QUEM RESTARÁ?

bolsonaro-x-mourc3a3o.jpg“É isso aí!” (Jair Bolsonaro, em áudio do Whatsapp incentivando seus seguidores a atacarem o Vice-Presidente Hamílton Mourão).

Que o Vice-Presidente Hamílton Mourão parece ser a “bola da vez” da sanha bolsonarista, disso todos sabemos. Mas que o próprio Bolsonaro incentiva ataques contra o seu vice, disso nós não sabíamos. Hoje estão sendo divulgados conteúdos de áudios de WhatsApp em que jair Bolsonaro, ao invés de mitigar, está incentivando ataques a Hamílton Mourão por parte de seus fanáticos seguidores. Como sempre, Bolsonaro quer guerra. Desde que ele, claro, não esteja na linha de frente. Nos áudios divulgados, Bolsonaro interage com seus seguidores com palavras de estímulo aos ataques contra Mourão, como “Valeu aí” e “É isso aí”.

Sabemos que Mourão, durante a campanha, fez declarações patéticas e lamentáveis. Mas também sabemos que Mourão tem consciência de que a campanha já acabou, ele é o Vice-Presidente e tem que fazer um discurso dirigido ao país e não para agradar a seus seguidores, como se estivesse permanentemente em campanha. Mourão até tem sido útil ao governo Bolsonaro por ser um moderador dos discursos inconsequentes, radicais, inflamados e até doentios de Bolsonaro. Foi assim no caso de várias declarações infelizes de Bolsonaro, desde a questão da embaixada em Jerusalém até questão da idade na reforma da previdência, por exemplo.

Em um dos áudios recuperados, Bolsonaro diz, referindo-se a Mourão, que “em 2022 ele vai ter uma surpresinha. Desde o astrólogo-guru de Richmond até o ultra-reacionário pastor e deputado federal Marco Feliciano, todos querem a cabeça do Mourão. Feliciano, inclusive, quer o impeachment do Vice-Presidente, sabe-se lá por qual crime de responsabilidade. Acrescente-se ainda que Bolsonaro, com essa atitude, demonstra mais uma vez a sua covardia, transferindo para outros aquilo que deveria ser a sua obrigação. Como sempre, Bolsonaro não age como estadista. Pode até acontecer alguma discordância entre Presidente e vice, especialmente por serem de partidos diferentes. E Mourão não é do PSL. O próprio PSL, partido que apóia Bolsonaro, vem tendo posições divergentes do capitão. E isso se explica pelo fato de, em 30 anos de vida pública, Bolsonaro jamais ter tido, de fato, um partido. Ele sempre foi “ele mesmo”. Se não fosse covarde, Bolsonaro chamaria Mourão para uma conversa. Ou mostraria sua cara, expondo-se e falando publicamente, como Presidente da República, e desautorizando o vice. Mas ele não tem nem capacidade e nem coragem para isso. Então, parece que está “terceirizando” ataques a seu próprio vice. Vice que, aliás, é também um cara muito de direita. Mas que tem tido uma posição de estadista que Bolsonaro parece que jamais terá.

Esses episódios mostram o radicalismo ultra-direitista ao qual o Brasil foi entregue. Ainda não completaram-se 4 meses da chamada “nova era” e Bolsonaro já colidiu com o Presidente da Câmara, com jornais, com emissoras de TV, com o Gustavo Bebianno, com a comunidade árabe,  com seu próprio partido e até com o seu “Posto Ipiranga”. Agora, a rusga está indo para cima de seu próprio vice. Talvez Bolsonaro, que jamais teve a noção da responsabilidade que é assumir a Presidência da República, esteja perdido, doente ou de brincadeira. No mês passado, em meio á colisão com Bolsonaro, Rodrigo Maia afirmou que Bolsonaro estava “brincando de ser Presidente”. Hoje, atualizamos a afirmação de Maia: Bolsonaro está brincando daquele conhecido joguinho chamado “Resta 1”

AFASTA O CÁLICE!

toffoli moraes

“Pai, afasta de mim esse cálice 
Pai, afasta de mim esse cálice 
Pai, afasta de mim esse cálice 
De vinho tinto de sangue…” (Chico Buarque, Cálice, 1973).

