OS TIPOS “ONE WAY”

one way

“Mas o que ela gosta
É de namorados descartáveis
Do tipo one way
Do tipo one way
Do tipo one way…

Se liga sempre quando encontra alguém
Em boa embalagem
Do tipo one way
Do tipo one way
Do tipo one way…” (Ciclone”, Tipo One Way”, 1985).

Primeiro foi o Magno Malta. Usado e abusado, ele foi importante, dentro dos tentáculos evangélicos, para a ascensão da extrema-direita ao poder. Uma vez chegando ao poder, Bolsonaro o defenestrou. Foi um namoro descartável, bom enquanto durou e foi útil para o Bolsonaro. O discurso tacanho, tosco, imbecil, mas que arrebanhava votos nas fileiras da igreja do ex-senador recebeu de Bolsonaro um “muito obrigado”. Mas Magno Malta foi para o lixo do Bolsonaro. Ser Ministro? Só se for da sua igreja. Preferiu ir, resignado, para casa.

Depois foi o partido, o PSL. Tão minúsculo como a mente bolsonarista, o partido não era visto nem com microscópio no cenário político. Mas Bolsonaro precisava de um partido para ser candidato. Só para isso. Um partido descartável, como foram todos os outros 15 pelos quais ele passou em sua obtusa vida política. Como o PSC não queria ceder às suas exigências, ele deixou a sigla dita cristã e passou para a sigla dita liberal. Vieram as negociações com Gustavo Bebianno e Bolsonaro tomou para si o PSL. Claro que o partido cresceria. Cresceria? Na verdade ele foi ocupado, como uma metástase, por bolsonaristas, que utilizaram-se da legenda para formar a base de sustentação do governo do capitão reformado. Gustavo Bebianno, ex-dono do partido, já na campanha, vinha sendo frito pelo filho tuiteiro de Bolsonaro. Mas ainda assim ganhou o seu quinhão no butim fascista e tornou-se Ministro da Secretaria Geral da Presidência. Com a “prolecracia”, nova forma de governo criada por Bolsonaro, o triunvirato dos herdeiros passou a agir raivosa e ruidosamente. Carlos, o pitbull, se encarregaria de concluir o serviço “tuitando” Bebiano. Tuíte repassado por Bolsonaro. A partir de então, Bebianno tornava-se “mentiroso”. E iniciava-se a contagem regressiva para o seu descarte. Então, Bebianno diz que Bolsonaro é louco e representa um perigo para o país. Mas aí o vendedor de legendas de aluguel já estava a caminho da latrina.

Depois do Bebianno, agora é o próprio partido que está na mira do descarte. Bolsonaro e seu clã já iniciaram negociações para o ressurgimento da antiga UDN. A UDN (União Democrática Nacional) foi protagonista do cenário político brasileiro de 1945 a 1964 e era um partido direitista, elitista, entreguista e golpista, com seu grande prócer Carlos Lacerda personificando todos esses adjetivos. Tramita no Tribunal Superior Eleitoral o pedido de registro de dezenas de novos partidos, dentre eles a UDN. Bolsonaro já vislumbra agora o descarte do PSL. Despois do escândalo das candidaturas laranjas e repasses suspeitos de verbas públicas do fundo partidário, Bolsonaro diz “nada ter a ver com isso porque é problema do partido”. O PSL está na mira da Justiça e Bolsonaro e sua “prolecracia” não irão queimar o que ainda possuem de capital eleitoral. Melhor queimar o partido, dar à sigla o mesmo destino de Malta e de Bebiano e migrar para a legenda de grife que é a UDN. O movimento político Direita Unida, que articula a ressurreição da UDN, deve saber da história do partido de Lacerda. Se a própria UDN, que era um partido forte e representativo da direita brasileira foi usada e defenestrada pelos militares em 1964, inclusive o próprio Lacerda, imaginem agora. A UDN poderá ser a próxima a sofrer a defenestração. O descarte vem a cavalo. Magno Malta, Bebiano, PSL… Ele gosta é de namorada descartável. Ele não recicla. Talvez isso explique sua aversão às questões ambientais. E o que falar de um cristão defensor da família e dos bons costumes que já se casou três vezes? A nova direita da UDN já sabe. As ex-mulheres também. Lacerda não gostaria nem um pouco disso. Mas ele gosta mesmo é de namorados descartáveis do tipo one way...

