MENDES 70 ANOS – PARTE II – DA RESISTÊNCIA AO COLEGIADO (1964-1989)

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Na foto acima: 1965 – o busto de bronze de Mendes de Moraes, quando ficava no pátio externo do prédio. Foi na gestão do diretor Erick Moreira Grinspum (1974-1984), que o busto foi transferido para a parte interna do colégio. O motivo? Os alunos colocavam “Bom-Bril” na cabeça do busto. Foto: Ricardo Chagas, acervo digital de Jaime Moraes.

Joaquim Gomes de Souza, também conhecido como “Souzinha”, foi um dos maiores matemáticos brasileiros. Nascido no  Maranhão em 1829, quando o atual Estado ainda era uma Província do Império, faleceu ainda muito novo, com apenas 35 anos de idade. Reconhecido internacionalmente, deu grandes contribuições à educação e é um orgulho para os brasileiros. E esse ilustre brasileiro também acabaria sendo lembrado na história do Colégio Mendes de Moraes por ter sido escolhido como patrono do centro cívico do colégio, que havia sido fundado no ano de 1962. Durante os anos 1960 e 1970, foi um dos centros cívicos mais ativos e combativos, com uma clara posição política de oposição à ditadura militar instalada no Brasil pelo golpe de 1964.

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Imagem acima: Joaquim Gomes de Souza, o “Souzinha”,  patrono do Centro Cívico do Colégio Mendes de Moraes, fundado em 1962. Grande matemático e educador, “Souzinha” inspiraria os estudantes do Mendes de Moraes na luta e resistência contra a ditadura militar imposta a partir do golpe de 1964. Fonte da imagem: conhecimentoinfinito.wordpress.com.

A ditadura havia se instalado no Brasil com o golpe de 1964 e o Colégio Mendes de Moraes teria em seu centro cívico uma forte representatividade estudantil tendo sido, sem dúvida, um dos centros cívicos mais atuantes da época. Muito pressionado por sua posição de clara oposição à ditadura militar, o Centro Cívico Joaquim Gomes de Souza foi alvo de perseguição e repressão por parte do governo. O golpe militar afetaria especialmente o Colégio Mendes de Moraes exatamente numa época em que o colégio dedicava-se a discussões sobre temas culturais, tornando-se alvo da ditadura. Com o movimento estudantil sendo violentamente reprimido, o colégio viveria um tempo em que “resistir era preciso.” O alto nível de politização dos estudantes de um modo geral levou a ditadura militar a editar o famigerado Decreto 477, em 26 fevereiro de 1969, antes mesmo do início do ano letivo. Em 13 de dezembro do ano anterior, o AI-5 já havia sido editado, institucionalizando a ditadura no Brasil. Agora, pelo Decreto 477, professores, alunos e funcionários de qualquer estabelecimento de ensino não poderiam se envolver em atividades políticas. O exemplo de 1968, com as manifestações estudantis e a culminância na “Passeata dos Cem Mil” havia assustado os ditadores das casernas. O Decreto 477 também ficaria conhecido como “o AI-5 da Educação”.

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Foto acima: a edição do Ato Institucional Nº 5, em 13 dezembro de 1968, pelo ditador Costa e Silva, institucionalizou o regime autoritário no Brasil e o Colégio Mendes de Moraes seria um dos focos de resistência. Fonte da imagem: jornal.usp.br.

Durante a ditadura militar, professores do Colégio Mendes de Moraes também foram alvos de perseguição. O professor de História Iber Reis, que atuou no Colégio Mendes de Moraes em 1965, foi citado em documentos secretos do CENIMAR em 1977, e do SNI, em 1981.  Agentes do DOPS chegaram até a ir ao colégio retirar fichas de cadastro funcional de professores para incluir seus dados nos registros dos órgãos repressores. Por isso, a resistência no colégio transformou-se, nos “anos de chumbo”, em uma fortaleza. Um desses exemplos foi o do professor Alfredo Carlos Contador, que teve sua ficha funcional retirada do colégio pelo DOPS durante a ditadura militar. Nos arquivos do colégio não constam mais quaisquer informações sobre o professor, exceto a de que ele faleceu no dia 12 de janeiro de 1971. Fora dos arquivos do colégio, constatamos que o referido professor, em 1967, era sócio do Centro dos Professores do Ensino Técnico e Secundário da Guanabara. Provavelmente isto justifique o fato de ele ter se tornado alvo do DOPS.