O momento que o Brasil vive é tão nebuloso que já houve quem dissesse que estamos até começando a perder a dignidade. Chegamos a uma situação de ficarmos aliviados com declarações do vice Hamílton Mourão, quando o general desmente e corrige as atrocidades vomitadas dia sim, dia também, por Bolsonaro. E agora, chegamos ao ponto de termos que defender a liberdade de expressão de sites de ultra-direita, como “O Antagonista” e a revista “Crusoé”. Só para se ter uma ideia, o grande “protagonista” do “Antagonista” é ninguém menos que Diogo Mainardi, um “lavajateiro” convicto e radical. Radical? Nem tanto. Ele é “lavajateiro” mas apoiou o Alckmin em 2006. Ele é “lavajateiro” mas apoiou o Aécio em 2014. Como muitos que conhecemos. Deu para entender?

Agora, o STF, que vem sofrendo ameaças fascistas e até desteminas, como da “ex-temerosa” Regina Duarte, através de um conluio do ministro Alexandre de Moraes com o Presidente Dias Toffoli, impôs a censura aos veículos do Diogo Mainardi. Só porque o site “O Antagonista” publicou um e-mail da Odebrecht onde é citado um tal “amigo do amigo do meu pai”. Parece que esse “amigo do amigo do pai” é o próprio dias Toffoli. Então, em nome da “autoridade” e do “respeito” ao Supremo, Tóffoli, em conluio com Alexandre de Moraes, exigiu que a matéria publicada fosse retirada do ar. Só que para outro ministro, o decano Celso de Mello, é o próprio Supremo que perde o respeito ao impor a censura. A máxima atribuída a Voltaire (há contestações) que afirma “discordo do que você diz, mas defenderei até a morte seu direito de dizê-lo”, que remonta a um tempo obscurantista, nunca foi tão propícia ao momento do país. Em nossa cruzada vamos, pouco a pouco, perdendo nossa dignidade. Ora defendendo Mourão. Ora defendendo a liberdade de expressão e o direito de “lavajateiros” como Mainardi de publicar suas matérias.

Agora, o rolo se desfez e a censura foi suprimida. Moraes teve que voltar atrás. Não por vontade de Toffoli/Moraes, mas pela pressão dos próprios pares da Suprema Corte. Foi uma vergonha. O STF, seja de forma monocrática ou colegiada vem, há tempos, rasgando o artigo constitucional que é o coração da liberdade, o artigo 5º, de quem a Corte deveria ser a guardiã. Primeiro foi em relação à prisão em segunda instância. Agora, com a censura.

O argumento de Toffoli, que falou em limites e respeito ao Supremo, o deixa mais ainda no vácuo. Porque quando o STF foi achincalhado até pelo filho do Bolsonaro ele colocou a toga entre as pernas. Talvez com medo do cabo e do soldado. Então, cercou-se de um general. O quadro é mesmo nebuloso. Hoje estamos exigindo a liberdade de expressão para Diogo Mainardi.

Mas o ardil de Toffoli/Alexandre de Moraes parece que fez o tiro sair pela culatra. O Supremo acaba de autorizar Lula a dar entrevistas na prisão. A Folha de São Paulo e o Antagonista devem ter os mesmos direitos de publicar o que desejarem.

Agora, que Toffoli e Moraes engulam a própria lambança que fizeram. Até o Bolsonaro tirou uma “casquinha” da lambança e, por incrível que pareça, defendeu a liberdade de expressão e a imprensa. Toffoli, como Presidente do STF, está parecendo até um daqueles deputados neófitos do PSL e sendo engolido por raposas rodadas e felpudas. E que o Fux também aprenda com esse episódio. Porém, não nos iludamos. Porque dentro do Kinder Ovo sempre haverá uma surpresa.

NINGUÉM QUER O FASCISTA!

event-ny-42nd-street-image1“Jair Bolsonaro é um homem perigoso. Seu racismo evidente, homofobia e decisões destrutivas terão impacto devastador no futuro do nosso planeta. Em nome de nossa cidade, agradeço ao Museu de História Natural por cancelar este evento.” (Bill de Blasio, prefeito de Nova Iorque, via twitter, em 16 de abril de 2019).