 

ESCOLAS, CAIXOTES E PERIGOS

escola-caixoteFoi no ano de 2008. Eu estava com minha turma, em sala de aula, quando uma professora chamou-me reservadamente na porta para me dizer que, na sala ao lado, felizmente ainda vazia, um ventilador de parede começava a pegar fogo. Pensei até que fosse brincadeira. Mas não era. A instrução era que não falássemos nada aos alunos e descêssemos com eles, turma por turma, calmamente,  para que o fluxo permitisse a saída de todos. Felizmente, nada grave. Não sei o que ocorreria se houvesse alarde porque, descer em pânico, com centenas de alunos, todos aqueles andares com corredores estreitos e sinuosos poderia levar a uma tragédia. Estávamos em uma “escola-caixote”.

Museu Nacional, tragédia cultural; Boate Kiss e Ninho do Urubu, tragédias humanas. Falamos de incêndios que tiveram grande repercussão na mídia. Mas existem verdadeiras “ratoeiras” que, diariamente, abrigam milhares de crianças e professores na cidade do Rio de Janeiro. São as chamadas “escolas-caixotes”, aquelas de construção vertical , em uma pequena área de terreno e que, se os protocolos de segurança atuais fossem rigorosamente aplicados, todas seriam interditadas. Nas escolas do tipo “caixote” existem sérios problemas de escape. No horário do recreio ou da saída, por exemplo, leva-se um grande tempo para se chegar ao andar térreo, com alunos se acotovelando pelo emaranhado estreito e sinuoso de escadas. Nem pensar em uma situação de pânico em uma escola desse tipo. Elas estão espalhadas pelo Rio de Janeiro e abrigam a rede municipal e, em alguns casos, também a rede estadual no período noturno. Como exemplos de “escolas-caixotes” temos a Aníbal Freire, em Olaria, a Belmiro Medeiros, na Ilha do Governador, a Souza Carneiro, na Penha, a Cecília Meireles, em Vila Cosmos e a Clementino Fraga, em Bangu. São escolas de 4 andares e com dois lances de escadas por andar. Esse modelo de construção, que atualmente vem sendo alvo de preocupações em virtude das tragédias ocorridas recentemente, possui uma história. E, para entendermos essa história, temos que observar que todas essas escolas foram construídas no início dos anos 1970. E o que isso nos diz? O jornal “O Globo” de hoje traz uma matéria alertando sobre o perigo das “escolas-caixotes”. Porém, durante muito tempo o jornal “O Globo”, que era uma sucursal da ditadura, calou-se em relação às verdadeiras explicações sobre o surgimento dessas escolas. E é justamente isso que tentaremos fazer.

1971. O governo militar impunha a Nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, a famosa Lei 5692/1971. A lei, de inspiração tecnicista, criava o ensino profissionalizante obrigatório. Também extinguia os antigos ginasial e colegial e, doravante, o segundo ciclo de ensino seria denominado Segundo Grau. Mas há uma medida dentro da lei que nos ajuda a compreender o porquê das “escolas-caixotes”: os antigos ensinos primário e ginasial, o primeiro com a duração de 6 anos e o segundo com a duração de 4 anos, seriam fundidos em um único ciclo denominado Primeiro Grau, com a duração de 8 anos. Para começar, menos dois anos de ensino. A demanda por escolas e vagas ampliou bruscamente e seriam necessárias áreas para construir mais escolas. Exatamente em um tempo em que a especulação imobiliária fazia com que os terrenos dessem lugares a prédios. Desapareceram até os campinhos improvisados para as peladas de futebol nas ruas. E as escolas? Como ficariam? Bem, as escolas teriam que ser construídas em tempo recorde, no menor espaço possível e aproveitando-se esse espaço, que não era grande, o máximo possível. Com a nova lei os alunos que, em 1971, haviam concluído o antigo primário já iriam para a quinta série, o antigo primeiro ano ginasial. Como acomodar tantos alunos? Espaços de convivência, refeitórios amplos, grandes bibliotecas, salas confortáveis para os professores e para o funcionamento da Secretaria, por exemplo,  nada disso passaria a ser prioritário. Era fundamental o maior número possível de salas de aula, geralmente 6 por andar, em um espaço limitadíssimo.

