FUTEBOL E AS “FRANGUEIRAS DA MODERNIDADE”

frangueiraNo dia 8 de julho de 2014, quando o Brasil sofreu sua maior derrota em toda história das Copas do Mundo, ao ser trucidado por 7 a 1 pelos alemães, em pleno Mineirão, muita gente disse, inclusive jornalistas, que uma das causas do declínio do futebol brasileiro era o fato de quase nenhum jogador ter identidade com o país. Muitos saíam precocemente do Brasil e alguns sequer chegaram, por exemplo, a terem tido a oportunidade de ao menos uma vez jogarem no Maracanã. Essa crítica que muitos faziam à saída precoce e falta de identidade de nossos atletas não deixava de ser, velada ou manifestamente, consciente ou inconscientemente, uma crítica à Lei Zico/Pelé. A maioria daqueles que, no entanto, adotavam esse discurso, não tinham essa posição em 1998, quando a Lei Zico/Pelé foi publicada. Por outro lado, aqueles que, em 1998, criticavam a Lei Zico/Pelé, por ser lesiva aos clubes e benéfica aos empresários ou por tirar precocemente jovens talentos do Brasil, eram tidos como “retrógrados”. Na época, a  Lei Zico/ Pelé era o ícone da “modernidade”. A mídia, predominantemente, assim a considerava, como considera “moderna” a reforma trabalhista (quem ganha com ela?), como considera “moderna” a reforma da previdência (quem ganha com ela?) e assim por diante.

Após a tragédia ocorrida no centro de treinamento do Flamengo, não resta qualquer dúvida em relação à responsabilidade do clube, sob o qual estava a custódia de menores de idade. A legislação brasileira é clara em relação a isso e vários especialistas já se pronunciaram. Porém ainda vemos que uma das causas remotas de situações como essas está na Lei Zico/Pelé, lei esta que chega a parecer até o PSDB, de tão blindada que é pela mídia. A Lei Zico/Pelé é imune a críticas feitas pela imprensa em geral e pela imprensa esportiva em particular. É impressionante como a mídia em geral sempre blindou essa lei e jamais questionou, por exemplo, como que empresários do futebol (Zico e Pelé) ocuparam cargos de Secretário Nacional e Ministro dos Esportes, nos governos Collor e FHC,  e acabaram formatando juridicamente um diploma legal que só beneficia os empresários, sendo eles próprios empresários do esporte, inclusive à época em que ocuparam os respectivos cargos. Seria o mesmo que o Ronaldo Caiado ser Ministro da Reforma Agrária. Ou o Sílvio Santos ser Ministro das Comunicações. Ou ainda, para dar outro exemplo, o dono da Unimed ser Ministro da Saúde.

A Lei Zico/Pelé, em relação ao clube formador do atleta, reconhece a formação e dá ao clube uma participação em eventuais negociações futuras. Aos 16 anos, o atleta já pode assinar um contrato. O clube formador investe e o retorno tem que ser a jato. Vejam com que idade os jovens deixam os clubes e até o Brasil. Ficamos pasmos ao assistirmos, após a tragédia no Flamengo, “empresários” de meninos de 14 e 15 anos dando entrevistas. Isso mesmo: “empresários”. Não estamos falando em responsáveis ou representantes legais. Muitos já possuem, com essa idade, “empresários”. E o clube, para não perder seus direitos, deve manter os jovens em uma situação que faz lembrar os incubatórios da avicultura em que os pintinhos, em um tempo recorde, viram frangos para o abate e devem dar o retorno para a empresa. As etapas do desenvolvimento são queimadas e, precocemente, um pintinho já virou um frangão. Essa metáfora aplica-se aos jovens atletas que nasceram e vivem sob a “moderna” Lei Zico/Pelé: há um investimento na formação do atleta, o clube tem que assinar um contrato a partir dos 16 anos para não perder os direitos, depois o jogador tem que ser negociado para dar o retorno. E tudo tem que ser muito rápido: formação, contrato, negociação, e retorno. E, sempre por trás, há o “empresário”, ou “agenciador” ou um “picareta” qualquer que seja. As vitrines ou “frangueiras” dos empresários são as chamadas competições “sub”. A cada dia inventam uma nova faixa etária, sempre para menos: sub-20, sub-18, sub-16, sub-15, sub-14 e assim sucessivamente. No afã de ter que provar a formação e não perder seus direitos, muitos clubes acabam mantendo sob contrato às vezes centenas de menores a partir dos 16 anos de idade. A saída dos talentos será inexorável. E os lucros, de quem serão?