Quem chamou Jair Bolsonaro de perigoso, racista, homofóbico e afirmou que suas decisões destrutivas devastarão o futuro de nosso planeta não foi nenhum petista, lulista ou comunista. Também não foi ninguém do PSOL e nem do PCdoB. As afirmações foram feitas por um capitalista liberal, o prefeito de Nova Iorque Bill de Blasio, que é do Partido Democrata. Ele já havia, na semana passada, conclamando os nova-iorquinos a hostilizarem quem ele chama de racista, homofóbico e perigoso. E, pelo visto, Bolsonaro não é mesmo nem bem-quisto e nem bem-vindo a Nova Iorque.

Primeiro, foi o Museu de História Natural de Nova Iorque que se recusou a abrir suas portas para que a Câmara de Comércio Brasil-EUA faça uma homenagem a Bolsonaro, que foi escolhido pela corporação empresarial como o “Homem do Ano”. Inicialmente, o Museu de História Natural nova-iorquino havia cedido os seus salões à Câmara de Comércio. Entretanto, quando soube que o espaço seria usado para homenagear Bolsonaro, o museu voltou atrás e emitiu uma nota esclarecendo que, em respeito ao trabalho e aos objetivos do museu, não queria que Bolsonaro pisasse lá.

Então, os organizadores da patuscada correram atrás de outro local e pensaram em fazer o evento em um restaurante de luxo. Foram até o Cipriani, que é considerado um dos cinco melhores de Nova Iorque. Entretanto, o restaurante Cipriani também se recusou a sediar o evento, em razão da presença de Bolsonaro. O restaurante, em seu anúncio, afirma que é o local perfeito para as celebrações mais sofisticadas. Localizado no coração de Manhattan, o restaurante que recusou-se a receber Bolsonaro é todo inspirado no Renascimento italiano e, pelo que dizem, quem entra ali respira não apenas os odores da gastronomia sofisticada, mas também da cultura do Velho Mundo. Aliás, respirar ares de cultura não faria nada bem a Bolsonaro.

Fico imaginando quanto um dos restaurantes mais luxuosos de Nova Iorque deixou de faturar com sua recusa em receber um jantar promovido pela Câmara de Comércio. Seria uma conta astronômica. Mas que, certamente, não pagaria o fardo de ter em sua história a presença de Bolsonaro. Lembrando que os donos do restaurante Cipriani também não são petistas, nem lulistas, nem comunistas e nem psolistas. Eles são muito, e muito capitalistas.

O restaurante, em seu anúncio na internet, convoca clientes abastados para criarem no local um evento “verdadeiramente único”. E a Câmara de Comércio Brasil-EUA foi até lá, mas o restaurante repeliu a peçonhenta presença de Bolsonaro em suas luxuosas instalações. Parece que ninguém quer o fascista em Nova Iorque. Nem o prefeito, nem o museu e nem o restaurante. Enquanto isso, os bajuladores do fascista continuam rodando que nem peru embriagado procurando um outro local. Talvez a sede da Ku-Klux-Klan fosse o lugar mais adequado. Bolsonaro até elogiou um dos líderes da organização, David Duke, ao dizer no ano passado, referindo-se ao líder racista, que “ele soa como nós”. Porém, felizmente Nova Iorque e outros lugares não soam como ele.

MUSEU DOS EUA REPUDIA BOLSONARO

aqui não!“Em respeito mútuo pelo trabalho e pelos objetivos das nossas organizações individuais, concordamos em conjunto que o museu não é o melhor local para o jantar de gala da Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos. Esse evento tradicional ocorrerá em outro local na data e hora originais”. (American Museum of Natural History, via Twitter, em 15 de abril de 2019).

Bolsonaro não é pessoa bem-vinda no Museu de História Natural de Nova Iorque, que o considera “persona non grata”. O museu seria o palco para uma homenagem que a Câmara de Comércio Brasil-EUA fará a Bolsonaro, agendada para maio. Bolsonaro foi escolhido pela Câmara de Comércio Brasil-EUA a “Pessoa do Ano”. O museu norte-americano informou que o espaço foi reservado pelo museu, sem que se soubesse da presença de Bolsonaro no local. Após o anúncio de que Bolsonaro seria agraciado o museu, em respeito aos seus objetivos, conforme diz na nota pelo Twitter, decidiu cancelar a abertura de seu espaço para a homenagem.