Mas não apenas escolas e salas de aula foram fabricadas a rodo. Naquela época, passariam a ser necessários mais professores, porque a oferta de vagas teria que aumentar. E como isso aconteceu? Comprometendo-se a qualidade e o tempo do ensino. Para dar vagas para tantos alunos, foram instituídos os três turnos, com redução do tempo de permanência da criança na escola. Assim, passaríamos a ter os horários de 7 às 11 da manhã, 11 às 3 da tarde e 3 da tarde às 7 da noite. Estamos falando de ensino de crianças, e não de jovens e adultos. E que já entrava, naquela época, pelo período noturno.

Mais escolas tipo “caixote”, mais alunos. Menos tempo de aula. E os professores? Para dar conta de toda a demanda, professores também foram produzidos “a rodo”. Outra “solução”? Fundir matérias. História e Geografia viraram “Estudos Sociais” e a formação do professor dessa disciplina híbrida se dava por uma licenciatura curta de apenas 3 anos. O mesmo ocorria com “Ciências”, em que a formação do professor era a jato como a do professor de “Estudos Sociais”, mas igualmente deficiente. Dá para perceber o que resultou de tudo isso em termos de aprendizado e formação. Tudo ficava degradado: a formação do aluno (menos tempo de estudo), o horário das aulas, a formação do professor, a qualidade do ensino e, claro, o ambiente escolar, que mais parecia um “gueto”.  Por fim um aluno, talvez alfabetizado e “pronto” para o mercado de trabalho. Pronto? Em 1982, o próprio governo militar percebeu o desastre que foi a profissionalização obrigatória e mudou a lei, tornando-a facultativa.

Chegando aos dias de hoje, aí estão as “escolas-caixotes”. Uma herança da ditadura. Uma herança da Lei 5692. Uma herança da época em que História, Geografia, Filosofia, foram praticamente banidas do ensino. Uma herança dos tempos da Educação Moral e Cívica e dos livros de instrução programada da senhora Edília Coelho Garcia.

Não é à toa que hoje eles querem banir Paulo Freire. É uma obsessão. Não é à toa que eles querem banir o ensino crítico e impor a mordaça através do “Escola Sem Partido”. Também é uma obsessão. Não é á toa que a nova grade curricular quer, de novo, banir a História e a Geografia. É outra obsessão. O alerta sobre o perigo constante das escolas que foram construídas a toque de caixa é fundamental. Mas também é fundamental trazermos à lembrança de alguns e ao conhecimento de muitos o que estava envolto naquele tipo de construção improvisada, visto que a construção dessas escolas representa uma das épocas de maior degradação do ensino. E ficarmos alertas para o fato de que outros perigos, para  além de incêndios, ameaçam, e muito, todas as nossas escolas.

BEBIANNO DESCARTÁVEL. SERÁ MENTIROSO?

bebiano“Eu posso cair. Caso isso aconteça, Bolsonaro cai junto.” (Gustavo Bebianno, via twitter, em 14 de fevereiro de 2019).

