A SALA VERMELHA

tortura militarA “sala vermelha” parece estar funcionando. Infelizmente, não estamos falamos de uma dependência hospitalar destinada ao atendimento de pacientes em estado grave. Estamos falando de denúncias feitas por presos que estariam sofrendo torturas nas dependências do quartel da 1ª Divisão do Exército, na Vila Militar. Ali, segundo depoimento de alguns presos, existe uma dependência, a “sala vermelha”, destinada a interrogatórios violentos e torturas contra os presos. Vivemos talvez o período mais conturbado da história política brasileira e o regime democrático nunca foi tão ameaçado. Isso, segundo a própria imprensa internacional. Num momento de radicalização, avanço da extrema-direita e favoritismo de um candidato militar que defende abertamente a tortura, ameaçou fuzilar opositores e demoniza o vermelho, a existência de uma “sala vermelha”, dentro de uma unidade militar, destinada à tortura de presos, torna-se emblemática e faz nosso calendário político retroagir 50 anos e voltarmos aos “anos de chumbo”.

A segurança do Estado do Rio de Janeiro está sob intervenção militar há 8 meses e, como sabemos, hoje já não se pergunta mais se ela deu certo ou errado. Hoje, a pergunta que se faz é: por que a intervenção não deu certo? O Comando Militar do Leste responde pelo que deveria ser a segurança da população que, sabemos, não sente-se segura. Tiroteios e todo tipo de violência ocorrem todos os dias e, depois de tanto tempo em nosso estado, as Forças Armadas parecem já terem percebido que a questão da segurança é muito mais complexa do que aquilo que a turma do “tiro, porrada e bomba” costuma afirmar. Durante todo esse tempo, o gabinete da intervenção quase não dá esclarecimentos. Quando se pronuncia, geralmente é de forma vaga. Porém, as denúncias de torturas devem ser apuradas de maneira eficiente e dentro da lei. Faltando dois meses para o fim da intervenção, se essas denúncias não tiverem resposta, as Forças Armadas parecerão que aceitam um ambiente de regime de exceção. Temos uma Constituição em vigor, que vem sobrevivendo bravamente a muitos ataques. E ela define que “tortura é crime”. E, quando praticada por agentes do Estado, a situação é ainda mais grave.

As denúncias de torturas praticadas na Vila Militar foram feitas por quatro presos que dizem terem sido espancados com pedaços de madeira e recebido chicotadas com fios elétricos. Dentre os denunciantes, encontra-se um menor. Os relatos da barbárie incluem até a denúncia de que militares teriam colocado uma “camisinha” em um cabo de vassoura para “aterrorizar” os presos. O que chama ainda nossa atenção é que, em seus depoimentos, os presos dão a mesma versão, o que reforça a denúncia. Exames médicos feitos na audiência de custódia comprovaram as lesões relatadas pelos presos. Segundo a juíza Amanda Azevedo Ribeiro Alves, “a conduta dos militares é totalmente reprovável e absurda, devendo ser investigados e punidos, caso haja comprovação do abuso de poder”.

Lamentavelmente, a intervenção foi mesmo uma “jogada de marketing” de Temer, em um momento de delírio em que ele chegou a pensar em ser candidato. Ele jogou os militares em uma “furada”, em uma intervenção que não foi precedida de planejamento e nem dotada de recursos. Pezão já não responde nem por ele. Dois jovens militares morreram. E o povo do Rio de Janeiro, em todo esse tempo, nunca sentiu-se mais seguro. A apuração rigorosa, isenta e sem corporativismo das denúncias é fundamental para que  essa mácula não seja acrescida ao histórico da desastrada intervenção. Ou entraremos, não se sabe até quando, na “sala vermelha” do estado de exceção.

FASCISTAS DALTÔNICOS

fascistas daltônicos“Esta merda vermelha não nos representa!” (Manifestante bolsonarista, em frente à Catedral de Brasília, confundindo o “outubro rosa” com o “vermelho comunista”).