No momento em que reabriu-se no país o debate sobre divisões de base do futebol após a tragédia que matou 10 menores de idade, ainda não vimos a imprensa, nem mesmo a imprensa esportiva, trazer a “moderna” Lei Zico/Pelé para o debate. Até porque, os chamados “empresários”, que são os que mais lucram, não terão nenhuma responsabilidade civil, criminal ou pecuniária em relação ao ocorrido. Enquanto isso, as “frangueiras da modernidade” vão tendo licença até para matar.

 

OBRIGADO BOECHAT!

boechat

A foto acima é do estúdio da Bandnews, no dia 20 de setembro de 2017. Naquele dia, o jornalista Ricardo Boechat, a quem nosso livro “Olaria – Histórias de um Centenário”, foi enviado, entrou em minha história pessoal e também na história do Olaria Atlético Clube.  Assim como muitos outros jornalistas, Boechat recebeu o nosso livro. No entanto, nenhum jornalista divulgou tanto o nosso livro, e em rede nacional, como o Ricardo Boechat. No momento do Jornal da Bandnews em que Boechat travava um diálogo matinal com Milton Neves, a “pitonisa”, nosso livro e o Olaria Atlético Clube foram nacionalmente divulgados. A foto de Boechat, folheando e comentando nosso livro, nos enche de orgulho. Fiquei impressionado, ao assistir o programa, com seu conhecimento sobre o Olaria. Fiquei lisonjeado com sua palavras sobre nosso livro. Sempre pensei em, um dia, agradecê-lo pessoalmente. O vídeo do Jornal da Bandnews de 20 de setembro de 2017 pode ser acessado no link abaixo e o trecho em que ele fala de nosso livro tem início com 1 hora e 44 minutos de gravação:

Infelizmente hoje, logo no início da tarde, chegou a notícia da morte de Boechat, em mais um episódio trágico, dentre os muitos que vêm se acumulando nas últimas semanas. Boechat deixou a cidade de Campinas, por volta do meio-dia, onde fez uma palestra, embarcou em um helicóptero para a capital paulista e, na rodovia Anhanguera, a aeronave chocou-se com uma carreta, ceifando a vida de um dos maiores jornalistas do Brasil.

Mesmo quem não conhecia pessoalmente Boechat sabia que ele era singular e, ao mesmo tempo, uma pessoa comum. Seu jornalismo era uma mistura de sagacidade, coragem e um espírito crítico com uma das maiores capacidades argumentativas do mundo jornalístico. Hoje foram divulgadas várias facetas desse grande ser humano: ele não era apenas um jornalista singular. Era uma voz, uma inteligência e uma competência a serviço do leitor, do ouvinte, do telespectador e do povo em geral. Sem ser vulgar ou chulo. Ele teve, como todo ser humano, dissabores em sua vida, como uma depressão, doença que pode até matar. Mas recuperou-se e fazia palestras motivacionais para mostrar que é possível reverter as desventuras.

Hoje o Brasil não perdeu apenas um jornalista. Perdeu um cidadão que representava aquele jornalismo crítico, independente e do qual todo jornalista deveria se orgulhar. O destino não permitiu que eu agradecesse pessoalmente ao Boechat por aquele 20 de setembro de 2017. Meu agradecimento pessoal ficou adiado. E para um outro plano. Descanse em paz e fique com todos os deuses, Ricardo Boechat!