Dos quatro núcleos de sustentação do governo Bolsonaro, a saber, o núcleo militar, o núcleo evangélico, o núcleo partidário e o núcleo familiar, sabia-se desde o início que o núcleo familiar, composto pelos três pimpolhos-pitbulls do fascista, seria aquele que traria mais problemas ao governo. Primeiro foi o Eduardo, com o tal vídeo ameaçando o STF com um soldado e um cabo. Depois o Flávio, com os depósitos suspeitos e o uso do “laranja” Queiroz. Agora o Carlos, que fritou o ex-dono do PSL. Na verdade, os três filhos de Bolsonaro, que são parlamentares, atuam muito mais como “ministros e assessores paralelos” do pai do que como parlamentares. Foi anunciada agora a queda de Gustavo Bebianno, o coordenador da campanha de Bolsonaro que cedeu a legenda de aluguel, o PSL, para viabilizar a sua candidatura. Ele não será mais ministro. Depois da crise no PSL, após as evidências de candidaturas laranjas que culminavam no desvio de verbas de campanha, Bolsonaro logo tratou logo de desvincular-se de mais um escândalo. Escândalo ao qual ele também está ligado porque foi em seu partido. Até porque, a prática de uso de “laranjas” é comum na própria família Bolsonaro. Na troca de farpas, Bebianno foi desmentido publicamente por pelo Presidente e pelo seu filho Carlos. Claro que Bebianno cairia. Agora, depois de um mês e meio de governo, Bebianno ficou sem o comando do partido, sem o cargo de ministro, sem lenço e sem documento. Será que Bebianno é tão ingênuo para imaginar que não seria, assim como o seu partido, uma mera peça descartável na ascensão de Bolsonaro?

Na verdade, Bebianno foi importante enquanto serviu. Como coordenador da campanha, seu papel seria de grande utilidade, porque ele presidia o PSL e conhecia bem os diretórios e a estrutura do partido alugado por Bolsonaro. Uma vez eleito, Bebianno levou o seu quinhão no governo. Porém, desde sempre ele não foi aceito pelo núcleo familiar e os três filhos do Bolsonaro sempre lhe declararam guerra. Agora, depois do escândalo das candidaturas laranjas, sobrou evidentemente para o lado mais fraco e Bebianno está fora. Falando em “deslealdade” e “ingratidão”. E ainda completou, magoado, dizendo que “não se dá um tiro na nuca de seu próprio soldado.” E o que esperar de um capitão reformado que traiu o próprio Exército brasileiro? Para um capitão que tramou jogar bombas em quartéis de seu próprio Exército, “dar um tiro na nuca do próprio soldado” é “fichinha”.

Porém, uma afirmação de Bebianno não pode deixar de ser lembrada. Durante a semana, quando sentiu o cerco apertar e percebeu que seu processo de fritura era inevitável, Bebiano ameaçou, ou blefou, ao fazer uma bombástica declaração. Disse o ex-dono do PSL: “Eu posso cair. Caso isso aconteça, Bolsonaro cai junto.”

Jair Bolsonaro e seu filho Carlos chamaram Bebianno de mentiroso publicamente e isso acirrou os ânimos nas fileiras fascistas. Bebianno, no auge da crise, fez uma declaração que foi uma ameaça muito forte. Bebianno caiu. Agora, se Bolsonaro não cair, teremos que concordar com o pai e com o filho e dizer que o vendedor descartável de legenda de aluguel é mesmo um mentiroso. Andam dizendo por aí que Bebianno teria como trunfo a revelação dos podres da campanha, que cresceu à base das famigeradas “fake news”. Ficamos no aguardo.

O AMBIENTALISTA E O PREDADOR

chico mendes“Eu não conheço o Chico Mendes e eu tenho certo cuidado em falar sobre coisas que não conheço…Que diferença faz quem é Chico Mendes nesse momento?” (Ricardo Salles, Ministro do Meio Ambiente, em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, em 11 de fevereiro de 2019).

“Chico Mendes é personagem histórico para a luta ambiental no país.” (Hamílton Mourão, Vice-Presidente da República, em entrevista no dia 12 de fevereiro de 2019).

