UMA SIMPLES IMPRESSÃO?

Jair M. Bolsonaro

@jairbolsonaro

Bom Dia! Comunico a todos a indicação do General-de-Exército Fernando Azevedo e Silva para o cargo de Ministro da Defesa.

A indicação do general Fernando Azevedo e Silva para o cargo de Ministro da Defesa, anunciada hoje por Bolsonaro, não chega a ser surpreendente. O futuro Ministro da Defesa chegou a participar da equipe que formulou propostas para o programa do Presidente eleito. Tudo absolutamente normal, exceto pelo fato de o futuro Ministro ter sido, até agora, assessor do Presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Tóffoli.  Será que foi apenas uma coincidência? Para o presidente do STF, foi uma “excelente escolha”. Disse o Presidente da Suprema Corte:

“Certamente sua larga experiência contribuirá para o fortalecimento da atuação das Forças Armadas, da segurança e da defesa no Brasil. Seu perfil técnico, sua dedicação ao serviço público e sua visão republicana são aspectos fundamentais para a nova missão na Administração Pública Federal. Hoje pela manhã, fui consultado pelo presidente eleito Jair Bolsonaro sobre a indicação de Fernando Azevedo e Silva e prontamente disse que seria uma excelente escolha.” (Nota divulgada por dias Tóffoli em 13/11/2018).

Quando o futuro Ministro da Defesa foi nomeado para o gabinete do Presidente do STF, a indicação foi do general Augusto Heleno, o comandante do Exército. Evidentemente, depois de trabalhar por algum tempo com o Presidente do STF e após a nota em que Dias Tóffoli considera a escolha como “excelente”, certamente esta nomeação acaba consolidando uma aliança com Tóffoli.  O Presidente do STF ainda está no início de seu mandato e essa aliança, certamente, será muito útil no futuro. Resta saber o que pensam os outros 10 Ministros da Corte.

Em sua nota, Tóffoli disse que “foi consultado”. Não acredito. Esse não é o perfil de Bolsonaro e nem de sua turma. Alguém, cujo filho disse que bastaria “um cabo e um soldado” para fechar o Supremo, iria consultar o Presidente do Supremo para alguma coisa? Depois do absurdo dito pelo “02”, vieram as tentativas de emendas piores do que os sonetos. E o chefe de gabinete de Tóffoli, um general, não queria sair desmoralizado no episódio. Então, parece que negociou um pedido de “desculpas”. Que não convence ninguém e não apaga a mácula.

Ao mesmo tempo, recebemos hoje a notícia de que o plenário da Câmara do Deputados aprovou o projeto de lei que aumenta os poderes da Justiça Militar, que passaria ter competência para, por exemplo, julgar habeas corpus para autoridade militar em se tratando de matéria criminal. Esperamos, em relação à aprovação desse projeto, também o pronunciamento de Tóffoli. Será que está mesmo tudo ficando “dominado” ou é apenas uma simples impressão?

 

 

 

A CONFISSÃO DO GENERAL

confissão do general“Eu reconheço que houve um episódio em que nós estivemos realmente no limite, que foi aquele tuíte da véspera da votação no Supremo da questão do Lula. Ali, nós conscientemente trabalhamos sabendo que estávamos no limite. Mas sentimos que a coisa poderia fugir ao nosso controle se eu não me expressasse .” (General Villas Boas, comandante do Exército, em entrevista à Folha de São Paulo, em 11 de novembro de 2018).

Quando, no dia 3 de abril, véspera do julgamento do habeas-corpus preventivo de Lula, referente à prisão em segunda instância, o general Villas Boas mandou um recado ameaçador ao Supremo Tribunal Federal, muitos viam, na época, que era um absurdo dizer que o general estava ameaçando a Corte Máxima. No entanto, nunca tivemos dúvida de que houve mesmo uma clara ameaça. E é possível que a ameaça tenha se dirigido apenas à Ministra Rosa Weber, a “Ministra do voto dúbio”. Naquela ocasião, a decisão do Supremo poderia mudar os rumos eleitorais porque, mesmo não sendo candidato, a presença de Lula na campanha poderia significar a vitória do PT. O tuíte do general  foi postado menos de 24 horas antes do julgamento, exatamente às 20 horas e 39 minutos do dia 3 de setembro:

a confissão

E ontem, em uma entrevista publicada na Folha de São Paulo, o general Villas Boas acabou confessando que o tuíte ameaçador foi disparado porque eles “estavam no limite” e que “a coisa poderia fugir ao controle deles”. Pergunta-se ao general: Qual limite e qual controle? Limite de quê e controle de quê? Seria o controle do Supremo, do TSE, ou da campanha eleitoral de Bolsonaro?

