DEBATE X MONÓLOGO

globo x record“Depois da nossa avaliação clínica, nós contraindicamos a participação em debates ou em qualquer atividade que pudesse cansá-lo ou obrigá-lo a falar por mais de 10 minutos”. (Antonio Luiz Macedo, cirurgião e membro da junta médica que recomendou Bolsonaro a não participar do debate da Globo).

Nem mesmo um médico pode questionar uma recomendação médica. Seria uma grave violação do Código de Ética. Principalmente quando essa recomendação não vem de apenas um médico, mas de uma junta. Que dirá nós. Em momento algum, questionamos a recomendação médica que afastou Bolsonaro do último debate entre os candidatos a Presidente da República. Segundo os médicos, para sua recuperação, ele não poderia falar por mais de 10 minutos”. Porém, no meio do caminho tinha o bispo Edir Macedo, dono da Igreja Universal e da TV Record. E também um declarado apoiador de Bolsonaro.

Depois do que aconteceu na última quinta-feira, dia 4, podemos sim questionar, das duas uma: ou a recomendação médica ou o caráter do Bolsonaro. A zona de conforto é a melhor coisa que pode existir para os covardes. O debate envolve desgaste, contradição, cobrança e possível perda de votos. Mas a democracia se faz pelo contraditório e não pela “gagueira da mesmice”. Tudo parece que foi estrategicamente e, diga-se de passagem, competentemente pensado e executado para que, mesmo não estando no debate, Bolsonaro pudesse falar o mesmo para os mesmos, dentro da emissora de Edir Macedo. Simultaneamente ao debate, Bolsonaro dava uma “entrevista” para a TV Record. Mas ele não podia falar por mais de 10 minutos! E quanto tempo durou a “entrevista”? Ela começou exatamente à 22 horas e 5 minutos e terminou às 22 horas e 32 minutos. Portanto, Bolsonaro falou por 27 minutos, quase o triplo do que foi “recomendado pela junta médica”. Ali, na TV Record do Edir Macedo e da Igreja Universal, estando “em casa”, Bolsonaro só jogaria com a torcida toda a seu favor, não teria adversários e nem explicações a dar a ninguém.  Como  a entrevista foi simultânea ao debate, os eleitores de Bolsonaro foram assistir ao seu candidato. E não ouviriam as críticas a ele. Literalmente, o “Messias” caiu na Universal.

A questão da presença ou não em debates já deveria ter sido objeto de abordagem na legislação eleitoral. Inclusive, o debate deveria ser uma das etapas do processo eleitoral, com participação obrigatória de todos os candidatos. Isso já aconteceu, em certa época, até em eleições para diretores de escolas na rede estadual do Rio de Janeiro. O episódio da última quinta-feira não pode ser subestimado. Foi, sim, gravíssimo. Enquanto adversários se confrontavam em uma “arena”, Bolsonaro, confortavelmente, falava na maior tranquilidade tudo o que queria e seu pensamento não sofria contestações.

Como ficará a coisa em eventual segundo turno? A questão é fundamental, talvez decisiva. As projeções, até agora, de um segundo turno, mostram disputas acirradas, especialmente a mais provável delas: Haddad X Bolsonaro. E, não resta dúvida de que ao fugir do debate e dar uma confortável entrevista na emissora do Bispo Macedo, isso trouxe uma vantagem eleitoral para Bolsonaro. Já pensaram se, em um segundo turno, Bolsonaro usar o mesmo expediente e deixar o Haddad sozinho na Globo? Aí vai a nossa sugestão: nesse caso, seria melhor os eleitores do Haddad ficarem na Record e os do Bolsonaro na Globo. Ao menos, já que não teríamos debate, também não teríamos monólogos…

 

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