“Bota verde e amarelo!” (Manifestante bolsonarista sugerindo a mudança da cor da iluminação da Catedral de Brasília que divulgava o “outubro rosa”).

Há episódios, ao mesmo tempo risíveis e lamentáveis, que marcaram a repressão na época da ditadura militar, especialmente em relação à arte e à cultura em geral. Não falo apenas da censura a letras de músicas, livros e jornais. Aconteceram verdadeiras operações da polícia para fazer busca, apreensão e até mesmo prisões. Mas a paranoia era tanta que, em 1965, agentes do DOPS foram ao Teatro Municipal de São Paulo para prender ninguém menos do que o dramaturgo Sófocles, um grego que havia morrido no século V antes de Cristo, acusado de ser o autor de uma peça “comunista”. O pessoal do teatro avisou aos agentes que seria um pouco difícil prender Sófocles. Quem sabe uma sessão espírita resolvesse o problema?

Mas a paranoia da cor também é antiga. Já invadiram a casa do Ferreira Gullar em busca de material “subversivo e comunista”. Eles pensavam que um livro de capa vermelha fosse o “Livro Vermelho” de Mao Tsé Tung. Mas era apenas um exemplar da Bíblia. Não satisfeitos, desconfiaram de outro livro sobre “Cubismo”. Pensavam que fosse algum livro sobre Cuba. Os agentes nem imaginavam que pudesse se tratar de algum conteúdo referente à arte de Pablo Picasso.

E a cromofobia voltou. Até com daltonismo. Parece que os fascistas ficaram daltônicos e já estão confundindo vermelho com rosa. Estamos no “outubro rosa”, a campanha de prevenção ao câncer de mama em todo Brasil. Assim, monumentos que são ícones nas diversas cidades do país, costumam estampar a cor rosa, numa alusão à campanha. Em Brasília, a Catedral foi iluminada na cor rosa para lembrar a campanha. No que, imediatamente, os manisfestantes pró-Bolsonaro se manifestaram confundindo rosa com vermelho e pedindo o verde e amarelo e dizendo que “aquela merda” não os representava.

Como o líder deles já falou que, se eleito,  vai “metralhar os vermelhos”, espero que se isso acontecer ele não esteja com daltonismo, como seus séquitos, para que ao menos a Catedral de Brasília seja poupada da sanha fascista.

CHAMPINHA E O PAI DE LIANA

pai de liana“Quem vota no Bolsonaro não merece meu respeito. É falta de caráter. Eu até tenho raiva do Bolsonaro, mas eu tenho mais raiva de quem vota nele. Quem vota no Bolsonaro mostra falta de caráter, falta de cultura, falta de conhecimento. Falta, no mínimo, de leitura de história. Sabe, eu não sou um judeu religioso, mas, por exemplo, essa mistura que tem acontecido de política com fé. No final das contas, quando o cara vai na igreja de domingo, na mesquita, na sinagoga, no terreiro, qualquer coisa que o valha, no fundo todo mundo está buscando a mesma coisa por caminhos diferentes. É um Deus, uma força maior, mas o destino é o mesmo. É uma coisa de respeito ao próximo, ética, o objetivo é o mesmo. Agora, eu acho inadmissível que a pessoa vá na igreja, coma a hóstia e, quando sai, dali pra frente, da porta para fora, é um filho da puta. É uma coisa antagônica. E faço essa comparação porque no fundo é isso. O cara quer ter essa pureza evangélica, judaica, ou seja lá o que for, e é um canalha. Porque para mim quem vota no Bolsonaro é como ele: canalha”. (Ari Friedenbach, pai de Liana Friendenbach, estuprada e brutalmente assassinada, junto com seu namorado em novembro de 2003 pelo delinquente Roberto Aparecido Alves Cardoso, o “Champinha”, em entrevista ao site “Ponte Jornalismo”, em 23 de outubro de 2018).

