MENDES 70 ANOS – PARTE IV – A ERA RIVALDO (1993-2008)

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Na foto acima, o diretor Rivaldo Rodrigues Gomes em uma solenidade no Colégio Mendes de Moraes. À direita, de pé, o professor Gesner de Almeida Garcez, ex-diretor do colégio e um dos principais articuladores da vinda de Rivaldo para a direção do Mendes de Moraes. Foto: acervo da Secretaria do CEPMM, cedida por Márcia Cristina Machado.

Pouquíssimas pessoas sabem e muitas talvez jamais imaginariam que um restaurante localizado no bairro do Catete entraria na história do Colégio Estadual Prefeito Mendes de Moraes. Foi ali, no finado restaurante Amazônia, na Rua do Catete 234, que pessoas com grande influência na Secretaria Estadual de Educação reuniram-se, em meados de 1993, para planejar e articular algumas intervenções que aconteceriam em colégios pertencentes à jurisdição da Metro III. O restaurante Amazônia era conhecido por ser um reduto de pedetistas e tinha como um de seus frequentadores mais assíduos o deputado federal Bocaiuva Cunha. O próprio governador Leonel Brizola esteve lá em algumas oportunidades. Hoje o restaurante não mais existe e o prédio é um depósito. Até hoje não sabemos quantas e quais pessoas estiveram presentes no histórico convescote que mudaria o destino do Colégio Mendes de Moraes, mas sabemos que uma delas era o professor Gesner de Almeida Garcez, que já havia sido diretor do colégio entre 1984 e 1988. Ali foi gestada a vinda do professor Rivaldo Rodrigues Gomes para o Colégio Mendes de Moraes, na condição de interventor. Não restam dúvidas de que aquelas intervenções tinham finalidades políticas, tendo em vista que no ano seguinte ocorreriam eleições gerais no país, dentre elas as de governador e deputado estadual.

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Foto acima: o local onde ficava o antigo Restaurante Amazônia, na Rua do Catete 234. Reduto de pedetistas, o restaurante foi o local em que articulou-se a vinda de Rivaldo Rodrigues Gomes como interventor do Colégio Mendes de Moraes. Atualmente, no prédio funciona um depósito. Foto: O Blog Que Virou Manchete.

O desgaste do então diretor, Wagner Desidério Bandeira, era visível. E não apenas entre professores. Uma visita-surpresa do então Secretário Estadual de Administração, Luiz Henrique Lima, em uma tarde de sábado, ao colégio, praticamente selaria a saída do diretor Wagner Bandeira. O Secretário de Administração não teria gostado nem um pouco do que tinha visto no colégio. Assim, o Diário Oficial do dia 15 de julho de 1993 anunciava a nomeação do professor Rivaldo Rodrigues Gomes para diretor do Colégio Mendes de Moraes, na condição de interventor.

O anúncio de Rivaldo Rodrigues Gomes como interventor trouxe alvoroço e a comunidade escolar, mobilizada, foi até a Secretaria de Educação, que na época funcionava na Rua do Passeio, tentar a reversão da medida, em nome da autonomia do colégio. Mas a nomeação de Rivaldo já era fato consumado. Restava resistir (novamente). Ou não. Isso porque, apesar de ter chegado como interventor, o professor Rivaldo venceria, por ampla margem de votos, todas as eleições às quais submeteu-se (um total de cinco), sendo a primeira delas já em 1994. A intervenção então legitimaria-se.

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Foto acima: Luiz Henrique Lima, o Secretário Estadual de Administração em 1993. Sua visita-surpresa ao Colégio Mendes de Moraes em uma tarde de sábado praticamente definiu a exoneração do então diretor do colégio, Wagner Desidério Bandeira. Foto: midianews.com.br 

