ELES FORAM UNS BOÇAIS

bozo folha

“Enquanto os homens exercem seus podres poderes
Motos e fuscas avançam os sinais vermelhos
E perdem os verdes
Somos uns boçais…” (Caetano Veloso, Podres Poderes).

O atual momento de obscurantismo que o Brasil vive não foi gestado do nada e nem chegou ao atual estágio sem que tivesse sido alavancado por poderes, alguns até podres, como diz Caetano Veloso em sua conhecida composição. O Brasil está “boçalizado” com o neofascismo bolsonarista que avilta a história, a Constituição, o Estado de direito, a democracia, a cultura, os direitos sociais. Já chegamos ao nível em que viramos chacota perante a comunidade internacional. ” A Terra é plana”, “o nazismo é de esquerda”, “não houve golpe nem ditadura militar no Brasil”, “o aquecimento global é uma conspiração comunista”, “o peixe inteligente desvia do óleo”, “as universidades federais produzem maconha”, “o torturador Ustra é herói nacional”, “Paulo Freire tem que ser banido das escolas”, “faça cocô uma vez por dia e preserve o meio ambiente”, dentre outras pérolas, são dogmas de Bolsonaro, seus auxiliares e seus seguidores que, definitivamente, estão tornando o Brasil em um país de boçais. As últimas, mais “fresquinhas”, foram a nomeação de um negro racista para a Fundação Palmares, que diz não haver racismo no Brasil e afirma que a escravidão dos negros foi benéfica para eles. Isso, ao mesmo tempo em que Bolsonaro acusava o ator Leonardo DiCaprio de tacar fogo na Amazônia. A que ponto chegou o Brasil! Sim, porque apesar de eles não representarem a maioria do povo, infelizmente são a voz oficial. Quiçá, depois dessa do Leonardo DiCaprio, Bolsonaro mudará a versão da tragédia ocorrida em 1912 e daqui a pouco irá afirmar que o iceberg que se chocou com o Titanic era “comunista”.

Porém, o festival de barbaridades bestiais é apenas parte do bolsonarismo. Acoplado aos mais descabidos absurdos, os ataques à democracia são constantes e parece que o AI-5 é a nova obsessão do candidato a ditador e seus asseclas. Até quem só costuma falar de economia liberal e de mercado, adotou o AI-5 como discurso. Não acreditam? Perguntem ao “Posto Ipiranga”.

Em sua composição, Caetano Veloso fala de “motos e fuscas que avançaram os sinais vermelhos e perderam os verdes”. A metáfora nunca foi tão aplicável ao processo que levou o Brasil à condição deplorável de “boçalização” em que se encontra. E muitos daqueles que hoje insurgem-se contra as medidas fascistas de Bolsonaro avançaram, de fato, o sinal. E parece que a vítima mais atingida da hora é a Folha de São Paulo, o jornal paulista da família Frias. A família Frias, assim como a família Marinho, dona do Globo, apoiaram escancaradamente todas as ações que culminariam com a ascensão fascista ao poder, desde o golpe contra Dilma, em 2016. Não mediram esforços para detratarem o Lula e o PT, dando a entender que a corrupção era uma praga exclusiva da esquerda. Fizeram coberturas espetaculosas de operações da Polícia Federal que tinham apenas um alvo e um único objetivo.

Porém, esses mesmos veículos calaram-se diante dos escândalos tucanos ou, quando os abordavam, era de maneira branda e sempre com muita camaradagem. O resultado veio a cavalo e hoje eles são vítimas daquilo que ajudaram a parir. Agora, Bolsonaro já ameaçou retaliar aqueles que anunciarem na Folha de São Paulo. Ele já tinha determinado a suspensão das assinaturas do jornal e está ameaçando até quem for descoberto lendo o jornal da família Frias. Agora, a Folha de São Paulo, vítima dos ataques fascistas insanos de Bolsonaro, invoca as instituições democráticas. Instituições essas que, com o avanço do bolsonarismo, vêm sendo igualmente atacadas, como o Congresso e o STF.

Críticas ao Lula, à Dilma, ao PT, à esquerda, tudo bem. Porém, usar um veículo de comunicação, especialmente aquele que é grande formador de opinião, para criticar um governo que, como qualquer outro cometeu erros, é até papel da imprensa. Mas usá-lo de forma desigual, seletiva, direcionada, batendo em alguns e blindando outros, aí é avançar o sinal vermelho. As conquistas democráticas custaram muitas vidas, muito sangue, muitas porradas. E reconquistar um direito é muito mais difícil do que preservá-lo. Os direitos sociais já estão praticamente ceifados com o bolsonarismo. Agora, como sempre, eles atacam os direitos individuais e a imprensa é o grande alvo. Ocorre que aqueles que estão sendo vítimas da sanha bolsonarista, avançaram o sinal vermelho e perderam os verdes. Agora, em Editorial, eles afirmam que Bolsonaro, que estaria “fantasiado de imperador”, tem de ser contido. O problema é que eles próprios não se contiveram. Se tivessem se contido, certamente eles hoje não estariam pedindo socorro contra o fascismo. Eles também foram uns boçais…

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