MARADONA E O INFINITO

Aquele Argentina X Inglaterra na Copa do México, em 1986, não foi “apenas mais um jogo de futebol”. Como muitos jogos de futebol não são apenas “jogos de futebol”, apesar de os “metafísicos da bola” muitas vezes fazerem essa separação. Antes da Copa do México de 1986, da qual Maradona sairia consagrado como o maior craque argentino e um dos maiores do mundo, os argentinos estavam com a moral baixa. No futebol, haviam ganho a primeira e até então única copa em 1978, em uma conquista que para sempre será suspeita e contestada. Então detentores do título mundial, os argentinos foram à Copa da Espanha, em 1982, para defendê-lo. Mas acabaram eliminados pelo Brasil, de forma incontestável. E essa eliminação acabaria com a expulsão de Maradona no finalzinho do jogo. Então, os argentinos agora eram “ex-campeões” do mundo.

Mas não era só no futebol que a moral estava baixa. Pouco antes da eliminação na Copa de 1982, a Argentina havia sido humilhada pelos ingleses na Guerra das Malvinas, que a ditadura militar argentina havia arranjado para tentar angariar alguma popularidade. Os argentinos foram impiedosamente derrotados e parecia que, tanto no futebol quanto no sentimento nacional, os argentinos não teriam mais motivos para se orgulharem.

Mas alguém teria que mudar esse sentimento. E esse alguém foi Diego Maradona. Ele não foi importante para a Argentina só no futebol. Ele resgatou para os argentinos o orgulho de serem argentinos. Ele trouxe de volta um sentimento que havia escapado. E a oportunidade para isso viria exatamente em um jogo contra a Inglaterra. Maradona, que já se destacava naquela Copa, esculachou a Inglaterra com dois gols. Um, uma das maiores obras-primas da história do futebol. Outro, o famoso gol da “mão de Deus”. Então, a Argentina, ou melhor, Maradona e mais outros, partiram para a conquista de um título incontestável, depois de uma vitória sobre a Inglaterra para lavar a alma.

O título de 1986, na Copa que foi do Maradona, eliminando a Inglaterra e conquistado de forma consagradora, rejuvenesceu o sentimento dos argentinos. E foi muito além do futebol. Ele, Maradona, personificava naquela conquista o orgulho de ser argentino. Sem tiros, sem bombas e sem a ditadura militar querendo capitalizar, como foi em 1978.

Ontem Maradona nos deixou. Como dizem seus mais inflamados fãs: “Não importa o que ele fez com a vida dele, importa o que ele fez com a nossa vida”. E eu iria além: importa o que ele fez com a vida dos argentinos. E mais: importa o que ele fez com o futebol. Depois de Maradona, tanto o povo como o futebol argentino nunca mais foram os mesmos. E nunca deixarão de ser. Até o infinito, que parece ser limitado para tanto sentimento.

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