Há pouco tempo dissemos que, diferenças ideológicas à parte, o Vice-Presidente Hamílton Mourão, pelo menos desde o início do governo, vem tendo uma postura de estadista, coisa que jamais vimos e jamais veremos em Jair Bolsonaro. Mourão demonstra preparo, equilíbrio e temperança e parece saber que o espaço político é um campo para se negociar as diferenças, coisa que jamais vimos em Jair Bolsonaro. Mourão, na condição de Vice-Presidente, tem atuado como alguém que, provido de um “poder moderador” vem procurando apagar o incêndio de besteiras e atrocidades que são, todos os dias, expelidos pelo Presidente da República e vários de seus Ministros.

Agora foi o Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, aquele que, não é piada, foi condenado por crime ambiental. Em entrevista ao programa Roda Viva, Ricardo Salles, além de demonstrar total despreparo e não saber responder a várias questões, o que não chega a nos surpreender, em se tratando de alguém que foi condenado por crime ambiental, afirmou, de forma cínica e provocativa que “não conhecia Chico Mendes” e que “sua existência não fazia qualquer diferença”. Ao falar com deboche e desprezo do seringueiro e líder ambientalista Chico Mendes, reconhecido internacionalmente por sua militância em defesa da Amazônia, dá para perceber o fundo do poço ao qual o Brasil chegou com esse governo em tão pouco tempo. Acrescente-se que Chico Mendes foi assassinado por fazendeiros, exatamente a classe representada e que tem seus interesses defendidos pelo atual governo. Com a agricultura sob o comando de Tereza Cristina, do DEM, que é uma ferrenha defensora dos interesses da bancada ruralista e que chegou a ficar conhecida como “musa do veneno” e com o meio ambiente sob o comando de quem foi condenado por crime ambiental e diz não conhecer Chico Mendes e que ele não faria qualquer diferença, tanto a agricultura como o meio ambiente estão sentenciados à morte.

E já que o Ministro condenado por crime ambiental não sabe quem é Chico Mendes, ou despreza sua existência, é bom lembrar ao Ricardo Salles que Chico Mendes ganhou prêmio da ONU e até foi homenageado por Paul Mc Cartney em uma composição de 1989, “How Many People”. A banda mexicana na Maná também homenageou Chico Mendes com uma canção, “Cuando los angeles lloram”. Diversas outras homenagens foram prestadas por bandas internacionais, especialmente de rock, ao líder ambientalista Chico Mendes.  Já Ricardo Salles… Bem, esse não sabe nem quem foi Chico Mendes…

Segue a tradução do tributo a Chico Mendes feita por Paul Mc Cartney no ano seguinte do assassinato do ambientalista por fazendeiros:

QUANTAS PESSOAS

Quantas pessoas
Ficam em uma linha?
Quantas pessoas
Nunca tiveram a chance de brilhar?
Se você pode me dizer
Ficarei contente em ouvir
Quantas pessoas já morreram?
Um são muitos agora para mim
Quero ser feliz,
Quero ser livre,
Um são muitos agora para mim
Quero ver as pessoas comuns vivendo pacificamente.
Quantas pessoas
Podem ir dar um passeio
Quantas pessoas
Não conseguem ir para o outro lado?
Se você pode me dizer
Ficarei contente em escutar,
Quantas pessoas te fizeram chorar?
Um são muitos agora para mim
Quero ser feliz,
Quero ser livre,
Um são muitos agora para mim
Quero ver as pessoas comuns vivendo pacificamente.
Quantas pessoas
Será que levam?
Quantas pessoas
Por amor de Deus?
Quantas pessoas?
Quantas pessoas?
Um são muitos …

 

