cargo de ministro de Estado não pode ser nomeado ministro do STF. Tudo, literalmente, para a cucuia.

Porém, tudo indica que, apesar de todo esforço de Moro, seu “bilhete premiado” também poderá ir para a cucuia. Ao afirmar que chegou a hora de se ter um evangélico como ministro do STF, Bolsonaro sinaliza que dará mais uma rasteira em seu “super-ministro”. Mas talvez reste uma saída: a conversão, como bem lembrou o ministro Marco Aurélio Mello. Para quem se converteu ao bolsonarismo e abriu mão de suas convicções como juiz, talvez não seja difícil para Moro converter-se a alguma religião evangélica. Ainda assim, Moro terá que trabalhar porque muitos “evangélicos”, após a afirmação de Bolsonaro, já estão lambendo os beiços. Outros, talvez, se articulando com o Malafaia. E o Dallagnol, que é evangélico, já deve estar vivendo aqueles dias mais reflexivos e de meditação em seus “jejuns espirituais”. Corre Moro, corre…

 

MORO É SÓ DERROTA!

moro stf

Desde que aceitou fazer parte do governo Bolsonaro, o “ex-futuro-super-ministro” Sérgio Moro só vem acumulando derrotas. Tanto dentro do governo como no Congresso. Primeiro, foi obrigado a conviver e a ter como colega de Ministério uma pessoa que ele considera mais criminosa do que o próprio Lula. Sim, porque Moro já havia afirmado, antes de ser ministro, em uma palestra nos Estados Unidos, que “o crime de caixa 2 é pior do que o de corrupção”. Esse episódio virou até piada da família Marinho na Globo. Pouco depois, seu companheiro de Ministério, Onyx Lorenzoni, confessou, em um vídeo, ter praticado o crime de caixa 2. Moro então, já no governo, teve que “entubar” e “perdoou” Onyx. Primeira grande derrota. Primeiro grande “mico”. Primeira renúncia de seus princípios.

Depois, Moro foi desautorizado por Bolsonaro. Isso, só porque o “justiceiro de Curitiba” havia nomeado uma suplente (isso mesmo, suplente!), para um conselho consultivo que não tem qualquer poder de decisão. Foi no episódio em que Moro havia nomeado a cientista política Ilona Szabó como suplente do Conselho de Política Criminal e Penitenciária. Moro apenas “lamentou” o veto presidencial. Onde estava o “super-ministro”? Onde estava a “carta branca” que Moro teria? Mais uma derrota. Mais um “mico”.

Depois, foi o fatiamento do projeto anticrime, logo após pressão dos políticos. Logo Moro, que sempre afirmou que não cederia às pressões de políticos, principalmente em se tratando de temas como corrupção e caixa 2. Então, cedendo às pressões e contrariando seus princípios impolutos, Moro fatiou o projeto, deixando o caixa 2 de fora. Festa para os políticos. Mais um “mico” e outra derrota para Moro.

No Congresso, Moro conseguiu até ser esculachado por ninguém menos do que Rodrigo Maia, o “Botafogo” da lista de propinas da Odebrecht, quando Maia o chamou de “funcionário do Bolsonaro”. Só faltava essa. Um investigado pelo STF esculachar o “herói lavajeteiro”. Que derrota!

Depois foi o projeto de posse das armas, que foi anunciado por Bolsonaro sem mesmo ter o parecer de Moro, visto que Bolsonaro o anunciou menos de 24 horas após enviá-lo ao Ministério da Justiça. Claro que Moro nada leu. Mas, oficialmente, chancelou. Outro “mico”, outra derrota.

E agora, em mais outra retumbante derrota, a Câmara dos Deputados decidiu que o COAF deve ficar no Ministério da Economia e não no da Justiça. Moro simplesmente “lamentou o ocorrido”. E, certamente, ele que, em menos de 5 meses de governo já lamentou muito, ainda terá muito o que lamentar.

Tudo por causa de um “bilhete premiado” (leia-se, a vaga no STF), que pode até nem sair. Enquanto isso, aquela imagem do “juiz tudo posso” vai sendo erodida em um governo que ele nada apita e ainda tem que jogar no lixo suas mais sólidas convicções.

Percebe-se, apesar de Moro não admitir, o desconforto em que o Ministro da Justiça encontra-se no governo Bolsonaro. Pior: ele não pode sair (olha a vaga no STF!) E Bolsonaro, evidentemente, não pode nem pensar em demiti-lo. Que situação! E lembremos que a “casa lotérica” pode até fechar…

 

 

O PREPOSTO DOS BANQUEIROS

paulo-guedes.jpg“Pego um avião e vou morar lá fora. Já tenho idade para me aposentar.” (Paulo Guedes, o ministro-preposto dos banqueiros, ameaçando deixar o Ministério caso a reforma da previdência não seja aprovada do modo como foi encomendada pelos banqueiros, em entrevista publicada em 24 de maio de 2019).

Paulo Guedes não é ministro. Paulo Guedes é um preposto dos banqueiros, que ocupa um dos nichos do tumultuado e desastroso governo Bolsonaro, com a finalidade de aprovar a reforma da previdência que os banqueiros querem. E o que os bancos privados querem? Querem acabar com o sistema de previdência pública e impor a capitalização para engordarem ainda mais os seus nababescos lucros.

E por que dizemos que Paulo Guedes não é um ministro? Porque ninguém, na condição de ministro, jamais diria que entregará o cargo caso um projeto apresentado não seja aprovado pelo Congresso (no caso, o projeto da reforma da previdência). Essa chantagem mostra que ele só está ali para um único propósito: aprovar a reforma que os banqueiros encomendaram. Guedes falou que já tem idade de se aposentar. Então, acrescentou, pegaria um avião e iria morar lá fora. Mas ele não se aposentaria com o teto do INSS. Guedes, como todos aqueles que defendem a reforma da previdência, não será afetado por ela.

Um ministro, quando representa o país e não um grupo de interesses privados, caso tenha um projeto rejeitado pelo Parlamento, deverá buscar saídas alternativas ou negociar as mudanças apontadas pelo Legislativo. É para isso que ele está lá. Na verdade, a chantagem de Paulo Guedes dirige-se a parlamentares de direita, da própria base do governo que, mesmo sendo do governo, reconhecem os absurdos e os ônus que a reforma representará para quem, realmente, necessita da previdência pública.

Colocar a previdência nas mãos dos banqueiros e vender o Brasil, sob todos os aspectos, é a missão de Guedes. Como podemos imaginar um trabalhador indo resolver com um banqueiro a sua própria aposentadoria? E não estamos falando de aposentadoria complementar.

Imagino até uma improvável possibilidade de negociação, porém, só para mostrarmos de quem, realmente, Paulo Guedes está a serviço: suponhamos que a oposição aceitasse a tal “capitalização”, sob a condição de que esta só pudesse ser feita em bancos públicos. Será que Guedes aceitaria essa condição?

Tenho certeza de que essa não precisa nem perguntar para o “Posto Ipiranga”.