E AGORA JOSÉ?

sérgio moro o estado de são paulo“E agora José? a festa acabou…” (Carlos Drummond de Andrade)

Em novembro de 2016, o jornal O Estado de São Paulo publicou uma entrevista com o juiz Sérgio Moro em que o magistrado, categoricamente, afirmou que jamais ocuparia qualquer cargo político. Na ocasião, disse Sérgio Moro sobre a possibilidade de ocupar algum cargo no Executivo:

“Jamais. Sou um homem de Justiça e, sem qualquer demérito, não sou um homem da política. Acho que a política é uma atividade importante, não tem nenhum demérito, muito pelo contrário, existe muito mérito em quem atua na política, mas eu sou um juiz, eu estou em outra realidade, outro tipo de trabalho, outro perfil. Então, não existe jamais esse risco.”

Em 2017, em uma palestra em Harvard, Sérgio Moro admitiu que o crime de “caixa 2” é pior do que o crime de corrupção. Disse o magistrado em sua palestra:

“Temos que falar a verdade, a Caixa 2 nas eleições é trapaça, é um crime contra a democracia. Me causa espécie quando alguns sugerem fazer uma distinção entre a corrupção para fins de enriquecimento ilícito (caixa 2) e a corrupção para fins de financiamento ilícito de campanha eleitoral. Para mim a corrupção para financiamento de campanha é pior que para o enriquecimento ilícito.”

Em maio de 2017, Onyx Lorenzoni, futuro chefe da Casa Civil do governo Bolsonaro, confessou, e chegou a gravar um vídeo, que havia recebido 100 mil reais de “caixa 2”. Assistam ao vídeo de Lorenzoni confessando o seu crime:

 

Ontem Sérgio Moro, contradizendo suas próprias afirmações, aceitou o convite para ser ministro da Justiça no governo Bolsonaro. Um cargo político. De indicação política. De confiança política. Sim, ele entrou para a política. Ou já estava nela.

Mas Sérgio Moro terá como colega alguém que ele acha mais criminoso do que o Lula. Sim, e de acordo com suas próprias palavras. Moro condenou Lula por corrupção. Mas ele próprio disse que “caixa 2” é pior do que corrupção. E Onyx Lorenzoni confessou ter praticado o crime que Moro considera pior do que corrupção. E eles vão estar lado a lado, no mesmo governo. E agora José?

Claro que pesarão, para sempre, dúvidas, questionamentos e suspeitas sobre se as decisões de Moro tiveram ou não caráter político. Isso ele nunca admitirá. Foi tudo “técnico”. Vazar para a Rede Globo, de forma irregular, uma conversa telefônica, foi “técnico”. Divulgar na semana da eleição o conteúdo da delação de Palocci foi “técnico”. Nunca querer ouvir Tacla Duran foi “técnico”. Bolsonaro admitiu que a atuação de Moro contribuiu, e muito, em sua eleição. Isso todos já sabiam. Aliás, justiça seja feita: Lorenzoni e Bolsonaro foram sinceros em suas afirmações. O futuro chefe da Casa Civil em admitir o crime de “caixa 2”. E o futuro Presidente em admitir que Moro colaborou com sua eleição. Resta saber se Sérgio Moro também será igualmente sincero ao dizer o que pensa de ter que estar na mesma equipe, no mesmo grupo de trabalho, na mesma mesa, com um criminoso pior do que o Lula. E agora José? Ao contrário do célebre poema de Drummond, a festa ainda vai começar…

 

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