FUTEBOL E AS “FRANGUEIRAS DA MODERNIDADE”

frangueiraNo dia 8 de julho de 2014, quando o Brasil sofreu sua maior derrota em toda história das Copas do Mundo, ao ser trucidado por 7 a 1 pelos alemães, em pleno Mineirão, muita gente disse, inclusive jornalistas, que uma das causas do declínio do futebol brasileiro era o fato de quase nenhum jogador ter identidade com o país. Muitos saíam precocemente do Brasil e alguns sequer chegaram, por exemplo, a terem tido a oportunidade de ao menos uma vez jogarem no Maracanã. Essa crítica que muitos faziam à saída precoce e falta de identidade de nossos atletas não deixava de ser, velada ou manifestamente, consciente ou inconscientemente, uma crítica à Lei Zico/Pelé. A maioria daqueles que, no entanto, adotavam esse discurso, não tinham essa posição em 1998, quando a Lei Zico/Pelé foi publicada. Por outro lado, aqueles que, em 1998, criticavam a Lei Zico/Pelé, por ser lesiva aos clubes e benéfica aos empresários ou por tirar precocemente jovens talentos do Brasil, eram tidos como “retrógrados”. Na época, a  Lei Zico/ Pelé era o ícone da “modernidade”. A mídia, predominantemente, assim a considerava, como considera “moderna” a reforma trabalhista (quem ganha com ela?), como considera “moderna” a reforma da previdência (quem ganha com ela?) e assim por diante.

Após a tragédia ocorrida no centro de treinamento do Flamengo, não resta qualquer dúvida em relação à responsabilidade do clube, sob o qual estava a custódia de menores de idade. A legislação brasileira é clara em relação a isso e vários especialistas já se pronunciaram. Porém ainda vemos que uma das causas remotas de situações como essas está na Lei Zico/Pelé, lei esta que chega a parecer até o PSDB, de tão blindada que é pela mídia. A Lei Zico/Pelé é imune a críticas feitas pela imprensa em geral e pela imprensa esportiva em particular. É impressionante como a mídia em geral sempre blindou essa lei e jamais questionou, por exemplo, como que empresários do futebol (Zico e Pelé) ocuparam cargos de Secretário Nacional e Ministro dos Esportes, nos governos Collor e FHC,  e acabaram formatando juridicamente um diploma legal que só beneficia os empresários, sendo eles próprios empresários do esporte, inclusive à época em que ocuparam os respectivos cargos. Seria o mesmo que o Ronaldo Caiado ser Ministro da Reforma Agrária. Ou o Sílvio Santos ser Ministro das Comunicações. Ou ainda, para dar outro exemplo, o dono da Unimed ser Ministro da Saúde.

A Lei Zico/Pelé, em relação ao clube formador do atleta, reconhece a formação e dá ao clube uma participação em eventuais negociações futuras. Aos 16 anos, o atleta já pode assinar um contrato. O clube formador investe e o retorno tem que ser a jato. Vejam com que idade os jovens deixam os clubes e até o Brasil. Ficamos pasmos ao assistirmos, após a tragédia no Flamengo, “empresários” de meninos de 14 e 15 anos dando entrevistas. Isso mesmo: “empresários”. Não estamos falando em responsáveis ou representantes legais. Muitos já possuem, com essa idade, “empresários”. E o clube, para não perder seus direitos, deve manter os jovens em uma situação que faz lembrar os incubatórios da avicultura em que os pintinhos, em um tempo recorde, viram frangos para o abate e devem dar o retorno para a empresa. As etapas do desenvolvimento são queimadas e, precocemente, um pintinho já virou um frangão. Essa metáfora aplica-se aos jovens atletas que nasceram e vivem sob a “moderna” Lei Zico/Pelé: há um investimento na formação do atleta, o clube tem que assinar um contrato a partir dos 16 anos para não perder os direitos, depois o jogador tem que ser negociado para dar o retorno. E tudo tem que ser muito rápido: formação, contrato, negociação, e retorno. E, sempre por trás, há o “empresário”, ou “agenciador” ou um “picareta” qualquer que seja. As vitrines ou “frangueiras” dos empresários são as chamadas competições “sub”. A cada dia inventam uma nova faixa etária, sempre para menos: sub-20, sub-18, sub-16, sub-15, sub-14 e assim sucessivamente. No afã de ter que provar a formação e não perder seus direitos, muitos clubes acabam mantendo sob contrato às vezes centenas de menores a partir dos 16 anos de idade. A saída dos talentos será inexorável. E os lucros, de quem serão?