A decisão sobre o cancelamento da cessão do espaço pelo Museu de História Natural de Nova Iorque ocorreu em razão do repúdio aos posicionamentos racistas, homofóbicos, misóginos e fascistas e Jair Bolsonaro. O próprio prefeito de Nova Iorque, Bill de Blasio, recentemente repudiou Bolsonaro por suas posições racistas e homofóbicas. Agora, que os empresários da Câmara encontrem um outro local para puxarem o saco do fascista.

É necessário acrescentar que, além dos posicionamentos racistas, homofóbicos e misóginos de Jair Bolsonaro, o museu suspendeu a cessão do espaço também em respeito às suas próprias causas. Bolsonaro foi considerado uma pessoa perigosa pelo prefeito Bill de Blasio em relação à sua posição quanto à preservação da Amazônia. Seria, de fato, uma contradição a presença de Bolsonaro em um museu que defende, dentre outras bandeiras, a preservação ambiental e, especialmente, a Amazônia.

Felizmente os EUA não são apenas Trump. E é bom lembrar que nem o prefeito de Nova Iorque e nem o seu Museu de História Natural são “petistas” ou “comunistas”. O prefeito nova-iorquino, aliás, pertence ao Partido Democrata, que é defensor do capitalismo e do liberalismo. Os homenageadores de Bolsonaro talvez pudessem pedir a Trump para que providenciasse um espaço para abrigar a distinta homenagem. Muito provavelmente, quando Trump fosse informado de quem seria o homenageado, ele iria perguntar: “Quem é esse cara?”

ISRAELENSES NÃO PERDOAM PERDOADOR

holocausto 2Prevaleceu a lógica: defensor da tortura perdoa torturador, mau militar perdoa mau militar e nazista perdoa nazista. Agora, em mais um “rolo” (essa é a designação cunhada por ele próprio), Bolsonaro conseguiu irritar até a turma do Museu do Holocausto, onde ele próprio recentemente plantou uma oliveira. Em um encontro com evangélicos, capitaneado por Silas Malafaia e Cia, Bolsonaro simplesmente afirmou que “podemos perdoar o Holocausto, mas nunca esquecer.” Isso, na mesma semana em que ele, ao comentar o assassinato de um trabalhador pelo Exército, com 80 tiros, ter dito que “o Exército não matou ninguém.” E isso também na mesma semana em que ele encontrou-se com líderes árabes, na tentativa de arrefecer o desastre diplomático que ele criou ao declarar-se um aliado incondicional do governo de Israel em todas as suas causas anti-palestinas.

Bolsonaro mostra seu despreparo, sob todos os aspectos: mental, intelectual, emocional. Qual o propósito desta afirmação totalmente fora de contexto? Se ele pretendia alguma aproximação com os árabes, não seria necessária qualquer menção ao Holocausto. E já que ele mencionou, que o condenasse e dissesse que jamais perdoaria a barbaridade nazista que matou 6 milhões de judeus. Isso porque condenar, e não perdoar o Holocausto, em nada influenciaria nas relações com os árabes. Ou será que um dia ele vai dizer que, por exemplo, o Yasser Arafat também pertencia à linhagem ariana cultivada por Hitler? Não seria nenhuma surpresa vindo de alguém que diz ser o nazismo um movimento de esquerda.

Agora, com mais uma infeliz declaração, Bolsonaro causa um mal estar com seus próprios aliados. E o Museu do Holocausto, há poucos dias visitado pelo próprio Bolsonaro, repudiou mais essa “canelada” do Bozo. Na nota, o museu afirmou:

“Não é direito de nenhuma pessoa determinar se crimes hediondos do Holocausto podem ser perdoados.”

Logo depois foi a vez do próprio Presidente de Israel, Reven Rivlin, se pronunciar, repelindo o perdão de Bolsonaro aos assassinos nazistas, e alertando-o para que ele “não entre em território dos outros”:

“Nós sempre iremos nos opor àqueles que negam a verdade ou aos que desejam expurgar nossa memória —nem indivíduos ou grupos, nem líderes de partidos ou premiês. Nós nunca vamos perdoar nem esquecer. O povo judeu vai sempre lutar contra o antissemitismo e a xenofobia. Líderes políticos são responsáveis por definir o futuro. Historiadores descrevem o passado e pesquisam o que aconteceu. Ninguém deve entrar no território do outro.”

