FUTEBOL, TRAGÉDIA E LEIS

tragédia do flamengoHá momentos na história esportiva em que as tragédias aproximam e até unem os adversários. Em momentos como esses, a comoção e a solidariedade sobrepõem-se a eventuais rivalidades. Foi assim, por exemplo, com o Botafogo. Em 1942, existiam dois “Botafogos” no Rio de Janeiro. Um era o “Botafogo de Futebol”. O outro era o “Botafogo de Regatas”. Mas ambos disputavam basquete e, em um jogo de basquete entre os Botafogos rivais, um atleta do Botafogo Futebol Clube sentiu-se mal, foi levado ainda com vida para o vestiário e pouco depois faleceu. Seu nome: Armando Albano. A comoção pela morte súbita do atleta levou os dois Botafogos a se unirem. Armando Albano acabou, assim, unificando os dois clubes em uma agremiação que até hoje vive e continua sendo de futebol, regatas e, também, de basquetebol.

Ontem, nas primeiras horas da manhã, recebemos com tristeza a notícia da tragédia que ceifou as vidas de 10 jovens atletas da base do Flamengo, no centro de treinamento do clube localizado em Vargem Grande. O incêndio no alojamento das categorias de base transformou em cinzas os sonhos de 10 adolescentes que teriam quase que uma vida inteira pela frente. É impossível mensurar a dor das famílias desses jovens, famílias essas que carregarão eternamente as implacáveis cicatrizes da desgraça vivida no dia de ontem. Evidentemente, os 10 garotos mortos precocemente na tragédia rubro-negra não serão novos “Armandos Albanos”, no sentido de unificarem os clubes rivais em uma única agremiação. Os clubes continuarão rivais e confrontando-se nos campos, quadras e em outras “arenas”. Porém, seria de bom alvitre pensarmos que a tragédia ocorrida possa, de alguma forma, invocar o atleta Armando Albano. No sentido de trazer paz aos estádios. No sentido de não ver o adversário como um inimigo. Em meio à tristeza, foi bom presenciarmos manifestações de solidariedade que parecem não serem meramente protocolares, vindas de torcidas adversárias conhecidas e de inúmeros torcedores que não são flamenguistas. Mas o trágico acontecimento pode também unir os clubes em torno de uma outra questão. Desde ontem, fala-se muito em “leis”, exigências de segurança, alvarás de funcionamento expedidos pelo Corpo de Bombeiros… Tudo isso, inegavelmente, é necessário. E a legislação em termos de segurança é inquestionável. Mas há uma outra legislação, esta sim, questionável, que merece ser discutida e, quiçá, revista. E começamos com a seguinte pergunta: por que, cada vez mais precocemente, os atletas da base estão deixando seus lares, suas cidades e, muitas vezes, até o país, antes mesmo de completarem 18 anos? Desde a “Lei Zico/Pelé”, que apregoava o “fim da escravidão” no futebol, que o afã dos clubes em recrutar atletas cada vez mais precocemente vem aumentando. A semi-profissionalização, aos 16 anos, idade onde já se pode fazer um contrato, faz dos clubes, muitas vezes, um depósito de jovens cheios de sonhos. A partir dos 16 anos, o atleta já pode ser transferido. Muitos saíram do Brasil sem sequer ficarem conhecidos por aqui. A mercantilização que o futebol tomou desde a “lei modernizadora” de 1998, prevê que o clube formador tenha parte em eventuais futuras negociações. Muitas vezes, empresários e agenciadores estão por trás dessas negociações. Claro que as “fábricas de talentos” têm que ter quantidade e, vez por outra, as qualidades aparecem, isto é, alguns grandes craques são revelados.

Sabe aquela máxima de vender o espetáculo e não os artistas? Assim era o futebol brasileiro. Com a “modernização”, estamos vendendo, muito cedo, nossos “artistas”. As faixas etárias das chamadas competições “sub” estão cada vez sendo mais reduzidas. Isso supõe, muitas vezes, uma queima de etapas na vida de um jovem jogador de futebol. As leis do nosso futebol são cada vez mais espartanas, no sentido de um jovem ter que deixar muito cedo suas famílias e cidades e irem para um centro de treinamento como se estivessem se preparando para uma guerra. Ele tem que ser formado logo, vendido logo, dar retorno logo. Essa é a cruel lógica do mercado. E estamos falando de um mercado de seres humanos ainda muito jovens. Nos tempos em que vendíamos o “espetáculo” e não os “artistas”, o futebol brasileiro viveu a sua época de ouro. E, com certeza, fabricava mais craques do que hoje.  Pelé, Garrincha, Nilton Santos, Zizinho, Romário, Zico, Tostão, Jairzinho, Ademir Menezes, Leônidas, Pepe, Belini, Djalma Santos, Zito, Dida, Vavá, só para citar alguns, são desses velhos tempos.

Armando Albano, de um dos “Botafogos”, uniu dois clubes. A tragédia que matou os 10 atletas do Flamengo poderia também unir os clubes, no sentido de rever e repensar uma legislação em que jovens atletas são, literalmente, números. Se os clubes formadores de atletas não precisassem “correr tanto”, como hoje a lei exige, é bem provável que muitas desventuras não teriam acontecido no futebol brasileiro. E estaríamos, até hoje, apenas revivendo tragédias simbólicas, ocorridas no campo de jogo, como o “Maracanazo” de 1950 ou a “tragédia do Sarriá”, em 1982, em que as derrotas vieram, pois fazem parte do esporte, mas ainda hoje todos lembram, com saudosismo, dos craques daquela época. Infelizmente, os jovens mortos no incêndio de ontem não poderão nem passar por essas outras “tragédias”…

 

 

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