CHAMPINHA E O PAI DE LIANA

pai de liana“Quem vota no Bolsonaro não merece meu respeito. É falta de caráter. Eu até tenho raiva do Bolsonaro, mas eu tenho mais raiva de quem vota nele. Quem vota no Bolsonaro mostra falta de caráter, falta de cultura, falta de conhecimento. Falta, no mínimo, de leitura de história. Sabe, eu não sou um judeu religioso, mas, por exemplo, essa mistura que tem acontecido de política com fé. No final das contas, quando o cara vai na igreja de domingo, na mesquita, na sinagoga, no terreiro, qualquer coisa que o valha, no fundo todo mundo está buscando a mesma coisa por caminhos diferentes. É um Deus, uma força maior, mas o destino é o mesmo. É uma coisa de respeito ao próximo, ética, o objetivo é o mesmo. Agora, eu acho inadmissível que a pessoa vá na igreja, coma a hóstia e, quando sai, dali pra frente, da porta para fora, é um filho da puta. É uma coisa antagônica. E faço essa comparação porque no fundo é isso. O cara quer ter essa pureza evangélica, judaica, ou seja lá o que for, e é um canalha. Porque para mim quem vota no Bolsonaro é como ele: canalha”. (Ari Friedenbach, pai de Liana Friendenbach, estuprada e brutalmente assassinada, junto com seu namorado em novembro de 2003 pelo delinquente Roberto Aparecido Alves Cardoso, o “Champinha”, em entrevista ao site “Ponte Jornalismo”, em 23 de outubro de 2018).

Ser vítima de violência, por mais brutal que ela seja, não significa que alguém tenha que virar um fascista. Ou um bicho que só age pelo instinto. As declarações contundentes que reproduzimos acima foram feitas em uma entrevista pelo pai de uma jovem que foi brutalmente assassinada pelo bando chefiado, à época, por um menor delinquente conhecido como “Champinha”, em um caso que serviu de paradigma para a turma do “bandido bom é bandido morto”. Ninguém como Ari Friedenbach sofreu tanto na pele o que é ser vítima da violência, em um sofrimento que jamais cessará. Mas nem por isso ele virou um fascista. Nem por isso ele entrou para o esquadrão da morte. Mas nem por isso ele se alistou no “Exército Bolsonaro”.

Ari Friendenbach diz, na entrevista, que politicamente se define com uma pessoa de visão social. Diz que “ser esquerda é ser uma pessoa que tem uma visão social, que não aceita desigualdade, que não aceita a pirâmide social que a gente tem no Brasil.” Ari Friedenbach acrescenta que tem uma vida tranquila e até privilegiada, não precisando da política para viver e que podia, simplesmente, ir para casa e dizer o “foda-se”. Ou virar um louco e matador, como muitos outros que sofreram com a violência. Ele também reclama da exploração do caso da filha por grupos apoiadores de Bolsonaro. Ele tenta ainda alertar os “pobres de direita” que apoiam Bolsonaro. Com situação até privilegiada em relação à maioria, como ele mesmo diz, ele fala como tentou alertar um pobre que apóia Bolsonaro:

“Você é pobre de direita. Nunca vi isso. Se enxerga. Porque você hoje vê pobre de direita e eu falo pra chocar: Se meu filho for abordado, a polícia vai chamar de ‘sim, senhor’. Eu sou rico. Ele não anda na periferia. Eu não tô preocupado comigo, eu tô preocupado com você, que é pobre. Seu filho que vai levar tapa na cara. A Rota [Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar, tropa de elite da PM de SP] vai matar o teu filho, não o meu.”

Ari Friendenbach ainda acrescenta como as posições da deputada Maria do Rosário, aquela a quem Bolsonaro disse que só não a estupraria porque ela “não merecia”, foi distorcida e que ela jamais defendeu bandido:

“Ah, porque a [deputada do PT] Maria do Rosário defende bandido! Não é. Eu conheço ela muito bem, ela nunca defendeu o Champinha nem estuprador nenhum. Isso é uma grande distorção de tudo que ela falou. O tempo todo eu sou amigo dela e ela nunca falou isso! Muito pelo contrário.”

A entrevista, como um todo, é uma resposta àqueles que falam em mais violência para combater a violência. O pai de Liana é um grande exemplo de que o ódio não pode ser o caminho pelo qual, através da democracia, venha a ser expedido um passaporte para o fascismo. Seria bom ler a entrevista completa e, para quem se interessar, aí vai o link:

https://ponte.org/votar-no-bolsonaro-e-falta-de-carater-dispara-advogado-que-teve-filha-estuprada-e-morta/

Ainda há tempo para ouvirmos a voz de quem sofreu na pele com a violência e nem por isso entrou no túnel fascista, mesmo não sendo fascista. Marcelo Freixo, deputado federal eleito pelo PSOL e que teve um irmão brutalmente assassinado, é especialmente odiado pelos fascistas e pela direita em geral, sendo acusado por eles de “defender bandidos”. Ao contrário, ele sempre combateu bandidos perigosíssimos conhecidos como “milicianos”. Sua vida correrá risco para sempre, mas ainda assim os fascistas o difamam. Certamente por ele não ter se transformado em um deles.  E agora, o que dirão do pai da Liana? Que ele também defende bandidos? Não, ele apenas não é um fascista…

 

 

 

 

 

 

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