A HISTÓRIA E O “FODA-SE” DO GENERAL HELENO

foda-se

“Foda-se!” (General Augusto Heleno, em áudio captado de uma transmissão ao vivo da Presidência da República, sobre o que chamou de chantagem do Congresso, em 19 de fevereiro de 2020).

“É uma pena que o ministro (Heleno) com tantos títulos tenha se transformado num radical ideológico contra a democracia, contra o Parlamento.” (Rodrigo Maia, Presidente da Câmara dos Deputados, sobre o “foda-se” do general Augusto Heleno).

O general Augusto Heleno, ministro do Gabinete de Segurança Institucional do governo Bolsonaro, tornou-se muito conhecido ultimamente pelos murros que vem dando na mesa quando é, de alguma forma, contrariado. Ele deu murros na mesa quando pediu prisão perpétua (que não existe em nossa Constituição) para Lula, reagindo à fala do ex-Presidente quando de sua soltura. Ele deu murros na mesa quando o Papa recebeu Lula recentemente. E ele acaba de dar murros na mesa porque não quer negociar com o Congresso sobre o tal orçamento impositivo, que é lei, ainda que possa ser discutível. Só que hoje, o general Heleno, além dos murros na mesa, disse que não podia aceitar chantagem o tempo todo, e concluiu com o “foda-se!” O novo ataque do general foi captado de uma transmissão ao vivo e já circula pela mídia. O que está por trás do “foda-se” do general Heleno? Independente de qualquer divergência, não se diz um “foda-se” para o Congresso. Isso é um assaque contra a democracia.

Na verdade, o general Heleno é um ressentido. É um saudosista, que no ocaso da ditadura militar, em fins dos anos 1970, não aceitava a irreversível marcha para a redemocratização do Brasil. Na época ainda capitão e com 32 anos de idade, Augusto Heleno era um aliado da “linha dura” que pretendia, a todo custo, manter um governo ditatorial e militarista. Ele era daquele time que, na época, foi liderado pelo general Sílvio Frota. O mesmo time que, quando viu que a organização popular se avolumava e o próprio governo militar começava a ceder rumo à democratização, partiu para os atentados terroristas. A OAB que o diga. Mataram dona Lyda Monteiro com uma carta-bomba. Os jornais Tribuna da Imprensa, Tribuna da Luta Operária, Hora do Povo, dentre vários outros, foram atacados. O gabinete do então vereador Antônio Carlos, do PMDB, foi atacado. Mas felizmente, aquele que seria o auge do terrorismo da extrema-direita, fracassou no malogrado atentado ao Riocentro em 30 de abril de 1981. Foi o fim da linha para a “linha dura”. Frota já não estava no governo. Já não existia mais o AI-5. A Lei da Anistia já tinha sido promulgada e, por isso, a “linha dura”, já  fora do jogo, partia para o terrorismo. Os atentados da extrema-direita foram tantos que não dá para falarmos um a um. Mas, pela cronologia, dá para percebermos como os terroristas da direita tentaram impedir a redemocratização do país. Os ataques à imprensa livre e independente e a todos aqueles que lutavam pela redemocratização foram inúmeros (e que sirvam de alerta na atualidade). Vejam uma lista resumida, extraída da página “Memorial da Democracia”: 