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Foto acima: o professor Alfredo Carlos Contador teve a sua ficha funcional retirada do Colégio Mendes de Moraes por agentes do DOPS durante a repressão no período da ditadura militar. Foto: Arquivo DP/CEPMM.

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Foto acima: a “Passeata dos Cem Mil”, em 26 de junho de 1968, na Avenida Rio Branco, foi a culminância dos protestos contra a ditadura naqueles anos de resistência. E o Colégio Mendes de Moraes, através de seu Centro Cívico, também foi parte dessa resistência. Foto: Evandro Teixeira.

De março até outubro de 1966 o colégio foi dirigido interinamente pelo professor Frederico Luiz de Burgos, quando foi então substituído pelo professor Hélio da Rocha Pitta, que permaneceu na direção até 1971. Nessa época a reforma do ensino, já anunciada, estava em tramitação. Ao mesmo tempo, o colégio vivia problemas administrativos, que levariam à exoneração do diretor Hélio da Rocha Pitta e à nomeação do professor Erick Moreira Zippin Grinspun, na condição de interventor. Um documento da Câmara dos Deputados, publicado no ano 2000, traz os nomes e ocupações de mais de 4.800 pessoas que sofreram punições políticas durante a ditadura militar. E um desses nomes é o do professor Hélio da Rocha Pitta, que foi punido com demissão sumária, publicada no Diário Oficial da União de 5 de abril de 1973. Ele também foi professor do Colégio Naval. O professor Pitta seria apenas um entre milhares.

A missão do professor Erick Grinspun seria bem específica naquele momento: preparar o colégio para a implantação das mudanças que já eram anunciadas com a nova reforma do ensino, especialmente a implantação dos cursos profissionalizantes, que tornariam-se obrigatórios.

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Foto acima: o professor Hélio da Rocha Pitta, diretor do Mendes de Moraes entre 1966 e 1971, em uma solenidade de formatura. O professor Hélio da Rocha Pitta foi um dos alvos da ditadura militar, sofrendo como sanção a demissão. Foto: arquivo de Jaime Moraes.

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Na foto acima: a turma 208 do Colégio Mendes de Moraes do ano de 1966, tempo em que ainda vigorava a formação de turmas por grupos masculino e feminino. Foto: Klaus Baumgart, Ricardo Leonardo e Eraldo Maciel, acervo digital de Jaime Moraes.

Foi breve esta primeira passagem do professor Erick Moreira Zippin Grinspun pela direção (ele retornaria em 1974 e permaneceria por 10 anos na direção). Em 1971 o professor Érick seria sucedido pelo professor Vicente Rossi. Foi na administração do diretor Vicente Rossi que os cursos profissionalizantes passaram a ser oferecidos pelo colégio, atendendo-se à exigência de sua obrigatoriedade pela nova Lei da Reforma de Ensino. Nesse momento de sua história, o colégio já contabilizava quase 2300 alunos.

Foi no início dos anos 1970 que a educação brasileira sofreria sérios reveses, como consequência do governo militar instalado em 1964. A Nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, a Lei 5692/1971, alterou a divisão do ensino no Brasil. Os antigos cursos primário e ginasial, que juntos duravam 10 anos, passaram a formar um único ciclo denominado Primeiro Grau, com a duração de 8 anos, e o antigo colegial passava a denominar-se Segundo Grau, sendo este profissionalizante. Com essas mudanças, não existiria mais o exame de “admissão”. Eram os tempos da educação tecnicista, dos “Estudos Sociais”, da “Educação Moral e Cívica”, da “OSPB”. Eram também os tempos das “licenciaturas curtas”, que formavam professores “à rodo” para dar conta da nova demanda. O Colégio Mendes de Moraes, então, seguindo a nova legislação, tornaria-se um estabelecimento que ofereceria, a partir desse momento, apenas o ensino de segundo grau, sendo o único a funcionar nos três turnos na Ilha do Governador.