Rivaldo, guardando-se as devidas proporções, pode ser considerado o “Napoleão do Mendes de Moraes”. E há, de fato, várias semelhanças. O interventor do colégio tinha estatura e compleição física semelhantes às do imperador francês, não obstante, em alguns momentos, ter sido apelidado pelos alunos de “Khaled” (um cantor argelino) e “Benito di Paula” (este bem conhecido); havia chegado ao poder por um golpe que pôs fim a acirradas disputas entre grupos, tal como Napoleão; Napoleão e Rivaldo estiveram no poder por praticamente o mesmo tempo (cerca de 15 anos). E, assim como Napoleão mudou a história da França, Rivaldo mudaria a história do Colégio Mendes de Moraes. E ainda: se até hoje Napoleão é lembrado e inspira militares pelas suas genialidades estratégicas, Rivaldo até hoje é lembrado e sua administração citada como exemplo, inclusive por pretensos futuros diretores. Mas há uma diferença. Ao deixar a direção, em 2008, Rivaldo viveu um auto-exílio com sua esposa, a também ex-diretora Lílian Therezinha Rodrigues, instalou-se em Iguaba Grande, viajou muito e um dos poucos registros de seu retorno ao colégio foi em 2011, em um torneio de natação em que o troféu levou o seu nome. Bem diferente do exílio compulsório de Napoleão.

Embora alavancado à direção por um ato político, Rivaldo sempre foi, sobretudo, um gestor. Diretor de carreira e inspetor escolar, Rivaldo conhecia como ninguém o lado técnico-burocrático da administração de uma escola. Seu primeiro desafio foi enfrentar a grande resistência em uma comunidade forte e historicamente marcada pela mobilização. Poucos teriam a resistência que ele teve e ficou célebre uma de suas primeiras frases ao chegar ao colégio: “Eu tenho sangue de barata!” Um breve comentário vez por outra dito sobre o novo chefe, que já era conhecido por alguns, inclusive por esse que vos escreve, já dizia que Rivaldo estava pronto para a missão que recebera: “O baixinho é foda!” Mas o “baixinho foda” era um tanto frio e pouco emotivo e tempos depois consegui entender o porquê de Rivaldo ter me pedido para ir até uma editora buscar um livro do filósofo Sêneca, que ele havia encomendado. Para viver muita coisa que ele viveria em sua gestão era preciso ser mesmo um estoico.

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Foto acima: convite de formatura do curso de Formação de Professores do ano de 1994 do Colégio Mendes de Moraes. O curso de Formação de Professores funcionou no colégio até o ano de 1997. Foto: arquivo pessoal de Myrthes Lebrego.

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Foto acima: solenidade de formatura do curso de Formação de Professores do ano de 1994 do Colégio Mendes de Moraes. Foto: arquivo pessoal de Myrthes Lebrego. 

 

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Foto acima: “normalistas” do Mendes de Moraes em festa, em 1994, vendo-se à frente a aluna Myrthes Lebrego. Foto: arquivo do CEPMM.

Foi em 1995, no terceiro ano da gestão do professor Rivaldo, que foi criada a Associação de Apoio à Escola (AAE) do Colégio Estadual Prefeito Mendes de Moraes, constituída por uma Diretoria e um Conselho Fiscal, eleitos por uma Assembleia Geral formada por toda a comunidade escolar. A Associação, fundada em uma assembleia realizada no dia 20 de maio de 1995, seria a responsável, principalmente, por gerir as verbas de manutenção e da merenda escolar e possuiria personalidade jurídica e estatuto próprios. O estatuto da AAE seria registrado no dia 10 de julho de 1995 no Registro Civil de Pessoas Jurídicas e, na ocasião, nem foi preciso buscar um advogado fora do colégio para assinar o registro. A professora de Educação Física Marize Pellegrino Dias, também advogada, assinaria o registro do estatuto junto com o diretor Rivaldo.

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Foto acima: a turma de Formação de Professores participando de uma oficina no ano de 1995. Foto: arquivo do CEPMM.

Em 20 de dezembro de 1996 era publicada a Nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, que dividiu a educação básica em ensino infantil, ensino fundamental e ensino médio e o Colégio Estadual Prefeito Mendes de Moraes tornaria-se, então, um estabelecimento de ensino médio (nova denominação do antigo segundo grau), conforme a determinação da nova legislação.

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Foto acima: as alunas do curso de Formação de Professores do Colégio Mendes de Moraes puxam o desfile cívico do ano de 1997. Foto: arquivo do CEPMM.

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Foto acima: carteira de estudante do Colégio Mendes de Moraes do ano de 1997. Foto: arquivo de Juberto Santos.

