A FOGUEIRA DE JERUSALÉM

israel x palestina“Já a fogueira preparada estava,
e incitavam a chama adormecida…” (Torquato Tasso, Jerusalém Liberada, 1581).

Os primeiros anúncios do futuro governo Bolsonaro em relação à política internacional são simplesmente temerários e desastrosos. Sabemos que ele jamais será um estadista, mas a prudência deveria ser, no mínimo, um balizador para determinadas medidas que poderão trazer consequências graves para o Brasil. A subserviência ao governo Trump já está mais do que definida. O desprezo pelo Mercosul e a ameaça de corte de relações com Cuba, justamente quando o país caribenho já entra em uma fase de transformações e abertura, parecem sinais claros da bajulação a Trump.

Porém, o auge de todo esse desastre que se avizinha foi a declaração irresponsável de Bolsonaro, quando afirmou que, ainda no primeiro semestre de 2019, irá transferir a embaixada brasileira em Israel para Jerusalém, colocando o Brasil em uma situação que poderá trazer seríssimas consequências. A insana declaração poderá trazer estragos irreversíveis no plano comercial, político, cultural e, claro, diplomático. Já chegou a hora de alguém dizer para Bolsonaro que a campanha acabou. Ele parece que está brincando de “Forte Apache”. Também seria bom alguém dizer para ele que ele não é o Trump. E que o Brasil não são os Estados Unidos. Será que ele sofre de mitomania?

Jerusalém, a cidade santa, é um dos alvos do conflito entre israelenses e palestinos. Israel reivindica para si todo território da cidade, enquanto os palestinos reivindicam a parte oriental para a instalação da capital de um futuro Estado Palestino. A comunidade internacional, até mesmo os aliados mais ferrenhos dos Estados Unidos, aguardam uma decisão final para tomarem qualquer medida. No ano passado, Trump transferiu a capital norte-americana para Jerusalém, acirrando ainda mais a fogueira local. A prudência e obviedade do pensamento da comunidade internacional afirma Jerusalém como “cidade santa” e, antes de um acordo, as embaixadas não devem ficar em Jerusalém. Evidentemente, transferir a embaixada para Jerusalém é tomar um partido, de forma oficial, e apenas os Estados Unidos fizeram isso. Ah, e também a Guatemala. Mas Bolsonaro não é Trump e o Brasil não é Estados Unidos. Ah, e também não é a Guatemala.

Os protestos e retaliações já estão chegando. E o governo de extrema-direita ainda nem começou. Hanane Achraoui, em nome do Conselho Central Palestino, afirmou:

A medida é provocativa, ilegal do ponto de vista do direito internacional e apenas desestabiliza a região.”

Os países árabes já estão se manifestando. Dizem que na gíria do direito internacional “mudança na agenda” é um eufemismo para “desconvite”. E ontem o Egito cancelou um compromisso oficial do embaixador brasileiro, o tucano Aloysio Nunes. O cancelamento, sabe-se, já é uma retaliação à declaração irresponsável de Bolsonaro. Empresários brasileiros foram prejudicados com o cancelamento. Uma matéria publicada nesta segunda-feira, 5 de novembro, na Folha de São Paulo, um dos jornais ameaçados por Bolsonaro, diz que a Liga dos Países Árabes enviou uma nota à embaixada brasileira no Cairo, capital do Egito, repudiando as afirmações de Bolsonaro. Nunca é demais lembrar que os países árabes são grandes parceiros comerciais do Brasil e a medida insana do ultra-direitista pode impactar as exportações brasileiras. Bolsonaro está levando nosso país a incitar uma fogueira que arde há décadas, mas que nunca respingou em nosso povo. Isso, graças à manutenção de uma política internacional que, certamente, cometeu erros, mas nunca anunciou-se tão irresponsável e arriscada, sob todos os aspectos. Seria bom o futuro Presidente deixar as brincadeiras de “Forte Apache” para as horas vagas. A decisão, caso se confirme, colocará o Brasil em alerta. Sugiro que, nesse caso, Bolsonaro nomeie seus  filhos para embaixadores em países árabes.

 

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