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Foto acima: turma do Colégio Mendes de Moraes de 1971, ano da reforma de ensino 5692. Foto: enviada por Fabiana Soares.

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Foto acima: camisa do uniforme do Colégio Mendes de Moraes da década de 1970. Foto: enviada por Juberto Santos.

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Foto acima: alunos da 8ª série do primeiro grau do Colégio Mendes de Moraes visitaram o jornal “O Globo” em 1972 e o colégio foi notícia. Foto: “O Globo”, 25/10/1972, enviada por Juberto Santos.

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Foto acima: turma do Colégio Mendes de Moraes de 1973. Foto: enviada por Fabiana Soares.

No ano de 1975, era efetivada a fusão dos antigos estados da Guanabara e do Rio de Janeiro, de acordo com a Lei Complementar Nº 20. Com a fusão, o colégio permaneceria com sua administração na esfera estadual, mantendo o nome “Colégio Estadual Prefeito Mendes de Moraes” que já ostentava desde os anos 1960, quando foi criado o antigo Estado da Guanabara. Esta é a denominação que o colégio conserva até a atualidade.

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Foto acima: em 15 de março de 1975 era oficializada a fusão dos antigos Estados da Guanabara e do Rio de Janeiro. O primeiro governador do novo Estado do Rio de Janeiro foi o almirante Faria Lima. Foto: O Globo.

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Foto acima: carteira de estudante do Colégio Mendes de Moraes do ano de 1965 mostra que o estabelecimento já era denominado “estadual” antes mesmo da fusão, que só seria oficializada em 1975. Ou seja, o colégio torna-se estadual a partir da criação do Estado da Guanabara. A carteira é assinada pela diretora Maria Amélia dos Santos Penna, que ocupou o cargo entre 1961 e 1965. Foto: Facebook.

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Na foto acima: alunos do curso de técnico em petroquímica do Colégio Mendes de Moraes do ano de 1973. Foto: Jaime Moraes.

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Foto acima: turma 1106 do colégio Mendes de Moraes do ano de 1974. Foto: enviada por Juberto Santos.

Em 1974, o professor Erick Moreira Grinspun foi nomeado para a direção do colégio, permanecendo no cargo por cerca de dez anos, tendo sido substituído em 1984 pelo professor Gesner de Almeida Garcez. Foi na gestão do professor Gesner que foi criado o curso de Formação Para o Magistério (antigo Normal), que existiria no colégio até o ano de 1997. O professor Gesner Garcez permaneceu na direção até 1988, quando foi substituído pela professora Marlene de Jesus Castro.

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Foto acima: o professor Erick Moreira Zippin Grinspun, diretor do Colégio Mendes de Moraes em 1970-1971 e entre 1974 e 1984. Foto: Arquivo DP/CEPMM.

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Foto acima: o professor Gesner de Almeida Garcez, diretor do Colégio Mendes de Moraes entre 1984 e 1988. Em sua gestão foi criado no colégio o Curso de Formação de Professores (antigo Normal). Foto: arquivo DP/CEPMM.

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Na foto acima: com a Lei 5692/1971 já em vigor, o colégio passa a oferecer cursos profissionalizantes. Na foto, a turma de Química do ano de 1974, vendo-se de pé à esquerda o professor Paulo Araújo. Na fila do meio, o primeiro à direita é o funcionário Lionel Felipe e, na fila do meio, a terceira da direita para a esquerda é a professora Marlene de Jesus Castro, que seria diretora do colégio entre 1988 e 1989. Foto: Lúcia Maria R. Rocha, acervo digital de Jaime Moraes.