 

O SÍNODO E A ESPIONAGEM

sínodo da amazônia“Queremos neutralizar isso aí. Vamos entrar fundo nisso.” (General Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional, em entrevista à repórter Tânia Monteiro, ao fazer alusão ao Sínodo para a Amazônia).

No mesmo dia em que assistimos ao filme “Batismo de Sangue”, baseado no livro de Frei Betto, que conta a história da prisão e torturas a padres da Igreja Católica que combatiam a ditadura e, por isso, foram considerados “comunistas”, recebemos a notícia de que a ABIN e o Gabinete de Segurança Institucional do governo ultra-direitista de Bolsonaro elegeram um novo alvo. Depois de professores, sindicalistas, artistas, ambientalistas, indígenas, quilombolas, agora o “perigo” vem da Santa Sé.

As palavras do general Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional, ao dizer que “vai entrar a fundo e neutralizar isso aí” são, no mínimo, preocupantes. O Papa Francisco convocou para o mês de outubro desse ano o Sínodo da Amazônia, que terá como tema “Amazônia: novos caminhos para a Igreja e uma ecologia integral.” Evidentemente, em se tratando de um governo como o de Bolsonaro, aliado e patrocinado por ruralistas, mineradoras e grupos estrangeiros que querem se apoderar da Amazônia; em se tratando de um governo em que o ministro fundamentalista das Relações Exteriores diz que “o aquecimento global é uma conspiração comunista”; em se tratando de um governo em que o ministro do meio Ambiente já foi condenado (pasmem!) por crime ambiental; em se tratando de um governo que se opõe ao Acordo de Paris e à pautas ambientalistas; em se tratando de um governo em que uma ministra raptou uma criança indígena; em se tratando de um governo descompromissado com a demarcação de terras indígenas e defesa das áreas quilombolas, evidentemente as críticas do clero católico progressista serão inevitáveis durante a realização do Sínodo. O Sínodo é uma Assembleia, um foro de debates, coisa que o governo Bolsonaro, desde sua epigênese, nunca aceitou. Colocar uma Assembleia de religiosos católicos, que terá a presença de representantes do clero brasileiro, sob a mira da ABIN e do Gabinete de Segurança Institucional é uma ameaça que faz lembrar os nada saudosos tempos mostrados no filme “Batismo de Sangue”. A meta do governo de extrema-direita de Bolsonaro é fazer uma grande espionagem, com auxílio do governo italiano. A ameaça é de se deflagrar uma espionagem ilegal. E seria bom lembrar que o Vaticano é um Estado soberano desde 1929. O encontro de bispos de todo mundo e de representantes de organizações ambientalistas ocorrerá em Roma e o governo brasileiro já sinalizou que pedirá o auxílio da Itália para os devidos “monitoramentos” (eufemismo para “espionagem”).

O governo de extrema-direita sabe que receberá muitas críticas do clero progressista e de organizações ambientalistas e tem todo direito de rebatê-las. Que venha a público, que dê entrevistas e responda aos questionamentos, que emita notas oficiais.  Porém, jamais tratando uma assembleia de religiosos católicos como uma questão de “segurança nacional”. Qual é a ameaça? Que interesses podem ser contrariados? Seriam, por exemplo, os interesses dos ruralistas, das grandes  mineradoras,  das empresas que querem se apoderar da Amazônia e devastá-la e também daqueles que querem invadir territórios indígenas e quilombolas para interesses privados nacionais e estrangeiros? Certamente, a continuar nesse rumo, o próximo passo será considerar os participantes brasileiros do Sínodo como “comunistas” e dar início a uma perseguição aos religiosos católicos de linha progressista. O próprio Papa Francisco já se declarou socialista e é bom lembrar que o Papa não é apenas um líder religioso. Ele é também um chefe de Estado. E, como chefe de Estado, ele pode sim criticar ou apoiar qualquer governo. Do mesmo modo que Bolsonaro critica, por exemplo, os governos  da Venezuela e de Cuba. E apóia os dos Estados Unidos e Israel.