O grande problema é que, passadas as eleições e com suas “missões” e “papéis” devidamente cumpridos, agora todos começam a admitir o que antes consideravam inconfessável. Depois das declarações do general em sua entrevista, temos todo o direito de considerar que o Supremo já estava tutelado pelos militares. Tanto que o general considera que sua fala foi determinante para “a coisa não fugir do controle”. E essa tutela parece ter sido chancelada por Dias Tóffoli. O Presidente  do STF nomeou para seu assessor o general da reserva Fernando Azevedo e Silva. A sugestão do assessor, não se espantem, foi do próprio general Villas Boas. E é bom lembrar que o general-assessor de Dias Tóffoli participou da equipe de campanha de Bolsonaro na formulação de propostas ao então candidato do PSL. Parece que, do dia 3 de abril até hoje, as coisas ficaram límpidas. O que houve agora, na declaração de Villas Boas, foi uma afirmação que ele não poderia deixar de admitir, a partir de premissas que levam à óbvia conclusão de que a ameaça ao Supremo foi sim uma das etapas “não ortodoxas” do processo eleitoral.

Claro que a ameaça do general foi uma usurpação de seu poder e, especialmente, de sua missão constitucional. Não houve defesa dos poderes constitucionais, como reza a Constituição, e sim uma grave ameaça a um poder constitucional. Ameaça essa que, para sempre, colocará sob suspeita a independência daquele poder em relação a uma decisão de grande importância para o país.

Depois da ameaça do general o Supremo, já devidamente capitulado, teve que engolir que bastava um cabo e um soldado para fechá-lo. E eu perguntaria se, desde o dia 3 de abri, ele está realmente aberto. Acho que, ali, ele foi fechado pelo general.

 

 

 

A VOLTA DA EDÍLIA

edília emc“Os livros de história que não tragam a verdade sobre 64 precisam ser eliminados”. (General Aléssio Ribeiro Souto, da equipe de Bolsonaro).

Edília Coelho Garcia foi, na época da ditadura militar, a Presidente de um órgão denominado “Comissão Nacional de Moral e Civismo”. O órgão, ligado ao MEC, atuava como um censor na escolha de livros didáticos, vetando tudo o que fosse considerado “subversivo”, “alheio aos princípios morais” ou aos “princípios cívicos”. Era o tempo do AI-5, do banimento de professores e da retirada do ensino da Filosofia das escolas. Também era o tempo da Lei 5692/1971, que retirou a História e a Geografia dos currículos, incorporando-as em uma miscelânea sob o rótulo de “Estudos Sociais”. Era o tempo de professores polivalentes, “especialistas em generalidades”, que jamais aprofundavam os assuntos tratados nas aulas e nem podiam, sob qualquer hipótese, despertar nos alunos o senso crítico. A própria Edília Coelho Garcia teve um de seus livros muito utilizados naquela época. Era um livro de Educação Moral e Cívica onde podia-se ler, entre outras barbaridades, que “no Brasil não existia racismo porque a esposa do Pelé era branca.”  O tal livro, que usava até régua de instrução programada para condicionar os alunos, ainda é encontrado à venda nas “estantes virtuais” e pode ser arrematado por menos de 10 reais.

A volta da disciplina Educação Moral e Cívica vem sendo proposta, há tempos, por Bolsonaro e seus aliados. A declaração inquisitorial e fundamentalista do general Aléssio, que fala em “eliminação de livros”, é sintomática e revela os tempos em que o Brasil entrou. A declaração do próprio Bolsonaro, feita na semana passada, de que irá fazer uma “vistoria prévia” nas provas do ENEM, algo nunca ocorrido desde a criação da prova em 1998, mostra que a censura está voltando. A interferência na escolha de livros didáticos, já acenada por Bolsonaro, além do projeto “Escola Sem Partido”, que cala os debates e as críticas nas escolas e coloca o professor como alvo de um ambiente inquisitorial, mostram o tom do que nos aguarda a partir de 2019.