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Foto acima: 1975 – a turma da 2ª série do segundo grau, do curso de Laboratórios Médicos, na antiga quadra do colégio após uma apresentação. A primeira sentada, à direita, é Valéria Santos, atual professora de Educação Física do Colégio Mendes de Moraes. Foto: “Ilha do Governador – O Passado no Presente”, acervo digital de Jaime Moraes.

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Foto acima: turma do Colégio Mendes de Moraes de 1975. Foto: enviada por Fabiana Soares.

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Foto acima: a turma 2208 do Colégio Mendes de Moraes do ano de 1976. Foto: arquivo de Márcia Cristina Machado.

No início dos anos 1980 a ditadura militar agonizava. A intensificação dos movimentos sociais levou a conquistas importantes e a “Campanha pelas diretas já”, em 1984, exigindo o retorno das eleições diretas para Presidente da República, foi o auge da mobilização popular. As eleições diretas para governadores de Estado já haviam sido resgatadas e, em 1982, Leonel Brizola era eleito, pelo voto direto, governador do Estado do Rio de Janeiro, sucedendo o “biônico” Chagas Freitas. O último governador eleito pelo voto direto antes de Brizola havia sido Francisco Negrão de Lima, em 1965, ainda pelo antigo Estado da Guanabara. Brizola torna-se, então, o primeiro governador do novo Estado do Rio de Janeiro eleito pelo povo. Mas ainda faltava a eleição para Presidente da República, e esta só viria com a nova Constituição, em 1988, após o fim do regime militar.

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Foto acima: Leonel Brizola, em seu discurso de posse em 15 de março de 1983. Brizola foi o primeiro governador eleito pelo voto direto desde 1965 e o primeiro eleito pelo voto popular no novo Estado do Rio de Janeiro. Foto: O Globo.

Vivíamos outros tempos. O regime militar havia chegado ao fim em 1985, em uma transição negociada e sem traumas, e uma Assembleia Constituinte, eleita em 1986, havia promulgado uma nova Constituição em 5 de outubro de 1988. Muitos direitos que haviam sido ceifados durante a ditadura foram resgatados, dentre eles o direito do povo eleger o Presidente da República. O mote era simples: se podemos eleger o Presidente da República, por que não podemos eleger o diretor de uma escola? Foi nesse contexto que o SEPE (Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação) passou a defender a proposta de eleição direta para diretores das escolas. A “Campanha pelas diretas já” agora entrava nas escolas.  A luta do SEPE pelas eleições diretas frutificou. Em 1989 a comunidade escolar conquistava o direito de eleger o seu diretor.

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Foto acima: a promulgação da Constituição, em 5 de outubro de 1988, significou o resgate de direitos retirados durante a ditadura militar, dentre eles o de eleger diretamente o Presidente da República. E por que não o diretor de escola? Foto: Câmara dos Deputados.

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Foto acima: a professora Marlene de Jesus Castro, diretora do Colégio Mendes de Moraes entre 1988 e 1989. Foto: acervo da Secretaria do CEPMM, cedida por Márcia Cristina Machado.

Com a conquista do direito de eleger diretamente o diretor, a comunidade escolar do Colégio Mendes de Moraes foi às urnas em 1989 e a chapa encabeçada pelo professor Elton Palmeira Brandão foi a vitoriosa. O Colégio Mendes de Moraes viveria uma experiência jamais imaginada a partir de então: a gestão colegiada, na qual o diretor não tomava sozinho as decisões e sim junto a um colegiado plural, formado por representantes de todos os segmentos da escola.

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Foto acima: o professor Elton Palmeira Brandão, eleito diretor do Colégio Mendes de Moraes em 1989 após a conquista, pela comunidade escolar, de eleger pelo voto direto o diretor do colégio. O professor Elton Brandão entraria para a história por implantar a administração colegiada. Foto: Facebook.

Elton Palmeira Brandão inscreveria seu nome na história do Mendes de Moraes como sendo o único diretor a adotar a administração colegiada. Mas isso é assunto para o próximo capítulo.

PRÓXIMO CAPÍTULO: PARTE III – DO COLEGIADO À INTERVENÇÃO (1989-1993).

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