OS OSSOS DO JÂNIO

ossos do jânioEm 1960, Jânio Quadros era eleito Presidente da República com a maior votação obtida até então na história. Na ocasião, 5.636.623 brasileiros sufragaram o nome de Jânio nas urnas. Os votos dados a Jânio expressavam, acima de tudo, a esperança que se tinha em alguém que, na época, poderia ser chamado de “anti-sistema”. Foi lançado por um pequeno partido, o PTN (Partido Trabalhista Nacional) e acabou recebendo apoio dos grandes. Ele tinha uma agenda anti-corrupção. Dizia que varreria a corrupção do Brasil. “A vassoura ia varrer os corruptos.” Também encarnava uma agenda moralista, que repudiava tanto as brigas de galo como o uso de biquínis. Tipo aquele moralismo apenas no discurso, como estratégia política. Dizia que não precisava de partidos para governar, muito menos do Congresso. Se Adhemar de Barros, seu grande rival, era o “rouba mas faz”, Jânio logo colocou-se como o representante da “honestidade contra a roubalheira.” Jânio sempre quis mostrar independência. Tomou medidas polêmicas no campo internacional, como o reatamento das relações diplomáticas com a antiga União Soviética e a condecoração dada a Che Guevara, ao outorgar-lhe a “Ordem do Cruzeiro do Sul”. Tudo isso, em pleno auge da Guerra Fria. Jânio tomou posse em janeiro de 1961, isolou-se politicamente e, sete meses depois, renunciava, abrindo uma das maiores crises políticas no país. Sucedidas de muitas outras crises…

Quase 60 anos depois, não é difícil encontrar semelhanças entre Jânio Quadros e Jair Bolsonaro: seus quase 58 milhões de eleitores depositam uma grande esperança no recém-eleito. Tal como Jânio, foi lançado por um pequeno partido, o PSL, que acabou tendo o apoio dos grandes. Assim como Jânio, Bolsonaro apresenta-se como “anti-sistema”. Também a exemplo de Jânio,  o discurso moralista conservador e o combate à corrupção foram pontos fortes de sua campanha. Do mesmo modo que Jânio, Bolsonaro apresentou-se como o “soldado da honestidade contra a roubalheira”, mesmo de quem “fez”. E, antes mesmo de tomar posse, Bolsonaro já anuncia que também irá tomar medidas polêmicas no campo internacional. De diferente, o português impecável de Jânio, que falava de improviso e sem agredir as normas da boa gramática. E também os vices. João Goulart, vice de Jânio (porém, eleito separadamente) representava algo bem diferente de Jânio. Enquanto Mourão não deixa de ser “o mesmo do mesmo” de Bolsonaro.

O “custo Jânio Quadros” foi altíssimo e até hoje os brasileiros pagam essa conta. Contas mais terríveis do que as “forças”, talvez “metafísicas”, que o levaram a deixar o governo.  A renúncia de Jânio gerou uma cadeia de crises e golpes políticos em nosso país: de imediato, a crise pela posse de João Goulart, que gerou o golpe do Parlamentarismo em 1961. Sucessivamente o golpe de 1964, que gerou a ditadura que, por sua vez, alimentou grande parte daquilo que, enterrado por algum tempo, acabou sendo exumado para eleger Bolsonaro. Logo ele que falou que “quem procura osso é cachorro”, referindo-se à angústia dos parentes de presos políticos desaparecidos. Se pararmos e refletirmos um pouco, podemos admitir que a eleição de Bolsonaro também começou com a renúncia do Jânio. Ossos exumados e de tristes memórias vieram à tona. E os “cães danados” já estão salivando como Pavlov gostaria de ver…

 

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