STUART, O IRMÃO DE ZICO E A DITADURA

nando irmão do zico

Na foto, o time do Belenenses de Portugal, com o destaque para Fernando Antunes Coimbra, o Nando. O clube português o contratou em 1968. 

“Onde a Arena vai mal, um time no Nacional”. Esse era o bordão usado, principalmente nos anos 1970, para expressar a influência que os governos da ditadura militar tinham até no futebol, que foi apropriado pelos ditadores das casernas para a propaganda oficial do regime militar. Quando, em alguma cidade brasileira a Arena, partido do governo militar, não ia bem nas urnas, convidar o time local para o campeonato brasileiro era um modo de angariar votos pró-governo. É evidente que a seleção brasileira não escapou e sobrou até para o João Saldanha, assumidamente comunista, ser demitido da função de técnico, apesar de ter classificado a equipe para a Copa de 1970 no México. A influência dos governos militares na antiga CBD era tão escancarada que a entidade chegou a ser presidida até por militares e o ditador Médici queria a qualquer custo que o atacante Dario, então no Atlético Mineiro, fosse convocado para a seleção. Zagallo, que substituiu Saldanha no comando, fez a vontade do ditador, embora Dario não tenha atuado em nenhum jogo.

No último domingo, a criminosa ordem de Bolsonaro para comemorar o golpe que implantou a ditadura, a tortura, os assassinatos e o desaparecimento de centenas de brasileiros foi repudiado pelo povo, inclusive nos estádios de futebol. Querendo, de forma psicopática, reinventar a história, Bolsonaro acabou tendo o repúdio que ele e todos os apologistas dos crimes da ditadura devem ter. Neste final de semana, onde as pessoas de bom caráter, independentemente de suas ideologias, nada tinham a comemorar, vários episódios lamentáveis de torturas, prisões e assassinatos de opositores da ditadura militar vieram à tona e dois deles envolvem, exatamente, o esporte e em especial o futebol.

Uma homenagem foi feita à Hildegard Angel, irmã de Stuart Angel, que foi assassinado pela ditadura militar que Bolsonaro mandou comemorar. Stuart Angel, inclusive, foi mandado para a “Ponta da Praia”, (apelido que os militares deram à base naval situada na Restinga da Marambaia) e barbaramente torturado. De acordo com o livro “Desaparecidos Políticos”, de Reinaldo Cabral e Ronaldo Lapa, o corpo de Stuart Angel “teria sido transportado por um helicóptero da Marinha para uma área militar localizada na restinga de Marambaia, na Barra de Guaratiba, próximo à zona rural do Rio, e jogado em alto-mar pelo mesmo helicóptero.” E foi exatamente para a “Ponta da Praia” que Bolsonaro disse, em sua campanha, que mandaria os seus opositores. Stuart Angel era remador do Flamengo e no domingo dia 31, um grupo denominado “Flamengo da Gente” prestou uma homenagem com a presença da irmã de Stuart.

No aniversário dos 55 anos do golpe, também foi lembrada a perseguição ao irmão de Zico, Fernando Antunes Coimbra, o Nando, que chegou a ser preso e torturado pela ditadura militar. Nando, a exemplo dos irmãos Zico, Edu e Antunes, foi jogador de futebol e chegou a jogar pelo Belenenses de Portugal. Nando Coimbra sentiu na pele os “anos de chumbo”. Ironicamente em 1964, ano do golpe militar, ingressou na Faculdade Nacional de Filosofia, o atual Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, que era um dos maiores alvos dos governos militares nos “anos de chumbo”. Dali, professores e alunos foram banidos, presos, mortos, desaparecidos. Nando Coimbra tornou-se professor. Naqueles duros e nada saudosos tempos, ser professor era uma profissão-perigo. E estão fazendo de tudo para que volte a ser. Ser professor que usava o método de Paulo Freire para alfabetizar, então nem se fala. Nando Coimbra foi professor do Plano Nacional de Alfabetização (PNA), idealizado por Paulo Feire e extinto pelo governo militar. Com a ditadura, os professores que haviam trabalhado no PNA foram considerados subversivos e perseguidos. Como o próprio Nando falou: “meu crime foi ser professor.” Nando, o irmão de Zico, foi preso e levado para o Batalhão da Polícia do Exército, na Rua Barão de Mesquita, onde foi torturado. Nando Coimbra sempre afirmou que sua família, em que os irmãos foram jogadores de futebol, foi perseguida pela ditadura militar. É um caso a se pensar. Ele diz que Edu, seu irmão mais velho, apesar de artilheiro do Torneio Roberto Gomes Pedrosa em 1969 jogando pelo  América, não teria sido convocado para a Copa de 1970 justamente por ser seu irmão. Certamente ele não seria titular, mas poderia “esquentar um banquinho” para o Pelé. O mesmo acontecendo com Zico, em relação à Copa de 1974. Nas duas copas, o técnico era o Zagallo, que sempre foi “alinhado” aos governos militares. Sempre será discutível se a não convocação dos irmãos Edu e Zico, respectivamente para as copas de 1970 e 1974, foi retaliação da ditadura militar à família de Nando Coimbra. O episódio da perseguição a Nando e o alinhamento de Zagallo com os militares tornam admissível esta conjectura, embora o próprio Zagallo não a admita. O que não é discutível é que houve golpe em 1964 que instaurou uma ditadura de 21 anos no Brasil. E nenhuma dessas barbaridades, como pretendeu eufemisticamente classificar Bolsonaro, foi um simples “probleminha”… Perguntem para a família Angel. Perguntem para a família Antunes Coimbra. Perguntem para milhares de famílias pelo Brasil afora.

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