Os ataques à educação, já anunciados, poderão vir, inclusive, de atos que não dependem de aprovação do Legislativo. Orientações quanto ao conteúdo de livros didáticos são atribuições do Executivo e o programa que levou a ultra-direita ao poder fala, textualmente, em “expurgar a ideologia de Paulo Feire.”  Assim, a partir de 2019, é bem provável que “a educação como prática de liberdade” do educador Paulo Feire seja banida das diretrizes e conteúdos de livros didáticos. Tudo indica que a “ideologia de Edília” voltará. Porém, os tempos são outros. Certamente, não faz mais sentido dizer às crianças que no Brasil não há racismo porque a mulher do Pelé é branca. Talvez, com a volta dos livros da dona Edília, haja uma atualização e seja dado como exemplo o fato de ele já ter namorado a Xuxa. Ou então a nova edição da obra da dona Edília poderá dizer que no Brasil não existe racismo porque os negros não são pesados em arrobas e sim em quilogramas, nas mesmas balanças dos brancos…

O OUTRO “DIALETO”

questão do enem“Governo não manda no ENEM.” (Maria Inês Fini, Presidente do INEP, respondendo à ameaça de Bolsonaro de interferir na elaboração das provas em 2019).

O INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais), órgão responsável pela elaboração das provas do ENEM, é uma autarquia ligada ao Ministério da Educação. Como toda autarquia, o INEP é um órgão autônomo. É o INEP que elabora as provas do Exame Nacional do ensino Médio, que dá acesso a mais de 500 universidades públicas e privadas do Brasil. Agora, a estranha obsessão de Bolsonaro por assuntos relacionados ao mundo gay levou o Presidente eleito a afirmar que, a partir do próximo ano, fará “vistoria nas provas”, algo como uma censura prévia. Tudo por causa da questão número 37 da prova de Linguagens, códigos e suas tecnologias, onde o estudante teria que saber o que significa um dialeto. E, para tal, foi dado como exemplo um pequeno texto com palavras de um dialeto secreto utilizado por gays e travestis. Poderia ser um outro conjunto de palavras. A questão apenas pedia ao candidato para saber o que o patrimônio linguístico deve possuir para ser considerado um dialeto. Ninguém precisava, em hipótese alguma, conhecer palavras secretas usadas por gays e travestis para acertar a questão. E algumas palavras e expressões, inclusive, são usadas com o mesmo significado até fora do universo gay. É o caso de “Babado”, que significa “discussão ou fofoca”. E também “Dar a Elza”, que significa “roubar”. Não era preciso, entretanto, saber o significado, para gays e travestis, de nenhuma dessas palavras e o texto foi inserido na questão apenas a título ilustrativo.

Bolsonaro, entretanto, dando vazão a seus instintos autoritários, afirmou que irá vistoriar as provas do próximo ano. Tudo porque, segundo ele, as provas possuem “ideologia e politicagem.” Assustador é pensarmos que tudo o que Bolsonaro fala é sobre uma prova elaborada ainda no governo Temer. Um governo golpista, impopular, corrupto e onde muitos de seus pares até apoiam Bolsonaro. O ENEM foi criado no governo FHC e, até então, nenhum Presidente da República havia se pronucniado sobre o exame no sentido de impor uma censura e ameaçar a autonomia de um órgão técnico responsável pela elaboração das provas. E, como sempre, a causa de tudo é o estranho incômodo de Bolsonaro em relação a gays e travestis.

Assim como assuntos relacionados a gays e travestis tanto incomodam Bolsonaro, há outros que nos incomodam muitos mais. Mais do que mil elefantes. Como saber que seremos governados por uma pessoa que tem um torturador como herói e que já afirmou ser defensor da tortura. Sugiro então que, na prova de 2019, apareçam questões que falem sobre as barbaridades do regime defendido por Bolsonaro. Saber o significado de um “outro dialeto” faria bem para os jovens que não viveram um tempo de trevas defendido pelo capitão reformado. “Pau-de-arara”, “pimentinha”, “cadeira do dragão”, “geladeira”, dentre outras palavras que hoje não são mais secretas (embora muitos jovens não as conheçam) seriam alguns exemplos. Mas que pertencem a um outro “dialeto” que Bolsonaro exalta e conhece muito bem. Embora tudo isso nos incomode, acharia interessante que esse outro “dialeto” fosse abordado em 2019. Sem “treta” nem “babado”…

 

TEM QUE MANTER ISSO!

tem que manter issoA célebre frase de Michel Temer em seu subterrâneo diálogo com Joesley Batista – “Tem que manter isso!”, quando o golpista recomendou que o empresário continuasse dando “alpiste para o passarinho” (senha para dar dinheiro e manter Eduardo Cunha calado), parece que agora ilustra bem as intenções de Bolsonaro. Ao dizer que “muita coisa do governo Temer vai ser mantida”, Bolsonaro está sendo muito claro e anunciando que seu governo não deixará de ser uma continuidade do governo Temer. O encontro de Bolsonaro com Temer, que oficializou a transição, foi muito além da formalidade administrativa e mostrou as grandes afinidades entre o golpista e o fascista.