O Sínodo acontecerá em outubro. Até lá, fiquemos atentos e denunciemos as investidas de espionagem ilegal do governo ultra-direitista. Não vamos permitir que aconteça um novo “Batismo de Sangue”

 

 

FUTEBOL, TRAGÉDIA E LEIS

tragédia do flamengoHá momentos na história esportiva em que as tragédias aproximam e até unem os adversários. Em momentos como esses, a comoção e a solidariedade sobrepõem-se a eventuais rivalidades. Foi assim, por exemplo, com o Botafogo. Em 1942, existiam dois “Botafogos” no Rio de Janeiro. Um era o “Botafogo de Futebol”. O outro era o “Botafogo de Regatas”. Mas ambos disputavam basquete e, em um jogo de basquete entre os Botafogos rivais, um atleta do Botafogo Futebol Clube sentiu-se mal, foi levado ainda com vida para o vestiário e pouco depois faleceu. Seu nome: Armando Albano. A comoção pela morte súbita do atleta levou os dois Botafogos a se unirem. Armando Albano acabou, assim, unificando os dois clubes em uma agremiação que até hoje vive e continua sendo de futebol, regatas e, também, de basquetebol.

Ontem, nas primeiras horas da manhã, recebemos com tristeza a notícia da tragédia que ceifou as vidas de 10 jovens atletas da base do Flamengo, no centro de treinamento do clube localizado em Vargem Grande. O incêndio no alojamento das categorias de base transformou em cinzas os sonhos de 10 adolescentes que teriam quase que uma vida inteira pela frente. É impossível mensurar a dor das famílias desses jovens, famílias essas que carregarão eternamente as implacáveis cicatrizes da desgraça vivida no dia de ontem. Evidentemente, os 10 garotos mortos precocemente na tragédia rubro-negra não serão novos “Armandos Albanos”, no sentido de unificarem os clubes rivais em uma única agremiação. Os clubes continuarão rivais e confrontando-se nos campos, quadras e em outras “arenas”. Porém, seria de bom alvitre pensarmos que a tragédia ocorrida possa, de alguma forma, invocar o atleta Armando Albano. No sentido de trazer paz aos estádios. No sentido de não ver o adversário como um inimigo. Em meio à tristeza, foi bom presenciarmos manifestações de solidariedade que parecem não serem meramente protocolares, vindas de torcidas adversárias conhecidas e de inúmeros torcedores que não são flamenguistas. Mas o trágico acontecimento pode também unir os clubes em torno de uma outra questão. Desde ontem, fala-se muito em “leis”, exigências de segurança, alvarás de funcionamento expedidos pelo Corpo de Bombeiros… Tudo isso, inegavelmente, é necessário. E a legislação em termos de segurança é inquestionável. Mas há uma outra legislação, esta sim, questionável, que merece ser discutida e, quiçá, revista. E começamos com a seguinte pergunta: por que, cada vez mais precocemente, os atletas da base estão deixando seus lares, suas cidades e, muitas vezes, até o país, antes mesmo de completarem 18 anos? Desde a “Lei Zico/Pelé”, que apregoava o “fim da escravidão” no futebol, que o afã dos clubes em recrutar atletas cada vez mais precocemente vem aumentando. A semi-profissionalização, aos 16 anos, idade onde já se pode fazer um contrato, faz dos clubes, muitas vezes, um depósito de jovens cheios de sonhos. A partir dos 16 anos, o atleta já pode ser transferido. Muitos saíram do Brasil sem sequer ficarem conhecidos por aqui. A mercantilização que o futebol tomou desde a “lei modernizadora” de 1998, prevê que o clube formador tenha parte em eventuais futuras negociações. Muitas vezes, empresários e agenciadores estão por trás dessas negociações. Claro que as “fábricas de talentos” têm que ter quantidade e, vez por outra, as qualidades aparecem, isto é, alguns grandes craques são revelados.

