CHAMEM OS EX-PRACINHAS!

Hoje, uma carta publicada pelo leitor Carlos Rocha, no Globo, mandou um recado importante, falando de algo que nunca poderá ser esquecido pelos militares brasileiros, sejam eles da ativa ou da reserva. Especialmente no momento em que nosso país vive. Disse o leitor Carlos Rocha:

“O Rio possui um dos maiores e mais belos monumentos do mundo contra o fascismo. É o Monumento aos Pracinhas, no Aterro do Flamengo, em homenagem aos bravos combatentes do Exército que lutaram para derrotar o fascismo na Itália, sendo que muitos deles deram suas vidas. É a mais linda memória da derrota do fascismo pelo Exército do Brasil.”

A lembrança do leitor Carlos Rocha é muito oportuna. O Exército Brasileiro tem motivos de orgulho, mas nenhum maior do que o de ter participado da luta que derrotou o regime fascista na Segunda Guerra Mundial. Monte Castelo, Castelnuovo e Montese são exemplos da batalhas em que a FEB lutou bravamente e alcançou memoráveis vitórias na luta contra o fascismo. Ao final, Mussolini seria derrotado, morto e pendurado como linguiça de açougue na Praça de Milão. A Força Expedicionária Brasileira escrevia, nos campos de batalha da Itália, certamente a mais bela página da história militar brasileira. E a FEB entrou na guerra na mesma aliança em que estavam os comunistas da antiga União Soviética. Mas, longe de serem comunistas, o importante, naquele momento, era derrotar o fascismo. Assim, liberais e comunistas não podiam se excluir. De quebra, a derrota do fascismo italiano e seus congêneres europeus, iria ainda impulsionar a derrubada do Estado Novo, o regime getulista que, na ocasião, contraditoriamente mantinha características totalitárias do fascismo. Na época, a derrota do fascismo forçou a volta do país à democracia, que também não teria vida fácil. Tudo isso há 75 anos. Atualmente, lá está o monumento em homenagem àqueles que lutaram e deram a vida combatendo o fascismo. Os que sobreviveram aí estão. Nossos ex-pracinhas que ainda estão entre nós devem estar se perguntando: o que querem fazer com o Brasil em 2020? Implantar no país aquilo que lutamos para derrubar e que ainda custou a morte de mais de 450 brasileiros nos campos de batalha?

Hoje, lamentavelmente, o país vive o maior retrocesso político dos últimos 56 anos. Um militar que nunca escondeu o seu fascismo e a sua covardia, que deixou o Exército pela porta dos fundos, acusado de insubordinação e de planejar atentados a bomba contra os quartéis, encontra-se na Presidência da República. Seus seguidores, fanáticos defensores do ideário nazi-fascista, atacam e ameaçam sistematicamente as instituições democráticas, inflamados pelo próprio Presidente da República. De quebra, o Vice-Presidente, um general, escreve um artigo ameaçando com um autogolpe. Enquanto isso, outros muitos militares, especialmente generais que estão no governo, nada falam ou fazem para levar uma mensagem de tranquilidade institucional ao país. São só ameaças: do Presidente, do filho do Presidente, do Vice-Presidente, do ministro da Defesa, do ministro da Segurança Institucional…

O fechamento do Congresso e do STF, a intervenção militar, as bandeiras e outros símbolos nazi-fascistas vêm sendo o “espetáculo” de horrores que os fascistas estão exibindo todos os domingos. Tudo em “apoio ao Presidente”. Com a presença de ministros e até com o ministro da Defesa sobrevoando, junto com o Presidente, as manifestações. Dentre os ministros, um general ressentido (o Augusto Heleno), discípulo do “linha dura” Sílvio Frota, aquele que o Geisel mandou embora porque não queria a “abertura” do regime. Se o Geisel, que foi um ditador, considerava o Sílvio Frota radical demais, imaginem o que ele queria… Mas, de sua estufa, surgiu o Heleno, aquele mesmo general que mandou o “foda-se” para o Congresso e redigiu uma séria ameaça às instituições em nome do capitão que hoje o comanda.

O dia de amanhã é preocupante. Em princípio, ninguém deveria ir às ruas. A pandemia, em uma ascendente em que parece que o pico nunca chega, não está dando tréguas. Já são mais de 35 mil mortos. É hora de se resguardar. Mas também é preocupante pelo que foi visto no último domingo. Pode sim ser uma armadilha. As forças policiais já não escondem o seu facciosismo. A parcialidade descarada dos policiais na avenida Paulista no domingo passado, reprimindo os antifascistas e escoltando os fascistas (incluindo aí a filha de um general armada com um taco de beisebol) já foi um alerta. Grupos antifascistas (e não apenas de esquerda) pretendem ir às ruas. Mas eles estão divididos. PT e PSOL estarão nas manifestações. PSB, PDT, PCdoB e Rede entendem que o melhor é não sair por causa da pandemia. Os fascistas também estão se programando, como já estão fazendo há vários domingos. Em Curitiba, um grupo de “lutadores de academia apoiadores de Bolsonaro” prometeu ir às ruas. Infiltrações, provocações como as da avenida Paulista e um distúrbio armado propositadamente não podem ser descartados. E é tudo o que Bolsonaro quer para, mais uma vez, chamar os antifascistas que lutam pela democracia de “terroristas”, “idiotas” e “viciados”. E, claro, ter um pretexto para realizar o seu doentio desiderato, que é a implantação de uma ditadura fascista, e que até agora só não se consumou por conta das reações das instituições que ele quer destruir.

O melhor mesmo seria que amanhã os grupos fascistas e antifascistas ficassem em casa. E, já que os fascistas querem a “intervenção militar”, que tal convocar os ex-pracinhas, só eles, para um desfile no dia de amanhã? Claro, respeitando as regras do distanciamento social. Nossos heróis não precisariam falar nada. Bastaria que eles desfilassem, em silêncio, com seus sagrados uniformes. A mensagem? Está ha própria história. E que aqueles militares que insistem em manchar o nome do Exército Brasileiro, que aprendam, de uma vez por todas, a lição com aqueles que foram os verdadeiros heróis do Brasil.

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