Bolsonaro não falou que “alguma coisa” ou “algumas coisas”, mas sim que “muita coisa” do governo Temer vai ser mantida. Já sabemos que a reforma da previdência é uma delas. A mesma reforma da previdência de Temer, que poupa juízes, militares e políticos e sacrifica o povo, será a de Bolsonaro. Também sabemos que a reforma trabalhista de Temer será mantida por Bolsonaro. Talvez Bolsonaro apenas acrescente que mulher deva ganhar menos pelo fato de engravidar. O governo Temer também foi marcado pela farra dos ruralistas e Bolsonaro acaba de nomear a líder ruralista na Câmara dos Deputados para o Ministério da Agricultura, a deputada Tereza Cristina. Nome de confiança dos ruralistas, ela é do DEM. Olha o “Centrão” aí no governo Bolsonaro, tal como no governo Temer. A futura ministra é do mesmo partido do Onyx, homem-forte de Bolsonaro e criminoso confesso que pediu e recebeu as desculpas de Sérgio Moro. O controle do Ministério da Agricultura pelos ruralistas, juntamente com a extinção do Ministério do Trabalho, é a senha para Bolsonaro fazer vistas grossas para o trabalho escravo no meio rural, tal como fez o Temer.

Bolsonaro também apóia o teto de gastos públicos do governo de Temer e ele será mantido. Isso, no mesmo dia em que os juízes do STF e a PGR foram contemplados com um aumento afrontoso feito pelo Senado, que elevará seus vencimentos em 16%.

Bolsonaro ainda falou que, se preciso for,  irá procurar Temer outras vezes “porque tem muita coisa que continuará”. Parece que não apenas os ensandecidos eleitores de Bolsonaro se enganaram. Nós também nos enganamos. Dissemos que o Alckmin era o candidato do Temer. Mas agora vemos que o tucano era apenas um dos candidatos. E que, apesar do que falava e seus ludibriados eleitores pensavam, Bolsonaro jamais foi oposição a Temer.

Agora é o Bolsonaro quem fala: Tem que manter isso!

Com a palavra, a boiada fascista.

TÚNEL DO TEMPO

brasil ame-o ou deixe-o

Parece que os tempos do “Brasil: ame-o ou deixe-o”, slogan ufanista que é um dos símbolos da ditadura militar, estão de volta. Quando, no dia 28 de outubro, após a confirmação da vitória da “chapa pau de arara”, nós desejamos um “Feliz 1964”, houve quem protestasse, apesar de um certo tom de humor em nossa mensagem. Mas parece que a coisa é séria mesmo. Depois de ameaçar veículos de imprensa com o corte de verbas publicitárias do governo para quem não fizesse um “bom jornalismo”, Bolsonaro está conseguindo cooptar a mídia. O SBT já parece que entendeu o recado. A emissora do Sr. Senor Abravanel, mais conhecido como Sílvio Santos, já está recuperando os slogans ufanistas dos tempos nada saudosos do ditador Médici e colocando no ar as musiquinhas que marcaram a ditadura militar, especialmente no auge dos “anos de chumbo”.

Sílvio Santos sempre foi um bajulador da ditadura militar, mesmo antes de ganhar a sua concessão de TV. Em seus programas existia um quadro chamado “Como vai senhor Ministro?” Nas músicas comandadas por Sílvio Santos em que o auditório participava, suas “colegas de trabalho” por várias vezes cantavam “Armando Falcão… É coisa nossa…”

E parece que entramos mesmo no túnel do tempo. Na tarde desta terça-feira, dia 6 de novembro, o SBT colocou no ar a vinheta ufanista “Brasil: ame-o ou deixe-o” e várias outras dos tempos da ditadura, com as letras nas cores nacionais. A mensagem “Brasil: ame-o ou deixe-o”, atualizada, complementa o que Bolsonaro já falou em relação aos oposicionistas e o exílio está nela embutido.

Mensagens com esse teor não são apenas expressões do ufanismo nacionalista. Elas atuam, de forma sutil, como um aparelho ideológico de Estado, identificando que o inimigo interno é mais perigoso do que o externo. Tudo dentro da doutrina de segurança nacional da ESG. O opositor não ama o Brasil, ele é o “outro” e deve ser banido. E ele está ao nosso lado. Não foi à toa que na ditadura do general Médici registrou-se o maior gasto com propagandas oficiais. E predominantemente ufanistas.

