O SÍNODO E A ESPIONAGEM

sínodo da amazônia“Queremos neutralizar isso aí. Vamos entrar fundo nisso.” (General Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional, em entrevista à repórter Tânia Monteiro, ao fazer alusão ao Sínodo para a Amazônia).

No mesmo dia em que assistimos ao filme “Batismo de Sangue”, baseado no livro de Frei Betto, que conta a história da prisão e torturas a padres da Igreja Católica que combatiam a ditadura e, por isso, foram considerados “comunistas”, recebemos a notícia de que a ABIN e o Gabinete de Segurança Institucional do governo ultra-direitista de Bolsonaro elegeram um novo alvo. Depois de professores, sindicalistas, artistas, ambientalistas, indígenas, quilombolas, agora o “perigo” vem da Santa Sé.

As palavras do general Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional, ao dizer que “vai entrar a fundo e neutralizar isso aí” são, no mínimo, preocupantes. O Papa Francisco convocou para o mês de outubro desse ano o Sínodo da Amazônia, que terá como tema “Amazônia: novos caminhos para a Igreja e uma ecologia integral.” Evidentemente, em se tratando de um governo como o de Bolsonaro, aliado e patrocinado por ruralistas, mineradoras e grupos estrangeiros que querem se apoderar da Amazônia; em se tratando de um governo em que o ministro fundamentalista das Relações Exteriores diz que “o aquecimento global é uma conspiração comunista”; em se tratando de um governo em que o ministro do meio Ambiente já foi condenado (pasmem!) por crime ambiental; em se tratando de um governo que se opõe ao Acordo de Paris e à pautas ambientalistas; em se tratando de um governo em que uma ministra raptou uma criança indígena; em se tratando de um governo descompromissado com a demarcação de terras indígenas e defesa das áreas quilombolas, evidentemente as críticas do clero católico progressista serão inevitáveis durante a realização do Sínodo. O Sínodo é uma Assembleia, um foro de debates, coisa que o governo Bolsonaro, desde sua epigênese, nunca aceitou. Colocar uma Assembleia de religiosos católicos, que terá a presença de representantes do clero brasileiro, sob a mira da ABIN e do Gabinete de Segurança Institucional é uma ameaça que faz lembrar os nada saudosos tempos mostrados no filme “Batismo de Sangue”. A meta do governo de extrema-direita de Bolsonaro é fazer uma grande espionagem, com auxílio do governo italiano. A ameaça é de se deflagrar uma espionagem ilegal. E seria bom lembrar que o Vaticano é um Estado soberano desde 1929. O encontro de bispos de todo mundo e de representantes de organizações ambientalistas ocorrerá em Roma e o governo brasileiro já sinalizou que pedirá o auxílio da Itália para os devidos “monitoramentos” (eufemismo para “espionagem”).

O governo de extrema-direita sabe que receberá muitas críticas do clero progressista e de organizações ambientalistas e tem todo direito de rebatê-las. Que venha a público, que dê entrevistas e responda aos questionamentos, que emita notas oficiais.  Porém, jamais tratando uma assembleia de religiosos católicos como uma questão de “segurança nacional”. Qual é a ameaça? Que interesses podem ser contrariados? Seriam, por exemplo, os interesses dos ruralistas, das grandes  mineradoras,  das empresas que querem se apoderar da Amazônia e devastá-la e também daqueles que querem invadir territórios indígenas e quilombolas para interesses privados nacionais e estrangeiros? Certamente, a continuar nesse rumo, o próximo passo será considerar os participantes brasileiros do Sínodo como “comunistas” e dar início a uma perseguição aos religiosos católicos de linha progressista. O próprio Papa Francisco já se declarou socialista e é bom lembrar que o Papa não é apenas um líder religioso. Ele é também um chefe de Estado. E, como chefe de Estado, ele pode sim criticar ou apoiar qualquer governo. Do mesmo modo que Bolsonaro critica, por exemplo, os governos  da Venezuela e de Cuba. E apóia os dos Estados Unidos e Israel.

O Sínodo acontecerá em outubro. Até lá, fiquemos atentos e denunciemos as investidas de espionagem ilegal do governo ultra-direitista. Não vamos permitir que aconteça um novo “Batismo de Sangue”

 

 

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