Ser vítima de violência, por mais brutal que ela seja, não significa que alguém tenha que virar um fascista. Ou um bicho que só age pelo instinto. As declarações contundentes que reproduzimos acima foram feitas em uma entrevista pelo pai de uma jovem que foi brutalmente assassinada pelo bando chefiado, à época, por um menor delinquente conhecido como “Champinha”, em um caso que serviu de paradigma para a turma do “bandido bom é bandido morto”. Ninguém como Ari Friedenbach sofreu tanto na pele o que é ser vítima da violência, em um sofrimento que jamais cessará. Mas nem por isso ele virou um fascista. Nem por isso ele entrou para o esquadrão da morte. Mas nem por isso ele se alistou no “Exército Bolsonaro”.

Ari Friendenbach diz, na entrevista, que politicamente se define com uma pessoa de visão social. Diz que “ser esquerda é ser uma pessoa que tem uma visão social, que não aceita desigualdade, que não aceita a pirâmide social que a gente tem no Brasil.” Ari Friedenbach acrescenta que tem uma vida tranquila e até privilegiada, não precisando da política para viver e que podia, simplesmente, ir para casa e dizer o “foda-se”. Ou virar um louco e matador, como muitos outros que sofreram com a violência. Ele também reclama da exploração do caso da filha por grupos apoiadores de Bolsonaro. Ele tenta ainda alertar os “pobres de direita” que apoiam Bolsonaro. Com situação até privilegiada em relação à maioria, como ele mesmo diz, ele fala como tentou alertar um pobre que apóia Bolsonaro:

“Você é pobre de direita. Nunca vi isso. Se enxerga. Porque você hoje vê pobre de direita e eu falo pra chocar: Se meu filho for abordado, a polícia vai chamar de ‘sim, senhor’. Eu sou rico. Ele não anda na periferia. Eu não tô preocupado comigo, eu tô preocupado com você, que é pobre. Seu filho que vai levar tapa na cara. A Rota [Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar, tropa de elite da PM de SP] vai matar o teu filho, não o meu.”

Ari Friendenbach ainda acrescenta como as posições da deputada Maria do Rosário, aquela a quem Bolsonaro disse que só não a estupraria porque ela “não merecia”, foi distorcida e que ela jamais defendeu bandido:

“Ah, porque a [deputada do PT] Maria do Rosário defende bandido! Não é. Eu conheço ela muito bem, ela nunca defendeu o Champinha nem estuprador nenhum. Isso é uma grande distorção de tudo que ela falou. O tempo todo eu sou amigo dela e ela nunca falou isso! Muito pelo contrário.”

A entrevista, como um todo, é uma resposta àqueles que falam em mais violência para combater a violência. O pai de Liana é um grande exemplo de que o ódio não pode ser o caminho pelo qual, através da democracia, venha a ser expedido um passaporte para o fascismo. Seria bom ler a entrevista completa e, para quem se interessar, aí vai o link:

https://ponte.org/votar-no-bolsonaro-e-falta-de-carater-dispara-advogado-que-teve-filha-estuprada-e-morta/

Ainda há tempo para ouvirmos a voz de quem sofreu na pele com a violência e nem por isso entrou no túnel fascista, mesmo não sendo fascista. Marcelo Freixo, deputado federal eleito pelo PSOL e que teve um irmão brutalmente assassinado, é especialmente odiado pelos fascistas e pela direita em geral, sendo acusado por eles de “defender bandidos”. Ao contrário, ele sempre combateu bandidos perigosíssimos conhecidos como “milicianos”. Sua vida correrá risco para sempre, mas ainda assim os fascistas o difamam. Certamente por ele não ter se transformado em um deles.  E agora, o que dirão do pai da Liana? Que ele também defende bandidos? Não, ele apenas não é um fascista…

 

 

 

 

 

 

UFF ANTIFASCISTA

uff antifascistaSerá que uma bandeira repudiando o fascismo, apenas isso, pode ser considerada como propaganda eleitoral? E se for uma bandeira que, ao invés de repudiar o fascismo, exaltasse a democracia, também seria considerada propaganda eleitoral? A democracia e o antifascismo não seriam “cláusulas pétreas” de nossos valores políticos?

