HERÓIS E O GTA FASCISTA

bolsomito 2

“Infeliz a Nação que precisa de heróis”. (Bertolt Brecht, dramaturgo alemão).

A criação de muitos dos heróis infantis das histórias em quadrinhos quase sempre esteve ligada a uma ideologia subjacente que procurava justificar certas formas de dominação, superioridade ou até mesmo uma reinvenção da história. Quem não se lembra das histórias do Tio Patinhas? Na verdade, as histórias eram quase sempre as mesmas, com poucas variações. O que predominava? A ambição capitalista. Em quase todas as histórias do velho pato milionário, mesquinho e rabugento, podemos perceber o seguinte enredo:

Tio Patinhas possui um mapa que levará a um tesouro. Então, ele organiza uma expedição até o local, geralmente uma ilha. Junto com o Tio Patinhas, quase sempre estão o Donald e seus sobrinhos. Chegando na ilha, percebe-se que Tio Patinhas irá entrar em conflito com os habitantes locais, quase sempre índios. Claro que Patinhas, Donald e seus sobrinhos são os heróis que invadiram um território alheio em busca de riqueza igualmente alheia. Mas eles são os heróis enquanto que os índios são bandidos que devem ser confrontados em seu próprio território. A criança, claro, está torcendo pelo sucesso do Tio Patinhas. Qualquer semelhança com a ocupação da América pelos europeus não é mera coincidência. Ela está justificada.

O mesmo ocorre com Tarzan. O personagem foi criado no início do século XX. Resumidamente, eis a saga do Tarzan:

De origem branca, inglesa, filho de magnatas, ele desembarca na selva africana e dela torna-se o “rei”, desbancando o leão. Então, demonstra ter mais habilidades e qualidades do que os próprios nativos, mesmo tendo sido criado por macacos. Ele é “superior” e tem muito mais capacidade do que os africanos. A superioridade da cultura branca sobre os negros é declarada. Tarzan é herói. Pela época em que foi criado, qualquer semelhança com a justificativa ideológica da ocupação neocolonialista da África também não é mera coincidência.

Mas há heróis que encarnam o papel revanchista. Vejam o caso do Rambo. Criado em plena Guerra do Vietnã, quando os Estados Unidos já estavam sendo humilhados e acabariam derrotados, nada melhor do que estuprar a história (“heróis” que exaltam o estupro de mulheres “por merecimento” só surgiriam depois). E o que nos mostra a série estrelada por Sylvester Stallone?

Rambo é o exterminador que metralha impiedosamente dezenas e dezenas de “olhinhos puxados”. Suas missões têm como palco quase sempre algum lugar do Oriente. Mas esse lugar, no imaginário, é mesmo o Vietnã. Então, chega o herói que não precisa nem usar o napalm contra as criancinhas. Ao contrário, ele é amigo das crianças locais e usa apenas a sua força, habilidade e metralhadora para trucidar os “olhinhos puxados”. Qualquer tentativa de querer mudar o que foi a história da Guerra do Vietnã também não é mera coincidência.

E o que dizer de Batman? Talvez ninguém represente tão bem o papel de “bandido bom é bandido morto” como ele. Batman, no entanto, acabará desconstruindo o próprio conceito de “herói”, visto que ele vai combater a bandidagem muitas vezes usando os mesmos recursos dos bandidos.

Gotham City é a cidade marcada pela violência, onde as autoridades policiais já não conseguem mais dar conta da situação. E Batman, o herói, viveu na pele essa situação, ao testemunhar o assassinato de seus pais. Então, ele torna-se o “justiceiro” e vira a solução para a violência. Mas ninguém sabe a verdadeira identidade do homem-morcego. Qualquer semelhança com justiceiros de ocasião, “mãos brancas” ou similares, também não é mera coincidência.

Finalmente, chegamos ao Brasil de 2018: crise econômica, corrupção, violência. Os “culpados” já vem sendo identificados há alguns anos, mas não é apenas aquele determinado partido, do qual virou um mantra dizer que o odeia. E parece que o herói em tempos de tecnologia digital também já se faz presente. É o Bolsomito 2K18, um game lançado no dia 5 de outubro pela BS Studios. A descrição do jogo é bem clara e já dá o tom do que alguém deve fazer para ser um “campeão”:

“Esteja preparado para enfrentar os mais diferentes tipos de inimigos que pretendem instaurar uma ditadura ideológica criminosa no país.”

O jogo faz lembrar o GTA, que foi lançado nos anos 1990, no qual o objetivo do jogador era matar, metralhar, atropelar, para ganhar pontos visando atingir o “recorde criminal”. No Bolsomito 2K18, o herói-protagonista é Bolsonaro e os “inimigos” a serem combatidos, metralhados e dizimados são os homossexuais, os negros, as feministas, os sem-terra e os integrantes do “exército vermelho”, identificado com os petistas, em uma cromofobia que lembra os tempos da Guerra Fria. No jogo, o Bolsomito deve exterminar, impiedosamente, todos esses “inimigos comunistas da nação” a socos e pontapés e, quanto mais forem mortos, mais pontos o jogador marca e avança de fase. Lula, Haddad, Jean Willys e Maria do Rosário aparecem no jogo como esses “inimigos a serem eliminados”. Depois de mortos, os “inimigos” viram fezes. O jogo foi lançado no início deste mês e é vendido a 10 reais. Evidentemente, muitas denúncias já foram feitas contra o jogo, por uma clara incitação à intolerância e à violência. Porém, diferentemente do antigo GTA, não há qualquer simbolismo nesse jogo e os personagens (“herói” e “bandidos”) são claramente identificáveis.

Receio que o Bolsomito 2K18 seja utilizado como “material didático” em caso de eleição do ser real que é representado no jogo. Isso porque ele já declarou que implantará o ensino à distância desde o fundamental. E, tal como Patinhas, Tarzan, Rambo e Batman, as crianças deverão aprender, ludicamente, como combater a violência, a bandidagem e os inimigos da nação, tendo como protótipo um herói que coloca o “Brasil acima de tudo e Deus acima de todos”. Feliz 1964!

 

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