Sabe aquela máxima de vender o espetáculo e não os artistas? Assim era o futebol brasileiro. Com a “modernização”, estamos vendendo, muito cedo, nossos “artistas”. As faixas etárias das chamadas competições “sub” estão cada vez sendo mais reduzidas. Isso supõe, muitas vezes, uma queima de etapas na vida de um jovem jogador de futebol. As leis do nosso futebol são cada vez mais espartanas, no sentido de um jovem ter que deixar muito cedo suas famílias e cidades e irem para um centro de treinamento como se estivessem se preparando para uma guerra. Ele tem que ser formado logo, vendido logo, dar retorno logo. Essa é a cruel lógica do mercado. E estamos falando de um mercado de seres humanos ainda muito jovens. Nos tempos em que vendíamos o “espetáculo” e não os “artistas”, o futebol brasileiro viveu a sua época de ouro. E, com certeza, fabricava mais craques do que hoje.  Pelé, Garrincha, Nilton Santos, Zizinho, Romário, Zico, Tostão, Jairzinho, Ademir Menezes, Leônidas, Pepe, Belini, Djalma Santos, Zito, Dida, Vavá, só para citar alguns, são desses velhos tempos.

Armando Albano, de um dos “Botafogos”, uniu dois clubes. A tragédia que matou os 10 atletas do Flamengo poderia também unir os clubes, no sentido de rever e repensar uma legislação em que jovens atletas são, literalmente, números. Se os clubes formadores de atletas não precisassem “correr tanto”, como hoje a lei exige, é bem provável que muitas desventuras não teriam acontecido no futebol brasileiro. E estaríamos, até hoje, apenas revivendo tragédias simbólicas, ocorridas no campo de jogo, como o “Maracanazo” de 1950 ou a “tragédia do Sarriá”, em 1982, em que as derrotas vieram, pois fazem parte do esporte, mas ainda hoje todos lembram, com saudosismo, dos craques daquela época. Infelizmente, os jovens mortos no incêndio de ontem não poderão nem passar por essas outras “tragédias”…

 

 

MORO, SUPREMO E O “AI-18”

moro rasga a constituição

“Rasgar a constituição é o exercício matinal de Moro.” (Paulo Teixeira, deputado federal do PT).

A covardia do Supremo Tribunal Federal, vista no ano passado, associada à subserviência explícita do atual Presidente da Corte ao governo poderá trazer estragos, insegurança jurídica e uma grande confusão. Sérgio Moro anunciou o seu projeto de lei anticrime e anticorrupção que será enviado ao Congresso Nacional. Não é brincadeira, embora possa parecer, mas a apresentação da lei anticorrupção foi precedida de uma discussão sobre o assunto com Rodrigo Maia, o “Botafogo” da lista de propinas da Odebrecht.  Pelo visto, talvez o ministro chame qualquer dia desses o Aécio Neves para discutir uma lei de combate ao tráfico de cocaína.

O que mais chama atenção na tal lei anticrime é que Moro quer “legalizar” a prisão em segunda instância. Isso mesmo: “legalizar”. Pensando logicamente, se Moro quer “legalizar” a prisão em segunda instância, então ele admite que a prisão em segunda instância é ilegal. Lula está preso por decisão em segunda instância. Logo, Sérgio Moro está admitindo que Lula está preso ilegalmente.

O artigo 5º de nossa Carta Magna, em seu item LVII,  é cristalino:

“ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória.”