A atitude do TRE, de mandar retirar uma bandeira da Faculdade de Direito da UFF (Universidade Federal Fluminense) que trazia apenas a inscrição “Direito UFF – Antifascista” foi vista como muito estranha por alunos e professores da instituição. A bandeira não trazia qualquer menção a nome de candidato, partido político ou número. Então, como poderia se considerada “propaganda eleitoral irregular”? A bandeira foi retirada, por ordem dos fiscais, na noite da última terça-feira, dia 23. Segundo denúncias, estaria sendo realizado um evento político na universidade, o que não é verdade. Ao contrário, no momento da chegada dos fiscais, as aulas transcorriam normalmente e nenhum evento acontecia. Apenas, a faculdade funcionava e havia uma bandeira antifascista na fachada do prédio. Antifascismo, aliás, que deveria ser a palavra de ordem de todo aquele que luta pela democracia. Para a Justiça Eleitoral, no entanto, a bandeira seria uma propaganda contra Bolsonaro.

O mais interessante de tudo isso é que se uma bandeira que apenas repudia o fascismo, e nada mais, é considerada, segundo a Justiça Eleitoral, uma propaganda contra Bolsonaro, então a própria Justiça Eleitoral está assumindo que Bolsonaro é fascista. O que nos faz concluir então que a Justiça Eleitoral assumiu que há um  candidato fascista na disputa, e esse é Bolsonaro.

A 199ª Zona Eleitoral, responsável pela operação, emitiu uma nota informando que havia um “evento” no local, o que justificaria a operação. Porém, os fiscais não presenciaram nenhum evento e acabaram interpretando o “Antifascismo” estampado na bandeira como propaganda eleitoral. A ação revoltou estudantes e professores. A nota emitida pela Justiça Eleitoral também não fazia qualquer referência à retirada da bandeira, que acabou sendo recolocada no prédio.

O grande problema, no entanto, é uma dúvida que temos, e que receamos que esteja se tornando certeza: as ameaças feitas ao Judiciário pelo filho de Bolsonaro e pelo coronel Carlos Alves estariam, de alguma maneira, intimidando a Justiça Eleitoral? Ontem, por exemplo, o próprio Haddad foi impedido de dar uma entrevista à Globo, já que Bolsonaro, por livre e espontânea vontade, não quer ir ao debate. Tudo muito estranho. Mais do que retirar uma bandeira antifascista. Mesmo porque essa já foi recolocada. Mas muita coisa tem que ser recolocada em seus lugares. A começar pela severidade, coragem e mãos pesadas do Judiciário, que afirmou “não ter conseguido ver” o caixa 2 do “Zapgate”. Mas foi rápido e severo para ver e retirar uma bandeira que sequer mencionava nome de candidato ou partido. Estranho, muito estranho. Até porque começou com um soldado e um cabo. Depois, foi a vez do coronel… Mais do que nunca, temos que empunhar a bandeira antifascista!

SILÊNCIO E MORDAÇA

mordaça“Por que não podíamos fazer pergunta? Eu achei humilhante e por isso estou saindo do programa. Foi um prazer trabalhar aqui por 10 anos.” (Juremir Machado, jornalista da Rádio Guaíba, de Porto Alegre, ao ser impedido de fazer perguntas a Bolsonaro em uma “entrevista”, em 23 de outubro de 2018).

