UM MARRECO NO HIPÓDROMO

MARRECO NIKA“Até quando o prestigia, o presidente o diminui.” (Ricardo Rangel, empresário, referindo-se a Jair Bolsonaro e Sérgio Moro, em artigo publicado em “O Globo”, de 6 de julho de 2019).

“Povo vai dizer se Moro está certo.” (Jair Bolsonaro, ao confirmar que levará Sérgio  Moro à final da Copa América, no Maracanã).

Desde que rasgou a toga, assumiu o seu viés político fascista e tornou-se ministro bolsonarista, Sérgio Moro vem passando por inúmeros constrangimentos e vem tendo sua imagem vilipendiada até por quem, outrora, havia dito que ele seria um “super-ministro”. E isso bem antes do escândalo da Vaza Jato, dentro do próprio governo e pelo próprio Presidente Bolsonaro, que já o desautorizou, deu-lhe uma rasteira no pacote anticrime e começou a frustrar seu sonho carreirista ao dizer que “estava na hora de termos um evangélico no Supremo.”

Logo após o início do escândalo da Vaza Jato, Bolsonaro ficou arredio. Certamente, quis testar as reações favoráveis e contrárias a Moro e só entrou em defesa do ex-juiz depois de ter percebido que, embora muitos patos e marrecos, inclusive da mídia, tenham pulado do barco, Moro ainda detinha uma popularidade que o permitisse bancar o escândalo. E, mesmo assim, o Bozo frisou: “confiança 100% só em pai e mãe.”

A primeira estratégia foi a mais populista e rasteira: levar Moro ao jogo do Flamengo contra o CSA, em Brasília, pelo Campeonato Brasileiro. Vaias e aplausos sempre virão, mas evidentemente que o público de um estádio não é o suficiente para aferir a popularidade de ninguém. Em relação ao jogo do Flamengo, diversas manifestações de flamenguistas pelas redes sociais repudiaram o fato de Moro, junto com Bolsonaro, terem vestido a camisa do clube. Nas redes sociais, foi gigantesca a repulsa de rubro-negros. E a torcida Flamengo Anti-Fascista, por exemplo, realizou um imenso protesto, que teve a adesão de milhares de torcedores pela rede.

O expediente de usar espaços públicos, especialmente de diversões e jogos esportivos, é muito antigo na história. Os imperadores romanos sempre apareciam no Coliseu, mas nos momentos de crise essa presença não deixava de ser um teste. No Império Bizantino, o Hipódromo era o centro esportivo e político, onde “verdes” e “azuis”, adversários políticos, esportivos e religiosos, digladiavam-se, enquanto o Imperador, lá da tribuna, capitalizava politicamente. Hitler ia ao Estádio Olímpico de Berlim. Médici, vez por outra, também aparecia pelo Maracanã.

Agora, Bolsonaro diz que levará Sérgio Moro ao Maracanã para assistir à final da Copa América entre Brasil e Peru. Afirma Bolsonaro que “o povo vai dizer se Moro está certo.” E, ao que parece, Moro irá submeter-se a mais esse papel ridículo. Nada contra Moro ir ao jogo. É comum qualquer autoridade pública ir a jogos, mas com uma postura que esteja dentro da liturgia e não como teste de popularidade previamente antecipado.  E sob a iniciativa do próprio Bolsonaro?

O que irá acontecer no Maracanã, além de uma partida de futebol, será um conflito de narrativas. No jogo em Brasília, vieram aplausos para Moro e Bolsonaro de pessoas que estavam na tribuna ou próximas a ela. Porém, as vaias também foram inevitáveis. E, apesar de Bolsonaro visivelmente possuir um nível intelectual tacanho, nessa ele está sendo cirúrgico: ele vai mesmo é jogar o marreco às feras e venha o que vier. Disse que Moro até entrará em campo após a partida. Se aplausos, serão para o seu governo. Se vaias, serão para o ex-juiz. A presença de Moro no jogo, amanhã, quaisquer que sejam os aplausos ou vaias, não evitará, no entanto, a continuidade da publicação dos escândalos protagonizados por ele e seus subordinados do MPF.

Se lembrarmos da Revolta de Nika, no antigo Império Bizantino, veremos que ela começou no hipódromo. Havia dúvida sobre qual dos cavalos tinha sido o vencedor. Como não havia “fotochart” e nem “VAR”, o imperador Justiniano declarou o seu próprio cavalo como vencedor. Esse ato teria sido o estopim para o início da revolta, visto que o povo torcia para outro cavalo. O cenário parece que será um “remake” exatos 1487 anos depois: alguém que recentemente já disse ser a “Rainha da Inglaterra” levará seu marreco ao hipódromo, querendo que ele seja, apesar de tudo, o “vencedor”. Mas, ao contrário do antigo Império Bizantino, a atual “Revolta de Nika” já começou bem antes de o marreco entrar no hipódromo…

 

 

 

 

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