O trânsito em julgado, no Brasil, abrange quatro instâncias, sendo a última delas o Supremo Tribunal Federal. Lula, por exemplo, foi condenado em primeira instância, depois teve a condenação mantida em segunda instância pelo TRF-4. Faltam ainda o STJ e o STF. Se, ao contrário de vários países, a existência de quatro instâncias pode ser considerado um exagero, então que se faça uma mudança na Constituição. Mas que, antes disso, ela seja cumprida. O problema é que a lei anticrime proposta por Moro incluiria a prisão em segunda instância, mesmo contrariando a Constituição. No entanto, o Supremo abriu caminho para esse absurdo, ao criar uma jurisprudência flagrantemente inconstitucional no ano passado, quando permitiu a prisão em segunda instância. Moro não quer mudar a lei por uma PEC (Proposta de Emenda Constitucional), que seria o caminho correto, porém mais difícil e que exigiria mais discussão. Assim, ele opta por apresentar sua proposta através de lei ordinária, pois trâmite é mais fácil.

É lamentável que o próprio Supremo tenha dado brecha para que uma lei ordinária, ainda que inconstitucional, venha a ser aprovada, quando o caminho deveria ser uma PEC. No ano passado, pouco antes do julgamento da prisão em segunda instância, o STF foi ameaçado por um general. A Corte ficou tão fragilizada que, depois, o filho do Bolsonaro a ameaçou com um cabo e um soldado. Em seguida, o Presidente Dias Toffoli disse que ” era hora do Judiciário se recolher.”  Toffoli, portanto, já anunciou a capitulação do STF, que aceitou sair de campo e perder o jogo por “WO”,  antes de levar o cartão vermelho do cabo e do soldado. Se esse precedente for aberto, correremos grande perigo, pois qualquer princípio ou direito constitucional poderia ser alterado ou suprimido por uma lei ordinária, o que agride a própria Constituição. A única, e talvez última esperança seja a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara barrar esse absurdo ou teremos entrado, lamentavelmente, em um período de exceção.

Pelo que sabemos, toda lei de iniciativa do Executivo que contrarie princípios constitucionais e, ainda assim, se coloque no mesmo patamar jurídico da Constituição é um instrumento de exceção e nada saudoso chamado Ato Institucional ou, simplesmente, AI. Será que a fatídica numeração vai continuar e teremos pela frente o Ato Institucional número 18?

 

 

O CALO QUE ABAFA

caloVai começar (ou já começou) a “operação abafa”. O novo promotor designado para o escândalo Bolsonaro/Queiroz é Cláudio Calo. Seria tudo normal se Calo não fosse um admirador dos Bolsonaros e não tivesse o hábito de, pelas redes sociais, compartilhar conteúdos de Flávio Bolaonaro e de retuitar mensagens de Carlos Bolsonaro. Ou seja, está tudo “entre amigos”. As ações ilícitas praticadas por Flávio Bolsonaro já foram até tipificadas pelo próprio Sérgio Moro, em um de seus livros, como sendo lavagem de dinheiro (claro que o livro de Moro foi publicado antes do escândalo).

O promotor Calo tem o hábito de interagir nas redes sociais, especialmente quando se trata de atacar Lula, Dilma e o PT. Ele também é um contumaz curtidor das postagens de Jair Bolsonaro. Suas mensagens, geralmente, são de ofensas ao PT e aos seus quadros e, em uma delas, Calo ofende Lula, chamando-o de “lixo” e “psicopata”. Há poucos dias, Calo exaltou a economia de gastos de Bolsonaro em sua ida a Davos, comparando com os gastos da ex-presidente Dilma. Isso sem falar que Calo tem o hábito de divulgar sites e autores de extrema-direita como, por exemplo, “O Antagonista”.