Imaginem três jornalistas que são convocados para participarem de uma entrevista. Porém, durante a entrevista eles não podem fazer perguntas. Teriam que ser apenas meros ouvintes. O silêncio dos “entrevistadores” foi uma condição que o candidato da extrema-direita, Jair Bolsonaro, impôs para dar uma “entrevista” à Rádio Guaíba de Porto Alegre, onde apenas o âncora do programa, Rogério Mendelski, poderia fazer perguntas. E, ao que tudo indica, perguntas já combinadas.

A ausência total de Bolsonaro em debates, sem ter que enfrentar o contraditório, sem ter que explicar suas “propostas”, que limitam-se a clichês agressivos e de apelos emocionais, as entrevistas negociadas em que não há opositores ou perguntas que o cobrem, vem sendo a tônica em sua campanha. Debates foram cancelados em emissoras de TV pela deliberada ausência do candidato, quebrando uma tradição de quase 30 anos de debates entre os candidatos a Presidente da República no segundo turno.

Se a eleição já está ganha, como ele e seus séquitos afirmam, então por que não debater? Porém, ontem a coisa foi muito além: nem mesmo em uma simples entrevista para uma rádio, sem ter seu opositor “in loco”, podendo consultar escritos sem precisar escrever na mão e no conforto de sua casa, poderia ter perguntas dos jornalistas . A lei da mordaça já vigora na prática. Fico imaginando, no caso de sua eleição, como seria uma entrevista coletiva, se é que ela existiria. Talvez ele só desse entrevista para a Agência Nacional.

Ninguém, nem mesmo seus fanáticos e hipnotizados eleitores são capazes de expor sequer uma única proposta de Bolsonaro, para além dos habituais clichês agressivos e ofensivos. Porque nem eles as conhecem. Tudo se resume a “ódio ao PT”, “Brasil acima de tudo”, “Vamos metralhar a petralhada” e “Deus acima de todos”. Impor o silêncio de jornalistas como condição para uma “entrevista” é falar “o mesmo do mesmo para os mesmos”. Assim, ele quer que as urnas lhe passem um cheque em branco. Que custará caro, muito caro aos seus signatários.

Receio que aquilo que eles tanto temem e sempre chamaram de “Venezuela” já esteja, de fato, acontecendo no Brasil. Como acima de tudo, inclusive do Brasil, só “Deus”, então, ele só deverá dar satisfações ao “Pai Eterno”. E as entrevistas com “Ele” serão muito, muito mais agradáveis. E, claro, quem duvidar será “banido e metralhado”. E não terá sequer “advertência” para nenhum “garoto”, ainda que com “apenas” 34 anos de idade.

A PÁTRIA DESBOTADA

a pátria desbotada“Esses marginais vermelhos serão banidos de nossa Pátria!” (Jair Bolsonaro, em raivoso discurso transmitido a seus seguidores na Avenida Paulista, em 21 de outubro de 2018).

“Minha bandeira jamais será vermelha!” (Palavra de ordem dos ultra-nacionalistas, cromófobos e fascistas seguidores de Bolsonaro).

Imaginem por exemplo se, na Argentina, alguém falasse que iria “banir os marginais prateados do país”. Ora, a palavra “Argentina” origina-se do latim “Argentum”, que significa prata. Daí, o símbolo químico da prata ser Ag. O nome do país vizinho originou-se exatamente daí. Os colonizadores espanhóis encontraram o metal precioso em grande quantidade nas terras portenhas. Logo, se Argentina é prata, então os argentinos são prateados e, assim, se alguém na Argentina disser que vai exterminar ou banir os prateados daquele país, certamente um genocídio estaria sendo anunciado.

No último domingo, dia 21, o candidato fascista Jair Bolsonaro, usando o discurso igualmente fascista e cromófobo que tomou conta de sua campanha, ameaçou banir do Brasil aqueles que chamou de “marginais vermelhos”. Em outro discurso igualmente raivoso, o líder fascista, ensandecido, também já havia falado que iria “metralhar os vermelhos”. Sua claque, a todo momento grita que a bandeira de nosso país jamais será vermelha. Será que eles conhecem a origem do nome “Brasil”?

