HADDAD X TORQUEMADAS

entrevista haddad“Uma coisa é ter ideologia na vida pessoal, outra coisa é transportar essa ideologia à vida profissional, para seguir servilmente ao patrão”. (Arcírio Gouvêa Neto, diretor da Associação Brasileira de Imprensa e ex-jornalista de O Globo, em artigo publicado na revista Forum, em 15 de setembro de 2018, referindo-se à entrevista de Haddad no Jornal Nacional).

A técnica de entrevista possui dois princípios básicos que, quando não seguidos, colocam a perder todo o objetivo da mesma, seja para coletar dados de pesquisa ou para explorar opiniões, propostas e ideias do entrevistado. O primeiro princípio é: o bom entrevistador deve falar pouco e ouvir muito. E o segundo: o bom entrevistador não deve induzir o entrevistado a respostas, nem tentar mudar o curso das mesmas.  Quando esses dois princípios não são seguidos, a entrevista torna-se inócua. Ela pode até virar um inquisitório com finalidades ignóbeis, tentando atender a certos interesses, principalmente políticos. E foi exatamente isso o que aconteceu na chamada “entrevista” do candidato do PT à Presidência da República, Fernando Haddad, no Jornal Nacional da última sexta-feira, 14 de setembro.

A declaração que abre esse artigo é de um ex-jornalista de O Globo, diretor da ABI e secretário de uma comissão de defesa da liberdade de expressão. E, em suas palavras, os prepostos da família Marinho, William Bonner e Renata Vasconcellos, praticaram de tudo naquela ocasião, menos jornalismo. Foi um inquisitório que lembra tempos sombrios da história, em que a simples acusação já era um passaporte para a fogueira. Os dois “entrevistadores” (que mais pareciam dois “Torquemadas”) a serviço da família Marinho envergonharam a categoria profissional dos jornalistas, segundo Arcírio Gouvêa. Com artilharia pesada, sem permitir que Haddad concatenasse sua argumentação, a saraivada de interrupções deixava no ar as perguntas em tom acusatório e passava-se para outra “acusação”, com a anterior ficando com a resposta prejudicada. Muitas, sem permitir que Haddad concluísse sua resposta. Levantamentos mostraram que Haddad foi interrompido 62 vezes pelos “entrevistadores”. Só para se ter uma ideia, Alckmin, o candidato deles, só foi interrompido 17 vezes.

Não chega a ser novidade essa atitude asquerosa de um conglomerado de comunicações que sempre esteve do lado golpista e que, percebendo a ascensão de Haddad e do PT, que eles tiveram o protagonismo de vilipendiar, crescer na preferência do eleitorado, só lhes resta usar do baixo recurso de tentar agredir e denegrir a imagem de um candidato que tem tudo para fazer os Marinhos, mais uma vez, “colocarem a viola no saco”.

A chamada “entrevista” com Haddad foi mais um desserviço da Globo à democracia. Foi mais um de seus golpes baixos. Como foi o Escândalo da Proconsult em 1982. Como foi o Escândalo da Parabólica em 1994. O jornalismo sério e comprometido com a liberdade de expressão e com a democracia deve repudiar o asco que foi a suposta “entrevista” com Haddad. Assim como Arcírio Gouvêa Neto ficou indignado, na condição de jornalista, certamente a maioria deles também deverá estar.

No entanto, Haddad não perdeu a oportunidade de responder à altura a seus algozes golpistas. Ao falarem que a “ex-presidente Dilma está sendo investigada” (ela lidera a corrida ao Senado em Minas), Haddad retrucou, lembrando que “A Globo também está sendo investigada”, o que causou frenesi nos inquisidores. Principalmente quando Haddad lembrou que a investigação da Globo é sim de interesse nacional, por ser a mesma uma concessão de serviço público.

Foi sim uma noite para ser esquecida em termos de democracia e liberdade de expressão. Mas também uma noite que sempre será lembrada em relação ao que é o uso de uma concessão pública com fins políticos e eleitorais. Pior do que isso: em moldes inquisitoriais para seus desafetos. Mas, diante de seus aliados, um “Torquemada que vira ursinho de pelúcia”

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