BOZO E AS PEDALADAS MORTAIS

Em 1972 o Brasil vivia o auge da ditadura militar. Estávamos nos “anos de chumbo”, com o ditador Médici literalmente ocultando os cadáveres de presos políticos assassinados pela ditadura, muitos dos quais até hoje as famílias desconhecem o paradeiro. Mas Médici não ocultava apenas os cadáveres dos presos políticos. Naquele ano o Brasil vivia uma epidemia de meningite. A epidemia estendeu-se de 1971 até 1974, sendo toda ela durante o governo do ditador Médici. E, já naquela época, Médici ordenou a proibição da divulgação dos dados. Como a imprensa era amordaçada com a censura, os jornais, rádios e emissoras de TV da época não podiam divulgar os dados sobre a epidemia. Documentos resgatados pelo pesquisador Lucas Pedretti comprovam que um coronel chamado Moacyr Coelho chancelava a mordaça em nome do governo.

Agora Bolsonaro quer fazer o mesmo em plena Covid-19. Ele já está assustado com a tal “gripezinha” que, segundo ele próprio falou, mataria “no máximo 800 pessoas.” Mas o número já passa de 37 mil mortos e Bolsonaro está aterrorizado. Não com as mortes, que ele até desdenhou e debochou. Mas com o que essa tragédia pode trazer de perdas e danos para o seu projeto de poder. Então, ele resolveu usar a mesma medida criminosa que o ditador Médici, um de seus ídolos, usou no início dos anos 1970: ocultar o número de mortos, manipular os números, “recontar” e, propositadamente, retardar as estatísticas. O próprio Bolsonaro “exigiu” que o número de mortes diárias seja menor do que 1000.

Assim o ministério da Saúde, comandado pelo general-paraquedista, mudou o protocolo de divulgação dos dados da Covid-19. O artifício da ocultação comandada por Bolsonaro, que já está sendo chamado de “pedaladas funerárias”, começou com o atraso na divulgação, sendo que, a partir do dia 3 de junho, os dados passaram a ser divulgados apenas às 22 horas (antes, era no máximo até as 18 horas). O objetivo não era apenas tirar a notícia do “Jornal Nacional” da Globo, como disse o próprio Bolsonaro. Na verdade, a mudança no horário atingiria toda a imprensa, porque às 22 horas os telejornais de maior audiência já aconteceram e, também, as edições dos jornais impressos já fecharam. Depois da mudança no horário, outro crime: os dados começaram a ser apresentados com sérias omissões, sem o número acumulado de mortes. Oficialmente, alegava-se uma “recontagem”. Então, o site do Ministério da Saúde que não tem ministro, agora também não tinha mais credibilidade alguma. Chegaram até a tirar o site do ar. Sem ministro, sem site, sem informação oficial. Enfim, estava instaurado o caos na informação, tudo o que Bolsonaro sempre quis.

Mas Bolsonaro esqueceu-se que, infelizmente para ele, o Brasil não vive mais uma ditadura. As instituições democráticas estão funcionando e a imprensa, mesmo com todas as agressões, é livre e seu exercício garantido pela Constituição de 1988. STF, Congresso Nacional e o TCU prontificaram-se a fazer o somatório dos dados vindos dos estados. E, nessas circunstâncias, um Consórcio de Veículos da Imprensa foi formado para divulgar os dados que Bolsonaro quer esconder. Veículos de comunicação como a Folha de São Paulo, o Estadão, o Globo e o UOL uniram-se para mostrar aquilo que o governo quer esconder. Até ontem, segundo o Consórcio, 710.887 casos da Covid-19 haviam sido registrados em todo Brasil , com 37.312 óbitos.

Mas o grande problema são os veículos profissionais alinhados a Bolsonaro, aqueles que recebem verbas oficiais. Bolsonaro tem uma mídia a seu favor, que certamente entrará na onda de divulgar os dados “maquiados” e “menos alarmantes”. A CNN Brasil já escancarou o seu bolsonarismo; a Record do bispo Macedo sempre foi bolsonarista, assim como o SBT do Sílvio Santos. Isso sem contar o programa matutino “Aqui na Band”, comandado pelo apresentador Lacombe, que é um programa pró-Bolsonaro, onde Osmar Terra, Carla Zambelli e Alexandre Garcia costumam aparecer com frequência. Claro que haverá um conflito de narrativas na mídia e é nisso que Bolsonaro aposta. No final, poderá ficar “o dito pelo não dito”.

Em meio a mais esse crime de Bolsonaro e seu general subalterno, o STF novamente “entrou em campo”. Alexandre de Moraes, “o comunista”, atendendo a pedidos de partidos de oposição, ordenou que o governo retome a divulgação completa dos dados sobre a Covid-19. E, como se não bastasse, Bolsonaro também já foi denunciado no Tribunal Penal Internacional, acusado de crime contra a humanidade, exatamente pela sua postura criminosa em relação à Covid-19.

Enfim, Bolsonaro, fascista como é, usará todas as táticas fascistas para empanar a tragédia pela qual é o maior responsável. Mas a reação das instituições e da sociedade não permitirá que ele e seus comparsas consumem a escalada autoritária e genocida. Os dados verdadeiros continuarão a ser divulgados. Os “tempos de Médici” já se foram. Na época dele, o Congresso, o Judiciário e a imprensa foram esmagados. Hoje, por mais que Bolsonaro tente fazer o mesmo, não conseguirá (sendo que ainda será julgado pelas instituições que denigre e ameaça) e a única coisa que Bolsonaro já garantiu em comparação ao ditador Médici é um lugar no esgoto da história.

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