Há poucos dias, quando visitou o museu que agora o repudia Bolsonaro, em eterna campanha eleitoral, ao plantar uma oliveira no memorial, disse que a árvore que ele estava plantando duraria mais do que a que havia sido plantada, anos atrás, pelo Lula. Pelo visto, a fúria dos administradores do Museu do Holocausto poderá fazer com que logo, logo ela seja derrubada. Não tivemos ainda a manifestação do primeiro-ministro israelense e “irmão” de Bolsonaro, Benjamin Netanyahu, sobre o “perdão” de Bolsonaro aos assassinos do povo israelense. Talvez ele nem se manifeste. Até porque já ganhou a eleição. Isso, depois de ter usado o seu “irmão” brasileiro como troféu barato de campanha.

DIFAMADORA DE MARIELLE IMPEDIU DEMOLIÇÃO

juíza difamadoraA tragédia na comunidade da Muzema podia ser impedida. Como outras ainda poderão ser. E por vários agentes públicos, dentro de suas respectivas atribuições legais. Incluindo-se aí o Poder Judiciário. A desembargadora Marília de Castro Neves, muito conhecida nas redes sociais por ser uma militante de direita defensora de Bolsonaro e ter difamado a vereadora Marielle Franco logo após o seu assassinato, dizendo que Marielle tinha ligações com traficantes do Comando Vermelho, usou de sua poderosa caneta para impedir a demolição de prédios irregulares na região controlada e dominada por milicianos. Milicianos esses, como sempre, já homenageados por Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa.

Todos sabem, a começar pelos seus moradores, que os prédios são irregulares. Todos sabem, por fotos e notícias através de vários veículos, que as construções não possuem sequer engenheiros responsáveis. Todos sabem, a começar pelos “corretores”, que nada ali é legal e que os preços convidativos dos imóveis são altamente suspeitos. E todos sabem, entre outras coisas, que as as obras são feitas a partir da grilagem de terras. Só a doutora Marília não sabia?

A desembargadora bolsonarista afirmou, em um de seus despachos, que a demolição era irreversível. Se era “irreversível”, por que esperar? Talvez, para ela, as vidas perdidas nos prédios que já caíram então sejam “reversíveis”. A excelentíssima doutora Marília sabe muito bem quem foram os grandes beneficiários de suas decisões. E com certeza não foram os moradores. Nem a nossa cidade, outrora maravilhosa. Os “donos do pedaço”, que ela sabe muito bem quem são, agradecem.

PETROBRAS, BOLSONARO E O “LIBERALISMO MORENO”

diesel abastecendo o caminhão“Eu tenho um silêncio ensurdecedor para os senhores.” (Paulo Guedes, o ministro-“Posto Ipiranga” ao saber, por jornalistas, da intervenção de Bolsonaro na Petrobras).

“Hei, Al Capone, vê se te orienta
Assim desta maneira, nego
Chicago não aguenta.” (Raul Seixas, Al Capone, 1973).

Na época áurea de Leonel Brizola na política brasileira, seu trabalhismo ficou conhecido como “socialismo moreno”. Brizola e seus seguidores podiam até ser acusados de “revisionistas” por socialistas e comunistas ortodoxos. O socialismo “à la Brizola” não precisava ser internacionalista ou seguir cartilhas marxistas-leninistas, embora a presença do Estado como agente promotor do bem-estar social tenha sido prioridade para Brizola, que sempre afirmou que o Estado Brasileiro não podia transformar-se em uma empresa.

A presença do Estado no Brasil é muito antiga. Data da colonização. Mesmo quando a colonização foi “privatizada”, com o sistema de Capitanias Hereditárias, o então Estado Português teve que interferir, com a implantação do Governo-Geral e a retomada de alguns lotes das capitanias. Por aqui, as coisas foram muito diferentes do que acontecia na colonização da América do Norte, onde a presença do Estado quase não era percebida e as colônias tiveram no liberalismo, especialmente econômico, uma experiência que acabaria sendo o modelo de um futuro Estado independente liberal, os Estados Unidos, que, em sua origem, mais pareciam uma “confederação” de Estados independentes. Lá, quando o Estado tenta se fazer presente e intervencionista, eclode o movimento liberal que culmina na emancipação das 13 colônias.

