FREIRE, MARINHO E O ACERVO DO PCB

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“Não inventamos o Huck, ele já era agente político. Ele é forte onde o Lula é: nos setores mais populares.” (Roberto Freire, sobre o apresentador global Luciano Huck, em entrevista à Folha de São Paulo, em 10 de janeiro de 2020).

Em 1994 estive na sede do Partido Comunista Brasileiro, na Rua das Marrecas, no Centro do Rio de Janeiro, para coletar fontes documentais e depoimentos de personalidades do partido pra um trabalho que então fazia sobre a história dos partidos políticos brasileiros. Ao chegar à sede do “Partidão”, fui recebido por um de seus históricos militantes, Raimundo Alves, um gráfico, que viria a falecer em 2006. Depois de uma rápida conversa com Raimundo Alves, perguntei pelo acervo documental do partido, para que eu pudesse realizar algumas consultas. Foi quando Raimundo Alves, com uma mistura de raiva e indignação, me disse:

“O filho da puta do Roberto Freire deu todo o acervo do partido para o Roberto Marinho!” 

Jamais esqueci dessa afirmação do Raimundo Alves e, em grande parte, a sua indignação em forma de raiva me ajudou a entender muita coisa. Roberto Freire, que havia sido candidato a presidente da República pelo PCB, deixou o partido e veio a fundar o PPS (uma versão revisionista e “renovada” do comunismo, após a crise e as reformas realizadas na antiga União Soviética). Até aí, tudo bem, seria uma dissidência. Mas eu nunca entendi o porquê de o acervo do PCB ter ido parar nas mãos do Roberto Marinho. E de fato foi. O partido para o qual o ex-comunista Roberto Freire migrou, o PPS, dava a impressão de ser um partido social-democrata, de linha reformista e situado no campo da centro-esquerda. As palavras nada amenas de Raimundo Alves não deixavam dúvidas: Roberto Freire era mesmo um traidor do “Partidão”, especialmente depois de ter presenteado o Roberto Marinho com a memória do partido que havia abandonado. Até então, Roberto Freire era tido apenas como “um traidor do PCB”. Mas, com o tempo, ele seria um traidor de toda a esquerda. Alianças e apoios a partidos, governos e medidas da direita fariam então de Roberto Freire um dos nomes mais abominados de praticamente todos os partidos de esquerda. Até ministro do governo golpista-tucano de Temer ele foi.

Hoje chega até nós uma entrevista, publicada ontem na Folha de São Paulo, em que Roberto Freire faz uma confissão deprimente: ele aliou-se a Fernando Henrique, com quem já está trabalhando para que o apresentador global Luciano Huck venha a ocupar o espaço de Lula na fatia mais popular do eleitorado. Desprezando os partidos políticos e chamando-os de “coisas do fim fim do século XIX”, o ex-esquerdista Freire supervaloriza os chamados “movimentos”, como o “Agora” de Luciano Huck. Na mesma entrevista, Roberto Freire elogia e abre as portas de seu atual partido, o Cidadania, para a deputada Tábata Amaral, aquela que traiu os trabalhadores votando a favor da reforma da previdência e que foi eleita com o dinheiro do empresário Jorge Paulo Lemann, o homem mais rico do Brasil.

Hoje, Roberto Freire se joga nos braços de FHC e lança Luciano Huck para fazer frente a Lula. 26 anos após a minha visita, como pesquisador, à sede do PCB, agora eu entendo, com todas as letras, a indignação do saudoso Raimundo Alves. Não foi só a traição, algo comum na vida política. Mas parece que o namoro iniciado com Roberto Marinho em 1994 “deu samba”. Agora, ele também apóia Luciano Huck, o candidato dos filhos do Roberto Marinho. Triste fim para um ancião de 77 anos que se deixou levar pela cooptação da direita reacionária. Pelo menos, devolva o acervo que você surrupiou do PCB!

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