Rivaldo começou sua gestão tentando arrefecer as resistências, o que não foi fácil. Ele praticamente conversou com um a um dos professores e dos funcionários da equipe técnica, mostrando como seria o seu trabalho. Houve expurgos no quadro de professores, com a saída de descontentes. Mas com o tempo Rivaldo aglutinaria, gradativamente, professores e alunos. Sua gestão foi logo mostrando resultados. Inicialmente, na mudança e controle de horários de professores e funcionários. Professores foram trocados de turmas e/ou turnos ainda no meio do ano letivo. Obras de melhorias nas instalações do colégio foram realizadas e a imposição de uma disciplina mais rigorosa aos alunos, especialmente no tocante a trajes, uniformes, horários e zelo pelo patrimônio escolar, seria uma das marcas registradas de sua administração.

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Foto acima: O diretor Rivaldo e professores na solenidade de formatura do ano de 1999 do ensino médio, no auditório do colégio. Foto: arquivo de Juberto Santos.

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Foto acima: os formandos do ensino médio do Colégio Mendes de Moraes de 1999, ano do jubileu de ouro. Foto: arquivo de Juberto Santos.

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Foto acima: o reencontro, 50 anos depois: alunos da primeira turma do Colégio Mendes de Moraes reencontraram-se no colégio em 1999, durante as festividades do jubileu de ouro. Foto: arquivo do CEPMM.

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Foto acima: a merecida homenagem aos professores no encerramento do ano letivo em 14 de dezembro de 2002. Foto: arquivo do CEPMM.

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Foto acima: na homenagem de 14 de dezembro de 2002, a então professora-decana, Eny Henriques, recebe o estandarte do Colégio Mendes de Moraes. Foto: arquivo do CEPMM.

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Foto acima: professores em confraternização no final do ano letivo de 2002. Foto: arquivo do CEPMM.

Rivaldo, no entanto, era aberto a ideias e receptivo a projetos. Durante a sua gestão, as feiras culturais, os encontros de candidatos a deputados e vereadores para debates no colégio, as festas juninas, a realização de palestras sobre vários temas de interesse de alunos e as inesquecíveis festas comemorativas do aniversário do colégio, com o lançamento dos famosos móbiles, além das celebrações do dia dos professores e do final de ano, até hoje estão na memória.

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Foto acima: a feira cultural de 2003, com a turma representante da Itália na antiga quadra do colégio. Foto: arquivo da Secretaria do CEPMM, cedida por Márcia Cristina Machado.

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Foto acima: alunas do Colégio Mendes de Moraes no desfile cívico em setembro de 2004. Foto: arquivo do CEPMM.

Foi durante a gestão de Rivaldo Rodrigues Gomes que tiveram início as obras de ampliação e melhoria das instalações do colégio. O então Secretário Estadual de Educação, Cláudio Mendonça, em visita ao Colégio Mendes de Moraes, em 14 de julho de 2004, assinaria o documento que oficializaria o início das obras, em uma solenidade perante a comunidade escolar. As obras, entretanto, sofreriam várias paralisações e só seriam concluídas em dezembro do ano de 2013, já sob a administração do diretor Marcos Madeira.

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Foto acima: Em 14 de julho de 2004 o Secretário Estadual de Educação, Cláudio Mendonça, visitou o Colégio Mendes de Moraes para oficializar o início das obras de reforma e ampliação do colégio. As obras, no entanto, sofreriam várias paralisações e só seriam concluídas no final de 2013. Foto: acervo da Secretaria do CEPMM, cedida por Márcia Cristina Machado.

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Na foto acima, de 2004, o diretor Rivaldo Rodrigues Gomes inspeciona o lançamento do móbile comemorativo dos 55 anos do colégio.  O lançamento dos móbiles tornou-se uma das marcas registradas de sua administração. Foto: acervo da Secretaria do CEPMM, cedida por Márcia Cristina Machado.

Uma das obsessões do diretor Rivaldo era a construção da panóplia das bandeiras do Brasil que, em 2005, na data do aniversário do colégio, seria inaugurada e até hoje é o cartão de visita de quem entra no colégio. Em todas as ocasiões de aniversário do colégio, Rivaldo homenageava com uma placa todos os professores já aposentados, como reconhecimento ao trabalho e à dedicação dos mestres que já haviam cumprido suas missões. Nem os professores aposentados esqueciam-se do célebre “meus amores!”, uma senha do diretor Rivaldo quando, logo após a batida do sinal que encerrava o recreio, adentrava à sala dos professores convocando sutilmente os docentes para retornarem às salas de aula.

