CHANTAGENS E CHANTAGENS

“O governo não pode mais chantagear o Legislativo.” (Jair Bolsonaro, então deputado federal, em 2015, quando da aprovação da PEC das emendas impositivas).

Em 2015, quando ainda era um deputado federal absolutamente inexpressivo como, aliás, sempre foi, Jair Bolsonaro defendia com unhas e dentes o tal orçamento impositivo, aquele que acabou tornando-se o motivo do “foda-se” do general Heleno para o Congresso, no episódio em que ele acusou o Legislativo de fazer “chantagem”. À época, em uma entrevista para a jornalista Mariana Godoy, da Rede TV!, Bolsonaro disse, em alto e bom som, em defesa do orçamento impositivo, que o governo (ou seja, o Executivo), “não poderia mais chantagear o Legislativo”.

Em resumo, orçamento impositivo é aquele que, como o próprio nome sugere, obriga o Executivo a liberar verbas para as emendas parlamentares. Tudo para que os deputados possam capitalizar politicamente a realização de obras em seus redutos eleitorais. Na ocasião, disse Bolsonaro em sua entrevista à jornalista Mariana Godoy:

“O que um parlamentar tem para negociar em Brasília? É seu voto. Esse Congresso melhorou muito em relação ao do passado, em especial graças ao atual presidente, Eduardo Cunha, que aprovou uma PEC do orçamento impositivo.”

Estávamos em 2015 e o Brasil era governado pela Presidente Dilma. Mas é bom examinarmos o que disse Bolsonaro em 2015. Primeiro, como membro do Congresso, ele falou em “negociar” e não em “chantagear”. Disse ainda que o Congresso era melhor que o anterior e elogiou Eduardo Cunha por ter aprovado o orçamento impositivo. Como deputado de última categoria, sem qualquer influência e absolutamente inexpressivo Bolsonaro, no entanto, falou uma verdade: o que ele tinha para “negociar” era apenas o seu voto mesmo. Porque partido ele não tinha. Liderança ele não era. E, quando candidatou-se a Presidente da Câmara, em 2017, teve apenas 4 votos (um foi o dele próprio) em um total de 513 votantes. Detalhe: nem o filho Eduardo votou nele. O que um cara como esse teria para “negociar” na Câmara que não fosse, apenas, o seu próprio voto? Seria até muita pretensão de Bolsonaro, pela sua nulidade como deputado, dizer que estava sendo “chantageado” pelo Executivo.

No entanto, a situação inverteu-se. Bolsonaro hoje é o chefe do Executivo e, como tal, fazendo coro com o general Heleno, diz que agora quem faz chantagem é o Legislativo. Mas não era o Executivo que fazia chantagem? O que mudou de 2015 para cá? Basicamente nada mudou, a não ser a direção e o sentido dos vetores paranoicos da mente morbígena de Bolsonaro. Como ele nunca soube o que é uma negociação, nunca foi de partido político e é absolutamente incapaz de formar uma bancada que lhe dê respaldo suficiente para ser sua porta-voz no Congresso, então ele vem sendo sistematicamente enquadrado pelo Legislativo. Incompetente e despreparado emocional e psicologicamente para negociar, então fica mais fácil chamar o Congresso de “hiena”, “chantagista”, “inimigo da Pátria” e convocar a horda de fascistas no cio para as ruas. Ele não tem a mínima noção do que é sofrer chantagem, coisa que pode sim acontecer tanto na política como em qualquer outra situação da vida.

Chantagem, de verdade, é o que Eduardo Cunha fez com a então Presidente Dilma em 2015. Cunha, então Presidente da Câmara, estava com o pedido de impeachment de Dilma sobre sua mesa. Então, como o PT havia votado a favor da abertura de investigação contra Cunha no Conselho de Ética, Cunha chantageou Dilma, querendo um acordo para que a investigação contra ele fosse paralisada. Caso contrário, Cunha colocaria o impeachment de Dilma na pauta. A resposta de Dilma foi “não”. O restante da história todos conhecem.

Se um Presidente, em um regime presidencialista, precisa do socorro de um general através de um “foda-se” e ainda da convocação da laia fascista para latir a seu favor por causa da negociação de emendas com o Congresso, é porque ele é mesmo muito fraco e covarde. Até porque, nem existe chantagem em algo que é legal e que, em 2015, foi apoiado e festejado pelo próprio Bolsonaro. E, ainda que houvesse chantagem, Bolonaro deveria saber que chantagem se enfrenta com altivez, coragem e dignidade, coisas que ele desconhece. A Presidente Dilma que o diga. Porque enfrentar chantagem de um bandido como Eduardo Cunha não seria nada para quem já tinha enfrentado as torturas de um outro bandido chamado Brilhante Ustra, o ídolo de Bolsonaro.

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