A VOLTA DA EDÍLIA

edília emc“Os livros de história que não tragam a verdade sobre 64 precisam ser eliminados”. (General Aléssio Ribeiro Souto, da equipe de Bolsonaro).

Edília Coelho Garcia foi, na época da ditadura militar, a Presidente de um órgão denominado “Comissão Nacional de Moral e Civismo”. O órgão, ligado ao MEC, atuava como um censor na escolha de livros didáticos, vetando tudo o que fosse considerado “subversivo”, “alheio aos princípios morais” ou aos “princípios cívicos”. Era o tempo do AI-5, do banimento de professores e da retirada do ensino da Filosofia das escolas. Também era o tempo da Lei 5692/1971, que retirou a História e a Geografia dos currículos, incorporando-as em uma miscelânea sob o rótulo de “Estudos Sociais”. Era o tempo de professores polivalentes, “especialistas em generalidades”, que jamais aprofundavam os assuntos tratados nas aulas e nem podiam, sob qualquer hipótese, despertar nos alunos o senso crítico. A própria Edília Coelho Garcia teve um de seus livros muito utilizados naquela época. Era um livro de Educação Moral e Cívica onde podia-se ler, entre outras barbaridades, que “no Brasil não existia racismo porque a esposa do Pelé era branca.”  O tal livro, que usava até régua de instrução programada para condicionar os alunos, ainda é encontrado à venda nas “estantes virtuais” e pode ser arrematado por menos de 10 reais.

A volta da disciplina Educação Moral e Cívica vem sendo proposta, há tempos, por Bolsonaro e seus aliados. A declaração inquisitorial e fundamentalista do general Aléssio, que fala em “eliminação de livros”, é sintomática e revela os tempos em que o Brasil entrou. A declaração do próprio Bolsonaro, feita na semana passada, de que irá fazer uma “vistoria prévia” nas provas do ENEM, algo nunca ocorrido desde a criação da prova em 1998, mostra que a censura está voltando. A interferência na escolha de livros didáticos, já acenada por Bolsonaro, além do projeto “Escola Sem Partido”, que cala os debates e as críticas nas escolas e coloca o professor como alvo de um ambiente inquisitorial, mostram o tom do que nos aguarda a partir de 2019.

Os ataques à educação, já anunciados, poderão vir, inclusive, de atos que não dependem de aprovação do Legislativo. Orientações quanto ao conteúdo de livros didáticos são atribuições do Executivo e o programa que levou a ultra-direita ao poder fala, textualmente, em “expurgar a ideologia de Paulo Feire.”  Assim, a partir de 2019, é bem provável que “a educação como prática de liberdade” do educador Paulo Feire seja banida das diretrizes e conteúdos de livros didáticos. Tudo indica que a “ideologia de Edília” voltará. Porém, os tempos são outros. Certamente, não faz mais sentido dizer às crianças que no Brasil não há racismo porque a mulher do Pelé é branca. Talvez, com a volta dos livros da dona Edília, haja uma atualização e seja dado como exemplo o fato de ele já ter namorado a Xuxa. Ou então a nova edição da obra da dona Edília poderá dizer que no Brasil não existe racismo porque os negros não são pesados em arrobas e sim em quilogramas, nas mesmas balanças dos brancos…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s