A PRIMEIRA-DAMA E A “VAGABUNDA”

michelle discurso em libras

O governo Bolsonaro, iniciado no primeiro dia do ano, será um governo de privilégios e exclusões. Privilégios na reforma da previdência, que certamente excluirá dos sacrifícios as castas da toga, das casernas e dos parlamentares. Exclusões e desprezos, como o Presidente sempre demonstrou em relação a negros, índios e mulheres. Só para citar alguns exemplos. Entretanto, sua estratégia marqueteira prevê que sempre em seus discursos ou eventos mais significativos, um séquito negro apareça ao seu lado. E também mulheres, inclusive no Ministério, como a “musa do veneno”.

Mas o dia da posse mostrou uma ampliação dessa estratégia. A primeira-dama Michelle, em uma inédita quebra de protocolo, fez um discurso em Libras (Língua Brasileira de Sinais). O discurso de Michelle foi mais do que uma quebra de protocolo. Logo veio à lembrança de várias pessoas, que pronunciaram-se em seguida pelas redes sociais, a deputada Maria do Rosário, aquela que Bolsonaro chamou de “vagabunda” e ainda disse que “só não a estupraria porque ela não merecia, por ser muito feia.” Bolsonaro chegou a ser condenado por apologia ao estupro e ainda a pagar uma indenização à deputada. Foi a deputada Maria do Rosário que apresentou no Congresso a proposta da lei que regulamenta a profissão de tradutor de Libras, através do Projeto de Lei 4673/04, que acabaria sendo aprovado em 2009 com o voto contrário do então deputado Jair Bolsonaro. Apesar de ser chamada de “vagabunda” e “indigna de ser estuprada” pelo  marido da primeira-dama, Maria do Rosário elogiou o discurso de Michelle, afirmando que foi um “gesto positivo”. Isso é mais uma prova de que o vírus do ódio não chega entre aqueles que perderam as eleições nas urnas, embora continue fervendo o sangue de quem venceu.

Apesar de louvável, a iniciativa de Michelle não deve e não pode ficar só em um belo gesto durante a cerimônia de posse. Bem que a sua quebra de protocolo poderia simbolizar o início de uma quebra de barreiras como, por exemplo, a universalização da oferta de profissionais tradutores de Libras para as escolas. A rede pública do Estado do Rio de Janeiro, por exemplo, possuía tradutores de Libras em várias escolas, que foram tirados pelos governos que assaltaram o Estado. Quem sabe a primeira-dama pudesse usar de sua influência para que fossem realizados convênios com os Estados e Municípios e a oferta de tradutores de Libras voltasse para as escolas? As escolas precisam muito disso e testemunhamos o estrago que foi a retirada desses profissionais da rede estadual do Rio de Janeiro. O gesto da primeira-dama, elogiado por aquela a quem seu marido chamou publicamente de “vagabunda” pode muito bem resultar em ações efetivas de inclusão. O ato da primeira-dama pode ir além da posse e significar que, ao invés de impor a perseguição a professores com um instrumento fascista chamado “Escola Sem Partido”, o governo que inicia deve preocupar-se com demandas realmente úteis para a inclusão e o acesso ao conhecimento para todos: uma escola com crítica, pluralismo e Libras!

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