O “JUIZ LADRÃO”

juiz ladrão

“O senhor entrará para a história como um juiz ladrão.” (Glauber Braga, deputado federal do PSOL, ao ministro bolsonarista Sérgio Moro, em 2 de julho de 2019).

Na audiência realizada ontem na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara Federal, o deputado do PSOL Glauber Braga disse, na frente de Moro, aquilo que talvez, apesar de estar desmoronando, o ministro bolsonarista jamais imaginasse ouvir. Disse o deputado: “Juiz ladrão e corrompido que ganhou uma recompensa para fazer com que a democracia brasileira fosse atingida.” Ao fazer tal afirmação, o deputado Glauber esclareceu que fazia uma analogia com o futebol. Exemplificou com um juiz que marca um pênalti inexistente para determinado time. Esse mesmo juiz, ao final do primeiro tempo, vai ao vestiário desse time e dá instruções ao seu técnico e até sugere que ele troque determinado jogador que entende que não está tendo boa atuação. Ao final da partida, ajudado pela influência desse juiz, o time que ele beneficiou sai vencedor. A família do juiz, então, comemora a vitória desse time nas redes sociais. E pouco tempo depois, esse juiz já está ocupando um importante cargo na diretoria do time que ele ajudou a vencer. Para os futebolistas, não resta dúvida: esse juiz é mesmo um ladrão!

De certa forma, a política também não deixa de ser um jogo. E muitas vezes levantam-se suspeitas sobre decisões de árbitros de futebol. Talvez certas decisões sejam para não estragar “o jogo”. Mas, que “jogo”? Coincidentemente, no mesmo momento em que Moro foi chamado de ladrão, em virtude das evidentes fraudes e ilegalidades que praticou, o Brasil estava prestes a iniciar, no Mineirão, a partida contra a Argentina, pela semifinal da Copa América. Mas o que esta partida tem a ver com a audiência na Câmara? Bem, há uma declaração do comentarista de arbitragem do Sportv, Sandro Meira Ricci, que certamente ilustra bem o que um juiz de futebol (e também de direito) são capazes de fazer, inclusive aviltar as leis, desde que seja melhor para o “jogo”. E que declaração foi essa?

Aos 20 minutos do segundo tempo, o argentino Messi vinha em velocidade para entrar na área do Brasil. Naquele momento, o Brasil vencia por 1 a 0, mas a Argentina atacava mais. Daniel Alves, então, fez uma falta no argentino e deveria levar o cartão amarelo. Seria o segundo e ele estaria expulso. Daniel Alves atingiu a canela de Messi, parando o ataque. Ao ser acionado pelo narrador para emitir seu parecer sobre o lance e a decisão do árbitro equatoriano, disse Sandro Meira Ricci:

“Se ele não tivesse cartão amarelo, teria recebido. A decisão do árbitro foi a melhor para o jogo. O árbitro achou melhor não expulsar o Daniel Alves para não atrapalhar o jogo.”

Na sequência, Firmino marcou o segundo gol, decretando a vitória do Brasil. Chama nossa atenção o comentário de Sandro Meira Ricci, no qual ele afirma categoricamente que o árbitro tomou a decisão que teria sido a melhor para o “jogo”, mesmo tendo a mesma sido fora da lei. Afinal, melhor para que “jogo”? Haja eufemismos e corporativismos para justificarmos certas decisões absurdas e ilegais. E se o Daniel Alves tivesse sido expulso aos 20 minutos do segundo tempo como, aliás, deveria? Será que teríamos um outro “jogo”? Lembrando que os argentinos podem sim chamar de ladrão o árbitro, por ele ter preferido algo alheio à lei do que a própria lei. Então, que acabem-se as regras. Até porque, nas 17 regras do futebol, não existe nenhuma que fundamente o suposto motivo da decisão do árbitro, do modo como entendeu Sandro Meira Ricci.

No caso de Moro, ao ser chamado de ladrão, como em um jogo de futebol, há um “jogo” que está bem nítido desde o segundo turno da eleição de 2014, embora esse “jogo” tenha sido gestado nas jornadas de junho de 2013. Moro, o juiz, sabia o que era melhor para o “jogo”. O melhor para o “jogo” era condenar Lula, tirá-lo da disputa presidencial e favorecer a direita. Então Moro, como juiz, indica testemunhas e sugere a troca de uma procuradora. Isso, além de dizer que FHC é aliado. Dallagnol, o parceiro de Moro, afirma não ver provas consistentes contra Lula. Mesmo assim, Lula é condenado, fica impedido de disputar a eleição e Bolsonaro vence. Pelas redes sociais, a mulher de Moro festeja a vitória de Bolsonaro. Então, o juiz vai para o governo como ministro da Justiça. Tudo isso foi melhor para o “jogo”. Melhor para o jogo de quem? Do mesmo modo que o árbitro equatoriano de ontem, Moro também pode, em certos aspectos, ser chamado de “ladrão”. Até porque nada, absolutamente nada, que possa ser melhor para a Lava Jato, pode estar fora da lei. Senão, retrocederemos ao tempo daquele justiceiro pragmático que tem como máxima “os fins justificam os meios.”

Mas, infelizmente para Moro e sua trupe, em tempos de tecnologia de VAR nos estádios, parece que o VAR também chegou para acusar os desvios de conduta e as decisões ilegais que redundem em injustiças. Ao menos, por enquanto, no caso de Moro. Até hoje discute-se, no futebol, se Wilton, do Fluminense, fez um gol com a mão. Se Dé, do Vasco, jogou uma pedra de gelo na bola. Wilton e Dé, no futebol, viraram mais folclore do que história.

Porém, Moro e seus parceiros do Ministério Público já entraram para a história. Em sendo verídicas as mensagens do lodaçal da Lava Jato vazadas pelo The Intercept (e tudo indica que sejam, pois as mesmas estão sendo replicadas por diversos órgãos do jornalismo de vários matizes, inclusive alguns que outrora apoiavam Moro), então, a história não irá mesmo absolvê-lo e ele será, para a eternidade, o juiz ladrão. Porque o melhor para o “jogo” jamais poderá ser descumprir a lei. Até porque, assim como ainda não foi criada a regra 18 do futebol, também ainda não foi criado o artigo 812 do Código de Processo Penal.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s