PROCURADORES CONTRA O PROCURADOR

A atuação visivelmente parcial e engajada ao governo Bolsonaro por parte do procurador-geral da República, Augusto Aras, não vem incomodando apenas a opinião pública, a imprensa e setores do meio político. Os próprios integrantes do Ministério Público Federal já manifestaram sua insatisfação e inconformismo com os atos de Augusto Aras, que parece estar definitivamente comprometido com Bolsonaro. Nesse momento, ele é visto sob suspeita por grande parte de seus próprios pares.

Sinal disso foi o manifesto assinado por procuradores de todo Brasil em defesa da adoção da lista tríplice para a escolha do procurador-geral. A adoção da lista tríplice é um meio de garantir a independência do procurador-geral, o que significaria que o escolhido seria alguém da confiança da instituição e não do Presidente da República, embora a Constituição dê ao Presidente a prerrogativa da escolha. Augusto Aras foi escolhido por Bolsonaro sem nem mesmo ter participado da eleição para a indicação da lista tríplice. O manifesto tem a assinatura de quase 600 procuradores, o que representa mais da metade do total de procuradores de todo país, que é de 1150 e é uma reação, principalmente, aos últimos acontecimentos envolvendo as relações Aras-Bolsonaro, bem como as decisões do procurador. É elementar o princípio de que a relação entre investigador e investigado não deve ser marcada por assédios, elogios mútuos, ofertas ou condecorações. Nesse momento, Aras tem a missão de investigar Bolsonaro sobre a interferência na Polícia Federal. E o que tem acontecido?

Primeiro Bolsonaro vai correndo, fora da agenda, participar da posse de um integrante da PGR só para não perder a oportunidade de, chegando ao local, adular Augusto Aras. Depois, Bolsonaro praticamente oferece a Aras uma vaga no STF. Ato contínuo, o Presidente investigado condecora o seu investigador com a Ordem do Mérito Naval. E logo depois de tudo isso, Aras pede ao STF que suspenda o inquérito da máfia das fake news, que atinge diretamente Bolsonaro e sua família. Quem diria que, depois de tudo isso, a independência de Aras não está comprometida? E quem negaria o desespero de Bolsonaro?

A resistência dos procuradores que assinaram o documento tem total fundamento e parte do princípio de que só a adoção da lista tríplice pode dar ao procurador-geral aquilo que é o mais importante em sua atuação: independência. Se a maior parte dos próprios procuradores demonstra preocupação e desconfiança em relação à independência do procurador-geral, então a questão da falta de independência do procurador-geral não é um factóide de políticos e da imprensa. Quanto à sua independência, Aras não irá demonstrá-la com retórica e sim com uma atuação que demostre que ele é o procurador da República e não do Bolsonaro e da sua família enrolada.

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