USTRA, BODIN E BOSSUET

bossuet“Eu fui à Penha, fui pedir à Padroeira para me ajudar.” (Brasil Pandeiro, Assis Valente, 1940, gravado pelos Novos Baianos em 1972).

“Tenho certeza que não sou o mais capacitado, mas Deus capacita os escolhidos.” (Jair Bolsonaro, em culto na Igreja Assembleia de Deus Vitória em Cristo, na Penha, Rio de Janeiro, com seu aliado Silas Malafaia, em 30 de outubro de 2018).

Silas Malafaia não é apenas o ultra-reacionário pastor dono da igreja Assembleia de Deus Vitória em Cristo. Ele tem outros poderes. E não são paranormais. Ele conseguiu até mudar a rua da feira dos domingos, na Penha, acabando com uma tradição de décadas. Tudo por causa de sua igreja.  Mas o “mercado da fé” não é o único negócio de Malafaia. Ele tem “tenebrosas transações” e foi indiciado pela Polícia Federal na Operação Timóteo por lavagem de dinheiro e corrupção, em um esquema de cobrança de royalties de exploração mineral. A “mamata”, nesse caso, foi de 100 mil reais. Teria sido em nome do Senhor?

Silas Malafaia sempre foi militante político. Ele lança candidatos, os apóia e faz campanha nas igrejas das quais é dono. Em todos os seus templos de exploração da fé, os cultos sempre foram recheados de campanha política. Seu candidato a Presidente da República era João Dória. Mas acabou, junto com o “ex-prefeito da suruba”, apoiando Bolsonaro.

Ontem, em uma de suas primeiras aparições públicas depois de eleito, Bolsonaro participou de um culto na igreja de Malafaia, na Penha, por volta das 20 horas. Pela manhã, um intenso tiroteio foi ouvido naquela região. Será que agora esta será a senha oficial para anunciar a sua visita?  No culto, Bolsonaro fez lembrar a “teoria do direito divino”, ao afirmar que “se considera o escolhido de Deus”. Isso, mesmo com a Constituição afirmando que “todo poder emana do povo”. Também reconheceu não ser o mais capacitado, mas que “Deus o capacitaria”. Bolsonaro afirma ser católico, embora seu terceiro casamento tenha sido na igreja de Malafaia. Por isso, acredito que ontem, em sua visita ao bairro da Leopoldina, ele não tenha se esquecido da igreja que dá nome ao bairro.

Tudo leva a crer que o discurso fundamentalista religioso será a base de seu governo. Oração em rede nacional após o anúncio da vitória. Entrevistas enfatizando apelos e valores religiosos. Participação em culto com o rebanho de Malafaia. Enquanto isso, professores, jornalistas e movimentos sociais são ameaçados sem eufemismos.  Mas ele só terá que dar satisfações a Deus, por quem foi o escolhido. E, certamente, a emenda proposta pelo cabo Daciolo terá o seu apoio. Sem esquecer que a sua cabeceira ganhará mais livros. Doravante, Jean Bodin e Jacques Bossuet farão companhia ao torturador Ustra.

 

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