A MÍDIA COOPTADA

mídia comprada“Totalmente favorável à liberdade de imprensa. Temos a questão da propaganda oficial do governo que é uma outra coisa.” (Jair Bolsonaro, Presidente da República eleito, em entrevista ao Jornal Nacional em 29 de outubro de 2018).

As reportagens investigativas feitas pelo jornal Folha de São Paulo foram alvo de críticas por parte de Jair Bolsonaro em sua entrevista ontem no Jornal Nacional. Ao ser perguntado se, conforme havia afirmado, ele “acabaria” com o jornal, Bolsonaro afirmou que aquele jornal já se acabou por si próprio, referindo-se ao que chamou de “mentiras” que foram publicadas, especialmente a respeito de uma ex-funcionária sua. Porém, o que chamou a atenção foi uma espécia de “ameaça velada”. Ao dizer que “é totalmente favorável à liberdade de expressão”, sua resposta poderia ter terminado por aí. No entanto, ele acrescentou a “questão da propaganda oficial do governo” e deixou claro que, em seu governo, a Folha de São Paulo não terá apoio (leia-se: verbas) oriundas de propagandas oficiais do governo. E é aí que entra a preocupação. Bolsonaro, mesmo depois de eleito, continua “morrendo pela boca”.

Pelo que disse Bolsonaro, podemos concluir que os veículos de comunicação que receberem verbas oficiais seriam pró-governo, enquanto que aqueles que não receberem seriam da oposição. Como ficariam, por exemplo, os leitores? Bolsonaro, que na mesma entrevista falou que as “divisões” do Brasil (nordeste/sul, homo/hétero, brancos/negros) devem acabar, acabou estabelecendo uma outra divisão: a divisão da imprensa em jornais contrários e favoráveis a seu governo. Algo que até é banal em qualquer democracia, mas que não pode ser sinalizado a partir de apoio com verbas de propagandas oficiais. O próprio Bolsonaro está colocando a imprensa como um todo em uma “sinuca de bico” porque, ainda que não seja apoiador do futuro governo Bolsonaro, um jornal que aceitar verbas de propaganda oficial poderia ser rotulado de “cooptado”.

Em uma entrevista de cerca de 10 minutos, Bolsonaro conseguiu colocar mais uma situação de dúvida no ar, quando bastava, apenas, ele dizer que era favorável à liberdade de expressão. Doravante, pelo que disse Bolsonaro na entrevista, a independência dos jornais que receberem verbas de propaganda oficial poderá ser questionada e, de certa forma, aquele veículo perder a sua credibilidade perante a opinião pública. Mas isso, só os próprios jornais poderão dizer. Aguardemos.

 

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