O ÁLIBI ANTIPETISTA

antipetismoEngana-se quem pensa que o nazismo acabou no final da Segunda Guerra com a derrocada de Hitler. Como também engana-se quem pensa que o fascismo acabou quando Mussolini foi fuzilado pelos partisans antifascistas. O mundo tem mostrado que esses dois regimes ainda possuem apoiadores e candidatos que fazem sucesso, virando “heróis” ou “mitos”. A história do Brasil, embora tenha sido marcada por várias rupturas do processo democrático, dava a falsa impressão de que a ultra-direita jamais surfaria na crista da onda, em qualquer que fosse a eleição. O problema é que a extrema-direita no Brasil nunca foi desfeita. Nunca desistiu. Sempre aguardou um momento mais propício para ocupar os vácuos que, vez por outra, são deixados por governos que acabam se desgastando por  graves crises, sejam liberais ou esquerdistas.

Se fizermos uma busca, veremos que por mais de 70 anos, a extrema-direita no Brasil não teve um candidato a Presidente da República específico, “puro sangue”, para chamar de “seu” (claro que estou me referindo a eleições diretas). Certamente porque, apesar dos vácuos e das crises, o momento não foi oportuno ou o suposto “Messias” ainda não havia aparecido. O último candidato de extrema-direita que havia disputado uma eleição presidencial no Brasil foi Plínio Salgado, líder do movimento Integralista, versão nacional do fascismo. Foi em 1945 e ele conseguiu apenas chegar em quarto lugar, com pouco mais de 8% dos votos. Mas a extrema-direita desde sempre existiu no Brasil. E apoiou golpes. E apoiou movimentos. E apoiou candidatos. E onde estava essa extrema-direita? De onde ela vinha? É certo que não vinha apenas dos quartéis, como a “linha dura terrorista” dos militares que tentaram explodir o Gasômetro e o Riocentro. Ela estava, por exemplo, nas Marchas com Deus pela Família e Liberdade. Ela estava, por exemplo, na TFP. Ela estava, por exemplo, no CCC. Ela estava em organizações neonazistas, como os skinheads, em que muitos “filhinhos de papai” agrediam e assassinavam negros, nordestinos e homossexuais e nunca deixaram de atuar. Ela estava até em torcidas organizadas de clubes de futebol. E ela tomou sim partido em vários eventos. Ela apoiou o golpe de 1964 e os governos militares. Ela votou no Collor. Ela votou, ainda que a contra-gosto, nos tucanos FHC, Serra, Alckmin e Aécio, como se estivesse “abrigada” em outros candidatos, já que não tinha um “fascista para chamar de seu”. Ela foi às ruas em 2013 e conseguiu se apropriar e ficar evidente em manifestações difusas, mas que ela soube cirurgicamente aproveitar, crescer e, novamente voltar em bandos às ruas em 2016, frutificando em movimentos ultra-conservadores e extremamente reacionários, como, por exemplo,  os intervencionistas-militaristas e o MBL.

Parece que o momento estava chegando. Os escândalos de corrupção, o desemprego, a recessão, junto com um apoio sem escrúpulos da mídia e do grande empresariado foram fatais para o golpe de 2016 e a inscrição eterna do antipetismo na alma de milhões de brasileiros. Os erros inegáveis de Dilma em seu segundo mandato, embora não tenham existido motivos para seu impeachment, com a onda antipetista já estabelecida, também levou o PSDB e até grande parte da mídia, a um grande equívoco (ou engano): eles pensavam que aquela festa fosse deles, mas não era. O vazio político e de esperanças já estava sendo ocupado por outro(s). A adoção de um discurso ultra-nacionalista, com apelos emocionais, religiosos, ameaças de “comunização”, as cores nacionais, a demonização do vermelho, o “Deus acima de tudo”, a “venezuelização do Brasil”… Enfim, o “perigo” que justifica a militarização, o armamentismo, o ataque às artes, à cultura, aos direitos humanos e sociais, se impuseram como discurso de “salvação moral e política”. Igrejas e milícias, cada qual a seu modo, tornaram-se os grandes nichos eleitorais e de apoio ao “Messias”.  Nesse momento, podemos até fazer uma releitura do que foi o apoio da extrema-direita ao impeachment: eles sabiam do desgaste e da degradação moral  que seria um governo Temer. E isso abriria muito mais campo para eles. Com o PT extremamente desgastado e as “terceiras vias” fracassadas, era chegada a hora. Assim, depois de mais de 70 anos, a extrema-direita, finalmente, tem “um fascista para chamar de seu”.

Mas o antipetismo está indo muito além de um álibi para “votar contra a corrupção”. Até porque quem diz que vota no Bolsonaro “para combater a corrupção”, sabe que existiam outros candidatos, de direita, liberais, sem nenhum envolvimento com corrupção. O que nos faz crer que a corrupção não é o único motivo. Se, por um lado, não acredito que o Brasil tenha 50 milhões de fascistas, por outro sou obrigado a admitir que muitos estão usando o antipetismo como álibi para, como certa vez disse Roberto Jefferson (aliás, apoiador já declarado de Bolsonaro), “dar vazão aos seus instintos mais primitivos”. E é aí que mora o verdadeiro perigo.

 

 

 

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