No caso brasileiro, se o Estado Português já se fazia presente durante a colonização, sua transferência para cá, em 1808, com a chegada da família real, iria acelerar o nosso processo de independência. Os 13 anos de permanência da corte portuguesa no Brasil deixaram aqui toda uma “caixa pronta” de estrutura administrativa estatal. Tudo já estava pronto. O banco já era estatal (Banco do Brasil); a Biblioteca já era estatal (atual Biblioteca Nacional); instituições de ensino superior já eram estatais e até o Horto Real, atual Jardim Botânico, era estatal. E quase tudo isso assim está mantido até hoje. O Brasil já surge como país independente sob a égide do Estado, com a própria independência sendo consumada por um agente do próprio Estado – o príncipe regente Dom Pedro, mais tarde nosso Dom Pedro I.

Apesar disso, o liberalismo se fazia presente. Mas o Estado sempre foi o esteio. Mesmo com o advento da República, em 1889, e o surgimento de uma das Constituições mais liberais que o país já teve – a de 1891 – o Estado Brasileiro, em momentos considerados cruciais, interferia na política econômica. A intervenção estatal, mesmo em uma economia liberal, se fez presente até na política de preços do café durante a Primeira República, com o famoso “Convênio de Taubaté”, que não deixou de ser uma intervenção estatal na política de preços. O próprio Estado Brasileiro chegou a ordenar a queima de milhões de sacas do produto, em uma medida intervencionista que visava desesperadamente manter o preço do café. Mas não era só aqui que o Estado estava intervindo. Simultaneamente, nos Estados Unidos, o protótipo do liberalismo econômico, o Presidente recém-empossado Franklin Delano Roosevelt tinha que acabar com a farra liberal para debelar a crise iniciada em 1929. E, para isso, o Estado teria que tomar as rédeas da economia através de ações intervencionistas. O resultado? O Estado salvou o próprio capitalismo.

No Brasil o Estado foi o grande propulsor do desenvolvimento econômico, até em governos ideologicamente distintos, como Vargas, em seu último governo e na ditadura militar, que não deixou de ser um “capitalismo de Estado” em sua política econômica.

Hoje, comenta-se a notícia da intervenção de Bolsonaro no preço do óleo diesel. Bolsonaro repete o que Dilma havia feito. Fala-se da queda das ações da Petrobras, do prejuízo da empresa e da queixa de seus acionistas. Criticam-se os subsídios aos combustíveis. Parece que Bolsonaro teme um novo movimento dos caminhoneiros e das empresas. Sem entrar no mérito de tais medidas e consequências, é inegável que Paulo Guedes já sabe que não é aquele “Posto Ipiranga” que Bolsonaro sempre falou. Simplesmente porque Bolsonaro, dessa vez, “não perguntou ao Posto Ipiranga”. E até o Presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, ficou no vácuo. Paulo Guedes deve estar vendo que o liberalismo “à la Bolsonaro” não é igual àquele que ele estudou em Chicago. Talvez seja o “liberalismo moreno”, no qual a cartilha de Chicago tenha que, em alguns momentos, ser revista. Ele deve estar se sentindo traído pelo seu chefe-capitão. Afinal, ele seria o super-ministro em um país que não teria mais a presença do Estado. O próprio Bolsonaro, que havia jurado de pés juntos que jamais iria interferir nos preços da Petrobras, agora contradiz-se. Hoje, estampam-se nas manchetes dos jornais o prejuízo de 32 bilhões que a Petrobras terá com a intervenção de Bolsonaro nos preços do diesel. Vão culpar os caminhoneiros? Os acionistas estão contrariados? Foi “populismo”? Guedes, o representante do mercado dentro do governo, talvez ainda não saiba o que dizer aos seus pares, tanto do Brasil como do exterior. O “liberalismo moreno” de Bolsonaro parece ter pego o Posto Ipiranga de surpresa. Dizer aos seus representados que o Brasil mudou, que acabou o “populismo” e nosso país virou o paraíso do mercado vai ser um pouco difícil para Guedes. O que fazer? Por enquanto, não perguntem ao Posto Ipiranga.