 Caesalpina echinata é o nome da árvore do pau-brasil, de onde procede o nome de nosso país. A árvore, desde a Idade Média já era explorada pelos europeus e era muito valorizada porque do miolo de seu tronco extraía-se uma tinta vermelha empregada nas tinturarias (estabelecimentos que tingiam os tecidos). A valorização do pau-brasil remonta a uma época em que ainda não existiam corantes químicos sintetizados e, assim, para tingir os tecidos de vermelho, o pau-brasil era o único recurso. Foi essa tinta que garantiu o glamour da nobreza de vários países. Os cartógrafos e navegadores medievais já imaginavam a existência de um “Bosque Vermelho”, situado entre a Irlanda e o arquipélago dos Açores, que seria a região onde mais existiriam exemplares da árvore e, por isso, muito rica. Certamente, se vivesse naquela época, Bolsonaro mandaria bombardear esse bosque, mesmo sendo ele apenas imaginário. E é exatamente daí que vem a palavra “Brasil”: vermelho, cor de brasa. Então, Brasil é vermelho e, por conseguinte, os brasileiros são, etimologicamente, vermelhos. Ao ameaçar banir os vermelhos do Brasil, o candidato fascista está ameaçando a todos pois, por definição, todos os brasileiros são vermelhos. O que ele vai querer que “seus professores de história” falem no ensino à distância que pretende implantar? E se os professores explicarem o significado da palavra “Brasil”, seriam banidos pelo “Escola Sem Partido” por propaganda “comunista”?

Em um eventual governo Bolsonaro, será que a “rubrofobia” o levaria a querer mudar o nome de nosso país? E, já que ele se preocupa tanto com as crianças, qual seria o destino do Chapeuzinho Vermelho? E o Papai Noel, será que ainda poderia continuar fazendo a festa da criançada? Sabemos ainda que Bolsonaro não tem nenhum compromisso com o meio ambiente e, assim, tememos que ele decrete a extinção definitiva das árvores de pau-brasil que ainda sobrevivem.  Brincadeiras à parte, a coisa é séria, muito séria. Com “a faixa quase na mão”, como ele mesmo já disse, e assim se sente, talvez fosse o momento exato para moderar o tom agressivo de seu discurso. Mas essa não parece ser, de modo algum, a sua índole.

O Judiciário, ameaçado e achincalhado por seu filho, parece ter capitulado e curvou-se ao autoritarismo de fato. A “rigorosa” Procuradora Raquel Dodge reagiu sutilmente à humilhação de Eduardo Bolsonaro quanto ao fechamento do STF por “dois meganhas sem jipe”. “Os índios não terão 1 centímetro de terra”. “O Brasil será retirado do Acordo de Paris e não se comprometerá para evitar o aquecimento global”. “A Amazônia não será nossa”“Agricultura e meio ambiente formarão um único Ministério, tendo à frente um ruralista.” “A caça será liberada”. O Brasil parece já estar ficando pálido, desbotado. E os “vermelhos” ainda nem foram fuzilados…

 

 

CHAMEM OS MEGANHAS!

“O STF vai ter que pagar para ver. Se quiser fechar o STF, sabe o que você faz? Você não manda nem um jipe. Manda um soldado e um cabo.” (Eduardo Bolsonaro, deputado federal e filho do candidato da extrema-direita a Presidente da República, em vídeo publicado em 21 de outubro de 2018).

“Essa declaração, além de inconsequente e golpista, mostra bem o tipo (irresponsável) de parlamentar cuja atuação no Congresso Nacional, mantida essa inaceitável visão autoritária, só comprometerá a integridade da ordem democrática e o respeito indeclinável que se deve ter pela supremacia da Constituição da República.” (Celso de Mello, Ministro do STF, em resposta a Eduardo Bolsonaro).

