PETROBRAS, BOLSONARO E O “LIBERALISMO MORENO”

diesel abastecendo o caminhão“Eu tenho um silêncio ensurdecedor para os senhores.” (Paulo Guedes, o ministro-“Posto Ipiranga” ao saber, por jornalistas, da intervenção de Bolsonaro na Petrobras).

“Hei, Al Capone, vê se te orienta
Assim desta maneira, nego
Chicago não aguenta.” (Raul Seixas, Al Capone, 1973).

Na época áurea de Leonel Brizola na política brasileira, seu trabalhismo ficou conhecido como “socialismo moreno”. Brizola e seus seguidores podiam até ser acusados de “revisionistas” por socialistas e comunistas ortodoxos. O socialismo “à la Brizola” não precisava ser internacionalista ou seguir cartilhas marxistas-leninistas, embora a presença do Estado como agente promotor do bem-estar social tenha sido prioridade para Brizola, que sempre afirmou que o Estado Brasileiro não podia transformar-se em uma empresa.

A presença do Estado no Brasil é muito antiga. Data da colonização. Mesmo quando a colonização foi “privatizada”, com o sistema de Capitanias Hereditárias, o então Estado Português teve que interferir, com a implantação do Governo-Geral e a retomada de alguns lotes das capitanias. Por aqui, as coisas foram muito diferentes do que acontecia na colonização da América do Norte, onde a presença do Estado quase não era percebida e as colônias tiveram no liberalismo, especialmente econômico, uma experiência que acabaria sendo o modelo de um futuro Estado independente liberal, os Estados Unidos, que, em sua origem, mais pareciam uma “confederação” de Estados independentes. Lá, quando o Estado tenta se fazer presente e intervencionista, eclode o movimento liberal que culmina na emancipação das 13 colônias.

No caso brasileiro, se o Estado Português já se fazia presente durante a colonização, sua transferência para cá, em 1808, com a chegada da família real, iria acelerar o nosso processo de independência. Os 13 anos de permanência da corte portuguesa no Brasil deixaram aqui toda uma “caixa pronta” de estrutura administrativa estatal. Tudo já estava pronto. O banco já era estatal (Banco do Brasil); a Biblioteca já era estatal (atual Biblioteca Nacional); instituições de ensino superior já eram estatais e até o Horto Real, atual Jardim Botânico, era estatal. E quase tudo isso assim está mantido até hoje. O Brasil já surge como país independente sob a égide do Estado, com a própria independência sendo consumada por um agente do próprio Estado – o príncipe regente Dom Pedro, mais tarde nosso Dom Pedro I.

Apesar disso, o liberalismo se fazia presente. Mas o Estado sempre foi o esteio. Mesmo com o advento da República, em 1889, e o surgimento de uma das Constituições mais liberais que o país já teve – a de 1891 – o Estado Brasileiro, em momentos considerados cruciais, interferia na política econômica. A intervenção estatal, mesmo em uma economia liberal, se fez presente até na política de preços do café durante a Primeira República, com o famoso “Convênio de Taubaté”, que não deixou de ser uma intervenção estatal na política de preços. O próprio Estado Brasileiro chegou a ordenar a queima de milhões de sacas do produto, em uma medida intervencionista que visava desesperadamente manter o preço do café. Mas não era só aqui que o Estado estava intervindo. Simultaneamente, nos Estados Unidos, o protótipo do liberalismo econômico, o Presidente recém-empossado Franklin Delano Roosevelt tinha que acabar com a farra liberal para debelar a crise iniciada em 1929. E, para isso, o Estado teria que tomar as rédeas da economia através de ações intervencionistas. O resultado? O Estado salvou o próprio capitalismo.

No Brasil o Estado foi o grande propulsor do desenvolvimento econômico, até em governos ideologicamente distintos, como Vargas, em seu último governo e na ditadura militar, que não deixou de ser um “capitalismo de Estado” em sua política econômica.

Hoje, comenta-se a notícia da intervenção de Bolsonaro no preço do óleo diesel. Bolsonaro repete o que Dilma havia feito. Fala-se da queda das ações da Petrobras, do prejuízo da empresa e da queixa de seus acionistas. Criticam-se os subsídios aos combustíveis. Parece que Bolsonaro teme um novo movimento dos caminhoneiros e das empresas. Sem entrar no mérito de tais medidas e consequências, é inegável que Paulo Guedes já sabe que não é aquele “Posto Ipiranga” que Bolsonaro sempre falou. Simplesmente porque Bolsonaro, dessa vez, “não perguntou ao Posto Ipiranga”. E até o Presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, ficou no vácuo. Paulo Guedes deve estar vendo que o liberalismo “à la Bolsonaro” não é igual àquele que ele estudou em Chicago. Talvez seja o “liberalismo moreno”, no qual a cartilha de Chicago tenha que, em alguns momentos, ser revista. Ele deve estar se sentindo traído pelo seu chefe-capitão. Afinal, ele seria o super-ministro em um país que não teria mais a presença do Estado. O próprio Bolsonaro, que havia jurado de pés juntos que jamais iria interferir nos preços da Petrobras, agora contradiz-se. Hoje, estampam-se nas manchetes dos jornais o prejuízo de 32 bilhões que a Petrobras terá com a intervenção de Bolsonaro nos preços do diesel. Vão culpar os caminhoneiros? Os acionistas estão contrariados? Foi “populismo”? Guedes, o representante do mercado dentro do governo, talvez ainda não saiba o que dizer aos seus pares, tanto do Brasil como do exterior. O “liberalismo moreno” de Bolsonaro parece ter pego o Posto Ipiranga de surpresa. Dizer aos seus representados que o Brasil mudou, que acabou o “populismo” e nosso país virou o paraíso do mercado vai ser um pouco difícil para Guedes. O que fazer? Por enquanto, não perguntem ao Posto Ipiranga.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s