Evidentemente, está claro que falta mais do que isenção para esse “promotor” querer levar o escândalo adiante. Ele é totalmente parcial e, antes mesmo de ser nomeado para o caso, Calo já havia se posicionado a favor de seu amigo Flávio Bolsonaro quando, em um comentário, tentou retirar a tipificação de lavagem de dinheiro das ações de Flávio. Escreveu Calo em 21 de janeiro de 2019, em resposta a um comentário do jornalista Reinaldo Azevedo:

postagem de calo

Já ouvi dizer que a função de um promotor é a defesa dos interesses da sociedade. Não de um grupo político. Claro que um promotor não está com seus direitos políticos cassados e nem a sua liberdade de expressão cerceada. Mas na função que ocupa, externar preferências e ódios partidários e ideológicos é mais do que suspeita. Claro que esse promotor não terá qualquer isenção. Ele é parcialíssimo.  Parece que o Flavinho Bolsonaro pode ficar tranquilo. Seu amigo, seguidor, admirador e correligionário será o “promotor” de seu caso. O Calo não vai abafar tudo. Ele já está abafando. Vida que segue porque “a lei é para todos…”

O JEJUM DE MEMÓRIA

dallagnol o brasil está mudando“O Brasil está mudando.” (Deltan Dallagnol, Procurador da República, pelo twitter, em 2 de fevereiro de 2019, após a eleição para a Presidência do Senado).

Deltan Dallagnol, o homem das “convicções sem provas”, voltou a se manifestar politicamente. Desta vez não foi com jejuns espirituais, orações e nem com indignação. Esfuziante, ele disse que “o Brasil está mudando.” Pelas redes sociais, o procurador comemorou a derrota das “velhas oligarquias”, referindo-se ao espetáculo rocambolesco que foi a eleição para a Presidência do Senado. O que o procurador, efetivamente, chama de “mudança”? O senador eleito, Davi Alcolumbre, que derrotou Renan, não representaria ele próprio as “velhas oligarquias”? Sim, porque Davi Alcolumbre nada tem de “novo” além da idade de 41 anos, em se tratando se um senador.

Mas, vamos às “mudanças” do Brasil: Rodrigo Maia, do DEM, que faz parte do “Centrão”, um conglomerado de siglas prostitutas, foi reeleito para a Presidência da Câmara e Alcolumbre, do mesmo DEM, do mesmo “Centrão”, foi eleito para a Presidência do Senado. Ou seja, o partido de ACM Neto está no comando das duas casas legislativas. Grande mudança! Grande derrota das “velhas oligarquias”!

A eleição no Senado, que Dallagnol tanto festejou, levou ao comando da Casa um senador que responde a inquérito por crime eleitoral  (ele teria apresentado notas “frias” na prestação de contas), desvio de verbas da saúde e desvio de recursos em fundos de pensão (seria ele um “novo Renan”?). Isso, sem falar que ele votou contra a cassação de Aécio, apesar das provas robustas de seus crimes. Grande mudança!

Enquanto isso, no “Brasil das mudanças” festejado por Dallagnol, esqueceram do Alckmin, do Temer, do Moreira Franco, do Padilha, do Jucá. No caso de Alckmin, ele já está sem foro desde abril de 2018, mas segue sem ser incomodado. Outra grande mudança!

No “Brasil das mudanças”, as leis continuam sendo esquecidas quando convém. Rasgaram a Lei de Execuções Penais e não permitiram que Lula participasse do funeral de seu irmão. Grande mudança!

Sérgio Moro, que quando juiz era falante e vazava áudios e denúncias, como Ministro está calado diante das provas de corrupção e das íntimas relações do filho do Presidente com milicianos. Grande mudança!

O Ministro do Meio Ambiente (não é piada!) é um condenado por crime ambiental em São Paulo. Para o Ministro das Relações Exteriores, o aquecimento global é uma conspiração comunista. O Ministro da Educação diz que a universidade deve ser só para uma elite e censura vídeos no Instituto Nacional de Educação Surdos. A “Ministra dos Costumes” não quer que a teoria evolucionista seja ensinada nas escolas e ainda é acusada de raptar uma criança indígena. Grande mudança!

Será que a Terra é mesmo plana? Estamos aguardando o pronunciamento do Ministro-astronauta, que já viu nosso planeta lá do espaço. Enquanto isso, parece que Dallagnol voltou a fazer jejum. Mas agora tudo leva a crer que é um jejum de memória.