GOL CONTRA DO VASCO!

mulheres torturadas na ditaduraO Club de Regatas Vasco da Gama é o verdadeiro clube popular. Isso é a própria história quem diz. Na luta contra o racismo, em 1924, a carta assinada pelo presidente José Augusto Prestes foi um rotundo “não” aos co-irmãos racistas da zona sul que queiram excluir 12 atletas negros do Vasco. Então, o Vasco preferiu não participar da Liga, mas manteve os negros em seu time. Na Segunda Guerra Mundial, o Vasco doou dois aviões à Força Aérea Brasileira para a luta contra o nazi-fascismo, numa campanha em que até atletas do remo doaram as medalhas conquistadas, que foram vendidas para que os aviões pudessem ser comprados. O Vasco construiu um estádio que, sem nenhuma subvenção pública foi, por muito tempo, o maior da América do Sul. A tribuna desse estádio foi palco, em 1943, da assinatura da CLT por Getúlio Vargas, que 75 anos depois seria vilipendiada pelo golpista Michel Temer. Em 1945, quando a elite branca chamava o samba de “coisa de bandido, vagabundo e preto”, o Vasco abriu suas portas para que o desfile das escolas de samba daquele ano fosse realizado em São Januário, visto que, com a construção da avenida Presidente Vargas, a Praça Onze foi demolida e os sambistas não tinham onde desfilar. É o único estádio do Brasil que sediou um desfile oficial das escolas de samba e, naquele ano, a Portela sagrou-se campeã. Vários outros episódios que orgulham não apenas os torcedores do Vasco, mas qualquer brasileiro, poderiam ser citados.

Entretanto, neste exato momento, o Vasco está marcando um rotundo gol contra e maculando sua rica e gloriosa história. É louvável a iniciativa da diretoria de realizar o evento denominado “Vasco Delas”, que irá discutir a questão da violência contra as mulheres e ações para combatê-la. Hoje acontecerá a segunda edição na sede náutica do clube. Mas convidar a deputada fascista Joice Hasselmann, do PSL, para participar do evento, é algo que pode ser considerado um atentado à história do Vasco. Joice Hasselmann é declaradamente favorável às “comemorações” dos 55 anos do golpe militar que implantou a ditadura no Brasil. As mulheres, durante a ditadura militar que Joice defende a comemoração, foram vítimas das mais horripilantes torturas praticadas pelos agentes do regime. Um coronel criminoso chamado Brilhante Ustra, por exemplo, tinha como um de seus métodos de tortura enfiar ratos e cobras vivas nas vaginas das presas políticas. A ex-Presidente Dilma foi uma das mulheres torturadas no período por esse algoz assassino, que chegou a ser exaltado por Bolsonaro como “o terror de Dilma Rousseff” quando declarou seu voto favorável ao impeachment da ex-Presidente. Muitas delas foram torturadas e estupradas na frente de seus filhos menores, algumas inclusive grávidas. Perguntem à jornalista Miriam Leitão o que ela passou dentro de um cubículo em que foi colocada, nua, na companhia de uma cobra ironicamente chamada “Miriam”.

Não somos intolerantes e entendemos que eventos louváveis como o que o Vasco está realizando em defesa das mulheres até servem de exemplo e representantes de diversas correntes ideológicas devem estar presentes. Sônia Andrade, vice-presidente do clube, é a organizadora do “Vasco Delas”. E concordamos com ela, quando afirma que o evento não deve ter cunho político. Porém, convidar uma deputada para um encontro sobre direitos das mulheres, deputada esta que é favorável à celebração e homenagem de um regime que estuprou e torturou mulheres, é marcar um lamentável gol contra dentro da bonita história vascaína. Que fosse convidada uma deputada conservadora, liberal, de direita. Há deputadas com esse perfil ideológico, mas que não apoiaram a ditadura militar e jamais apoiariam e muito menos comemorariam um regime que estuprou, matou e enfiou ratos nas vaginas de mulheres e que poderiam certamente ser convidadas sem comprometer a história vascaína. A presença dessa deputada nas dependências vascaínas para um evento que trata do combate à violência contra as mulheres não deixa de ser, além de uma contramão na história do Vasco, uma ofensa às mulheres vítimas dos crimes de Estado praticados pela ditadura, bem como um desrespeito aos seus familiares. A história do Vasco, infelizmente, não merecia ter esse registro que macula tudo aquilo que é sua essência.

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