MORO, A MESA E A CADEIRA

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“Lógico que ele deve ser contra.” (Jair Bolsonaro, referindo-se a Sérgio Moro sobre a recriação do Ministério da Segurança Pública, que irá tirar poderes de Moro, em 23 de janeiro de 2020).

O esvaziamento de Sérgio Moro e seu desprestígio no governo Bolsonaro já não são mais coisas que possam ser negadas, muito menos escondidas. Desde o início do governo que a extrema-direita dividiu-se entre Bolsonaro e Moro. Na verdade, um precisava (e ainda precisa) do outro. Bolsonaro precisa de Moro no governo, visto que a popularidade do ex-juiz é maior do que a do próprio Presidente junto à direita. Já Moro precisa do espaço no governo de extrema-direita para fazer o seu populismo eleitoreiro em nome de uma “cruzada contra a corrupção e o crime”. Bolsonaro não pode, de modo algum, demitir Moro. E Moro não pode, de modo algum, sair do governo agora, visto que quer deixar um legado que possa ser capitalizado politicamente. Certamente por isso Moro atura e engole tantas desautorizações e humilhações.

Para quem ia ter “carta branca” no Ministério da Justiça e Segurança Pública, Moro virou o “office boy” de Bolsonaro. Foram várias as ocasiões em que Moro foi desautorizado, escanteado, humilhado e esvaziado no governo Bolsonaro. E seu chefe, sempre lhe colocando no lugar de subordinado, inclusive lembrando ao “herói da República de Curitiba” que ele não tinha mais a caneta na mão. Desde o veto de Bolsonaro à nomeação feita por Moro de uma mera suplente para o Conselho de Segurança Pública até a manutenção, por Bolsonaro, do juiz de garantias, ao qual Moro se opunha, que Moro é só derrota no governo Bolsonaro. Basta dizer que o site ultra-direitista O Antagonista, que defende Sérgio Moro com unhas e dentes, chegou a publicar, em setembro de 2019, uma matéria intitulada “Moro é figurante”. Talvez isso não deixe nenhuma dúvida quanto à condição de Moro, especialmente vindo do veículo da mídia que mais o apóia.

Agora, poderá vir o tiro quase que mortal para Moro no governo. Bolsonaro cogita recriar o Ministério da Segurança Pública, que seria desmembrado da Justiça e tiraria poderes de Moro. Especialmente no que se refere ao comando da Polícia Federal o que, certamente, fará com que qualquer resultado positivo de combate ao crime não possa ser capitalizado pelo ex-juiz. Ele ficaria apenas com a pasta da Justiça, tendo ainda um papel menos relevante no governo e dificilmente podendo aparecer para seu eleitorado. Seria mais uma das muitas “podas” já feitas por Bolsonaro a Moro em seu governo. Acrescente-se ainda que Rodrigo Maia, o Presidente da Câmara dos Deputados, é favorável à recriação do Ministério da Segurança Pública, o que vem a ser um respaldo considerável à medida.

Vendo a situação de Moro, lembro-me de Jânio Quadros, que quando queria esvaziar alguém em seu governo, fosse como prefeito de São Paulo, fosse como Presidente da República, dizia: “ele terá uma mesa e uma cadeira.” Tudo leva a crer que esse será o destino de Moro no governo de extrema-direita de Bolsonaro: ele terá uma mesa e uma cadeira. E não terá caneta alguma.

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