1980

·  18/01 – desativada bomba no Hotel Everest, no Rio, onde estava hospedado Leonel Brizola.
·  27/01 – bomba explode na quadra da Escola de Samba Acadêmicos do Salgueiro, no Rio, durante comício do PMDB.
·  26/04 – bomba explode em uma loja do Rio que vendia ingressos para o show de 1º de Maio. 
·  30/04 – em Brasília, Rio, Porto Alegre, Curitiba, Belo Horizonte, Belém e São Paulo, bancas de jornal começam a ser atacadas, numa ação que durou até setembro.
·  23/05 – bomba destrói a redação do jornal “Em Tempo”, em Belo Horizonte.
·  29/05 – bomba explode na sede da Convergência Socialista, no Rio de Janeiro.
·  30/05 – explodem duas bombas na sede do jornal “Hora do Povo”, no Rio de Janeiro.
·  27/06 – bomba explode na sede do Sindicato dos Jornalistas, em Belo Horizonte.
·  11/08 – bomba é encontrada em Santa Teresa, no Rio de Janeiro, num local conhecido por Chororó. Em São Paulo, é localizada uma bomba no Tuca, horas antes da realização de um ato público.
·  12/08 – bomba fere a estudante Rosane Mendes e mais dez estudantes na cantina do Colégio Social da Bahia, em Salvador.
·  27/08 – explodem três cartas-bombas no Rio: na OAB, matando a secretária da presidência, Lyda Monteiro; no gabinete de um vereador do PMDB e na redação do jornal “Tribuna da Luta Operária”.
·  04/09 – desarmada bomba no largo da Lapa, no Rio.
·  08/09 – explode bomba-relógio na garagem do prédio do Banco do Estado do Rio Grande do Sul, em Viamão.
·  12/09 – duas bombas explodem em São Paulo: uma fere duas pessoas em um bar no bairro de Pinheiros e a outra danifica automóveis no pátio da 2ª Cia. de Policiamento de Trânsito no Tucuruvi.
·  14/09 – bomba explode no prédio da Receita Federal em Niterói (RJ).
·  14/11 – três bombas explodem em dois supermercados do Rio.
·  18/11 – bomba explode e danifica a Livraria Jinkings, do ex-deputado e dirigente comunista Raimundo Jinkings, em Belém.
·   08/12 – bomba incendiária destrói o carro do filho do ex-deputado Raimundo Jinkings, em Belém.

1981

·  05/01 – outro atentado a bomba em supermercado do Rio.
·  07/01 – bomba explode em ônibus a serviço da Petrobras na Cidade Universitária, no Rio.
·  16/01 – bomba danifica relógio público instalado no Humaitá, no Rio.
·  02/02 – bomba colocada no aeroporto de Brasília é encontrada antes de explodir.
·  26/03 – atentado às oficinas do jornal “Tribuna da Imprensa”, no Rio.
·  31/03 – bomba explode no posto do antigo Instituto Nacional de Previdência Social (INPS), em Niterói (RJ).
·  02/04 – atentado a bomba na residência do deputado Marcelo Cerqueira, no Rio.
·  03/04 – explosão de uma bomba destrói parcialmente a Gráfica Americana, no Rio.
·  28/04 – grupo Falange Pátria Nova destrói, com bombas, bancas de jornais de Belém.
·  30/04 – explosão mata um agente do DOI-Codi e fere outro, no momento em que preparavam atentado contra 20 mil pessoal no show de 1° de Maio no Riocentro.

A ditadura militar não sucumbiu sob uma revolução, e sim pela via negociada. Veio a Constituição de 1988 que, mesmo não sendo a ideal, trouxe significativos avanços, como o pluripartidarismo, as eleições livres e diretas, o fim da censura, a ampliação dos direitos sociais e individuais. Muitos que foram da “linha dura” cresceram frustrados com a afirmação da democracia. E um desses frustrados foi o general Heleno.

Agora, participando do governo ultra-direitista de Bolsonaro, ele busca uma espécie de revanche. É a oportunidade que ele viu, já em final de vida e de carreira, de consolidar seus ideiais autoritários que foram derrotados com a mobilização popular no final da década de 1970 e início dos anos 1980. Isso porque, com Bolsonaro, a “linha dura está de volta”. O “foda-se” do general Heleno é um “foda-se” para a democracia, para a Constituição promulgada de 1988, para o Estado de Direito. Hoje, usando mais o pijama do que a farda, o general que esmurra a mesa quer esmurrar a democracia. Mas ela não vai se foder, como quer o general. Porque é diante de desafios como esses que ela se consolida. E ela vencerá quem quer fodê-la.

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