A BOLHA BOLSONARISTA

bolha com palavras

“Bolsonarismo” e “Lavajatismo” já não são mais duas faces de uma mesma moeda. São duas moedas diferentes, em alta velocidade, estado de tensão e em rota de colisão. Já não é de hoje que Sérgio Moro, aquele que encarnaria a moralidade e as transformações do governo de extrema-direita, virou pó. Primeiro, foi o The Intercept que o desmascarou e o desmoralizou. Depois, o próprio Bolsonaro encarregou-se de escanteá-lo e torná-lo um mero figurante em seu governo. Moro nunca deixou de ser uma sombra em Bolsonaro. Embora tosco e ignorante em praticamente todos os assuntos de Estado e sem apresentar, durante toda a campanha, qualquer projeto para o Brasil (sua campanha restringiu-se a sempre agredir adversários e fomentar ódio), Bolsonaro usou uma estratégia inédita e que eleitoralmente lhe traria grandes dividendos: anunciar os ministros ainda como candidato. Do “Posto Ipiranga” ao astronauta, chegando até o “justiceiro da República de Curitiba”, todos possuíam em comum o fato de “não serem políticos”,  bem aceitos pelo eleitor bolsonarista, serem “competentes” em suas áreas e a garantia de terem “carta branca” em suas respectivas funções. Mas não foi assim depois da posse. No caso de Paulo Guedes, a recente crise em relação a uma nova CPMF comprova que ele jamais teve a autonomia que pretendia. Ele queria sim uma nova CPMF. Marcos Cintra foi usado de “bucha” para defendê-la e como a ideia foi repudiada, então sobrou para o “bucha” ser defenestrado do governo. Moro vem sendo sistematicamente desautorizado por Bolsonaro e tudo indica que o capítulo final de sua fritura seja a nomeação do novo diretor da Polícia Federal. Quanto ao astronauta, que já viu nosso planeta lá do espaço sideral, ele quase não aparece e não dá entrevistas. Talvez para não ter que dizer, em nome de sua fidelidade ao governo, que a Terra é plana.

Porém, a cisão bolsonarismo/lavajatismo vem dando mostras de que Bolsonaro continuará mantendo o discurso e prática que são direcionadas apenas à sua bolha eleitoral. E quem cruzar seu caminho, será considerado inimigo. Uma vez Presidente, Bolsonaro teria vários caminhos. Ele poderia ter um discurso para o país, visando mitigar o clima de polarização eleitoral que ainda persiste na sociedade. Não quis. Ao contrário, desde a posse ataca adversários e defende as causas mais atrozes, como apologia a torturadores, a ditaduras e a ditadores sanguinários.

Outra alternativa seria procurar superar eventuais e naturais divergências que surgem de uma grande aliança que chega ao poder. Será que Bolsonaro foi ingênuo de pensar que o “ódio ao PT” significava um “amor ao Bolsonaro”? Gustavo Bebianno, Janaína Paschoal, general Santos Cruz, Alexandre Frota, João Dória, Paulo Marinho, Kim Kataguiri e o MBL, Lobão, major Olímpio, Selma Arruda… e muitos outros dirão que não! Todos, embora tenham apoiado Bolsonaro, já se redirecionaram ou estão se redirecionando em caminhos direitistas diferentes do bolsonarismo.

Agora, a recente ruptura do PSL do Rio com o governo de Wilson Witzel. O PSL do Rio de Janeiro, comandado por Flávio Bolsonaro, acaba de deixar a base aliada de Witzel na Assembleia Legislativa. Só porque o governador afirmou em recente entrevista à jornalista da Globo Andreia Sadi que postula ser Presidente da República. Witzel, como os outros que cruzaram e supostamente “traíram” Bolsonaro, acaba de entrar no “índex”.

Mas faltavam, além dos “inimigos e traidores” internos, os externos. Emmanuel Macron, Michelle Bachelet, o prefeito de Nova Iorque, o governo da Noruega, a ONU com seu globalismo, Finlândia, França, Cuba, Venezuela, Coreia do Norte. No atual contexto, talvez seja bom mesmo Bolsonaro criar, cada vez mais, “inimigos externos”, ao mesmo tempo em que vai vendo seus amigos e aliados externos se desmilinguirem. Na Itália, seu amigo e aliado, o fascista Matteo Salvini, já foi deletado. Na Argentina, uma derrota de seu aliado Macri se avizinha. Em Israel, o seu aliado, o bandido Benjamin Netanyahu, não consegui a maioria e até cancelou seu comparecimento à reunião da ONU, para tentar juntar os cacos. Restou o Trump (por enquanto) para ele bajular e entregar o país.

Em suma, o bolsonarismo está, cada vez mais, virando uma “bolha”. O discurso do “todos” contra Bolsonaro, que representaria o anti-sistema, parece que já está prematuramente sendo requentado. Como dissemos, restou o Trump como aliado e modelo externo a ser seguido. Seguir seus métodos vem sendo o lugar-comum de Bolsonaro: ataques e agressões a adversários e até a aliados que divergem marcam o “jacobinismo” bolsonarista. Não sabemos se será o suficiente, porque, embora 2020 esteja logo ali, só se pensa em 2022. O “eu” contra “todos” já não teria o mesmo contexto favorável. Primeiro, porque não existe, desde 2016, um “PT” no poder para se odiar; segundo, porque a corrupção e o nepotismo grassam na própria família Bolsonaro; terceiro, se do lado de Bolsonaro existem os defensores da “Pátria”, de “Deus”, da “família” e “soldados anticomunistas”, as direitas que saíram do bolsonarismo também contam com tudo isso. O resultado desse embate não pode ser antecipado. Assim, esperemos para ver. Isso, se a “bolha” não estourar antes de chegarmos lá.

 

 

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