No momento em que reabriu-se no país o debate sobre divisões de base do futebol após a tragédia que matou 10 menores de idade, ainda não vimos a imprensa, nem mesmo a imprensa esportiva, trazer a “moderna” Lei Zico/Pelé para o debate. Até porque, os chamados “empresários”, que são os que mais lucram, não terão nenhuma responsabilidade civil, criminal ou pecuniária em relação ao ocorrido. Enquanto isso, as “frangueiras da modernidade” vão tendo licença até para matar.

 

OBRIGADO BOECHAT!

boechat

A foto acima é do estúdio da Bandnews, no dia 20 de setembro de 2017. Naquele dia, o jornalista Ricardo Boechat, a quem nosso livro “Olaria – Histórias de um Centenário”, foi enviado, entrou em minha história pessoal e também na história do Olaria Atlético Clube.  Assim como muitos outros jornalistas, Boechat recebeu o nosso livro. No entanto, nenhum jornalista divulgou tanto o nosso livro, e em rede nacional, como o Ricardo Boechat. No momento do Jornal da Bandnews em que Boechat travava um diálogo matinal com Milton Neves, a “pitonisa”, nosso livro e o Olaria Atlético Clube foram nacionalmente divulgados. A foto de Boechat, folheando e comentando nosso livro, nos enche de orgulho. Fiquei impressionado, ao assistir o programa, com seu conhecimento sobre o Olaria. Fiquei lisonjeado com sua palavras sobre nosso livro. Sempre pensei em, um dia, agradecê-lo pessoalmente. O vídeo do Jornal da Bandnews de 20 de setembro de 2017 pode ser acessado no link abaixo e o trecho em que ele fala de nosso livro tem início com 1 hora e 44 minutos de gravação:

Infelizmente hoje, logo no início da tarde, chegou a notícia da morte de Boechat, em mais um episódio trágico, dentre os muitos que vêm se acumulando nas últimas semanas. Boechat deixou a cidade de Campinas, por volta do meio-dia, onde fez uma palestra, embarcou em um helicóptero para a capital paulista e, na rodovia Anhanguera, a aeronave chocou-se com uma carreta, ceifando a vida de um dos maiores jornalistas do Brasil.

Mesmo quem não conhecia pessoalmente Boechat sabia que ele era singular e, ao mesmo tempo, uma pessoa comum. Seu jornalismo era uma mistura de sagacidade, coragem e um espírito crítico com uma das maiores capacidades argumentativas do mundo jornalístico. Hoje foram divulgadas várias facetas desse grande ser humano: ele não era apenas um jornalista singular. Era uma voz, uma inteligência e uma competência a serviço do leitor, do ouvinte, do telespectador e do povo em geral. Sem ser vulgar ou chulo. Ele teve, como todo ser humano, dissabores em sua vida, como uma depressão, doença que pode até matar. Mas recuperou-se e fazia palestras motivacionais para mostrar que é possível reverter as desventuras.

Hoje o Brasil não perdeu apenas um jornalista. Perdeu um cidadão que representava aquele jornalismo crítico, independente e do qual todo jornalista deveria se orgulhar. O destino não permitiu que eu agradecesse pessoalmente ao Boechat por aquele 20 de setembro de 2017. Meu agradecimento pessoal ficou adiado. E para um outro plano. Descanse em paz e fique com todos os deuses, Ricardo Boechat!

 

O SÍNODO E A ESPIONAGEM

sínodo da amazônia“Queremos neutralizar isso aí. Vamos entrar fundo nisso.” (General Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional, em entrevista à repórter Tânia Monteiro, ao fazer alusão ao Sínodo para a Amazônia).

