O BOBO DA CORTE

moro bobo da corte

“ESTRELA CADENTE – Não adianta tapar o sol com a peneira. Há mais de uma razão. Mas Sérgio Moro, desde o dia 1º de novembro, quando aceitou trocar o cargo de juiz da Lava-Jato para ser ministro de Bolsonaro, perde brilho. É pena.” (Nota de Ancelmo Gois, em “O Globo”, de 11 de agosto de 2019).

“SENTIU O GOLPE – Parlamentares que têm se reunido com Sérgio Moro em audiência notam que o ministro anda aéreo, fazendo um esforço redobrado para prestar atenção na conversa.” (Nota de Lauro Jardim, em “O Globo”, de 11 de agosto de 2019).

“TENSÃO – Com queixas mútuas, está tenso o clima entre Jair Bolsonaro e seu ministro Sérgio Moro. Resta saber qual dos dois explode primeiro.” (Nota de Elio Gaspari, em “O Globo”, de 11 de agosto de 2019).

As Organizações Globo, como um todo, possuem um histórico de engajamento político que pode ser resumido em seu “lavajatismo” e anti-petismo. Quando a Globo apoiava conduções coercitivas abusivas, hollywoodianas, e ilegais, seus jornalistas de plantão já estavam no local antes mesmo da Polícia Federal. A família Marinho tinha o privilégio de saber da operação antes da Polícia. Quando a Globo recebeu com exclusividade do então juiz Sérgio Moro o vazamento da conversa da ex-Presidente Dilma com Lula, então o “furo” sensacional do Jornal Nacional era o primor do jornalismo. Tudo por uma mesma causa. Eles já tinham o seu “mito”. Mas ele chamava-se Sérgio Moro, aquele que “jamais seria político”, apenas um homem da lei necessário para condenar corruptos de todos (todos?) os matizes. A Globo o turbinou. A Globo o endeusou. A Globo o mitificou. Mas nem a Globo sabia que a atuação daquele mito de Curitiba iria acabar elegendo um outro tal mito que nem ela queria. Porque a Globo, ao endeusar Moro e suas ações ilegais e fascistas, estava plantando um “picolé de chuchu”, mas acabou colhendo um outro “mito”, e que hoje já responde pelo nome de “Johnny Bravo”.

Hoje, quando vemos três articulistas de O Globo, em uma mesma edição, fazendo comentários que admitem a derrocada de Moro e a difícil convivência entre os “dois mitos”, então já não há mais como dizer que “é tudo papo de esquerdista.” Bolsonaro foi eleito em meio a um discurso anti-corrupção e anti-petista. No momento de sua eleição, Bolsonaro sabia que nem todos os seus 57 milhões de eleitores morriam de amor por ele. Na verdade, até hoje muitos deles morrem mesmo é de ódio pelo Lula e pelo PT. Então, Bolsonaro precisaria dar a seu governo uma cara “legalista, anti-corruptiva, moralista e redentora”, tudo para angariar apoio e confiança daqueles que lhe deram o voto apenas pelo ódio ao PT. E Moro era a cartada certa para isso. Para Moro, o negócio também parecia bom, porque ao mesmo tempo Moro, alavancado aos píncaros pela sua atuação na Lava Jato, turbinaria sua carreira política na condição de ministro da Justiça e, quiçá, ministro do Supremo que, como ele mesmo disse, seria o “bilhete premiado” já prometido a ele por Bolsonaro. Porém, nesse encontro de “dois mitos” no governo, Moro saía com uma certa vantagem, como aquele ministro que jamais poderia ser demitido. Bolsonaro parecia ter que ser, não se sabe por quanto tempo, refém do outro “mito”, o de Curitiba.

O tempo, porém, foi tão célere com Moro como ele e o TRF-4 foram com Lula. Em seis meses de governo, estoura o escândalo da Vaza Jato. Os diálogos no esgoto, especialmente entre Moro e Dallagnol desnudam a face política, parcial e monetizante da Lava Jato. Desnudam suas ambições políticas. Seus crimes processuais. Moro é terrivelmente ferido. Já o governo Bolsonaro, nem tanto.

Na verdade, desde o início do governo, Moro vem sendo escanteado. Isso faz lembrar um episódio do futebol, quando Romário e Edmundo foram jogar no Vasco. Duas estrelas vaidosas e egocêntricas. Não haveria lugar para ambos. Alguém teria que ser o “bobo da corte”. Bolsonaro, veladamente, colocava rédeas em Moro. O ex-juiz sofria sucessivas derrotas. Nada de “super-ministro”. Nada de “carta branca”. Moro sequer pôde nomear uma mera suplente de um conselho que tem o poder de decisão igual a zero. Moro perdeu o COAF. Moro sucumbiu aos políticos e fatiou seu pacote anti-crime. Mas essencialmente não seria vantajoso para Bolsonaro que Moro tivesse protagonismo em seu governo. O futuro é logo ali e Moro já era dado como candidato em 2022, mesmo por muitos daqueles que votaram em Bolsonaro. E finalmente, com a Vaza Jato, Moro sucumbiu a Bolsonaro, invertendo a condição inicial. Agora, Moro é refém de Bolsonaro, que o leva até a estádios de futebol para ver o Flamengo e a seleção brasileira. Foi pior a emenda do que o soneto. Grupos de flamenguistas anti-fascistas protestaram quando Moro caiu no ridículo de ter que vestir a camisa do Flamengo para tentar angariar alguma popularidade. Não adiantou. Moro perdeu, e muito, principalmente entre seus antigos pares da mídia (Veja, Estadão, O Globo), do Judiciário e até entre políticos. Só houve uma saída para Moro: sucumbir a Bolsonaro e tornar-se seu ancilar, defendendo as barbaridades de seu governo, posando com ele em fotos e até compartilhando vídeos de Bolsonaro fazendo ameaças à imprensa.

Recentemente, inclusive, Bolsonaro colocou Moro em seu devido lugar de subalterno, ao dizer, esta semana, que “Moro estava acostumado a ter a caneta na mão em Curitiba, sem dar satisfação a ninguém.” Até o pacote anti-crime de Moro já foi secundarizado pelo governo Bolsonaro, que diz ter outras “prioridades”. É sabido que Moro ainda possui séquitos porque, afinal, o ex-juiz foi o grande responsável, apesar das ilegalidades comprovadas, pelo encarceramento e alijamento de Lula do processo eleitoral. E por isso Bolsonaro sabe que Moro ainda possui alguma serventia. Porém, em seu devido lugar. Porque a essa altura Moro já deve saber que, onde existem dois mitos, alguém vai ter que ser o bobo da corte.

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