JUIZ LEÃO, MINISTRO CORDEIRO!

moro caixa 2

Temos que falar a verdade, a Caixa 2 nas eleições é trapaça, é um crime contra a democracia. Me causa espécie quando alguns sugerem fazer uma distinção entre a corrupção para fins de enriquecimento ilícito (caixa 2) e a corrupção para fins de financiamento ilícito de campanha eleitoral. Para mim a corrupção para financiamento de campanha é pior que para o enriquecimento ilícito.” (Moro juiz, em 2016).

“Houve reclamações por parte de agentes políticos de que o caixa 2 é um crime grave, mas não tem a mesma gravidade que corrupção, que crime organizado e crimes violentos. Então, acabamos optando por colocar a criminalização num projeto à parte que está sendo encaminhado neste momento. Foi o governo ouvindo as reclamações razoáveis dos parlamentares quanto a esse ponto e simplesmente adotando uma estratégia diferente.” (Moro ministro, em 2019).

“Eu nem acredito que aquele garoto
Que ia mudar o mundo
Mudar o mundo
Frequenta agora
As festas do Grand Monde.” (Cazuza/Frejat, “Ideologia”, 1987)

Em seus tempos de juiz, Sérgio Moro era o oposto do que deveria ser. Ao invés de reservado, era midiático. Ao invés de manter a privacidade de certos assuntos da Justiça, tornava-os públicos, como no caso da divulgação do grampo ilegal da conversa da ex-Presidente Dilma em 2016. Na época ele disse que “a democracia, em uma sociedade livre, exige que os governados saibam o que fazem os governantes, mesmo quando estes buscam agir protegidos pelas sombras.” Como juiz, em uma entrevista ao “Estadão” disse que jamais entraria para a política e, em uma palestra em Harvard, em 2017, disse que o crime de caixa 2 era “pior do que corrupção”. Isso, quando era juiz e tornou-se o ídolo dos patos amarelos (hoje alaranjados).

Agora assumidamente político, coisa que sempre foi, e ocupando um cargo político de confiança no governo Bolsonaro, que o ex-juiz ajudou a eleger ao divulgar, às vésperas da eleição, o conteúdo da delação de Palocci, ele mudou. Depois de uma reunião com representantes da Taurus, a fabricante de armas grande interessada no decreto que regulamenta a posse de armas de fogo, Moro alegou privacidade e não quis revelar o conteúdo da reunião, apesar de o assunto ser de grande interesse da sociedade. Então, Moro jogou no lixo a sua convicção de que os governados devem saber o que fazem os governantes. Coisa que ele não pensava nos tempos de juiz.

Assim foi o tal “Pacote Anticrime”. Admitindo pressões da casta política, Moro mandou às favas suas convicções de juiz legalista e moralista. Se outrora para ele o crime de caixa 2 era mais grave do que o de corrupção, agora ele atendeu aos apelos, certamente de seus pares políticos, e fatiou o tal pacote. Moro se curvou aos apelos dos políticos, que alegaram que “o caixa 2 é um crime grave, mas não tem a mesma gravidade que corrupção, crime organizado e crimes violentos.” E Moro cedeu.

Talvez dê para entender essa mudança nas convicções de Moro. Afinal, ele tem um colega de Ministério, o Onyx Lorenzoni, que é réu confesso em prática de caixa 2. Os recentes escândalos envolvendo candidaturas laranjas do partido de Bolsonaro certamente também influenciaram Moro. Nada como um dia atrás do outro. Onde foi parar aquele jovem, severo e corajoso juiz que um dia afirmou em público que o caixa 2 é pior do que corrupção?

A submissão de Moro, o outrora “Rambo da Justiça”, aos “apelos” de políticos, que seriam os mais afetados com a equiparação do caixa 2 à corrupção, mostra o quanto o juizinho da “República de Curitiba” capitulou logo no primeiro round contra aqueles que poderiam ser afetados por uma tipificação mais severa do crime de caixa 2. Justificando o seu recuo e, por que não dizer, a sua covardia, Moro disse que foi “sensível”, dizendo que as reclamações dos políticos (os que seriam afetados pela inclusão do caixa 2 no pacote) eram “razoáveis”. Com o fatiamento, o caixa 2 vai ser votado em separado do restante do pacote e, evidentemente, todos já sabem o resultado dessa votação. Como diz o bordão do narrador esportivo Milton Leite: “Segue o jogo!” E onde foi parar aquele garoto que ia mudar o mundo? A turma do Onyx agradece…

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