DITADURA PELO VOTO: ODIOSOS E CONVICTOS

bolsonaro-ditadura.jpg“Eu acho que a democracia corre risco de termos de novo a ditadura, agora pelo voto. Porque nós temos como presidente uma pessoa absolutamente desequilibrada. Tenho muito receio de um retrocesso nas conquistas democráticas que tivemos nos últimos 30 e tantos anos.” (José Carlos Dias, ex-ministro da Justiça no governo FHC, em entrevista à Folha de São Paulo, em 3 de agosto de 2019).

Passados mais de trinta anos da promulgação da Constituição de 1988, a “Constituição Cidadã”, marcada por conquistas nos campos político e social, nunca se viu tanta apreensão em relação aos riscos que a democracia corre. E essa apreensão vem sendo externada por pessoas de matizes políticos bastante moderados, como é o caso do ex-ministro da Justiça de FHC, José Carlos Dias, que declarou o seu receio de um retrocesso das conquistas dos últimos 30 anos e do risco de uma “ditadura pelo voto”. A “ditadura pelo voto” não seria inédita na história. Em 1933, na Alemanha, o Partido Nazista venceu as eleições, alçando Hitler ao poder. E deu no que todos sabem.

Desde 1989, quando foi eleito o primeiro Presidente da República pela via direta após a ditadura militar, não se temia pelo risco de uma ditadura ou por qualquer retrocesso no campo político-institucional. Porém, desde o início do governo Bolsonaro, os ataques às instituições, aos direitos humanos, à liberdade de expressão, ao meio ambiente, às entidades representativas da sociedade civil, aos movimentos sociais e até a quem seria aliado, estão assustando até mesmo muitos daqueles que votaram em Bolsonaro “só porque tinham ódio do PT”.

Em apenas sete meses de seu mandato, o governo Bolsonaro já atacou a imprensa, as universidades, o meio artístico, as entidades científicas, o Poder Judiciário, a OAB. Até generais estão sendo vítimas da sanha bolsonarista e de seu clã ensandecido. Os que pensam de forma diferente dele, são considerados “inimigos” e “anti-patrióticos”, em uma clara estratégia de segregação radical e maniqueísta. Basta dizer que, para os bolsonaristas, Fernando Henrique Cardoso e o MBL são considerados “comunistas”. As aberrações proferidas quase que diariamente por Bolsonaro, em defesa da ditadura, da tortura e disseminando um discurso de ódio a quem considera “terroristas” e “inimigos da Nação” inflama ainda mais a polarização política. Para além de uma estratégia, onde os discursos radicais e polêmicos serviriam para empanar problemas graves, como o desemprego e a entrega do país, Bolsonaro reivindica a sua legitimidade, ao afirmar que “quem votou nele sabia como ele era.” “Sou assim mesmo, não tem estratégia”, disse em recente entrevista.  É uma afirmação do tipo: “você não foi enganado e sabia em quem estava votando, portanto, não reclame. Você sabia quem eu era e tudo o que eu defendia.” De fato, ele sempre defendeu a ditadura, o fuzilamento de opositores, a tortura, o fechamento do Congresso, a sonegação de impostos, a redução dos direitos e seu maior ídolo é declaradamente um torturador. Tudo em nome de “Deus”. Essas posições de Bolsonaro sempre foram fartamente divulgadas e sobejamente conhecidas. Portanto, não há “complexo de corno”. E aí está a legitimidade invocada por ele. O raciocínio de Bolsonaro, nesse caso, é simplório. Porque seria muita insanidade alguém que discordasse de todas essas barbaridades votar em tudo isso apenas por “ódio ao PT”. Bolsonaro entende que, além do tal “ódio”, também existe alguma convicção. Tudo aquilo que ele sempre defendeu foi “democraticamente eleito nas urnas”. A “ditadura pelo voto” pode ter se legitimado, mas ainda não está consumada. O alento é que vemos hoje muitos daqueles que se auto-flagelaram pelo ódio nas urnas insurgindo-se contra o que eles próprios votaram. Perguntem aos meninos do MBL. Perguntem ao João Doria. Perguntem ao Paulo Marinho. Perguntem ao Bebianno. Perguntem ao Alexandre Frota e ao Lobão. Perguntem à “pós-doutora” Janaína Paschoal. O problema é que, entre aqueles que elegeram Bolsonaro há, além  dos “odiosos”,  os “convictos” (e estes é que representam o perigo). Os “convictos” abraçam as causas nazi-fascistas de Bolsonaro, insuflam a discórdia, não querem a democracia. É nesse “nicho”, que cresceu especialmente a partir de 2013, que Bolsonaro hoje respalda-se. É nesse “nicho” de convictos “fascistopatas” que está a ameaça à democracia. Porque muitos dos meramente odiosos já caíram na real. Entre a convicção e o ódio, nunca torci tanto para que o ódio seja o vencedor.

 

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s