Chamem o cabo e soldado! Esse negócio de “chame o general!” é coisa do passado. E, para determinadas medidas, como fechar o Supremo Tribunal Federal, bastam apenas dois “meganhas” do Exército. Alguém ainda tem dúvida de qual candidatura representa um risco para as instituições democráticas? A fala de Eduardo Bolsonaro, ridicularizando e ameaçando o STF, é um crime contra a ordem democrática e o Estado constitucional. Ele até ameaça juízes de prisão. Não foi uma fala tresloucada, vinda de um militante sem qualquer influência política, mas de um deputado federal, filho do candidato até agora favorito para vencer a eleição presidencial.

Será que é mesmo com o PT que o Brasil corre o risco do que chamam de “venezuelização”? Se uma ofensa a Sérgio Moro, juiz do “baixo clero da Magistratura”, já causa um frenesi entre os “moralistas” e “legalistas”, imaginem um insulto à Corte máxima do Judiciário brasileiro? Insulto vindo de um fascista. Filho de outro fascista com grandes chances de tornar-se Presidente da República. O que dirão os “moralistas sergiomoristas”?

Agora, fica a dúvida: qual o STF que temos? Será que aquele mesmo STF, que teve a coragem de criar uma jurisprudência que fere a própria Constituição, referente à prisão em segunda instância, terá a mesma coragem para tomar medidas legais, cabíveis e igualmente rigorosas sobre o escândalo do “Zapgate”? Depois da ameaça e achincalhe feito à Corte pelo filho de Bolsonaro, a resposta do Ministro Celso de Mello não representa quase nada, dada a gravidade da ofensa, que também é uma ameaça. E o vídeo foi tornado público exatamente no momento em que a eleição está sob suspeita e o Judiciário tem que se posicionar sobre o “Zapgate”.

O que não estão faltando são avisos. Principalmente vindos do lado de quem provavelmente estará no poder. Mas nós também estamos avisando. A coisa não começou agora. Infelizmente o STF não se deixou respeitar. Deveria, desde o início, repelir qualquer ameaça, e não apenas algumas. Teve de tudo: desde promotor fazendo “oração e jejum espiritual” até general ameaçando o Supremo. A Corte, nos dois casos, capitulou. Pior do que uma decisão equivocada, que poderá até ser reformada, é uma decisão que aparenta ter sido tomada “no cabresto”, sob ameaça. Como foi, por exemplo, a decisão desse mesmo Supremo, hoje achincalhado pelos Bolsonaros, ao livrar Aécio Neves no ano passado. O clima que vem sendo vivido hoje é fruto de todo um processo, que está levando o país ao autoritarismo. Quando um deputado se arvora no direito de dizer o que disse, em pleno ambiente que vivemos, é porque o autoritarismo já está implantado. Só falta ser formalizado.

A ameaça ao STF, como falamos, não foi a primeira. Na lógica golpista, se o STF ficou com medo de um promotor que faz jejum. Se ficou com medo do Senado no caso Aécio. Se ficou com medo do general que o ameaçou, então podemos falar qualquer coisa para rebaixá-lo. As senhoras Carmen Lúcia e Rosa Weber têm grande culpa nisso. Uma ficou com medo do Senado, a outra do general. E agora? Também ficarão com medo do deputado que é “filho de um mito“?

Mas a fala de Eduardo Bolsonaro pode ter outro significado, ainda mais grave: ao dizer que “basta um soldado e um cabo para fechar o Supremo Tribunal Federal”, ele sabe que o assessor de Dias Tóffoli, Presidente da Casa, é o general Fernando Azevedo e Silva. Assim, se um soldado e um cabo forem fechar o STF, tendo um general como assessor, isso já seria uma justificativa para o golpe: “Quebra da hierarquia militar!” Então, o resto vocês já sabem. 1964 é logo ali. E não vai ser por falta de aviso. Não de nossa parte. Eles é que já estão falando há tempos.