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Na foto acima, de 6 de junho de 2005, vemos o então diretor Rivaldo Rodrigues Gomes inaugurando a Panóplia das Bandeiras do Brasil, entre seus adjuntos Lílian Therezinha Rodrigues e Marcos Antônio Reis Madeira e ainda dois alunos do Pelotão da Bandeira. A Panóplia é, até hoje, o cartão de visita para quem chega ao colégio. Foto: acervo da Secretaria do CEPMM, cedida por Márcia Cristina Machado. 

No final do ano de 2004, uma tentativa de derrubada do professor Rivaldo partiu da própria Secretaria de Educação. Passados 11 anos, os tempos já não eram os mesmos do “convescote do Catete” e o quadro político havia mudado. A Secretaria de Educação havia nomeado o professor Djalma Barbosa para a direção do colégio sem qualquer aviso prévio à comunidade escolar. A trama foi urdida em um período que ninguém apostaria em resistência: foi na semana entre o Natal e o Ano Novo. Professores em recesso, muitos viajando, colégio sem aulas e sem alunos. Porém, ninguém poderia imaginar que a mobilização em prol da permanência de Rivaldo na direção fosse tão grande, apesar da época adversa. Com apoio inclusive do SEPE (Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação), reuniões no colégio, idas à Secretaria de Educação e à Assembleia Legislativa e o encontro final, no Palácio Guanabara, de dezenas de professores e funcionários com o então Secretário do governo Rosinha, seu marido Anthony Garotinho, garantiriam a permanência de Rivaldo por mais três anos na direção. Porém, antes disso, ainda teríamos um interstício que, doravante, denominaremos de “A Regência de Lílian”.

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Foto acima: Nos últimos dias do ano de 2004 e nos primeiros de 2005, a comunidade do Mendes de Moraes mobilizou-se pela permanência do professor Rivaldo na direção do colégio. E a mobilização foi vitoriosa. Foto: acervo da Secretaria do CEPMM, cedida por Márcia Cristina Machado.

Na negociação com Anthony Garotinho, a professora Lílian Therezinha Rodrigues assumiria a direção do Colégio Mendes de Moraes durante o ano de 2005, enquanto seria efetivado o retorno de Rivaldo. O curto período de Lílian Therezinha Rodrigues na direção do colégio poderia ser considerado como uma breve “regência”, que durou de janeiro até outubro de 2005, quando o professor Rivaldo reassumiria o comando do colégio.

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Na foto acima: depois de grande mobilização da comunidade nos últimos dias de 2004 e nos primeiros de 2005, a ida de professores, funcionários e alunos ao Palácio Guanabara, no dia 5 de janeiro de 2005, acabaria revertendo a exoneração do diretor Rivaldo Rodrigues Gomes, com apoio, inclusive, do SEPE. Após a vitória do movimento, Rivaldo permaneceria como diretor até o final do ano de 2008. Foto: acervo da Secretaria do CEPMM, cedida por Márcia Cristina Machado.

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Foto acima: a professora Lílian Therezinha Rodrigues, a diretora que foi a “regente” por 9 meses durante a Era Rivaldo, com a equipe de Educação Física. Da esquerda para a direita: professores Hélio Sérgio, Lílian Therezinha, Adno Soares, Marcos Madeira, Valéria Santos e Cristina. Foto: Facebook. 

Em 2008 a “Era Rivaldo” chegava ao fim e, em uma sucessão negociada, com o aval da SEEDUC, da Metro III e da comunidade escolar, em uma assembleia realizada no auditório do colégio no dia 12 de novembro de 2008, o nome do professor Marcos Antônio Reis Madeira era oficializado como sucessor de Rivaldo Rodrigues Gomes. A assembleia, que teve 650 participantes, entre professores, alunos e funcionários, contou com a presença da então Coordenadora da Metro III, professora Graça Antunes que, em sua fala, destacou a legitimidade da mesma pela presença maciça da comunidade escolar. Aquela seria a última participação do professor Rivaldo em uma assembleia como diretor. Ao final daquele ano letivo, no dia 15 de dezembro de 2008, como sempre afirmara querer, o professor Rivaldo deixaria a direção do Colégio Mendes de Moraes de forma discreta, sem despedidas e sem homenagens, após 15 anos como diretor. O professor Marcos Madeira, que havia sido adjunto durante um bom tempo na administração Rivaldo, ficaria na direção por pouco mais de sete anos. Mas isso é assunto para o próximo capítulo.

PRÓXIMO CAPÍTULO: PARTE V – OS ÚLTIMOS TEMPOS (2008-2019).

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