No mesmo dia em que assistimos ao filme “Batismo de Sangue”, baseado no livro de Frei Betto, que conta a história da prisão e torturas a padres da Igreja Católica que combatiam a ditadura e, por isso, foram considerados “comunistas”, recebemos a notícia de que a ABIN e o Gabinete de Segurança Institucional do governo ultra-direitista de Bolsonaro elegeram um novo alvo. Depois de professores, sindicalistas, artistas, ambientalistas, indígenas, quilombolas, agora o “perigo” vem da Santa Sé.

As palavras do general Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional, ao dizer que “vai entrar a fundo e neutralizar isso aí” são, no mínimo, preocupantes. O Papa Francisco convocou para o mês de outubro desse ano o Sínodo da Amazônia, que terá como tema “Amazônia: novos caminhos para a Igreja e uma ecologia integral.” Evidentemente, em se tratando de um governo como o de Bolsonaro, aliado e patrocinado por ruralistas, mineradoras e grupos estrangeiros que querem se apoderar da Amazônia; em se tratando de um governo em que o ministro fundamentalista das Relações Exteriores diz que “o aquecimento global é uma conspiração comunista”; em se tratando de um governo em que o ministro do meio Ambiente já foi condenado (pasmem!) por crime ambiental; em se tratando de um governo que se opõe ao Acordo de Paris e à pautas ambientalistas; em se tratando de um governo em que uma ministra raptou uma criança indígena; em se tratando de um governo descompromissado com a demarcação de terras indígenas e defesa das áreas quilombolas, evidentemente as críticas do clero católico progressista serão inevitáveis durante a realização do Sínodo. O Sínodo é uma Assembleia, um foro de debates, coisa que o governo Bolsonaro, desde sua epigênese, nunca aceitou. Colocar uma Assembleia de religiosos católicos, que terá a presença de representantes do clero brasileiro, sob a mira da ABIN e do Gabinete de Segurança Institucional é uma ameaça que faz lembrar os nada saudosos tempos mostrados no filme “Batismo de Sangue”. A meta do governo de extrema-direita de Bolsonaro é fazer uma grande espionagem, com auxílio do governo italiano. A ameaça é de se deflagrar uma espionagem ilegal. E seria bom lembrar que o Vaticano é um Estado soberano desde 1929. O encontro de bispos de todo mundo e de representantes de organizações ambientalistas ocorrerá em Roma e o governo brasileiro já sinalizou que pedirá o auxílio da Itália para os devidos “monitoramentos” (eufemismo para “espionagem”).

O governo de extrema-direita sabe que receberá muitas críticas do clero progressista e de organizações ambientalistas e tem todo direito de rebatê-las. Que venha a público, que dê entrevistas e responda aos questionamentos, que emita notas oficiais.  Porém, jamais tratando uma assembleia de religiosos católicos como uma questão de “segurança nacional”. Qual é a ameaça? Que interesses podem ser contrariados? Seriam, por exemplo, os interesses dos ruralistas, das grandes  mineradoras,  das empresas que querem se apoderar da Amazônia e devastá-la e também daqueles que querem invadir territórios indígenas e quilombolas para interesses privados nacionais e estrangeiros? Certamente, a continuar nesse rumo, o próximo passo será considerar os participantes brasileiros do Sínodo como “comunistas” e dar início a uma perseguição aos religiosos católicos de linha progressista. O próprio Papa Francisco já se declarou socialista e é bom lembrar que o Papa não é apenas um líder religioso. Ele é também um chefe de Estado. E, como chefe de Estado, ele pode sim criticar ou apoiar qualquer governo. Do mesmo modo que Bolsonaro critica, por exemplo, os governos  da Venezuela e de Cuba. E apóia os dos Estados Unidos e Israel.

O Sínodo acontecerá em outubro. Até lá, fiquemos atentos e denunciemos as investidas de espionagem ilegal do governo ultra-direitista. Não vamos permitir que aconteça um novo “Batismo de Sangue”