“AEROCOCA” E APRENDIZADO

aerococa le monde“Aerococa” já é a denominação, internacionalmente usada, para referir-se ao avião presidencial que transportava 39 quilos de cocaína. Quem atribuiu esse nome foi ninguém menos que o “Le Monde”, o maior jornal francês e mundialmente conhecido. E lembrando também que o “Le Monde”  não é petista, nem comunista, nem lulista. Enquanto Bolsonaro e Moro tentam minimizar o ocorrido, no exterior não há eufemismos: trata-se mesmo de tráfico internacional de drogas. E Jair Bolsonaro, em mais uma de suas doentias afirmações, já chega a sugerir que o tráfico de cocaína no avião presidencial teria sido uma “armação”. Leviandade pura, pois não há como esconder nada. Foi em solo espanhol e lá os 39 quilos de cocaína não puderam ser escondidos como está, até hoje, escondido o Queiroz e nem a polícia e a Justiça o encontram.

Esse vexame internacional inédito, dentre muitos outros, está fazendo com que o governo Bolsonaro deixe de ser apenas objeto de deboche e achincalhe não apenas pela imprensa internacional, mas também por outros governos. O deboche internacional está se transformando em apreensão. Não seremos levianos em dizer que Bolsonaro estava diretamente ligado à cocaína no avião e que deva ser responsabilizado. Mas tudo recai sobre o seu governo. E, para nós brasileiros, o vexame. E ele próprio já sentiu isso. Por que, em sua ida ao Japão, ele fez escala em Lisboa, e não na Espanha? Por que Bolsonaro mudou o trajeto da viagem? Ficou envergonhado? Queria se afastar do avião que traficava a cocaína? E os constrangimentos futuros? Sempre que um avião presidencial brasileiro pousar em qualquer aeroporto do mundo, o que poderão (e terão o direito de pensar) as autoridades locais? O que dirá agora Eduardo Bolsonaro, o filho do Presidente, esse sim que, de forma leviana e criminosa, em um vídeo publicado em fevereiro, acusou governos petistas de traficarem drogas em aviões oficiais? E agora playboy?

O inquérito militar ao qual responderá o militar-traficante deve ser transparente. É o que exige o povo brasileiro, em um escandaloso vexame nunca visto em nossa história. Transparência que não existiu na entrevista do porta-voz da Aeronáutica, que foi abruptamente encerrada e a quase nada respondeu. Se o sargento-traficante preso na Espanha era um “mula qualificado”, como o chamou o general Mourão, para quem esse “mula” trabalhava? Qual era o destino da cocaína no avião presidencial e quem a encomendou? Quem, na Aeronáutica ou até no Gabinete de Segurança Institucional, poderia estar na parceria criminosa com o sargento-traficante? Essas perguntas, que não são afirmações, exigem respostas. O general Augusto Heleno, ministro do Gabinete de  Segurança Institucional, lamentou a “falta de sorte” pelo escândalo ter vazado exatamente no momento de um evento internacional, como a reunião do G-20. A apuração pela Justiça Militar não pode ter um milímetro de corporativismo. Sabemos o que é deputado julgando deputado, senador julgando senador (olha o Aécio aí), juiz julgando juiz e militar julgando militar. O caso do músico desarmado que foi assassinado com 80 tiros pelo Exército em Guadalupe já cheira a pizza na Justiça Militar. E também supomos que, por detrás de 39 quilos de cocaína, possa existir uma quadrilha, nesse caso, provavelmente fardada. Queríamos muito confiar na Justiça brasileira. Especialmente e agora, nesse caso, na Justiça Militar.

A apuração isenta e não corporativa será fundamental para que o vexame internacional, que já é irreparável, seja ainda maior. Já imaginaram se as autoridades espanholas descobrirem coisas que nossa Justiça Militar “não conseguiu” descobrir? Seria bom ficarmos atentos ao andamento e à velocidade das investigações no Brasil e na Espanha.

Enquanto isso, mais vexames vão se acumulando. O nome de Bolsonaro está listado como “fracasso” em relatório da ONU. Bolsonaro ainda leva um pito público de Angela Merkel, a chanceler da Alemanha, que classificou de “dramática” a situação ambiental e dos direitos humanos em seu governo. Como resposta a Merkel, Bolsonaro disse que “a Alemanha tem muito o que aprender com o Brasil”. Tomara que, no caso do Aerococa, o Brasil não passe a ter muito o que aprender com a Espanha.

 

 

 

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