OU GOVERNA OU SAI

bolsonaro e jânioNão vamos falar mais em “coincidências”, mas em fatos e/ou aspectos comuns que podem nos levar a pensar o atual contexto político brasileiro. Temos visto, tanto na mídia impressa como nos sites, aquilo que alguns já estão chamando de “o fantasma de Jânio Quadros”, o Presidente que foi eleito em 1960 em cima de um discurso moralista, de combate à corrupção ( na qual ele dizia que passaria a vassoura) e que governou muito em cima de bilhetinhos, porém escritos à mão e em um português impecável. Jânio não tinha interlocução com o Congresso e preocupou-se muito mais em proibir o uso de biquínis e brigas de galo do que com questões relevantes para o país. As “forças terríveis” o impediam de governar. Então, sete meses depois de empossado, mandou o vice João Goulart para a China e renunciou, na expectativa de implorarem por sua volta. Aí, ele iria impor suas condições e uma delas seria tornar o país “governável”. Entenda-se: “governável” seria um país sem Congresso, sem diálogo, sem pressões. Deu no que deu.

As semelhanças são muitas. Bolsonaro também foi eleito em cima de um discurso moralista e anti-corrupção. Bolsonaro, a exemplo de Jânio, embora tenha sido parlamentar por 30 anos, agora no Executivo mostra total incapacidade de interlocução com o Congresso. Tanto que, na última semana, uma das notícias de destaque foi o Congresso “trazer para si” a reforma da previdência, por absoluta falta de competência na articulação governista. Bolsonaro também governa por “bilhetinhos”, só que pelo twitter e com um português sofrível. E, pelo visto, parece que Bolsonaro “terceirizou” o recado que quis mandar, ao replicar um texto que falava de um “Brasil ingovernável, a menos que seja pelos conchavos”. Bolsonaro, embora sua vida parlamentar tenha sido nula, conhece o funcionamento do Congresso. Ele sabe que o presidencialismo no Brasil é “parlamentarizado” e a coalizão, ou seja, o entendimento com o Congresso, é a via para a governabilidade. Que se pare com essa conversa vitimista de que “foi enganado ou traído”. Até porque Bolsonaro foi eleito muito mais em cima do anti-petismo do que do bolsonarismo.

Claro que dialogar e negociar com o Congresso tem um ônus. Mas este não é a “compra” de votos ou os conchavos. E se até antigos apoiadores estão começando a sair do barco, é porque efetivamente não assinaram um cheque em branco. E nessa o Lobão não está sozinho. Perguntem aos meninos do MBL e ao seu líder, Renan Santos. Perguntem ao bispo Marcos Pereira, líder do PRB. Perguntem à pós-doutora Janaína Paschoal. Perguntem ao Flávio Rocha, dono da Riachuelo. Perguntem ao Delfim Netto.

Sarney, quando a atual Constituição foi promulgada, durante o seu governo, disse a mesma coisa: que a Constituição tornaria o país “ingovernável”. E ele terminou o seu governo de forma impopular, porém, não por culpa da Constituição. Sarney vinha de um longo período em que presidentes não escolhidos pelo povo podiam “fazer e andar” para o Congresso. Sarney acostumou-se a isso, pois sempre foi um apoiador do regime militar. Quando a Presidência da República caiu em seu colo, ainda vigorava a Constituição do regime militar, a de 1967, embora mais remendada do que fantasia de caipira em festa junina. Sarney foi o único Presidente que, em seu mandato, governou sob duas Constituições. Ao dizer que a de 1988 tornava o país “ingovernável”, é porque ele sentiu na pele o que é governar tendo que dialogar e com base em uma Constituição legitimada pelo povo, que elegeu a Constituinte.

Geralmente, quando governantes não conseguem e nem aprendem a dialogar, vem uma tentativa de autogolpe. Ou golpe simplesmente. O próprio Jânio Quadros admitiu que sua renúncia foi uma tentativa de golpe. Isso, pouco antes de morrer, em 1992. Talvez Jânio, com essa confissão, tenha tentado reparar a história do desastre que cometeu ao usar a renúncia como chantagem. Pelo menos, revelando a verdade. A confissão foi feita ao seu neto, um ano antes de falecer e depois revelada no livro “Jânio Quadros: memorial à história do Brasil”, que tem como um dos autores o seu próprio neto. Se a revelação da confissão de Jânio pode, para alguns, ter sido uma traição do neto ao seu avô, ao menos foi uma fidelidade à história. Ficou a lição de que chantagens do tipo janistas não colam.

Ninguém pode afirmar com precisão a intenção de Bolsonaro ao compartilhar o tal texto sobre a “governabilidade fora dos conchavos”.  Mas pensar todos podem. Seria apenas um recado? Uma ameça? Uma capitulação? Ou uma “roleta russa” política (que faz mais o seu estilo)?  Bolsonaro parece sentir-se traído. O texto prevê o apocalipse para o país, como a inflação e mais desemprego. O texto que, ao repassar,  Bolsonaro “assinou em baixo”, fala dos governos “reféns das corporações”. Mas ele próprio, Bolsonaro, passou todos os seus quase 30 anos de vida parlamentar em defesa apenas de uma corporação (os militares). Se isso existe mesmo, então ele é um dos grandes responsáveis pela posição de refém que hoje diz, no texto que repassou, estar sofrendo.

Claro que as comparações com Jânio devem-se ao fato de o texto, que poderíamos chamar de uma “carta”, sugerir, ainda que longinquamente, a renúncia. Bolsonaro também dá a entender estar sendo traído, abandonado. Quando ele, de fato, vai começar a governar? Quando a “ficha vai cair” e ele acordar para o fato de que a campanha já acabou? Quando ele vai aterrissar de seus voos delirantes e odiosos? Até porque o povo, ao elegê-lo, não lhe deu um par de asas para ir onde bem entender. Em relação a isso, há uma passagem sobre Jânio Quadros que data de 16 de fevereiro de 1992, dia de sua morte. Vamos a ela:

Durante o velório de Jânio Quadros, um rapaz chorava muito diante do caixão do ex-Presidente. Não era parente. Não era amigo. Apenas um simples desconhecido perante todos que ali estavam. Então, um repórter perguntou:

_ Rapaz, você gostava tanto assim do Presidente?

_ Sim, esse homem um dia salvou a minha vida.

_ Como salvou a sua vida?

_ Certa vez, quando ele era prefeito de São Paulo, eu descobri que minha mulher havia me traído. Então, eu ia cometer o suicídio. Subi no alto de um prédio e ia pular. Nisso, Jânio Quadros passou em seu carro e parou. Dirigiu-se a mim e, quando falei de minha desgraça, ele ordenou:

Desça já daí rapaz! A tua mulher te colocou um par de chifres e não um par de asas!

Bolsonaro foi eleito. Em nenhum momento os derrotados nas urnas, ao contrário dos derrotados de 2014, disseram que iriam “tacar fogo no país”. Até porque quem está tacando fogo no país é o próprio Presidente. E quem está minando o seu governo são seus próprios núcleos de apoiadores: o guru, os filhos, os ministros.

Bolsonaro que se decida: ou governa ou sai. Até porque está claro que, na eleição de 2018, o eleitor “não deu asas à cobra” e há muito que já não há mais espaço para chantagens do tipo janista. Pior: se hoje o Presidente quiser fazer na política o papel do rapaz que disse ter tido a vida salva por Jânio, lembre-se:  não haverá nenhum “Jânio” para demovê-lo da ideia.

 

 

 

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