MÉDICOS, ESCRAVIDÃO E PRECONCEITO

médicos cubanosMandar os médicos cubanos para Guantánamo depois de dispensá-los com uma “canetada” foi promessa de Bolsonaro durante a campanha. Agora que os médicos estão deixando o programa iniciado no governo Dilma,  Bolsonaro fala em “escravidão” e “condições desumanas” de trabalho dos profissionais cubanos. A verdade é que, desde sempre, Bolsonaro criticou o programa “Mais Médicos” e nunca aceitou a presença dos cubanos no Brasil. Já em relação à “escravidão”, algumas questões devem ser colocadas. Primeiro, se  Bolsonaro considera escravidão o valor de 3 mil reais que ficariam com os médicos, após o repasse da maior parte dos vencimentos para o governo cubano, gostaria de saber se o Presidente eleito também considera escravidão e condições desumanas o trabalho dos professores brasileiros, sabendo-se que o piso nacional para 40 horas de trabalho será de 2.455 reais em 2019.

Seria bom também perguntar a médicos que são credenciados pelos planos de saúde aqui no Brasil (e não são poucos), quanto o paciente paga pela consulta, quanto fica com os médicos e quanto vai para a empresa que comercializa a saúde. Muitas dessas empresas, inclusive, até pouco tempo patrocinavam campanhas eleitorais e, mesmo com a mudança da lei, certamente ainda patrocinam como “pessoas físicas”. Vez por outra ocorrem protestos de médicos pelas migalhas que recebem das agências dos mascates da saúde. Um pronunciamento oficial do Presidente eleito a esse respeito seria bem-vindo.

E já que Bolsonaro falou em “escravidão”, o que o seu governo fará em relação às denúncias de trabalho escravo no meio rural brasileiro? Toda hora ele fala em acabar com o Ministério do Trabalho. Qual foi a posição dele, como deputado, ao projeto do Temer que “flexibilizava” o conceito de “trabalho escravo”? O que esperar, em relação a isso, de um Ministério da Agricultura entregue a uma representante do agro-negócio?

Em relação aos médicos, o governo cubano já se manifestou oficialmente, atribuindo a saída dos profissionais às  “declarações ameaçadoras e depreciativas feitas pelo Presidente eleito”. Todas as declarações irresponsáveis de Bolsonaro estão tendo retornos desastrosos, seja no comércio externo, na diplomacia e, agora, no caso dos médicos cubanos. Os médicos cubanos, desde sempre, foram alvo de hostilidades, preconceitos e até de ataques xenófobos por parte não apenas  de seus colegas brasileiros. Na época da chegada dos cubanos, até uma jornalista brasileira, chamada Micheline Borges, cheia de raiva, preconceito e racismo, chegou a afirmar:

“Me perdoem se for preconceito, mas essas médicas cubanas tem uma Cara de empregada doméstica. Será que são médicas mesmo??? Afe que terrível. Médico, geralmente, tem postura, tem cara de médico. Se impõe a partir da aparência… Coitada da nossa população. Será que eles entendem de dengue? E febre amarela? Deus proteja O nosso Povo!” (Eventuais incorreções gramaticais foram mantidas na citação, pois a mesma foi extraída “in natura” da postagem da jornalista).

A jornalista fez as declarações públicas em sua página no Facebook e prosseguiu nos assaques contra os cubanos. Mas a visão da jornalista é compartilhada por muitos daqueles que apoiam Bolsonaro. Os médicos cubanos “não serviram” para o Brasil, mas vão prestar os seus serviços em outros países. Enquanto isso, quem arranjou todo o problema por suas declarações irresponsáveis terá que vislumbrar um outro modo de cumprir o dispositivo constitucional que garante o acesso dos brasileiros à saúde. O “Mais Médicos” já virou “Menos Médicos” e, acreditem, não foi culpa do Temer. E pensar que o pesadelo ainda vai começar!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s