1989, 2018 E O SEGUNDO TURNO

eleição 1989eleição 1989 segundo turnoO atual quadro político-eleitoral do Brasil lembra, em muitos aspectos, o ano de 1989. Ano emblemático na história de nosso país, 1989 foi o ano da primeira eleição direta para Presidente da República após o fim da ditadura militar. A ansiedade, em razão do jejum democrático, era imensa. Só para se ter uma ideia, em 1989, todo brasileiro que tivesse até 46 anos de idade, jamais tinha votado para Presidente da República. Essa vergonha histórica foi um dos saldos da tirania das casernas.

Naquele ano, a desilusão com as mazelas do governo Sarney levou ao surgimento de um então “salvador da Pátria”, lançado por uma sigla nanica, de aluguel e desconhecida: o PRN. Fernando Collor, candidato sem tradição partidária, com um discurso agressivo e personalista ainda não falava em tiros, mas dizia que daria um “cruzado de direita” na inflação. Ele aglutinou diversos setores da direita mais reacionária em torno de sua candidatura. Hoje, um novo “salvador da Pátria” também se apresenta, por uma legenda igualmente nanica, desconhecida e também de aluguel, que é o PSL. Bolsonaro também adota a linha personalista, não tem tradição partidária e, aproveitando-se da desilusão de muitos com a política, soube ocupar um vácuo que atraiu em torno de si desde fascistas até desesperados sem rumo e que vêem na força a solução para os seus problemas. O “mito” virou “guia” ou “Duce”.

Se em 1989 o contexto internacional foi aproveitado pelos adeptos da direita, pois o momento coincidiu com a queda do Muro de Berlim e a fragmentação da antiga URSS, hoje a extrema-direita também prega a demonização do socialismo. Collor repetia, com prazer, o episódio da queda do Muro de Berlim, esquecendo-se de outros “muros” da época como, por exemplo, o do muro racista da África do Sul. Hoje, a direita e a extrema-direita exploram as contradições do governo venezuelano mas omitem, por exemplo, o “paraíso neoliberal” da Argentina de Macri.

Mas talvez o aspecto mais emblemático que nos leve às reminiscências de 1989 é a disputa eleitoral. Se em 1989, o candidato da direita liderava as pesquisas, agora quem lidera é o da ultra-direita. Em 1989, Lula, pelo PT e Brizola, pelo PDT, disputavam a ida ao segundo turno. E, pelo que temos visto até aqui, PT e PDT disputam voto a voto a passagem para o segundo turno. Haddad e Ciro, em grande parte, disputam a mesma fatia do eleitorado e, com certeza, um herdará os votos do outro em um segundo turno. As últimas pesquisas indicam que Ciro teria maior capacidade de derrotar o candidato fascista, embora apareça atrás de Haddad. A pesquisa CNT/MDA, divulgada ontem, coloca Haddad com 17,6%, contra 10,8 de Ciro.

Não podemos esquecer do que poderá representar tanto o PSDB como seus eleitores, com os tucanos fora do segundo turno. Tudo leva a crer que, tal como em 1989, o PSDB não irá ao segundo turno. Em 1989, tínhamos um outro PSDB: recém-criado como dissidência do PMDB, e disputando sua primeira eleição, o PSDB de então honrou sua origem social-democrata e apoiou Lula no segundo turno. E agora, que caminho tomaria o PSDB?

O segundo turno das eleições brasileiras, há tempos, vem tendo um caráter plebiscitário ou de veto. Arrisco-me a dizer que caminham para o segundo turno Bolsonaro e Haddad. Assim, raciocinando por analogia, essa seria mais uma coincidência esperada em relação a 1989. O que faria o PSDB? Seria antipetista ou antifascista? Ter que optar entre votar no PT ou em Bolsonaro em um eventual segundo turno,  é uma situação em que o PSDB se meteu por ter se afastado completamente de suas origens. E também por ter estado à frente do golpe. Eles próprios já admitiram que o caminho do golpe foi um erro. O segundo turno poderá dizer muito do que os tucanos querem daqui para frente. A menos que o ódio continue a falar mais alto. Aí então teremos a certeza de que a eleição de 2014 realmente ainda não acabou…

 

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