ANDRÉ, “O TERRÍVEL”, ENROLA E SE ENROLA

Quando, em julho de 2019, Jair Bolsonaro afirmou que indicaria para ministro do STF alguém que fosse “terrivelmente evangélico”, alguns potenciais cotados começaram a lamber os beiços. E um desses, certamente, era André Mendonça, então Advogado-Geral da União e conhecido de Bolsonaro. Naquela ocasião, Sérgio Moro que, na negociação feita para participar do governo, seria o indicado, já estava em processo de fritura. Com a saída de Moro, depois de usado, ruminado e cuspido do governo que ajudou decisivamente a levar ao poder, André Mendonça ocuparia o Ministério da Justiça.

André Mendonça é “terrivelmente evangélico” (mais terrível do que evangélico) e sua atuação no Ministério da Justiça tem sido totalmente para adular e agradar Bolsonaro. Claro que ele está de olho na vaga que outrora seria de Moro (pergunta para a Carla Zambelli). André Mendonça tem demonstrado ser daquela turma que defende pautas anti-democráticas e agressivas ao Estado de Direito, apesar de ser ministro da Justiça. Então, “se colar, colou”. Essa turma que está no poder já falou em AI-5, intervenção militar, fechamento do STF, fechamento do Congresso, ruptura institucional com consequências imprevisíveis (pergunta ao general Heleno). Como as repercussões negativas foram estrondosas, então eles meteram a viola no saco. Mas, vez por outra, eles tentam. Agora, foi no próprio Ministério da Justiça, sob o comando de André Mendonça. Trata-se da famigerada lista, ou dossiê, de servidores públicos que estariam sendo fichados e monitorados por declararem-se “antifascistas”. A lista tem 579 nomes de servidores e é algo típico de governos fascistas. A própria Seopi (Secretaria de Operações Integradas), vinculada ao Ministério da Justiça, já havia confirmado a existência do dossiê de servidores públicos. Evidentemente, a repercussão foi a pior possível, visto que uma lista dessa natureza configura um atentado ao artigo 5º da Constituição Federal, além de evidenciar uma propensão à perseguição de servidores considerados desafetos por razões ideológicas. Porém uma lista dessa natureza agrada, e muito, ao Bolsonaro. E André Mendonça parece estar lá apenas para isso.

Então, André Mendonça foi cobrado em uma entrevista exibida ontem, na Globonews, para explicar-se sobre esse absurdo. Sua resposta, ao ser perguntado pelo dossiê, é digna da antologia filosófica que contrariaria o pensamento de Parmênides e o princípio lógico da identidade. Disse André, “o terrível”:

“Não posso confirmar, nem negar a existência.”

Bela resposta. Muito “esclarecedora”. Seria André Mendonça um cético pirrônico, em total estado de ataraxia, ao suspender o seu juízo? Foi pior do que se ele admitisse a existência do tal dossiê o que, aliás, já foi admitido por fontes do próprio Ministério da Justiça, sob a justificativa de que tratava-se de “atividade de rotina”. A resposta nebulosa de André Mendonça dá ainda ares mais nebulosos ao lamentável episódio. André Mendonça não engana e nem enrola ninguém. Ao contrário, ele é que se enrolou. Claro que o dossiê existe e já há até movimentação na Câmara dos Deputados para convocar o ministro para dar explicações. Esse “evangélico” é mesmo terrível…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s