A iniciativa do SBT já sugere uma subserviência da mídia, especialmente após a ameaça de Bolsonaro. E o governo de extrema-direita, oficialmente, ainda nem começou. “Prá Frente Brasil” (olha a Copa do Catar aí!), “Ninguém segura mais esse país!” (olha o precipício). Quanto ao “Brasil: ame-o ou deixe-o”, Ivan Lessa, jornalista e filho do escritor Orígenes Lessa, e que também foi um dos fundadores do “Pasquim”, notabilizou-se, na época, por acrescentar, de forma irônica: “o último apague a luz do aeroporto.”

Abaixo, os vídeos com as vinhetas, com direito a Don e Ravel, Miguel Gustavo e os slogans “à la Médici”:

A FOGUEIRA DE JERUSALÉM

israel x palestina“Já a fogueira preparada estava,
e incitavam a chama adormecida…” (Torquato Tasso, Jerusalém Liberada, 1581).

Os primeiros anúncios do futuro governo Bolsonaro em relação à política internacional são simplesmente temerários e desastrosos. Sabemos que ele jamais será um estadista, mas a prudência deveria ser, no mínimo, um balizador para determinadas medidas que poderão trazer consequências graves para o Brasil. A subserviência ao governo Trump já está mais do que definida. O desprezo pelo Mercosul e a ameaça de corte de relações com Cuba, justamente quando o país caribenho já entra em uma fase de transformações e abertura, parecem sinais claros da bajulação a Trump.

Porém, o auge de todo esse desastre que se avizinha foi a declaração irresponsável de Bolsonaro, quando afirmou que, ainda no primeiro semestre de 2019, irá transferir a embaixada brasileira em Israel para Jerusalém, colocando o Brasil em uma situação que poderá trazer seríssimas consequências. A insana declaração poderá trazer estragos irreversíveis no plano comercial, político, cultural e, claro, diplomático. Já chegou a hora de alguém dizer para Bolsonaro que a campanha acabou. Ele parece que está brincando de “Forte Apache”. Também seria bom alguém dizer para ele que ele não é o Trump. E que o Brasil não são os Estados Unidos. Será que ele sofre de mitomania?

Jerusalém, a cidade santa, é um dos alvos do conflito entre israelenses e palestinos. Israel reivindica para si todo território da cidade, enquanto os palestinos reivindicam a parte oriental para a instalação da capital de um futuro Estado Palestino. A comunidade internacional, até mesmo os aliados mais ferrenhos dos Estados Unidos, aguardam uma decisão final para tomarem qualquer medida. No ano passado, Trump transferiu a capital norte-americana para Jerusalém, acirrando ainda mais a fogueira local. A prudência e obviedade do pensamento da comunidade internacional afirma Jerusalém como “cidade santa” e, antes de um acordo, as embaixadas não devem ficar em Jerusalém. Evidentemente, transferir a embaixada para Jerusalém é tomar um partido, de forma oficial, e apenas os Estados Unidos fizeram isso. Ah, e também a Guatemala. Mas Bolsonaro não é Trump e o Brasil não é Estados Unidos. Ah, e também não é a Guatemala.

Os protestos e retaliações já estão chegando. E o governo de extrema-direita ainda nem começou. Hanane Achraoui, em nome do Conselho Central Palestino, afirmou:

A medida é provocativa, ilegal do ponto de vista do direito internacional e apenas desestabiliza a região.”

Os países árabes já estão se manifestando. Dizem que na gíria do direito internacional “mudança na agenda” é um eufemismo para “desconvite”. E ontem o Egito cancelou um compromisso oficial do embaixador brasileiro, o tucano Aloysio Nunes. O cancelamento, sabe-se, já é uma retaliação à declaração irresponsável de Bolsonaro. Empresários brasileiros foram prejudicados com o cancelamento. Uma matéria publicada nesta segunda-feira, 5 de novembro, na Folha de São Paulo, um dos jornais ameaçados por Bolsonaro, diz que a Liga dos Países Árabes enviou uma nota à embaixada brasileira no Cairo, capital do Egito, repudiando as afirmações de Bolsonaro. Nunca é demais lembrar que os países árabes são grandes parceiros comerciais do Brasil e a medida insana do ultra-direitista pode impactar as exportações brasileiras. Bolsonaro está levando nosso país a incitar uma fogueira que arde há décadas, mas que nunca respingou em nosso povo. Isso, graças à manutenção de uma política internacional que, certamente, cometeu erros, mas nunca anunciou-se tão irresponsável e arriscada, sob todos os aspectos. Seria bom o futuro Presidente deixar as brincadeiras de “Forte Apache” para as horas vagas. A decisão, caso se confirme, colocará o Brasil em alerta. Sugiro que, nesse caso, Bolsonaro nomeie seus  filhos para embaixadores em países árabes.